Março 18, 2021
Do Agencia De Noticias Anarquistas
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Hoje, em homenagem ao dia 8 de março, nós do Grupo Anarcha-Feminista de Amsterdã, organizamos uma ação de ocupação acompanhada de uma manifestação. Por questões de segurança, ela foi organizada silenciosamente, com chamadas sendo compartilhadas em canais privados. Apesar disso, mais de 60 camaradas vieram apoiar nossa ação! 3 faixas (“Liberdade para a vida da mulher”, “Trabalho sexual é trabalho”, “Destrua o patriarcado, lute contra o capitalismo, destrua o estado”) foram lançadas acompanhadas de sinalizadores das janelas do prédio ocupado. A polícia esteve presente, mas ninguém foi preso.

Nossa declaração política:

Somos informados de que não há casas suficientes para todos, que não há espaços suficientes para os refugiados e imigrantes que vêm para cá, fugindo das guerras imperialistas e das economias destruídas pelo (neo) colonialismo. É inaceitável que a mídia culpe a imigração pelo fato de que todos parecemos lutar para encontrar um lar. Este é um exemplo de imigrantes e refugiados sendo usados como bode expiatório.

Não há problema de falta de espaço, não há “crise habitacional”, o único problema é a distribuição desigual da riqueza. O problema é o capitalismo.

Estamos sendo empurrados para fora de nossa cidade pelo aumento dos preços dos aluguéis e pela gentrificação. As habitações sociais estão sendo vendidas de forma privada e a falta de moradias populares significa que a classe trabalhadora é forçada a deixar a cidade. Mesmo pessoas com profissões essenciais, como professores, assistentes de saúde e assistentes sociais são forçadas a se mudar. As pessoas lutam para pagar seus aluguéis, enquanto os especuladores têm liberdade para fazer o que quiserem. Alguns investidores privados têm centenas de casas, por exemplo, o príncipe Bernhard tem mais de 600 casas, e o proprietário deste edifício, Anthonie Mans, possui mais de 100 outras propriedades na Holanda. As listas de espera para a habitação social são ridículas e podem levar de 8 a 14 anos para as pessoas conseguirem uma vaga. Mas, para cada morador de rua, estima-se que haja 750m² de espaço vazio em Amsterdã.

Aluguel é roubo. A manutenção de um quarto não custa centenas de euros por mês. Esse dinheiro vai diretamente para os bolsos dos proprietários ou especuladores. A questão da habitação afeta desproporcionalmente mulheres e pessoas queer. Por exemplo, adolescentes queer têm maior probabilidade de se tornarem sem-teto. As pessoas que sofrem violência doméstica são às vezes forçadas a permanecer em situações inseguras porque não têm recursos financeiros suficientes para sair. Os proprietários frequentemente discriminam locatários em potencial com base em suas etnias, renda, gênero, sexualidade e capacidade. Eles costumam ser intimidadores, irracionais e se sentem no direito de nos dizer como devemos viver nossas vidas privadas.

Desde que a proibição de ocupações entrou em vigor, o número de desabrigados dobrou. No entanto, com demasiada frequência, tem havido uma relação estreita e desconfortável entre ocupação e gentrificação, e em nenhum lugar isso soa mais verdadeiro do que em Amsterdã. A ocupação tem sido historicamente um movimento contra a gentrificação, a extorsão de aluguel e pela rejeição da instituição da propriedade privada – mas nos últimos anos, ao invés de lutar contra a gentrificação, alguns posseiros têm ajudado a mesma. Trabalhando junto com o estado para tentar se agarrar aos pequenos ‘espaços livres’ e ocupações legalizadas que ainda restam (muitas vezes sem sucesso). Rejeitamos essa posição e estratégia. Queremos moradia para todos, não apenas para um seleto grupo de ‘artistas e livres-pensadores’. Precisamos nos comunicar com nossos opressores de uma posição de poder, não implorar que nos joguem algumas migalhas. A cidade pertence a todos os que nela vivem, e é hora de a retomarmos.

