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Boletim eletrônico mensal
do Nu-Sol – Núcleo de Sociabilidade Libertária
do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP
no. 248, agosto de 2021.

Jogos Olímpicos de Tóquio

1964

Verão de 1964. O Japão sediou a sua primeira Olimpíada. Os jogos marcavam a devoção dos súditos japoneses com a reconstrução após a II Guerra Mundial e a conivência com as bases militares estadunidenses.
Naquela olimpíada, a pira olímpica foi acesa pela atleta Yoshiri Sakai, nascida no mesmo dia do despejo da bomba em Hiroshima pelos EUA.
O primeiro ouro para o Japão foi conquistado pelas mulheres do vôlei de quadra que ficaram conhecidas como as Bruxas do Oriente, por suas cortadas consideradas mágicas. O ouro foi noticiado como um símbolo da reconstrução da nação e as Olimpíadas um símbolo da paz.
O treinador da equipe, Hirofumi Daimatsu, foi considerado o grande responsável pela vitória. Enalteceu-se a capacidade de transformar as mulheres trabalhadoras de fábrica em atletas profissionais.
Daimatsu era um ex-militar que, junto com o seu batalhão, em nome do Grande Império do Japão, invadiu, matou e torturou na Índia. Com a rendição, ficou desempregado e aceitou a missão de treinar uma equipe de mulheres. Seu principal método de treinamento incluía espancamentos e surras.
Outra técnica era o keiten reeshibu, um movimento de girar e receber no vôlei baseado em movimentos de judô que o treinador aprendera quando militar. Por esse fundamento, que surpreendia as adversárias, e pelo ouro, hoje, Daimatsu figura no hall da fama do vôlei em Massachusetts, no mesmo país responsável pela destruição do Japão em 1945.
Daimatsu é um símbolo japonês conhecido por ter conquistado o ouro para reconstrução e glória do país. Em resumo: ouro para o Japão é atualização da obediência.

