228 visualizações


Boletim eletrônico mensal
do Nu-Sol – Núcleo de Sociabilidade Libertária
do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP
no. 247, julho de 2021.

Essa tal de cibersegurança…

Ucrânia, 1990.

Um garoto de 13 anos, Dmitry Gobulov acessava a internet por meio de um computador cheio de bugs e arcaico comparado aos que qualquer garoto teria acesso nos EUA.
Dali, constatou um pequeno detalhe: os sites estadunidenses recém-inaugurados para transações econômicas não possuíam bloqueios eficientes para barrar invasões.
Em poucos toques, conseguiu engendrar um método para roubar números de cartões de créditos e suas senhas. Quatro anos depois, em seu aniversário de 17 anos, já tinha acumulado mais de 1 milhão de dólares.

Rússia, 1990.

A KGB recebeu notificações do FBI a respeito de um hacker nomeado de Script que mantinha um site chamado CarderPlanet para comercializar e compartilhar com outros hackers senhas de cartões de crédito estadunidenses.
Na página inicial do CarderPlanet lia-se em letras garrafais: não é permitida atividade hacker na Rússia ou na Ucrânia. A KGB sabia da existência do site desde o primeiro dia que ele foi ao ar.

Rússia, 1990 em diante.

A KGB proibiu o uso de toda criptografia digital em território russo. Quem a usasse para esconder qualquer dado seria preso. Hoje, o governo russo aprimorou a tecnologia para localizar e quebrar criptografias, como do WhatsApp, e tenta tornar o uso da criptografia ilegal.
Os ataques hackers à Rússia não são divulgados.

EUA, 1990 em diante.

A NSA (Agência de Segurança Nacional), fundada em 1952 pelo Departamento de Defesa dos EUA, passou a investir na criptografia digital. Assim como o crescimento da internet era mais um programa articulado com os militares estadunidenses.
Os softwares criptografados passaram a ser chamados de munições para monitorar, espionar, localizar, atrair e alistar hackers, e quebrar outras criptografias. Ou seja, um exército cibernético pronto para monitorar, encontrar e realizar ataques digitais.

Ucrânia, 2005.

Gobulov, que tinha adotado o codinome de Script, foi preso. Sua prisão só ocorreu depois da Revolução Laranja e do estreitamento das relações entre EUA e o governo ucraniano. Dentro das fronteiras da Ucrânia, ficou 5 meses e meio preso e foi interrogado pelo FBI.

Ucrânia e EUA, 2021.

Gobulov é um parlamentar e líder do Partido da Internet da Ucrânia, e anseia por um dia tornar-se o primeiro-ministro do país. Além de seus apoios à Rússia, tornou-se um agente de segurança da circulação de dados e defende: o combate à corrupção, à pornografia e ao tráfico de drogas na internet.
Nos EUA, incontáveis hackers procedentes de todos os lugares do planeta, principalmente do leste europeu, da Rússia e da China, são contratados por empresas de segurança e pelo próprio governo para quebrar e fortalecer criptografias e firewalls.
Uma convocação de soldados cibernéticos para a circulação de dados segura e monitorada.

China, fevereiro 2021.

Soldados e mercenários cibernéticos não estão somente nos EUA ou na Rússia. Hackers estabelecidos na China copiaram um software ciberespião estadunidense e o utilizaram para invadir e monitorar as trocas de dados de computadores que usam sistemas da Microsoft. O software clonado é o mesmo que realizou monitoramentos planetários e cujos dados foram publicizados nos vazamentos do ex-agente da NSA, Edward Snowden.
Como uma das respostas aos crescentes ataques hacker da China, a polícia do Japão – forte aliado dos EUA desde o final da II Guerra Mundial e que conta com inúmeras bases militares estadunidenses em seu território — anunciou a construção de um departamento para monitorar ataques cibernéticos. As investigações se concentraram em ataques provenientes da Rússia, Coreia do Norte e China.

Suíça, 2021.

Cibersegurança é um grande negócio que arregimenta os crentes na vida com segurança calculada e que desejam o próximo cão de guarda de dados.
Entre atualizações e ataques, na segunda semana de junho, uma das reuniões mais aguardadas da Cúpula em Genebra, dizia respeito à chamada cibersegurança.
A discussão centrou-se nas questões de invasões hackers, ameaças de revides cibernéticos e acordos para estabelecer quais serviços/provedores devem ter prioridade na proteção contra ataques. Afinal de contas, ataques ocorrerão e são parte constitutiva tanto da internet como do desenvolvimento de softwares de segurança.
Escancarou-se que os negócios e o fluxo computo-informacional não podem ser interrompidos e que determinados servidores devem permanecer blindados e em infinita atualização.
No momento em que cada um e cada ação são traduzidos em uma sequência numérica binária e a vida passa a ser reduzida a algoritmos, likes e dados, a cibersegurança se distende em um fluxo computo-informacional que sempre foi militarizado.
Ela não está mais restrita a um conceito dos laboratórios das tecnologias de guerra. Torna-se responsabilidade tanto de governos e suas diplomacias; como das empresas e de seus acordos comerciais, e do usuário que deve controlar seus próprios acessos e consentir com os monitoramentos de sua vida.
Game over: a internet nunca foi e nem será livre.

Anarquia e pandemia.
Coletânea libertária publicada pela Editora Hedra.
Lançamento 29 de junho. Conversação com Tomás Ibañez
https://www.youtube.com/watch?v=HrhU9Ybl6Qw&t=14s

covid-19: afirmações da vida
https://www.nu-sol.org/blog/covid-19-afirmacoes-da-vida/

verve 39
claire auzias – diego lucato bello – voltairine de clayre
rogério nascimento – florentino de carvalho – edson passettti
william burroughs – gustavo simões – josé maria carvalho ferreira
el libertário – pascual – eliane carvalho – vitor osório
louise michel

https://www.nu-sol.org/verve/

observatório ecopolítica 91-92
https://www5.pucsp.br/ecopolitica/observatorio-ecopolitica/n91-92.html




Fonte: Nu-sol.org