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Reproduzindo talvez as relações espúrias entre alguns tribunos e a plebe da Roma antiga, a Itália contemporânea foi o berço mais genuíno da política demagógica do nosso século.

Inicialmente neutral, a Itália entrara na Grande Guerra, contra a Áustria, em Maio de 1915 (e no Verão contra a Alemanha), sob a pressão de sectores díspares – nacionalistas, sindicalistas-revolucionários e socialistas – sensibilizados pela posição de vítima da França perante o rolo compressor prussiano. Mas as pesadas derrotas militares sofridas em Asiago, Isongo e Caporetto levantaram no país um sentimento derrotista, exigindo a paz a qualquer preço, propício a grandes mudanças e aproveitamentos.

Podemos recordar aqui o movimento de greves na grande indústria de Turim, Milão e outras cidades da Itália do norte no fim do Verão de 1920, em clima de pré-revolução. Se o aumento dos salários e a conquista do horário das “8 horas” era – como em muitos outros países industrializados – o objectivo concreto reivindicado ao patronato depois dos anos de guerra e penúria, de Moscovo chegavam directivas para os militantes “vermelhos” (ainda integrados no Partido Socialista) passarem à ocupação das empresas industriais, controlando a produção por via dos Consigli di fabbrica (uma réplica dos Sovietes que haviam servido aos bolchevistas para a conquista do governo na Rússia). Foi esta uma forma de organização operária que entusiasmou políticos marxistas como Gramsci e o seu Ordine Nuovo (fundado em Maio de 1919, enquanto o quotidiano do PCI L’Unità só surgiria em Fevereiro de 22) ou anarquistas como Malatesta, o diário Umanità Nova (fundado em Fevereiro de 1920) e os militantes da Unione Sindacali Italiana (USI), além de muitos do sindicato maioritário CGL. Era uma fórmula então típica da situação de “duplo poder” (que chegou a esboçar-se até em Inglaterra com os Shop Stewart Commitees criados para regular as severas condições de trabalho impostas pelo esforço de guerra), mas que, com o passar dos anos, se veio a tornar apenas num órgão representativo dos trabalhadores para apoio das suas reivindicações ou gestão de alguns serviços sociais mais ao seu agrado (como as Comissões de Trabalhadores surgidas em Portugal após o 25 de Abril).

De facto, aquela situação de ocupação das grandes fábricas com alguns ensaios de “auto-gestão” perdura durante as primeiras três semanas de Setembro, também sob os incentivos de um Bordiga, de um Togliatti (em breve, comunistas) e de um Armando Borghi (secretário-geral da USI, libertário), pressionando obviamente não só o patronato mas também o governo do liberal Giolitti e o seu ministro do trabalho Arturo Labriola (um político camaleónico, inicialmente socialista, passado depois ao sindicalismo revolucionário, em seguida “guerrista” e mais adiante tardo-fascista com extraordinária capacidade de sobrevivência, pois foi ainda eleito e fez carreira como senador da república, após 1945), e fazendo com que Mussolini pudesse escrever em título no seu Popolo d’Italia: «Alla moda russa?».

Contudo, quando a 21 de Setembro de 1920 o executivo do KomIntern reúne em Moscovo e o seu secretário Zinoviev apela os trabalhadores italianos a uma “tomada do poder”, o movimento grevista encontrava-se já numa certa fase de desmobilização, sobretudo com as direcções da confederação sindical CGL e do partido socialista em posições opostas, e com o governo a prometer (e a impor aos industriais) uma forma legal de participação de representantes operários no controlo da produção que esvaziou o entusiasmo dos sectores mais radicais. E, nestas situações, o pêndulo em geral ganha balanço em sentido contrário: percepcionando o perigo de uma revolução “soviética”, a Itália conservadora, nacionalista e squadrista começou a sair às ruas, varrendo comunistas, socialistas e anarquistas para as suas insanáveis desinteligências de família e acorrendo a engrossar as fileiras dos fasci di combattimento, milícias heteróclitas onde se misturavam aventureiros românticos como D’Annunzio (forte da sua acção directa sobre Fiume e da reclamação da Dalmácia aos jugoslavos), futuristas como Marinetti e, bem entendido, Benito Mussolini e muitos dos seus futuros sequazes, como Pavolini, Farinacci, Buffarini e figuras esquisitas como o ex-bolchevista Bombacci ou o ex-anarquista Arpinati, alguns mesmo confundidos com os rivais arditi del popolo, esquerdistas de acção de rua. (Sobre esta complexidade, ver o artigo de André Bandeira “Benito Mussolini, un dittatore anarchico”, A Ideia, nº 62, Abril 2006: 57-70; e sobretudo o livro de Silvio Bertoldi Salò: Vita e morte della Repubblica Sociale Italiana, 1977, 432 p.) Muita desta gente veiculava também aspirações modernizadoras e laicistas que haviam sido expressas em vários planos por pensadores como Croce, Sorel (francês, mas muito influente em Itália) ou Le Bon (um belga, que também deu uma ajuda), ideólogos como Gentile, escritores como Papini ou o francês Céline, activistas como De Ambris e futuros políticos importantes como Pietro Nenni. Há enganos tácticos ou conjunturais que têm graves consequências.

