195 visualizações

Boletim eletrônico mensal
do Nu-Sol – Núcleo de Sociabilidade Libertária
do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP
no. 254, março de 2022.

os planos no campo e nas camas

2022, América Latina. Mais uma vez as arquibancadas de futebol se tornaram lugares de disputa entre torcidas de clubes rivais e no interior de uma mesma torcida.

Durante um jogo do Campeonato Mexicano, torcedores do Querétaro F. C. e do Atlas F. C. iniciaram um confronto que resultou em 15 mortos e 26 pessoas gravemente feridas. As imagens do ocorrido rapidamente se espalharam nas mídias e redes sociais pelo planeta.

Mais ao sul do continente, logo após o incidente no México, a presença do futebol brasileiro nas mídias também foi marcada por brigas, sangue, mortes.

No dia 22 de janeiro, em jogo pela Copa São Paulo de Futebol Júnior, entre São Paulo e Palmeiras, torcedores do São Paulo invadiram o campo. Os próprios jogadores dos times seguraram os agressores. Uma faca foi encontrada no gramado, apesar do procedimento de revista pela polícia, adotado nos gramados brasileiros.

No início do mês seguinte, um torcedor do Palmeiras foi executado a queima roupa, por outro palmeirense, na porta do estádio do clube enquanto ocorria, em Abu Dhabi, a final do Campeonato Mundial. Ainda em fevereiro, antes da disputa pela Copa do Nordeste contra o Sampaio Correia, o ônibus que transportava a equipe do Bahia foi alvo de uma emboscada de torcedores do próprio clube. Danilo Fernandes, o goleiro do time, foi atingido no rosto, próximo aos olhos. Fernandes passou a noite no hospital e levou vinte pontos. No mesmo dia, em Recife, a van do time do Náutico teve os vidros quebrados em um ataque surpresa novamente, como ocorreu em Salvador, eram torcedores da agremiação após o desembarque no aeroporto de Guararapes.

Os episódios continuaram no mês mais curto do ano. Enquanto em Curitiba, parte da torcida do Paraná Clube invadiu o gramado para bater nos jogadores como protesto pelo rebaixamento para a segunda divisão do campeonato estadual, às vésperas do clássico Gre-Nal, o veículo que levava os atletas do Grêmio sofreu o ataque de inúmeras pedras lançadas por torcedores do rival. O resultado foi o adiamento da partida, visto que, vários jogadores, somado ao susto, tiveram perfurações por estilhaços dos vidros quebrados.

Em março, no início do mês, em Belo Horizonte, um atleticano foi morto durante uma briga entre torcedores do seu time e do Cruzeiro e, em meio a confronto de corintianos e são paulinos, em São Paulo, em uma estação de trem, uma mãe que segurava um bebê foi atingida. A criança caiu do seu colo nos trilhos por onde passam os vagões. Enquanto torcedores permaneciam alheios em sua estúpida briga, pessoas presentes na estação impediam o trem de fechar as portas e se movimentasse para preservar a vida do bebê. Um homem desceu agilmente para resgatar a criança evitando um desfecho mortal.

Frente a tais episódios, com a volta das torcidas aos estádios depois de uma longa ausência imposta pelas medidas contra o avanço da Covid-19, jornalistas, apresentadores de TV, comentaristas esportivos, influencers e personalidades da grande mídia entoam em coro a mesma ladainha: “é preciso punir os responsáveis”, “enquanto não houver mais punição isso não terá fim”.

Incapazes de pensar além da lógica do castigo não notam que a implementação de medidas punitivas jamais impediu ou sequer diminuiu a violência entre torcedores de futebol

É notório que medidas como a adoção da torcida exclusiva em clássicos no estado de São Paulo apenas redistribuiu os confrontos para os mais variados cantos da cidade. Assim, em vez de evitar, promove emboscadas em estações de metrô, trem, terminais rodoviários, esquinas e becos. A repetição contínua do discurso punitivo seria somente incapacidade de pensar ou o interesse lucrativo em abrir cada vez mais os investimentos em segurança no futebol?

Devotos, em todos os sentidos, do futebol praticado na Europa, não são poucos os especialistas que defendem a política inglesa de encarceramento de torcedores levada adiante nos anos 1990. Ou, ainda, os altos investimentos adotados atualmente por clubes da Premier League em tecnologias contemporâneas como a implementação de câmeras de reconhecimento facial na porta dos seus estádios.

