Setembro 14, 2021
Do Colectivo Libertario Evora
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Notas sobre um “moderno Estado satírico”

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David Bernardini

As pessoas leram. As partes que recordam contarão a outros.

Serão transmitidas. As histórias nunca morrem, na verdade.

(George Romero, Daniel Kraus, I morti viventi)

           

Segundo o estudioso Philip Hayward, da Universidade de Sydney, o sultanato de Occussi-Ambeno constitui um curioso caso de micro-nação, termo que designa as entidades que nascem por vontade de pequenos grupos de indivíduos, os quais proclamam uma certa área (geralmente muito limitada) independente do Estado de pertença. Há duas tipologias de micro-nações, as ‘clássicas’, usualmente mas não necessariamente situadas numa ilha (pensemos, por exemplo, na Ilha das Rosas), e as ‘virtuais’, por vezes resultado de performances artísticas com intenção de crítica social.[2] À segunda tipologia pertence o sultanato de Occussi-Ambeno, um projecto nascido em 1968, na Nova Zelândia, da mente de um artista dos sectores anarquistas, Bruce Ronald Henderson – far-se-á chamar Martin Renwick de 1978 a 1981 e Bruce Grenville de 1981 a 2000 – e concebido como paródia de um Estado. Tal nação imaginária corresponde todavia a um território realmente existente: Occussi-Ambeno é de facto um enclave, uma porção de território pertencente a um Estado (Timor Leste), confinante totalmente com outro Estado (Indonésia)[3].

            Na segunda metade do séc. XX as contraculturas têm um profundo impacto sobre as formas, as práticas e as linguagens do anarquismo. Sob a sua influência, por outras palavras, são reformuladas as ideias-força do chamado anarquismo clássico (como o anti-militarismo, o anti-autoritarismo, o anti-capitalismo, o internacionalismo), abrindo-o contemporaneamente a novos temas (por exemplo, a luta anti-nuclear). Um caso de estudo interessante e peculiar, a este respeito, é o do sultanato de Occussi-Ambeno. Em artigo publicado numa revista anarquista da Nova Zelândia, em 1985, o seu animador e principal promotor, Bruce Grenville, define-o em termos de um ‘moderno Estado satírico’, uma paródia para pôr a nu o absurdo da instituição estatal[1]. O propósito destas linhas, portanto, é reconstruir em linhas gerais os traços desse projecto, ainda pouco conhecido no quadro italianófono, a partir dos materiais existentes no fundo ‘Veneza 84’, em vias de digitalização e classificação no Centro de estudos libertários/ Arquivo G. Pinelli.

Folheto volante sobre a dessalinização, ou sobre a ‘enésima solução dos problemas da galáxia graças à tecnologia do Occussi-Ambeno’ (ver nota 10).
A produção de selos é um dos traços mais marcantes da actividade de Bruce Grenville. Aqui vemos alguns exemplares celebrando a Swiftair, companhia aérea de bandeira do Occussi-Ambeno, cuja frota era inteiramente formada por dirigíveis e zepelins (ver nota 12).

            Como para um verdadeiro Estado, Grenville inventou desde o fim dos anos sessenta uma história nacional remontando a 1848, ano em que sete tribus se teriam unido contra os portugueses. Após uma série de ‘conjuras ao estilo do Vaticano e de envenenamentos de sultões por parte de sucessores zelosos’, em 1968 o país teria obtido a independência, iniciando-se o reinado de Sua Majestade Waals Abdullah I, seguido em 1975 por Michael Ismail I, deposto amigavelmente em 1995 por Gay Dean, sócio australiano de velha data de Grenville. Segundo um prospecto do próprio Grenville, um hipotético censo de 1980 indicava que a população do imaginário sultanato atingia cerca de 180.000 pessoas, repartidas por sete províncias (Khayal Serikit, Jade, Atanarble, Tarantar, Dragon, Feripæga, Quatair), com a capital Baleksetung (42.137 habitantes).[4]