Bem pôde o russo Radek lastimar na tribuna do congresso do KomIntern de Julho de 1921 a perda de tal oportunidade para «travar uma grande batalha contra o capitalismo sob a direcção do partido comunista» (P. Spriano, L’Occupazione delle Fabbriche, 1964: 171). Mussolini, que havia manifestado alguma simpatia pelo movimento grevista desde que não ultrapassasse os seus “limites estritamente económicos”, ganhava agora outras ambições e reforçava a dinâmica do seu movimento de massas onde, além dos soldados desmobilizados e dos desempregados, vieram juntar-se as ligas católicas do associativismo rural, assustadas pelo “perigo vermelho”. Tanto mais que o velho partido socialista iria registar sucessivas cisões no período de 1921-22, com o surgimento de uma formação comunista ligada a Moscovo logo no início de 21. Assim, contidas as divergências que subsistiam com D’Annunzio, De Ambris, Marinetti e outros, Mussolini consegue eleger 35 deputados ao parlamento nas eleições de Maio de 1921 e em Novembro transforma o seu movimento em Partito Nazionale Fascista. Aliando-se às forças nacionalistas e conservadoras da direita ao mesmo tempo que se mantêm as violências de rua (por exemplo, com o assassinato do deputado socialista Boldori), obtém o assentimento da Confindustria, dos agrários e dos banqueiros, e a neutralidade do exército. Nestas condições, lança a “marcha sobre Roma” em Outubro de 1922 (muito bem ensaiada publicitariamente), pressão decisiva sobre o fraco governo constitucional de Facta, que ainda pediu ao rei Vítor Manuel III a proclamação do estado de sítio mas se demitiu perante a recusa deste, que já estava aderido à “solução fascista”, e que chamou de imediato Mussolini, o empossou como chefe do governo e não hesitou em promulgar os seus decretos de excepção.

Benito Mussolini PSI

Benito Mussolini (1883-1945) na época em que era director do Avanti!, jornal do Partido Socialista Italiano. (Foto Domínio público)

O Partido Fascista apenas logrou uma maioria relativa nas eleições de 1924, mas isso não impediu o prosseguimento da aplicação do seu programa, a violência nas ruas (matando agora o deputado Mateotti, que o denunciava na câmara), as prisões e deportações dos adversários (“al confino”), e o caminho para um Estado totalitário, corporativo e expansionista, ainda que respeitador da monarquia e que passou a contemporizar com a Igreja e o Vaticano. Em 1923 oficializou-se a Milizia, em 24 os Balilla, em 25 o Dopolavoro; a AGIP (empresa estatal de petróleos, depois crismada ENI) é criada em 1926, a Carta del Lavoro surge em 27, em 1928 o PNF como partido único e em 29 é assinado o tratado de Latrão, que sela a paz com o Vaticano (do Papa Pio XI). Enfim, para fazer face à crise financeira internacional, foi criado em 1933 o IRI, um ente público para continuar a financiar o desenvolvimento industrial.

O Duce marcou uma época e um estilo, sendo talvez o primeiro a usar sem rebuço da mentira e da contradição interna no seu próprio discurso, e sempre em poses e com gestos teatrais e espectaculares, que as multidões adoravam. Algumas das suas tiradas emblemáticas fizerem eco em Portugal: em 27, terá definido o seu projecto no parlamento como «Tudo no Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado»; e noutra ocasião terá afirmado, justificando o seu expansionismo africano: «Navigare necesse est, Vivere non est necess» (R. Paris, Les origines du fascisme, 1968: 41).

Em texto escrito em 1932 (Mussolini Grande Attore), Camillo Berneri concluiu assim: «Tutta la situazione italiana ha portato alla dittatura, ha determinato le successive fasi del fascismo. É infantile il credere che tutto questo sia stato il prodotto della volontà e dell’intelligenza di un uomo. Mussolini non è stato e non è che un attore della tragedia italiana. Grande attore, bisogna riconoscer-lo. Ma un paese non è un teatro, e il marasma economico, le carceri ripiene di innocenti, le isole del confino, il tribunale speciale, l’inquisizione poliziesca, la milizia, l’esilio: tutto ciò demostra che arrivare al potere è più facile che essere un uomo di stato e che non si possono risolvere com la forza bruta i problemi vitali de una nazione.» (ed. 1983: 83-84)

O nazismo de Hitler não parecia ainda ameaçar a Europa. Mas na Roménia, logo em 1923 surge uma Liga de Defesa Nacional Cristã que irá evoluir para a “Guarda de Ferro”, abertamente fascista, nos anos 30. Na Hungria, a regência do almirante Horthy deu abrigo a governos nacionalistas autoritários e o rei da Jugoslávia, entronizado pela conferência da paz de Versalhes, foi ao ponto de restabelecer um regime absolutista (e por isso pagou com a vida, em atentado ocorrido numa visita a Marselha). Em Espanha, no ano de 1923 inicia-se o consulado de Primo de Rivera, que será apenas uma ditadura temporária (embora prolongada no tempo por quase sete anos) para tentar segurar a conflitualidade política e social que dilacerava o país, com o recurso a um governo militar, forte, mas com a condescendência das forças moderadas de esquerda – o que tinha alguma semelhança com a governação portuguesa de Pimenta de Castro em 1915. Entre nós, a “República nova” de Sidónio não chegara a durar um ano mas constituiria um incentivo para os conspiradores de 1926. A crise económica era profunda e internacional. Atingira-se na Europa uma época em que as democracias parlamentares – com excepção da França e da Grã-Bretanha – tinham atingido o seu ponto de exaustão e outras soluções autoritárias encontravam receptividade nas populações. Não foi bom o que se seguiu.

João Freire / Setembro 2020




Fonte: Aideiablog.wordpress.com