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Boletim eletrônico mensal
do Nu-Sol – Núcleo de Sociabilidade Libertária
do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP
no. 243, março de 2021.

sobre o militantismo e antimilitarismo anarquista
(ou guerra à guerra)

1. Emma Goldman foi presa inúmeras vezes nos Estados Unidos, em especial, pelo antimilitarismo estampado nas páginas do The Mother Earth, periódico que editou ao lado de Alexander Berkman.
Foi assim que em 1918, durante a I Guerra Mundial, prenderam-na sob a acusação de infringir o “Selective Service Act”. A lei foi promulgada anos antes para impedir a ação direta de grupos dispostos a auxiliar jovens a não servirem às forças armadas do país.
Uma década antes, em 1908, Emma Goldman, “a mulher mais perigosa da América”, tornou-se amiga de Wiliam Buwalda. Após ouvir uma conferência de Goldman sobre antimilitarismo, Buwalda enviou uma carta à cúpula militar estadunidense, dentro da qual, devolveu a medalha de honra recebida por suas atividades ao longo de décadas usando farda. Em seguida, mudou-se para uma pequena fazenda na costa oeste de onde contribuiu assiduamente com diversos jornais anarquistas até o final da vida.
As ações de Goldman empolgaram muitas outras atitudes antimilitares nas décadas seguintes. Em meados dos anos 1950, as primeiras “Greves Gerais Pela Paz”, movimentações ocorridas no auge da chamada Guerra Fria e do macarthismo, foram afetadas pelas afirmações da libertária.
Compostas, sobretudo, por anarquistas e artistas radicais, muitas destas greves que anteciparam as imensas manifestações hippies antiguerra da década seguinte, culminaram em prisões de libertários como Julian Beck, Judith Malina e Dorothy Day.
John Cage, anarquista considerado um dos artistas mais revolucionários da segunda metade do século XX, também incorporou alguns dos escritos de Goldman. Associando-a às considerações desobedientes de Henry David Thoreau, parte considerável dos seus escritos nos anos 1970, visou o que ele chamou de “desmilitarização da linguagem”.

2. O episódio que culminou na prisão de Goldman e Berkman, em 1918, é mais um entre tantos levados adiante por mulheres e homens anarquistas na abolição cotidiana das forças armadas e das violências do Estado.
Em dois dos mais vitais acontecimentos anarquistas, a Comuna de Paris (1871) e a Revolução Espanhola (1936-1939), a afirmação antimilitar dos libertários foi mais do que evidente, explícita.
Na primeira, Gustave Courbet, pintor e amigo próximo de Pierre-Joseph Proudhon, à frente da Federação dos Artistas, derrubou a Coluna Vendôme e outros monumentos de exaltação militar napoleônicas.
Na segunda, Durrutti e seu bando guerrilheiro romperam incisivamente com os uniformes e as disciplinas características dos quartéis. Em 1936, pouco antes de morrer, com quase setenta anos de idade, Emma Goldman visitou Durrutti e a sua Coluna. Retornou vibrante ao norte da América com a possibilidade de uma revolução anarquista.
Contemporâneos de Emma Goldman, dadaístas como Hugo Ball (além de artista, tradutor de Mikhail Bakunin), fugiram da convocação à I Guerra Mundial, refugiando-se em Zurique, na Suíça. No Cabaret Voltaire escandalizaram a arte, mas, também os costumes, escapando das fileiras da morte com deboche e avacalhação.
Paul Signac, pintor neoimpressionista, na mesma época, rompeu sua amizade com Piotr Kropotkin quando soube que o autor de A conquista do pão e Apoio Mútuo: um fator de evolução, defendeu estrategicamente a guerra mundial eclodida em 1914.