2020/2021

Os Jogos Olímpicos de 2020 ocorreram em 2021, com arenas vazias e sem público nas arquibancadas. O grande feito/marca foi o investimento na diversidade. Diversidade de cor, raça, etnia, gênero, sexual, geracional e corpórea (sem misturar com a parcela contemplada nas paraolimpíadas). A Olimpíada de Tóquio pretendeu ser vista como a olimpíada da inclusão, antidiscriminatória, acolhedora e interseccional.
O comitê de organização selecionou um atleta mestiço para portar a bandeira e uma atleta também mestiça para acender a pira olímpica. Ambos são idolatrados no Japão por suas conquistas no basquete e tênis, respectivamente. Mas, para suas campanhas de marketing terem sucesso no país, os patrocinadores precisam branquear suas peles. Alguns comediantes declararam que os atletas são japoneses, mas tomaram muito sol e precisam tomar banho de alvejante.
Enquanto isso, crianças e jovens mestiços se suicidam no cotidiano escolar japonês.
Faltando uma semana para o início das Olimpíadas, o Comitê Olímpico Japonês apresentou um ex-esgrimista homem trans como seu mais novo conselheiro administrativo. O ex-atleta se mostrou lisonjeado com seu papel de apresentar ao mundo a “mudança e reconhecimento” de um lugar que procura tratar com “normalidade” qualquer pessoa LGBT+.
Na mesma semana da nomeação do ex-esgrimista, o diretor da cerimônia de abertura foi demitido por suas famosas piadas antissemitas na década de 1990 que divertiam os japoneses e terminavam com “vamos brincar de genocídio de judeus” e “vamos brincar de holocausto”.
Um mês antes, o Japão não aprovou a lei nacional antidiscriminação LGBTQIA+. A lei foi arquivada e a presidente do Comitê dos Jogos Olímpicos, usando máscara com o símbolo do arco-íris e a palavra “equality” silenciou. Os ativistas também.
Como sucede no capitalismo e se amplifica nos grandes eventos, interesses empresariais e de grandes investidores atropelam os danos à vida, à saúde e ao planeta. A taxa de contágio de COVID-19 em Tóquio, que estava em 1,23 no dia da abertura dos jogos, pulou para 1,77 em pouco mais de uma semana.
A população da cidade expressou durante todo o evento o seu descontentamento. As manifestações contra os jogos não estão diretamente ligadas à memória das bombas lançadas em 6 e 9 de agosto de 1945. Contudo, as confraternizações em memória dos mortos em Nagasaki e Hiroshima foram canceladas. As manifestações de protesto estiveram conectadas ao discurso de paz e vivas à ONU, ao medo da transmissão da COVID-19 e em muitos casos porque para os japoneses os turistas não são cuidadosos e acabam por infectar o país.
Os japoneses também protestaram por mais uma medida de fechamento do comércio, feridos no sentimento nacionalista reascendido.
O Sindicato dos Médicos do Japão havia alertado as autoridades de que a chegada de 11 mil atletas e dezenas de milhares de membros de comissões técnicas e dirigentes esportivos, além das equipes de jornalismo esportivo, de vários territórios do planeta, poderia provocar o surgimento de uma nova cepa, uma cepa olímpica.
Desde a chegada das delegações, Tóquio registrou recordes diários no número de novos casos. A média no dia 23/07, início dos jogos, foi de 1.386. Cinco dias depois, 1.955. Dez dias depois saltou para 3.337. No dia 5 de agosto a cidade bateu a marca de 5 mil casos registrados em um único dia, inédita desde o início da chamada pandemia.
Apesar disso, as autoridades japonesas e do Comitê Olímpico negaram que a piora nos casos na cidade tenha relação com os jogos, mesmo considerando-se o aumento do número de infectados dentro da chamada “bolha olímpica”, que registrou 458 casos, incluindo os 33 atletas infectados.
O governo do Japão estendeu o estado de emergência, com restrições de circulação, para as províncias de Tóquio, Osaka, Chiba, Kanagawa e Saitama até 31 de agosto. Para as pessoas (cidadãos japoneses), estado de emergência; para os negócios e espetáculos (marcas, governos e as commodities humanas que são os atletas), o discurso de que está tudo sob controle. Assim é a política do oriente e no ocidente, assim é o capitalismo.
Protestos contra as olimpíadas e os exorbitantes gastos públicos para sua realização ocorreram em diversas cidades japonesas. Tokyo, Kyoto, Sapporo, Okinawa e Fukushima tiveram atos pelo cancelamento dos jogos, pela proteção da vida, pela abolição do COI e de todas as Olimpíadas. Faixas foram penduradas no Estádio Olímpico, cuja construção para os jogos de 2020 provocou, como sempre, o despejo de moradores e dinheiro para muita gente.
Ocorreram as marchas a favor de que os estádios fossem abertos para todos. E em competições nas ruas, como as de ciclismo e a maratona, os japoneses se aglomeraram para incentivar os atletas e apoiarem a realização do evento.
O cancelamento do evento chegou a ser cogitado por autoridades do governo japonês e do Comitê Olímpico. O megaevento consumiu 12 bilhões de dólares só para a construção e renovação de estádios, acomodações para os atletas e aprimoramento de outras infraestruturas olímpicas. Com o adiamento do evento para 2021, o cancelamento de patrocinadores e gastos com publicidade, estima-se que os custos do evento devem ultrapassar 20 bilhões de dólares.
Os protestos em Tóquio também ficaram marcados pelos atletas que recusaram se submeter aos rigores disciplinares do Comitê Olímpico, apesar das manifestações políticas por atletas serem proibidas pelo artigo 50 da Carta Olímpica. Diante da pressão da Comissão de Atletas, o COI flexibilizou as regras e passou a autorizar manifestações com a exceção dos momentos das cerimônias oficiais de premiação, abertura e encerramento.