Trabalhadores do sexo são informados de que não podem trabalhar enquanto outras profissões que também tem contato o fazem – isso apenas contribui para a estigmatização do trabalho sexual. O governo está fechando as janelas em Amsterdã, supostamente porque quer resgatar as trabalhadoras do sexo do tráfico de pessoas e acabar com o crime, não só não há nenhuma evidência empírica de que fechar as janelas ajudaria nisso, mas também tirar o local de trabalho de alguém provavelmente só piorará sua precária e perigosa situação. Mudar as trabalhadoras do sexo do centro da cidade para um bairro menos rico para remover a “perturbação” do bairro rico se encaixa em um padrão estrutural de estigmatização do trabalho sexual e estigmatização da classe trabalhadora. Se o estado realmente se importasse com as trabalhadoras do sexo, em vez de nos vitimar, nos dariam apoio material durante esta pandemia, ou nos permitiriam trabalhar. Trabalho sexual é trabalho. Lutar pelos direitos dos trabalhadores significa lutar pelos direitos dos trabalhadores do sexo também.

A história do dia 8 de março é muito radical e inspiradora. Foi até o ponto de partida da revolução russa! Mas o que aconteceu com o dia 8 de março e o feminismo em geral? Capitalismo. À medida que a economia moderna aprendeu a mercantilizar e lucrar com os protestos contra ela, o feminismo não foi uma exceção. Como resultado, quando as pessoas ouvem a palavra feminismo, elas nem sempre pensam sobre feminismo radical, interseccional e anticapitalista. Eles pensam em um tipo de feminismo que diz que deveria haver “mais mulheres políticas”, “mais mulheres chefes”. Isso é o chamado “feminismo liberal”, mas é apenas mais uma campanha publicitária meticulosamente elaborada. O “feminismo” liberal realmente não se importa com grupos socialmente oprimidos, mesmo que esses sejam mulheres. Recusa-se a ver a raiz da desigualdade de gênero, tenta ser justo, mas para no meio do caminho. O feminismo liberal falha em reconhecer a relação entre capitalismo e patriarcado. Mas se nos opomos ao patriarcado, devemos nos opor ao capitalismo e vice-versa. Embora as mulheres tenham de trabalhar, quando chegam em casa ainda têm que fazer as tarefas domésticas e fornecer apoio emocional, isso também é trabalho, mas é um trabalho subestimado e não remunerado.

Em vez de lutar contra o problema, que é o capitalismo, o feminismo liberal tem pessoas lutando por maneiras de conviver com ele. Tal ideologia pinta o movimento feminista interseccional como “odiadoras de homens malucas”. Com a ajuda do capital, eles compram sua atenção nas telas de seus laptops / tvs / telefones com filmes, músicas, etc. Eles vendem roupas bonitas com slogans do tipo “sinta-se bem com o poder feminino”. Eles estão lhe dando um desconto na compra de cosméticos em homenagem ao dia 8 de março, “dia das mulheres fortes”. Estão apagando assim a história e o significado de um dia tão importante para todas as mulheres.

O dia 8 de março é o dia para recordar a luta das mulheres que nos precederam! É o dia de mostrar solidariedade para com as mulheres que lutam hoje! É o dia de celebrar nossa luta contra o capitalismo e destruir esse maldito patriarcado! Enquanto 1% dominar o mundo, mesmo que metade disso sejam mulheres, a vida dos 99% nunca irá melhorar!

Como pessoas de gênero feminino, muitas vezes somos informadas para não ocuparmos muito espaço. Somos socialmente condicionadas a manter nossas bocas e pernas fechadas. A não sonhar muito grande ou respirar muito alto. Mas estamos sendo estranguladas e é esperado que apenas sorriamos. Não há espaço seguro sob este sistema capitalista patriarcal. A solidariedade é a única solução. Esteja ao lado daqueles que estão lutando contra sua própria opressão, a luta deles é a sua luta, a luta deles é a nossa luta. Não somos livres até que todos sejam livres. Não nos deixaremos ser o dano colateral desta crise. Não vamos nos deixar ser expulsos desta cidade! É hora de retomar nossos espaços!

Como feministas, sabemos que a luta envolve trabalho e envolve amor. Somos solidárias com as mulheres curdas que foram presas pelo Estado turco, que lutam nas montanhas do Curdistão e que estão construindo novas formas de vida na sociedade em todas as quatro partes do Curdistão.

Somos solidárias a Angel, a refugiada que veio para a Holanda em busca de segurança, mas foi assassinada pelo sistema de imigração holandês. Ela era uma lutadora política! Ela era uma mulher trans! Somos solidárias a ela e a todos os imigrantes!

Não há espaço seguro sob este sistema capitalista patriarcal, por isso temos que lutar.

Já é suficiente! Precisamos retomar nossos espaços!

Anarcha-Feminist Group Amsterdam

Fonte: https://indymedia.nl/node/49217 

Tradução > A. Padalecki

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Carlos Seabra




Fonte: Noticiasanarquistas.noblogs.org