3. Para além dos Estados Unidos e da Europa, em variados cantos da Terra, onde anarquistas se associaram, o antimilitarismo se expandiu vigorosamente. No Brasil, o antimilitarismo esteve com as mulheres que, durante a I Guerra Mundial, escreviam, muitas vezes anonimamente, em periódicos defendendo uma educação das crianças liberada da formação de soldados e patriotas. O antimilitarismo adentrou pelos escritos de Edgar Leuenroth, José Oiticica, Maria Lacerda de Moura, Roberto das Neves, Jaime Cubero. Combater a guerra foi sempre uma questão da maior importância.
Por aqui, o nome de jornais como Guerra Sociale explicita que para ácratas a palavra guerra somente é utilizada se for contra a sociedade, isto é, uma guerra contra a própria guerra.

4. Em 1984, em seu último curso proferido no Collège De France, A Coragem da Verdade, Michel Foucault aproximou as escandalosas rupturas éticas e estéticas anarquistas ocorridas nos séculos XIX e XX, com a filosofia radical praticada por Diógenes e Antístenes na antiga Grécia.
Como maneira de situar esse encontro entre duas filosofias da ação ― os chamados cínicos deixaram muito mais exemplos vividos do que escritos ―, apresentou a noção de militantismo, prática radical distante e distinta da então noção corrente de militância.
Em outras palavras, feito as afirmações cínicas, nos militantismos contemporâneos, segundo ele, não se discerne experimentação da vida e transformação radical da sociedade.
De fato, a partir do que sublinha Foucault, podemos pensar o antimilitarismo como mais um componente desse escândalo militantista.
Diferente das demais correntes socialistas e militantes, muitas vezes repletas de adorações a generais e comandantes, o anarquismo é único ao combater diretamente todas as formas de autoritarismo, de poder centralizado e hierarquizado, disciplinar e normativo, de controle e de pastorado.
Se por um lado Foucault propõe um cinismo trans-histórico do qual o anarquismo faz parte, de outro lado, Florentino de Carvalho, um dos maiores propagadores do antimilitarismo nas primeiras décadas do século XX, já incluía o cínico Diógenes em sua genealogia do anarquismo (ver revista verve 38).
Diógenes, conhecido por ações diretas como sujar os pés de lama antes de entrar em residências opulentas; sair às ruas, durante o dia, com uma lanterna na mão anunciando procurar um homem de verdade, possui também algumas anedotas explicitamente antimilitares.
A mais conhecida entre as histórias do filósofo, relegado sempre às margens pela História da Filosofia, é quando diante do imperador Alexandre, conhecido por suas campanhas militares pela Ásia e nordeste da África, Diógenes pediu para que este se retirasse imediatamente da sua frente. Somente assim, sem o homem mais poderoso da Grécia postado ali, ele, filósofo que decidiu viver e morar na rua, podia aproveitar livremente a luz do sol.
Uma segunda história, menos conhecida, narra sua ação às vésperas da chegada de Felipe e dos macedônios à cidade de Corinto. Enquanto toda a população se armava, transportava pedras, remendava as fortificações, reforçava muralhas, o filósofo começou a rolar, ininterruptamente, o barril onde costumava dormir para cima e para baixo de uma encosta. Quando lhe perguntaram a razão de seu esforço respondeu: “só para fazer-me tão atarefado quanto o resto de vocês”.

5. Nos últimos anos no Brasil, mas não somente aqui, a sintaxe militarizada como definia John Cage, voltou a crescer rapidamente.
Esse crescimento, em muitos países, ocorre, precisamente, por meio de rituais eleitorais democráticos. É que a política, mesmo aquela identificada como progressista ou à esquerda, jamais abandona a sintaxe militar, visto que, também depende dela para se sustentar.
O Estado, a democracia e a chamada liberdade de imprensa dependem do monopólio das armas pelo Estado em forças armadas e polícias, em regulamentação de armas para a legítima defesa do cidadão, do tráfico ilegal de armas que sustenta milícias e o Estado.
Direita e esquerda dependem das armas do Estado para governar os súditos e manter a segurança.
Os súditos dependem de armas legais e ilegais no mercado livre para defender suas propriedades, seus negócios, colaborar com a polícia, matar ou intimidar o vizinho, a parceira ou parceiro, defender seu lar, executar os chamados bandidos, degenerados, monstros.
As armas são produzidas para defesa da sociedade dos que ela isola e aparta, dos Estados de outros Estados e, hoje em dia, estão governadas pelas tecnologias computo-informacionais e controles por satélites.
Tudo é visto pelo olhar bélico revestido de diplomacia e cultura de paz. Afinal o prêmio Nobel da Paz foi instituído pelo inventor da bomba, da dinamite.
Governos e súditos participam da organização geral da violência.

