Fevereiro 10, 2021
Do A IDEIA Revista De Cultura Libertaria
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Neste dia 8 de Fevereiro, mas em 1921 em Moscovo, falecia Piotr Alexeyevich Kropótkine, de 78 anos, de origem nobre, depois militar, geógrafo, opositor ao Czarismo e defensor da liberdade que, exilado no Ocidente, se tornou numa das principais figuras do pensamento e do movimento anarquista do seu tempo. 

Retrato de Pedro Kropotkine em 1861, pose em uniforme militar. Fotógrafo desconhecido. Fonte: Wikimedia Commons. 

«[…] Retornemos agora à trajectória pessoal de Piotr Kropótkine.

Em 1912 passa o seu 70º aniversário, que é festejado tanto por científicos como pelos seus companheiros libertários. É pois um facto que Kropótkine entra na última fase da sua vida, embora Malatesta continue louvando a sua jovialidade.

No Verão de 1917 Kropótkine está de novo na Rússia, graças à revolução. Não nos interessa agora o papel político que ele aí desempenha. Limitemo-nos a recordar que o seu empenhamento é muito limitado, tanto por razões óbvias da sua idade como também pelas susceptibilidades, ainda tão frescas da sua posição na guerra e, finalmente, pela conflitualidade interna do próprio movimento anarquista na Rússia, como atrás assinalámos.

A posição de Kropótkine parece ser de relativo distanciamento e inclusive de crítica perante a viragem autoritária que os bolchevistas iam imprimindo à evolução, mas dentro de uma atitude geral de simpatia pelo derrubamento desse travão histórico que era o Czarismo e de carinho e interesse pontual pelas experiências particulares que lhe merecessem a atenção em virtude da iniciativa e experiência dos directamente interessados. Nestes casos não faltavam os seus conselhos e as suas incitações, como mostra a sua conhecida mensagem aos cooperativistas de Dmitrov, seus vizinhos.

Tal atitude demonstra, pois, uma certa sageza, que é capaz de distinguir o fundamental do acessório, a distância que vai das práticas relacionais directas à acção política, a consciência, enfim, das suas possibilidades e do anarquismo numa tempestade onde muitos ventos sopravam.

Por outro lado, cremos dever chamar a atenção para quais os centros de interesse intelectual que o teriam mobilizado nesses últimos anos. Ora, tirando a actualidade política e as discussões provocadas no seio do movimento pela guerra, podemos pensar que terão sido as questões morais, o aparecimento e evolução das ideias morais, a necessidade de elaboração de uma nova ética para o futuro, aquelas que o terão de facto ocupado nos últimos anos da sua vida. Depois de A Ciência Moderna e a Anarquia, é naquilo que virá a ser a sua inacabada Ética, publicada já postumamente, que Kropótkine trabalha durante uma década, ainda e sempre de forma metódica e sistematicamente organizada, isto é, científica.

Esta trajectória, é preciso agregá-la à que anteriormente descrevêramos: da revolta e do delineamento do modelo construtivo dos seus anos 40, à análise científica das possibilidades alternativas do anarquismo dos seus 50 anos, à fundamentação histórica das condições revolucionárias da mudança nos seus 60 anos, para chegar finalmente à maturação dos princípios morais da nova sociedade, aos 70 anos. E isto, é bom sublinhá-lo, sempre em homem de ciência, inclusive quando se interroga sobre os valores e as ideias, quando o discurso se torna mais filosófico.

Trajectória sem dúvida significativa, até porque nela se não vislumbram fracturas ou revisões dilacerantes, apesar da sensibilidade de algumas questões. E que esta última fase seja marcada pelas características que apontámos não pode deixar de nos levar a fazer um paralelo com outra figura brilhante do anarquismo, mais moderna e sem dúvida sem a auréola pessoal de Kropótkine e sobretudo sem um papel comparável no movimento do seu tempo. Referimo-nos a Gaston Leval.

Também Leval foi um rebelde, também ele foi possuído por uma enorme vontade de interrogação científica, de estudo da viabilidade de uma sociedade e de uma economia libertárias. Também ele assistiu a uma revolução e cedo se distanciou da acção política para se dedicar àquilo que poderiam ser as suas experiências construtivas mais válidas para o futuro. Passou anos reflectindo sobre esse material e aprofundando o seu significado. E, finalmente, também ele, na derradeira fase da sua vida, se preocupou dos aspectos morais “sem os quais qualquer doutrina, mesmo socialista e libertária, só poderia ser uma nova fonte de malefícios e de infelicidade”. Sintetizando as preocupações do seu humanismo libertário – assente em sólidas bases económicas e sociológicas –, ele pode afirmar que “se trata certamente de instaurar a igualdade económica, mas trata-se também de elevar a nossa espécie a uma maior felicidade e dignidade graças a uma ética que permitirá reconstruir a sociedade para o homem e pelo homem. O combate que travamos é, portanto, simultaneamente, de carácter moral, intelectual e materialmente construtivo; ele visa tanto o imediato como o futuro longínquo”. (in Cahiers de l’Humanisme Libertaire, 1963-1976)

