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Instituto de Estudos Libertários entrevista Crystiane Leandro Peres


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Janeiro de 2021

  1. Quem é Crystiane Leandro Peres?

Paulistana do Jaçanã, ZN. Formada em Ciências Sociais em meados dos anos 2000, me aproximei do movimento sindical ainda no período da universidade e durante anos me dediquei nesta área como assessora de sindicatos e como militante mesmo. Em 2016, morando em Florianópolis, retornei aos estudos com o mestrado em história na Universidade Federal de Santa Catarina e passei a atuar no movimento estudantil.

  • Quando se deu o seu encontro com o anarquismo?

Conheci o anarquismo na universidade, nas aulas de ciência política. Apesar da abordagem limitada (o que pude perceber somente depois), tive uma identificação imediata e passei a ler e circular em espaços em que o anarquismo era debatido. A partir deste encontro o anarquismo foi passando a marcar minha atuação como estudante e trabalhadora. Mais tarde, em meados dos anos 2000, conheci a Biblioteca Terra Livre, onde pude estudar e aprender ainda mais sobre o anarquismo.

  • Nos fale um pouco sobre a sua trajetória militante.

Até recentemente não fazia parte de forma orgânica de agrupamentos políticos, mas a atuação como representante de trabalhadores em um dos locais em que trabalhei foi parte fundamental para minha construção como militante. Além disso, ainda em SP, acompanhava as movimentações na cidade como a luta pelo transporte e outras pautas. Mais recentemente, ao retornar para a universidade para cursar o mestrado e complementar a formação na graduação, em Florianópolis, passei a atuar mais diretamente no movimento estudantil. Consequentemente também, através da militância estudantil, foi possível atuar nas outras lutas na cidade. Atualmente construo o Círculo Estudantil Autônomo – CEA, recentemente criada após a greve da UFSC de 2019.

  • Sobre o seu trabalho de pesquisa e escrita relativo à Educação na Internacional, que motivos despertaram esse seu interesse?

Com relação à Associação Internacional dos Trabalhadores, as primeiras leituras que chamavam atenção para a importância da AIT na construção do anarquismo aliadas à minha atuação no meio sindical me levaram a querer conhecer mais. Tanto a universidade quanto o movimento sindical não abordavam o tema com a complexidade que pensava ser necessária e consegui me aprofundar um pouco mais nos espaços da militância anarquista. Os grupos de estudos promovidos pela Biblioteca Terra Livre foram fundamentais para isso, em especial aquele que abordava o movimento operário autônomo. Além disso, em 2012 ocorreu em SP, no espaço do Sinsprev, o mini-curso A Internacional, ministrado pelo Alexandre Samis e promovido pela Biblioteca Terra Livre. Estes dois espaços foram fundamentais para iniciar uma compreensão mais aprofundada do movimento operário na Europa do século XIX e da AIT na medida em que se discutiam a complexidade de ideias, tendências políticas em disputa e a diversidade de temas que eram objeto de reflexão dos trabalhadores na época. Nesta diversidade de temas discutidos pelos trabalhadores reunidos na AIT também estava a educação.

Ainda que superficialmente, percebi que essa forma de abordagem da educação no âmbito da AIT era distante de certas propostas que se enquadravam atualmente na chamada pedagogia libertária e que eram enquadradas como experiências anarquistas. Sendo assim, busquei me aprofundar um pouco mais na observação dos detalhes de como se dava esta abordagem da AIT no século XIX para posteriormente compará-la a iniciativas mais recentes.

  • Que aspectos do seu trabalho julga mais relevantes?

Acho que justamente apresentar e possibilitar a reflexão sobre a forma como a AIT discutiu o tema da educação e como ela estava intrinsicamente relacionada ao projeto social como um todo. Como as ideias foram sendo discutidas e desenvolvidas ao longo dos anos, influenciadas por reflexões que vinham sendo elaboradas em períodos anteriores, especialmente em períodos de revoltas populares como em 1848, e assumindo novos contornos conforme as linhas políticas hegemônicas iam se delineando dentro da organização. 

  • Como se deu essa relação entre projeto educacional popular e o anarquismo dentro da Internacional?

Mesmo havendo uma disputa de correntes políticas dentro da AIT, desde os congressos iniciais as resoluções caminhavam no sentido de negar por completo a educação estatal ou aquela proposta pela burguesia, na medida em que se reconhecia as implicações deste tipo de educação para a organização operária. Seja entre mutualistas ou coletivistas a negação das iniciativas dos inimigos de classe quanto à educação das crianças era consenso.