            A principal actividade do projecto de Grenville consistia inicialmente na produção e difusão, em nome do sultanato de Occussi-Ambeno, de papel timbrado para uso burocrático, cheques e sobretudo falsos selos, aqueles que no âmbito filatélico são chamados ‘cinderella stamp’ (um selo não utilizável no correio postal). O primeiro de tais selos, também ditos ‘artistamps’, foi produzido por sobreimpressão de um verdadeiro selo indonésio.[5]

            O Occussi-Ambeno começou a dar que falar no início dos anos Setenta. Em 1972, com efeito, foi o primeiro e único Estado a reconhecer a República de Minerva, fundada pelo milionário americano Michael J. Oliver e a seguir despejada por tropas de Tonga. Sem pré-aviso, alguns meios neo-zelandeses pareceram tomar a sério as declarações emitidas na ocasião pelo sultanato. Depois, a suposta sede do consulado de Occussi-Ambeno (uma caixa postal em Auckland, Nova Zelândia), único endereço público do sultanato, tentou estabelecer relações diplomáticas também com o principado do Mónaco e com o Liechtenstein[6].

Volante programático do New Zealand Party, partido fictício fundado por Murray Menzies, parceiro de Bruce Grenville.

            Entretanto, os selos de Grenville encontraram certo acolhimento no meio especializado, tornando-se em breve na principal fonte de receita do projecto. Em 1977, la Philanumismatica, um consórcio europeu sediado em Madrid, contactou a caixa postal de Auckland propondo-se adquirir o exclusivo de produção e venda dos selos do sultanato de Occussi-Ambeno mediante o pagamento de avultada soma (40.000 dólares, segundo Grenville)[7]. Um ano após, o consórcio apercebeu-se do erro e rompeu o acordo (embora continuando a comercializar os selos do sultanato até 1984). Entre 1978 e 1981 Grenville transferiu-se para a Austrália, passando a dedicar-se a outras iniciativas[8].

Envelope e selo occussiano comemorando o Encontro Internacional Anarquista de Veneza 1984, distribuídos alguns meses após o evento.

            Regressado à Nova Zelândia, além de criar em 1987, com os ganhos dos selos, uma tipografia onde se imprimia o jornal anarquista “The State Adversary”, retomou as rédeas da sua nação imaginária[9].

            Neste período delineou uma tecnologia ecológica e utopista totalmente independente do petróleo. Com uma declaração bombástica, no princípio dos anos oitenta, é assim apresentada a fábrica de dessalinização alimentada por energia solar, na província de Dragon. Esta ‘solução dos problemas da galáxia’ era o resultado das pesquisas de um certo dr. Paul Wilhelm Stoker, dos quadros do serviço de controlo de qualidade da real indústria de cogumelos alucinogéneos[10]. A tal propósito, segundo notícias divulgadas por Grenville, a exportação de cogumelos alucinogéneos constituía uma actividade económica fundamental do sultanato[11].. Existia além disso uma companhia de navegação, a Transonic Marine (composta de galeões trabalhando a vento e pilhas foto-voltaicas), e uma linha aérea, a Swiftair, usando dirigíveis zepelins cheios de hélio e trabalhando com energia solar, ambas companhias aliás tiveram os seus selos comemorativos[12].