Resumindo, apesar da construção de uma suposta neutralidade, certos jornalistas, apresentadores de TV, comentaristas esportivos, influencers, ao defender o Estado e suas políticas de violência são também violentos. Desde os mais progressistas até os velhos âncoras de mesas redondas, todos reproduzem a mesma lengalenga.

E mais, a ladainha evocada por tais paladinos do bom mocismo explicita o anseio de que os estádios (ou melhor, arenas!) tornem-se cada vez mais um imenso camarote considerado seguro para sócios endinheirados, uma espécie de abadá do ludopédio. Os jogos, desse modo, seriam privilégio ainda maior dos que podem pagar o alto valor dos ingressos, ou então, adquirir os pacotes de pay-per-view para assistir as pelejas bem longe dos gramados cada vez mais sintéticos…

Mas e a torcida? É abominável a violência, a covardia entre torcedores machinhos que não sabem o que fazer com a raiva e ressentimento acumulado de suas vidas miseráveis. Os episódios listados aqui mostram como a revolta passa longe de parte considerável das pessoas que frequentam estas organizações. Estas torcidas vivem pelo prazer de surrar e matar. É o seu desejo de morte de outra existência que faz vibrar sua paixão obsessiva.

Se houvesse mesmo uma fagulha de revolta ela se voltaria certeira não na direção da outra torcida, ou dos jogadores ainda que uma minoria de times milionários se beneficie do grande negócio futebolístico —, mas das autoridades, do clube e do Estado com suas polícias, milícias e serviçais particulares e públicas.

Comenta-se haver política entre os setores chamados, não à toa, de “organizados”. Mas, se, de um lado, os “organizados” fazem das partidas um espetáculo com suas bandeiras, faixas, coreografias e cantos, de outro lado, “seus líderes participam da política do clube e negociam apoio às forças interessadas no governo do time pelo qual torcem. Fazem parte do jogo entre situação e oposição que faz funcionar a política interna dos clubes” (hypomnemata 200).

Fica no ar a pergunta: diante das violências crescentes, onde estão os torcedores que em meados de 2020 saíram s ruas para conter o aumento das forças fascistas verde-amarela? Tais forças, muitas denominadas de antifascistas, que conseguiram realizar naquele momento algo vital, ainda não conseguem combater as forças fascista e reativas no interior do próprio campo?

E os jogadores? Melhor nem comentar…

violências em outras ruas e camas

Pós-carnaval, São Paulo, 2022. O corpo de um jovem gay foi encontrado no chão de seu quarto, no bairro de Pinheiros. Ele vestia um terno azul e “segurava” uma taça de vinho. Na cabeça, sacos plásticos. No pescoço, uma camiseta e um cabo de carregador amarrados.

São Paulo, 11 de setembro de 2021, o corpo de um ator gay foi encontrado em estado avançado de decomposição em sua cama, no centro da cidade. Na cabeça, um saco plástico. As autoridades médico-policiais concluíram que ele se sufocou, supostamente, por enfiar sua cabeça dentro da sacola devido a “crises de ansiedade”, supostamente, agravadas pelo uso de “drogas”.

São Paulo, 17 de setembro de 2021, o corpo de um homem gay foi encontrado em um hotel, no bairro da Mooca. Em posição fetal, o cadáver estava coberto por um lençol. Na cabeça, dois sacos plásticos. As autoridades médico-policiais concluíram que ele se suicidou, pois estava “entorpecido”.

Estas execuções viraram notícia.

Corre na boca miúda que, ao menos, mais dois gays foram mortos asfixiados com sacos plásticos: técnica de tortura comum a polícias e milicos.

Em 2021, a matança de lgbt+ no Brasil aumentou mais uma vez. Os homens gays foram os alvos mais recorrentes das ditas “mortes violentas” e o país segue liderando o ranking planetário das estatísticas de execuções de pessoas lgbt+.

Segunda-feira, 06 de dezembro de 2021, João Pessoa. Travestis e transexuais que faziam ponto no centro da cidade foram alvejadas por pedaços de paralelepípedo, arremessados de dentro de um carro branco.

