184 visualizações


Boletim eletrônico mensal
do Nu-Sol – Núcleo de Sociabilidade Libertária
do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP
no. 237, agosto de 2020.

Para uma genealogia da solidariedade.

Em agosto de 2010, os bilionários Bill Gates, fundador da Microsoft, e Warren Buffett, principal acionista da Berkshire Hathaway, anunciaram a criação da organização Giving Pledge (Compromisso de Doação). Em 2009, eles já haviam realizado um banquete para apresentar a proposta a um seleto grupo de bilionários.

No ano seguinte, fizeram o lançamento da organização com a assinatura de 40 bilionários estadunidenses que se comprometiam publicamente a doar mais da metade das suas fortunas para a filantropia. Ainda em 2010, Buffett e Gates realizaram um banquete na China, com 50 bilionários do país. Hoje, alguns deles compõe a lista dos 12 signatários do continente asiático.

Em 2013, a iniciativa tornou-se global. Atualmente são mais de 200 pessoas (ou casais) de 23 países, incluindo o Brasil, que compõe a lista de doadores.

Buffett e Gates já eram bem conhecidos por suas atividades filantrópicas.

Em 2000, Bill Gates e sua esposa fundaram a Bill & Melinda Gates Foundation, organização sem fins lucrativos voltada para investimentos em educação e saúde. Uma de suas “boas ações” está uma doação de 11 milhões de dólares para a MasterCard para ajudar a expandir suas atividades em Nairóbi para os pobres e miseráveis da capital do Quênia também usarem cartões de crédito.

Em 2006, Buffett, apesar de ter sua própria fundação, anunciou que doaria 83% de sua riqueza para a organização da família Gates, a maior doação conhecida até então. Em 2008, Buffett foi declarado o homem mais rico do mundo pela revista estadunidense Forbes. No ano seguinte, depois de suas grandes doações, tornou-se o segundo homem mais rico, atrás apenas de Bill Gates e juntou-se à organização do colega bilionário.

A Giving Pledge, de acordo com seu site, tem um conceito simples: “é um convite aberto a bilionários, ou aqueles que seriam se não fosse por suas doações, a se comprometerem publicamente em doar a maior parte de sua riqueza para a filantropia. (…) Pensada como um esforço multigeracional, a Giving Pledge pretende com o tempo ajudar na transformação das normas sociais da filantropia entre os mais ricos do mundo e inspirar as pessoas a doarem mais, estabelecerem planos de doação com antecedência, e doarem de formas mais inteligentes.”

A organização funciona, portanto, como um comprometimento moral para estabelecer novos padrões de caridade. Mas ressalta-se que esta é uma proposta para bilionários; no caso de milionários com bom coração a organização sugere haver outras iniciativas que eles devem procurar.

Os signatários, podem escolher doar durante a vida ou em testamento. As doações também não são limitadas, nem quanto às organizações (universidades e escolas em que estudaram, ou estudam seus filhos, grupos de direitos humanos, instituições filantrópicas, fundações próprias, etc.), nem quanto à área (arte, educação, ciência, tecnologia, religião, etc.). Muitos bilionários, entretanto, direcionam o dinheiro para suas próprias organizações, como é o caso de Bill Gates.

No aniversário de 10 anos da criação do Giving Pledge, apesar de reconhecer as boas intenções da iniciativa, chamam a atenção alguns de seus ditos fracassos. Entre as críticas há a de que muitos dos bilionários que participam o fazem porque “pega bem”. Além disso, o alcance, depois de 10 anos, seria aquém do esperado; nos Estado Unidos há 648 bilionários, no mundo são aproximadamente 2000, deste total 210 assinaram o compromisso até os dias atuais. Nos Estados Unidos, aqueles que assinam o compromisso, são beneficiados no recolhimento de impostos. Além disso, não houve grande mudança no direcionamento ou quantidade das doações realizadas anteriormente, uma vez que o compromisso não estabelece quando nem para quem a doação deve ser feita.

Uma das principais críticas aos filantropos de plantão é que a bem-intencionada proposta, com o objetivo de alcançar o maior número possível de bilionários, não foi estrita o suficiente e deveria ter delimitado melhor as condutas de seus signatários.

Outra crítica levantada é que a capacidade de doar dos bilionários não acompanha o ritmo em que os mesmos ganham dinheiro.

Entre os maiores doadores, e também os mais ricos, a fortuna de Bill Gates foi de estimados $53 bilhões de dólares em 2010, para $97 bilhões em 2019; Warren Buffett foi de $47 bi para $83 bilhões e Michael Bloomberg, de $18 bi para $56 bilhões.

Não se pode esquecer, entretanto, que em “tempos de pandemia”, os bilionários do planeta também têm sofrido. As coporações do ramo das Tecnologias de Informção e Comunicação, ao contrário, tiveram os negócios expandidos com a chamada pandemia.

De acordo com a Forbes, em relação à lista de março de 2019, o número de bilionários caiu de 2.153 para 2.095 em março de 2020. Dos que permanecem na lista, “51% estão mais pobres (sic) do que o ano passado”. Hoje, Jeff Bezos, dono da Amazon, e que não assinou a Giving Pledge, é o homem mais rico da Terra, com uma fortuna estimada em $113 bilhões. Sua ex-mulher, que recebeu $36 bilhões no divórcio, é uma das signatárias da Giving Pledge.

O fato de Jeff Bezos não ter assinado a Giving Pledge não significa que ele também não esteja envolvido com investimentos filantrópicos. Recentemente, criou sua própria organização contra as mudanças climáticas, a Bezos Earth Fund, e também doou para os bancos de comida nos EUA, durante a chamada pandemia.

Tá bom assim?

covid-19: afirmações da vida
https://www.nu-sol.org/blog/covid-19-afirmacoes-da-vida/

verve 37
rené schérer – flávia lucchesi
gustavo simões – paul goodman – acácio augusto
emma goldman – edson passetti – joão da mata
roberto ambrosoli – émile armand
lúcia soares – eliane carvalho

http://www.nu-sol.org/verve/

observatório ecopolítica 74-75
https://www.pucsp.br/ecopolitica/observatorio-ecopolitica/n74-75.html




Fonte: Nu-sol.org