            Nos anos 80, a história do sultanato do Occussi-Ambeno não se deteve. Em 1983, o governo provincial de Feripæga anunciou a sua própria abolição, sendo as suas funções assumidas por assembleias populares de bairro e distrito[13]. Dois anos depois, o Occussi-Ambeno aderiu ao International Council of Independent States (ICIS), uma espécie de internacional das nações imaginárias, fundada em 1984 por Geir Sør-Reime, ele próprio inventor da República de Mevu. Para comemorar o evento, o artista neo-zelandês Murray Menzies, “conhecido occussiano”, desenhou o seu primeiro selo[14]. Em 1985, o mesmo Menzies subscreveu um folheto de um certo New Zealand Party que propunha a Nova Zelândia como refúgio global em caso de catástrofe nuclear, reclamando a contribuição da ONU e da indústria mundial de armamento para um ‘fundo de sobrevivência’ destinado à compra de alimentos, água, medicamentos e tudo o mais necessário à sobrevivência após a catástrofe[15]. Nos anos seguintes, aprofundou-se a colaboração entre o Occussi-Ambeno e outros Estados imaginários. Além de pedir à Albânia comunista de Enver Hodja a libertação dos presos políticos, o sultanato participou com os seus selos em várias campanhas internacionais do movimento anarquista, nomeadamente na luta anti-nuclear.[16] Em 1984, Rino De Michele foi nomeado embaixador em Itália do Occussi-Ambeno e, em tal veste, apresentou ao sindaco de Comiso um protesto contra a presença dos mísseis americanos[17]. Grenville estampou outros selos, para recordar o 45.º aniversário da Guerra Civil espanhola e para contribuir a alguns eventos como o Encontro Internacional Anarquista de Veneza 1984, organizado pelo Centro Studi Libertai/Archivio G. Pinelli, de Milão, pelo CIRA, de Genebra-Lausana e pelo Anarchos Institute, de Montréal[18]. Como resulta de um documento conservado no fundo ‘Venezia ‘84’, foi estampado um selo para a ocasião, com 600 exemplares[19]. Em 2000, Grenville fez um curso de edição digital, design e criação de sítios web, graças ao qual produziu o primeiro selo do sultanato estampado a laser, aparecendo em 2010 um outro selo celebrando a suposta visita de Barack Obama. A brincadeira – para uns uma burla, para outros uma performance político-artística – mantém-se fiel, como vemos, à ideia de Grenville, expressa em 1985 com grande clareza: ‘Nós pensamos que se deve usar qualquer meio não ortodoxo na luta contra o conceito de Estado. E construir uma efigie da sua vaca sagrada para fins satíricos é algo certamente que eles não tomaram até agora em consideração[20].

(Trad. Albino Matos)[21]

Estatísticas da produção de cogumelos alucinogéneos dos Estabelecimentos Reais do sultanato, de Junho 1984 (ver nota 11).

[1] Bruce Grenville, Occussi-Ambeno: A Modern Satirical State, “Phlogiston”, (1985), n. 6, pp. 17-19. Há uma tradução italiana: Bruce Grenville, Occussi-Ambeno, “A rivista anarchica”, 1984, n. 122, pp. 23-26.

[2] Philip Hayward, Oecusse and the Sultanate of Occussi-Ambeno: Pranksterism, Misrepresentation and Micronationality, “Small States&Territories”, 2019, n. 2, pp. 183-194.

[3] Para Hayward, neste sentido, o Occussi-Ambeno seria vítima duas vezes, quer das disputas territoriais entre a Indonésia e Timor Leste, quer da expropriação simbólica resultante da “satirical play” de Grenville: ivi, pp. 191-192.

[4] Veja-se o interior do pequeno prospecto intitulado About Asia n.º 42 OCCUSSI-AMBENO, in: fasciculo Occussi-Ambeno, fundo “Venezia ‘84”.

[5] Geir Sør-Reime, Long live the sultan: The world and stamps of Bruce R. Henderson, “The Cinderella Philatelist”, 2016, disponível em: https://www.angelfire.com/country/mevu/Geir-article-on-BRH.pdf (consultado 4 Junho 2021).

[6] Bruce Grenville, Occussi-Ambeno, cit., p. 17.

[7] Ivi, p. 18.

