Outubro 14, 2021
Do Passa Palavra
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Por Amigos do Cachorro Louco

Desde a última sexta-feira (08/10), uma onda de greves de entregadores de aplicativos atravessa o interior de São Paulo. Aproveitando a alta demanda por entregas no Dia das Crianças, motoboys e bikers de diferentes cidades escolheram o feriado prolongado para interromper o serviço de delivery e causar prejuízo ao iFood, Box Delivery, Bee, Rappi e demais empresas de aplicativo. Eles reivindicam o aumento na remuneração, a implementação de um código de segurança em todas as entregas para evitar bloqueios de contas indevidos e o fim do sistema de dupla coleta.

Breque Paulínia

Quem deu largada ao movimento foram os entregadores da cidade de Paulínia, na região metropolitana de Campinas. Desde a noite de sexta-feira, eles interrompem a retirada de pedidos nos principais estabelecimentos do município. No sábado, a greve ganhou corpo com a adesão dos motoboys de Jundiaí, que desde então se reúnem diariamente nas docas de delivery dos dois shoppings da cidade. Aos poucos, a luta foi se irradiando pelo estado: ao longo da semana, entregadores também se mobilizaram em São Carlos, Bauru, São José do Rio Preto e Rio Claro. Enquanto isso, fora de São Paulo, motoboys também paralisaram as entregas em Maceió no domingo.

Impacto foi sentido nas cidades

Já no domingo, um jornal da região de Jundiaí registrava uma dinâmica atípica na cidade: esvaziada desde o início da pandemia, a praça de alimentação do Maxi Shopping estava superlotada. Os clientes faziam filas para obter uma mesa. É que, naquele dia, quem tentava pedir comida pelo aplicativo enfrentava sérias dificuldades. Sem motoboys para transportar os pedidos, a maior parte dos restaurantes viu seus lanches sendo desperdiçados e preferiu desligar a plataforma.

Maxi Shopping Jundiaí

As raras lojas que insistiram em continuar abertas, como a hamburgueria Madero, não conseguiram cumprir com as encomendas e receberam reclamações dos clientes. Apenas restaurantes que possuem frotas próprias de motoboys, como o Bob’s, continuaram funcionando. Nos aplicativos, a única exceção permitida pelos grevistas eram os pedidos de farmácias, essenciais em tempos de pandemia.

Apoio da população à greve

Loja fechada

Conforme as cidades sentiam os efeito da paralisação, a população passou a se solidarizar com os entregadores. Em Jundiaí, um grupo evangélico se organizou para doar alimentos e água aos trabalhadores nos piquetes. Em Paulínia, o movimento recebeu uma reportagem de um youtuber popular da cidade. Os grevistas também organizam uma campanha virtual para arrecadar doações através de um Pix.

Sem respostas do iFood

Até o momento, o iFood e as demais empresas de aplicativo parecem tentar ignorar o movimento, sem nenhuma tentativa de estabelecer qualquer contato formal com os grevistas. Mesmo o negociador profissional da empresa, o “Responsável pelo Engajamento Político e Institucional com os Entregadores” Johnny Borges, que já interveio em greves anteriores, não deu as caras desta vez. Enquanto esse setor do iFood articula a realização de um “fórum” com supostas lideranças da categoria para “ouvir os entregadores” ainda este ano, greves como as atuais estão sendo ignoradas pelos interlocutores oficiais do aplicativo.

Pedidos do Madero estragando

Ao invés de buscar uma mediação, o iFood parece tentar outra estratégia. Na noite desta quarta-feira (13), chefes de Operadoras Logísticas (OLs) – empresas terceirizadas do iFood que gerenciam os trabalho dos entregadores, responsáveis por repassar o pagamento e garantir o cumprimento da jornada de trabalho diária – anunciaram às suas equipes de motoboys que os restaurantes da região irão reabrir a plataforma e que o aplicativo oferecerá um pagamento promocional de R$ 5,00 por corrida realizada.

Empresas apelam à violência

A pressão psicológica dos chefes de OLs aos seus subordinados e o anúncio da promoção, muito acima da média para a região, é lida como uma jogada coordenada para quebrar a greve. Em Paulínia, é a primeira promoção lançada pelo iFood aos entregadores na história da cidade. Ao incentivar um fluxo anormal de fura-greves aos estabelecimentos, o aplicativo parece apostar numa estratégia de estimular situações de violência entre os próprios trabalhadores.

Breque São Carlos

No sábado, um entregador de São Paulo denunciou ao canal do youtuber Ralf MT ter recebido ameaças de morte por um telefonema de um número oculto caso as greves não fossem interrompidas. Queixando-se do prejuízo causado “na parte financeira”, o autor da ameaça deixou entendido que era ligado a uma empresa OL do iFood, cuja relação com milícias e outros grupos criminosos é bastante conhecida.

A greve continua

Apesar das pressões, os motoboys de Paulínia e Jundiaí estão decididos a continuar a paralisação. Mantendo os bloqueios na quinta-feira (14), os entregadores de Paulínia batem a marca da greve em aplicativos mais longa da história do Brasil, superando os grevistas de São José dos Campos, que paralisaram os aplicativos por 6 dias no mês de setembro.

Na sequência do movimento de São José, o iFood havia anunciado um aumento de 8% no valor das corridas a partir de novembro – o que, na prática, significaria um adicional de apenas 8 centavos por quilômetro rodado. Em resposta ao reajuste abaixo da inflação e desproporcional ao aumento da gasolina, as greves voltaram a se multiplicar pelo interior de São Paulo ainda no mês de outubro.

Breque São Carlos

“Não começou em São José, não vai terminar em Jundiaí”, anuncia um motoboy em vídeo no WhatsApp. Ele tem razão: no Rio de Janeiro, entregadores de Niterói se preparam para iniciar uma paralisação por tempo indeterminado a partir da próxima sexta-feira, 15 de outubro. A irradiação de greves em sequência em diferentes partes do Brasil dá ao movimento o tom de uma corrida de revezamento que está longe de acabar – e que, por isso mesmo, dificilmente será derrubada pelo cansaço ou pela força bruta.




Fonte: Passapalavra.info