No início dos Jogos, atletas famosos entre 150 signatários pediram que o COI permitisse protestos também no pódio. Não obtiveram resposta. As manifestações inofensivas não faltaram e atletas patriotas, disciplinados, cultuadores da segurança monitorada externaram suas súplicas.
O ativismo político apareceu com a estadunidense negra e lésbica, que cruzou os braços no pódio em que recebia medalha de prata em arremesso de peso. O gesto foi em referência, segundo ela, ao “cruzamento onde todas as pessoas oprimidas se encontram”. Gesto palatável que não obteve uma faísca da repercussão dos atletas negros com saudações Black Panthers, no México, em 1968. Na ocasião, Tommie Smith e John Carlos, medalhas de ouro e prata respectivamente, além dos punhos erguidos, tiraram os sapatos e não ergueram a cabeça no momento de execução do hino. Em resposta, tiveram seus vistos no México, sede do evento, imediatamente cancelados e foram expulsos da Vila Olímpica.
As ciclistas chinesas, exibiram pins de Mao Tse-Tung ao receber suas medalhas de ouro. Dessa vez, o COI pediu explicações ao Comitê Olímpico Chinês. A imagem de Mao Tse-Tung presa ao uniforme das atletas foi de encontro aos inúmeros ataques de chineses a atletas japoneses. Quando os dois países ainda disputavam a primeira e segunda posições no quadro de medalhas, os chineses derrubaram contas em redes sociais de atletas japoneses, declarando serem eles uma “humilhação nacional” ou estarem roubando as medalhas de ouro da China. Em alguns casos, declaram morte aos japoneses com diversas postagens das bombas de Hiroshima e Nagasaki.
Teve até o pastiche de punho cerrado para o alto e ajoelhada de ginasta da Costa Rica. E não faltaram as futebolistas de Chile, Estados Unidos, Grã-bretanha, Nova Zelândia e Suécia ajoelhando em protesto contra a morte de negro estadunidense pela polícia…
Soma-se a isso tudo, os Atletas Olímpicos Independentes, que desde as Olimpíadas de Barcelona (1992), no pós-dissolução da URSS, são autorizados a competir apesar da falta de reconhecimento de seus países. E além deles, apresentou-se em Tóquio, pela segunda vez, a Equipe Olímpica de Refugiados.
Os atletas russos não puderam empunhar a bandeira, ouvir o hino ou ter o nome ou emblema do país impresso em seus uniformes devido à sanção pelo uso constatado de drogas ilegais para a melhora de desempenhos. O COI decidiu que atletas livres de doping poderiam competir sob a sigla ROC – Comitê Olímpico Russo. E tudo se acertou, como sempre.
Esta Olimpíada talvez fique conhecida por algumas inovações. Esportes identificados outrora como “radicais”, skate e surf, por exemplo, foram celebrados. Vale lembrar que o skate, até pouco tempo, era perseguido em muitas cidades do mundo, sobretudo, por seu pouco respeito com o espaço de propriedades estatais e privadas. E que o surf, também uma prática que no passado foi associada à liberdade do corpo sobre a prancha e em alguns costumes tidos como exóticos, tornou-se mais um destino certo de jovens velhos e conservadores.
Mas a Tóquio 2020-1 ficará conhecida como a Olimpíada da “saúde mental” dos atletas. Curiosamente, atletas de alto rendimento, protagonistas, líderes empreendedores que de repente refugaram e alegaram precisar defender sua “saúde mental”.
A máquina capitalista se regozijou. Ela extrai o máximo de força individual para obter a maximização de resultados coletivos. A ginasta pifou, mas a máxima “saúde mental” resplandeceu. Vitória da racionalidade neoliberal.
A ginasta estadunidense deveria substituir o corredor mais rápido do planeta na Rio 2016. Não deu. Deu “saúde mental”, o campo consensual dos chamados transtornos que afligem todos os humanos, segundo o saber psiquiatra. É a versão suavizada de “doença mental”.
E teve até uma atleta da Belarus que começou sendo sequestrada pelo Estado belarusso e terminou como “refugiada!” na Polônia. Coisas da ex-URSS+direitos humanos.
Esta foi ainda a Olimpíada da sustentabilidade, com medalhas construídas a partir de eletrônicos descartados pelos japoneses e das camas de papelão nos quartos da Vila Olímpica. Nos buquês para os medalhistas estavam as flores em homenagem aos mortos no vazamento de energia nuclear em Fukushima e no tsunami que atingiu o país em 2011. Enquanto isso, a água radioativa de Fukushima é lançada no Oceano Pacífico e, por enquanto, os 50 reatores nucleares existentes no país continuam em funcionamento.
Tem aqueles que ainda falam e creem que Olimpíada está apartada da política. Muitos que falam de religião, amor, pátria, sacrifícios, competição. Tudo por uma medalha; tudo por competir. Tudo por grana. Desde Platão há o consenso que entre os superiores estão os “homens” de ouro, prata e bronze.
A Olimpíada de Tóquio esteve embevecida por representatividade e visibilidade, do orgulho seja lá qual fosse, junto a mangás, emojis, jogos eletrônicos e digitais.
E muito empreendedorismo de si para além das competições com postagens nas redes sociais para se tornar o mais novo influencer cheio de patrocínios.
A alguns atletas resta a gratidão, a aposentadoria, a compaixão e a vida com resiliência; e aos demais, preparar-se para Paris com resiliência e resignação.

anarquistas na américa do sul
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Fonte: Nu-sol.org