[8] Sør-Reime sugere que Grenville deixou momentâneamente a Nova Zelândia, no regresso da Austrália (chamando-o ‘o exílio australiano’), pelos problemas surgidos com a Philanumismatica, embora não houvesse aí qualquer crime, já que ‘inventar terras de fantasia é ainda legal, sendo mesmo altamente compensatório para alguns que estão sempre a fazê-lo, escritores, directores de cinema’ (Geir Sør-Reime, Long live the sultan, cit.).

[9] Toby Boraman, Rabble Rousers and Merry Pranksters: “A History of Anarchism” in Aotearoa/New Zealand from the Mid-1950s to the Early 1980s, Katipo Books-Irrecuperable Press, Christchurch-Wellington, 2008, pp. 119-120. Não admira que em “The State Adversary” se encontrem algumas páginas dedicadas ao Occussi-Ambeno: Bruce Grenville and the Utopian State of Occussi-Ambeno, “The State Adversary”, (1987), n. 2, disponível: http://www.takver.com/history/nz/grenville.htm.

[10] “Desalination: Yet another solution to the problems of the galaxy from Occussi-Ambeno technology!”, in: fasciculo Occussi-Ambeno, fundo “Venezia ‘84”.

[11] Sultanate of Occussi-Ambeno. Royal Occussi-Ambeno Hallucinogenic Mushroom Factory – apresenta as supostas estatísticas da produção mensal de cogumelos, indicando o número de trabalhadores e laboratórios envolvidos, assim como a quantidade da produção. Os dois prospectos disponíveis do fundo fazem referência a 30 Junho e 31 Julho 1984, in: fasciculo Occussi-Ambeno, fundo “Venezia ‘84”.

[12] Para alguns exemplos desses selos da Swiftair veja-se o envelope datado de 21 Nov. 1983, endereçado a Mr. M. A. Menzies, 83 Stafford Street, Dunedin, Aotearoa, in: fasciculo Occussi-Ambeno, fundo “Venezia ‘84”.

[13] Bruce Grenville, Occussi-Ambeno, cit., p. 18.

[14] Geir Sør-Reime, Long live the sultan, cit.

[15] Veja-se o folheto The New Zealand Party, de 6 Fev. 1985, contido no envelope datado de 16 Dez. 1984, celebrando o encontro internacional anarquista “Venezia ‘84”, e tendo por remetente o sultanato de Occussi-Ambeno. In: fasciculo Occussi-Ambeno, fundo “Venezia ‘84”.

[16] Para dois exemplos (ambos de 1976, provavelmente), de selos do sultanato com o slogan “Stop all nuclear bomb tests!”, veja-se: Occussi-Ambeno. Catalogue des Timbres, s.p., s.d., in fasciculo Occussi-Ambeno, fundo “Venezia ‘84”.

[17] Como recordado in: “Luther Blissett-Rino De Michele, PropaganDADA: ovvero sperimentazioni di trasmissione del pensiero”, A rivista anarchica, 2012, n. 373, pp. 113-117, max. p. 114.

[18] Durante essas jornadas confrontaram-se cerca de três mil libertários num amplíssimo leque de temas, da ecologia social ao feminismo, passando pela arte, pela pedagogia e pelo antimilitarismo. Cfr.: Antonio

Senta, Utopia e azione, per una storia dell’anarchismo in Italia (1848-1984), Milano, 2015, pp. 228-229.

Para um relato visual do encontro: Ciao anarchici. Immagini di un incontro anarchico internazionale, Edizioni Antistato et al., Milano et al., 1986.

[19] O fundo conserva uma troca de cartas entre April Retter, â época fazendo parte do Centro studi libertari/Archivio Pinelli, e Bruce Grenville, de Out. 1984 a Fev. 1985, in: fasciculo Occussi-Ambeno, fundo “Venezia ‘84”.

[20] Bruce Grenville, Occussi-Ambeno, cit., p. 19.

[21] Artigo original in https://centrostudilibertari.it/sites/default/files/materiali/bollettino_57.pdf




Fonte: Colectivolibertarioevora.wordpress.com