6. “Você pode persuadir dez, vinte, trinta homens de que essa guerra não era e não é fatal, que se pode encontrar meios de detê-la que ainda não foram utilizados, que é preciso dizê-lo, escrevê-lo quando for possível, gritá-lo quando necessário. Esses dez ou trinta homens, por sua vez, o dirão a dez outros que o repetirão. Se a preguiça os interromper, azar, recomece com outros. E quando tiver feito o que deve fazer na sua zona, no seu território, pare e se desespere como quiser. Compreenda que nós podemos nos desesperar com o sentido da vida em geral, mas não com suas formas particulares; com a existência, já que não temos poder sobre ela, mas com a história na qual o indivíduo pode tudo. São os indivíduos que nos fazem morrer, hoje. Por que os indivíduos não conseguem dar paz ao mundo? É preciso apenas começar, sem sonhar com objetivos tão grandiosos. Compreenda que a guerra se faz tanto com o entusiasmo daqueles que a desejam quanto com o desespero daqueles que a renegam com toda sua alma. (…)
Não é preciso temer a morte, isso seria honrá-la demais. (…)
Nada é mais desprezível do que o respeito fundado sobre o medo. E, nesse sentido, a morte é tão digna de respeito quanto o Imperador Nero ou o delegado do meu bairro. (…)
Não se deve fazer a Revolução para dar poder a uma classe, mas para dar uma chance à vida”. (Albert Camus, Cadernos de Camus, 1939-1942, “A guerra começou, onde está a guerra?).

7. Se quisermos combater o militarismo, é urgente pensarmos com anarquistas e cínicos. A guerra não é nossa!
A pequena guerra que levamos adiante, segundo Proudhon, não se reduz à militarização ou à revolução armada e violenta, mas como inventamos vida livre no meio desta sociedade fundada na propriedade como roubo, em suas leis, normas, direitos de superiores com obsessão em prender ou matar os que consideram inferiores.
Emma Goldman, em 1918, levou para o cárcere uma escova de dentes e um pequeno livro de James Joyce, conhecido escritor inventor de um léxico desconhecido da gramática da sua época.
Goldman, presa por seu antimilitarismo, sabia que para escapar da guerra era preciso inclusive desafiar a língua, inventando com liberdade, outras palavras, outros combates.
Entre as muitas pequenas guerras anarquistas, Itô Nôe, no Japão, foi presa porque traduzia Emma Goldman para o periódico que ela organizava. Acabou executada.
Na década de 1930, quando o Império japonês já tinha invadido boa parte da Ásia e massacrado os anarquistas na Manchúria, Jiyû Rengo fez uma publicação antimilitarista. O texto explicitava a recusa ao serviço militar, à produção de armas e a desobedecer a qualquer soldado e oficial… Rompia com a subserviência japonesa. Quase todos do jornal foram executados. Os que sobraram fugiram, sumiram por aí e alguns voltaram para o Japão depois do final da II Guerra Mundial.

em março
Anarquia e pandemia.
Coletânea libertária publicada pela Editora Hedra.

covid-19: afirmações da vida
https://www.nu-sol.org/blog/covid-19-afirmacoes-da-vida/

verve 38
beatriz carneiro – tomás ibáñez – salete oliveira
fernanda grigolin – rogério nascimento – lucia soares
florentino de carvalho – josé oiticica -lucio urtubia
fermin munarriz – acácio augusto
gustavo simões – edson passetti – ruth kinna

http://www.nu-sol.org/verve/

observatório ecopolítica 83-84
https://www5.pucsp.br/ecopolitica/observatorio-ecopolitica/n83-84.html




Fonte: Nu-sol.org