Terça-feira, 07 de dezembro de 2021, João Pessoa. Uma prostituta transexual que fazia ponto no centro da cidade foi atropelada por um carro branco.

Quarta-feira, 08 de dezembro de 2021, João Pessoa. A jovem trans de 23 anos, Yasmin Fontes, fazia ponto no centro da cidade. Ainda viva, foi encontrada por outras prostitutas com várias facadas no pescoço, no peito e nos ombros. Ela morreu. As investigações averiguavam a possibilidade de “latrocínio” e descartaram relação entre os casos.

Estas violências viraram notícia. Assim como episódios escabrosos ao longo do último ano como o jovem gay torturado e violentado por vários machos no sul do país e as trans queimadas vivas em várias cidades.

Mais da metade das pessoas trans e travestis executadas no Brasil, nos últimos 5 anos, têm entre 18 e 29 anos. Em geral, não vivem mais do que 35 anos de idade. Cada vez mais aumentam as histórias das que não chegam a completar 18 anos.

Quarta-feira, 06 de janeiro de 2021, Camocim, Ceará. A jovem trans Keron Ravach cobrou um cliente pelo programa. Aos 13 anos de idade, teve sua vida aniquilada a socos, pontapés, pauladas, pedradas e facadas pelo jovem que se “desentendeu” com ela sobre o pagamento.

A maioria das pessoas trans executadas é preta, pobre e identifica-se com o gênero feminino. São mortas a tiros, a facadas ou com outras armas “brancas”, espancadas, apedrejadas, asfixiadas, estranguladas, degoladas, incineradas. Os golpes costumam mirar seus rostos, suas cabeças, seus seios e suas genitálias.

Em 2021, pelo 13º ano consecutivo, o Brasil se manteve no topo do ranking de extermínio de pessoas trans e travestis. Os Estados Unidos conquistaram o bronze e o México, com aproximadamente metade do recorde brasileiro, a prata.

…a finta, o drible, A na bola

Foi no México que se inaugurou o gesto homofônico do cântico “eeeeehhh, puto!” quando o goleiro rival dava um tiro de meta (a militarização colonizou o futebol). Após a copa de 2014, torcedores brasileiros adotaram o gesto, trocando a palavra “puto” por “bicha”.

Além da violência nos estádios, assim como o Brasil, o México é um dos países da América Latina onde mais se executam mulheres e lgbt+, onde inúmeras vidas são executadas diariamente no país, com ou sem cobertura midiática e contabilização estatística.

Esgotadas das incontáveis mortes e “desaparecimentos” diários de meninas e mulheres nos últimos anos no México, as encapuchadas do bloque negro atacaram e seguem atacando a propriedade, a polícia, o patriarcado e o Estado.

Enquanto os homens, os machos se matam covardemente nas arquibancadas de futebol, as encapuchadas atacam corajosamente nas ruas. Queimam barricadas, afirmando a revolta e saudando todas as mulheres combatentes.

A Okupa Cuba, ocupação que levam adiante há mais de dois anos no antigo prédio da Comissão Nacional de Direitos Humanos, na capital do país, segue de portas abertas para mulheres, meninas e meninos que enfrentam situações de violência em seus lares.

É provável que muitas apreciem o futebol. Muitas delas na Okupa e nas ruas jogam, brincam e dançam junto com as crianças. Escancaram o que há de mais artístico no esporte, a finta, o drible, o A na bola.

abolicionismo penal libertário

apresentação de edson passetti
com hypomnematas do nu-sol
publicação editora revan/instituto carioca de criminologia

covid-19: afirmações da vida
https://www.nu-sol.org/blog/covid-19-afirmacoes-da-vida/

pandemia e anarquia

coletânea libertária publicada pela editora hedra.

verve 40

mikhail bakunin – priscila vieira
jornal o libertário – gustavo simões – élisée reclus
max nettlau– piotr kropotkin – pietro ferrua – marianne enckel
gustavo vieira – lúcia soares

https://www.nu-sol.org/verve/

observatório ecopolítica 103 e 104
https://www5.pucsp.br/ecopolitica/observatorio-ecopolitica/n103.html
https://www5.pucsp.br/ecopolitica/observatorio-ecopolitica/n104.html




Fonte: Nu-sol.org