Gaston Leval e Kropótkine são, antes de mais, dois anarquistas construtivos. E é por isso que, neles, não há mitificação do problema da revolução social. Não tem sentido, nas suas concepções, ser revolucionário (no sentido insurreccional) ou ser reformista (no sentido anti-revolucionário). Se, em certas épocas históricas, o processo revolucionário se tornou uma necessidade inelutável, pois bem, há que procurar que o sentido libertário sobreleve as tendências autoritárias que, com a justificação da defesa da revolução, cedo liquidam o entusiasmo e a iniciativa populares. Assim, a revolução russa chamou Kropótkine, apesar da sua idade, e a espanhola, Leval. Mas, uma e outra, foram, nas suas vidas, duas curtas conjunturas cuja supressão em nada teriam retirado sentido às suas obras. Porque o essencial é o processo libertador, que pode conhecer, essa, mas também outras, distintas, conjunturas particulares. Kropótkine é, como Gaston Leval e na melhor acepção do termo, um reformador.

O nosso tempo actual é, como já vimos, um tempo que remeteu na ordem do dia a função da utopia. Será o mesmo com a reforma?

Paul Goodman acreditava que sim. New Reformation procura justificar essa convicção. Não é, pois, por acaso que ele afirma sentir-se próximo de Kropótkine. “Devemo-nos esforçar por instaurar condições fraternais a partir de hoje, integrando progressivamente na sociedade livre que vamos fundando um número cada vez maior de funções sociais”. (in Drawing the Line, 1962)

Escreve o seu biógrafo Bernard Vincent:

“Se é legítimo contestar um sistema, que apenas é obra de alguns, é também pois legítimo preservar a sociedade que repousa na sequência dos séculos e é simultaneamente obra de todos e a sua herança comum: ‘Eu não estou disposto a corrigir a natureza humana – escreve Goodman – (mesmo sobre as minhas próprias pretensões), nem tão-pouco a fazer uma cruz sobre a cultura do mundo ocidental’. O que é o mesmo que dizer, em termos políticos concretos, que existe no homem primitivo, no cidadão de Atenas, no ideal da cavalaria e da honra medievais, na aristocracia monárquica e na burguesia moderna – tanto quanto no proletariado contemporâneo – valores fundamentais constitutivos do Homem que seria aberrante e até criminoso atirar para a noite da História. Donde se segue que, nesta óptica, nenhuma transformação da realidade social deverá jamais revestir-se, no sentido literal da palavra, de um carácter totalitário; porque, se nem tudo é para conservar, também nem tudo é para modificar”.

(in Paul Goodman et la reconquête du présent, 1976)

Outro neo-kropotkiniano, este felizmente vivo [F. 2010], é o inglês Colin Ward. O capítulo conclusivo do seu belo Anarchy in Action faz uma convincente síntese das suas preocupações, e, também nele, Kropótkine aparece frequentemente citado ou em epígrafe.

Despida já das roupagens evolucionistas do mestre russo, a sua abordagem é-lhe naturalmente devedora de qualquer coisa: “O prevalecer de uma solução libertária ou autoritária não é o resultado de um choque definitivo de proporções cósmicas, mas é mais determinado por uma série de ‘assaltos’ consecutivos, a maior parte dos quais sem vencedor nem vencido, que se sucederam e continuam a verificar-se, no decurso da história dos homens. Toda a sociedade humana, se se excluem as mais autoritárias das utopias e das contra-utopias, é uma sociedade pluralista, com vastas áreas que não estão em conformidade com os valores oficialmente impostos os proclamados. […]

A questão de fundo, por consequência, não é a de estabelecer se a anarquia é ou não possível, mas antes se é possível alargar o campo de acção e a influência dos métodos libertários até ao ponto em que estes se tornem os critérios normais com os quais os seres humanos organizam a sua convivência”. (in Anarchy in Action, 1973)

São, estes, dois autores que poderemos considerar representativos do neo-anarquismo de hoje. Não que estas posições sejam dominantes no seio dos movimentos anarquistas, longe disso. Mas pode facilmente constatar-se que elas estão na base das essências libertárias das movimentações juvenis, feministas, ecológicas e outras que exprimem a oposição e as alternativas às sociedades post-industriais.

Neles, como em Kropótkine, embora naturalmente de maneira diferente, estão presentes a utopia e o desejo reformador.

De facto, nas nossas sociedades, reforma e utopia são duas formas essenciais de apreensão da realidade e de intervenção social, as quais simultaneamente recusam as clivagens ideológicas, puramente formais, de que a alternativa entre reformismo e revolução (como, a outro nível, entre violência e não-violência) é um excelente exemplo.

Há ainda uma leitura actual de Kropótkine.»

(João Freire, extracto de “Caducidade e modernidade de Kropótkine: entre reforma e utopia”, A Ideia, Lisboa, nº 20/21, Inverno/Primavera 1981: 43-46)   




Fonte: Aideiablog.wordpress.com