A vivência dos trabalhadores na época sustentava esta resistência na medida em que até então o acesso à educação ou era exclusiva para os ricos e/ou meio de doutrinação da igreja (doutrinação e exploração de crianças). A presença dos filhos dos trabalhadores nestes espaços contribuía para a reprodução por eles dos valores e ideais burgueses. Portanto, era necessário construir um novo modelo, baseado na experiência e protagonismo dos próprios trabalhadores.

Este novo modelo foi sendo discutido e as propostas variavam entre a defesa da instrução familiar/comunitária até os cursos públicos e escolas operárias. Independente do formato, defendia-se um ensino que contemplasse “o científico, o profissional e o produtivo”, delineando a ideia de ensino integral e em total oposição ao ensino religioso.

  • Como essa iniciativa reverberou na Comuna de Paris?

Assim como demais fatos históricos, a Comuna de Paris é fruto de muita luta e organização social em anos anteriores. As seções da AIT de diferentes agrupamentos de trabalhadores e os chamados clubes revolucionários impulsionavam a agitação popular, promoviam debates e construíam os princípios de uma nova organização social. Tudo isto, seguindo um princípio federalista, reverberava nos congressos da AIT e delineavam as resoluções da organização no encontro com contribuições de trabalhadores de outros países.

No que se refere à educação, as seções francesas e os clubes revolucionários se dedicavam de maneira intensa ao tema. Assim, a partir da Comuna foi possível colocar em prática aquilo que já vinha sendo pensado e reivindicado pelo povo.

Já nos primeiros dias da Comuna é criada uma comissão geral de ensino formada, em grande parte, por indivíduos filiados à AIT ou muito próximos da luta operária. Mesmo com o curto período de duração da Comuna e a necessidade de ter muitos militantes nas barricadas, ainda foi possível implementar medidas reivindicadas há tempos como a laicização do ensino, a gratuidade no acesso e a obrigação da frequência escolar – todos tópicos longamente discutidos pela AIT. Além disso, ainda há tempo para colocar em prática a popularização de museus, bibliotecas e teatros. A Comuna durou pouco, mas o que foi colocado em prática no período não poderia ser revertido por completo com o seu fim. Assim a Comuna proporciona ganhos significativos em termos educacionais para o povo naquela conjuntura.

  • Que paralelos podem ser estabelecidos hoje?

O interesse pelo controle da educação voltada para a classe trabalhadora por agentes da classe dominante segue vivo. Algumas especificidades são observadas em diferentes períodos, mas de maneira geral o plano segue seja através das investidas patrocinadas pelo banco mundial e compradas por governos da “esquerda” à direita seja através de propostas como a militarização das escolas públicas. 

Sem a intenção de cair em anacronismos, em linhas gerais as resistências mais radicalizadas a estes ataques podem sim representar paralelos com a luta operária do século XIX. As ocupações de escolas públicas ocorridas nos últimos anos por secundaristas, por exemplo, guarda características que nos remetem à experiência da AIT na medida em que se colocam contra medidas do Estado, ocupam os espaços, implementam novas formas de relações no espaço escolar, estabelecem fortes laços de solidariedade com trabalhadores da área da educação e com questões urbanas mais gerais.

9) É possível entender o anarquismo hoje sem essa genealogia histórica e pedagógica?

Não. Quanto ao anarquismo de maneira geral acredito que muita reflexão já se faz sobre o esquecimento de sua origem popular, operária e socialista e suas implicações. Contudo, quando se trata de educação parece haver uma tentação maior rondando certas propostas e iniciativas para caracterizá-las como de cunho anarquista, mas que mais se aproximam do campo burguês. A educação quando pensada pelo campo anarquista deve estar intrinsicamente ligada a um projeto social como um todo, movida pela ação, pela resistência radical e pela luta popular e dos trabalhadores contra o Estado e o capital.

10) Suas considerações finais.

Estudar, conhecer e manter a contribuição histórica de militantes anarquistas como uma referência ou base para reflexões atuais são sem dúvida uma necessidade.  Contudo, se este estudo e conhecimento não são acompanhados da prática política coletiva, seja no sindicato, no local de estudo ou na comunidade, corremos o risco de transformar as referências históricas em adereços. Que sigamos conhecendo cada vez mais o legado de tempos passados, mas que além de conhecer possamos utilizá-los para refletir sobre os desafios cotidianos da militância e da luta do povo.

Avante!

Abaixo segue a dissertação de mestrado da entrevistada Crystiane Leandro Peres intitulada “A LUTA PELO ENSINO LIVRE: A EDUCAÇÃO NA ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES – AIT (1864 a 1872)




Fonte: Ielibertarios.wordpress.com
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