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Instituto de Estudos libertários entrevista Edésio Silva


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Novembro de 2020

  1. Quem é Edésio Silva?

       Edésio Silva, professor da rede pública estadual e do município de Cabo Frio, estudioso e apaixonado pela literatura brasileira e pela língua portuguesa. Anarquista por convicção ideológica.

       Desenvolvo uma atitude em que, através da comunicação afetiva e compreensão social dos indivíduos que convivem cotidianamente em meu círculo profissional ou pessoal, tento inseri-los espontaneamente em leituras e conversas onde alcancemos o entendimento das bases institucionais da atual sociedade. Ao citar, contar, narrar, ou mesmo emprestar ou presentear livros, encontramos exemplos em personagens e enredos apaixonantes da literatura que da visão cultural imposta pela poder político tenham escapado, pelo entendimento das injustiças e pelo amor à liberdade e ao respeito por uma convivência pacífica e cooperativista, onde a felicidade deixa de ser individual, e renasça coletiva. A utopia vivida cotidianamente é com certeza o meu maior desafio pessoal.

  • Quando se deu o seu primeiro contato com o anarquismo?

Ainda em criança, comecei a ver injustiças no cotidiano do bairro, desde o jornaleiro, de onde eu não saía, até a escola, onde havia muita crueldade, mesmo entre os “amiguinhos” de classe. Sendo de origem pobre, comecei a senti-las ainda muito cedo. E o interessante é que toda essa crueldade, social ou mesmo interpessoal, vinha de forma natural e como se fosse a única possibilidade de convivência.

     Não demorou que eu percebesse que havia uma cultura disfarçada de amor, porém guiada verdadeiramente pelo ódio e pela submissão forçada dos indivíduos que fossem mais fracos. Seja fisicamente, como no pequeno universo da escola, ou socialmente, como eu via nas feiras-livres, onde crianças pobres carregavam em seus carrinhos de mão, feitos de tábuas de caixote, as compras das senhoras de respeito e muito cristãs que lhes davam, quando muito, duas ou três moedas de vinte centavos. Mas isso não era dramático aos olhos de ninguém, mas eu sentia e me apavorava. Claro que não era uma percepção epifânica como na literatura adulta, mas incipiente e até meio primitiva e isso a tornava mais dolorosa. Uma dor infantil e lancinante, da qual nunca me livrei. Hoje ela me assola muito, quando enxergo em meu filho especial o ser coletivo de tantos outros marginalizados, “banditizados” e perseguidos pela mesma sociedade que os ignora e abandona.

     Essa vivência me mostrou, ainda de forma não consciente, que as instituições ditas burguesas não traziam felicidade a todos e sustentavam uma mentira conveniente de que só a mereciam aqueles que as respeitavam e sofriam antes. Mas nem todos sofriam, eu via isso. E essa criança, revoltada em seus testemunhos e até vivências, já era um anarquista criando a Revolução em mim.

    Não tive uma infância de tristezas, tive uma infância de descobertas. E dessas a maior e melhor foi a literatura, que encontrava nas bancas de jornais. Havia ainda poemas espetaculares lidos nos próprios livros da escola. Nem sei como fugiam à censura aos livros didáticos. Um deles me marcou muito aos sete anos, foi “O Pardalzinho”, de Manuel Bandeira. Esse poema é minha primeira lembrança da revolta externada em linguagem que tive. A professora se espantou ao ler minha ingênua redação sobre o poema, relacionei intuitivamente o sofrimento da pequena ave à mesquinharia de uma sociedade onde só eram felizes os maus. Há também as histórias de um personagem, da revista Brasinha, um gigante, chamado Miudinho, que estava sempre em busca de trabalho e sempre salvava os habitantes de uma vila, da imposição ditatorial e arbitrária, proveniente deles mesmos, livrando-os de muita injustiça, mas eles sempre recaiam. Assim nasceu meu anarquismo.

    Com o tempo se solidificou com as leituras naturais que o pensamento nascido assim nos conduz.

     Ainda muito jovem, supus-me, por equívoco ou primitivismo, comunista e fui à procura de leituras, teorias e literaturas: Leo Huberman, Jorge Amado, Graciliano Ramos e muitos outros. Não fui imediatamente aos clássicos de Marx, Engels, Lênin. E posteriormente, quando os busquei, encontrei por sorte, antes os escritores anarquistas.

    Quando adulto, mas ainda muito imaturo, encontrei-me, no trabalho docente, com Alexandre Samis, que muito bem humorado, me trouxe leituras, reflexões e companhia para eu expandir essa revolta aos outros.

3)  Em circunstâncias você acha que o pensamento anarquista foi importante para você?

As circunstâncias em que o anarquismo se prepondera é transformação interna que nos torna sensível ao sofrimento do outro, mas sem que deixemos de buscar a felicidade. Compreendendo-a antes como um bem necessário a todos.

     Isso nos transforma, e então percebemos que a transformação ou a revolução ocorrem realmente no nosso dia-a-dia, com as pessoas próximas, depois chegamos às comunidades ou sociedades amplas, mas sempre com a visão essencial de que o inimigo não é fictício e de todos precisamos contê-lo. O maior dos inimigos é o Estado. E por isso nada muda realmente seja esquerda ou direita no poder, porque o Poder continua nos subjugando.  Talvez haja pequenas concessões aqui e acolá, com que a esquerda institucional nos agracie, mas também ela é útil ao que nos tentam vender como estado democrático burguês.

     O pensamento anarquista foi/é importante para mim por permitir que eu veja claramente o que é a realidade, e dar-me consciência de que podemos transformá-la. O anarquismo não se ilude com uma ideia de poder ou de só distribuir renda. É uma busca incessante, e nos leva inevitavelmente a um pensamento irrequieto que não se contenta e busca conhecer, estudar e querer saber sempre mais sobre o que pretendemos e como alcançaremos o caminho para isso.

     O anarquismo me tirou o imediatismo de quem se mata para mostrar sua revolta. Não é assim. Ele me trouxe a utopia, mostrando-me ali na rua as personagens que eu tanto admirava na literatura. Como a de Lima Barreto, por exemplo. Hoje eu convivo com tais personagens fisicamente, eu as vejo, interajo com elas, quando antes as via como num filme ou nas páginas dos grandes escritores. Agora eu vivo da utopia e com a utopia dos outros.

4) Conhecedores que somos das suas paixões literárias, em que medida pode existir uma relação entre elas e o anarquismo?  

Esse é o ponto até onde que o anarquismo me trouxe: antes eu via na literatura personagens, revoltas e até amores passionais apenas fictícios, agora vejo nela um microcosmo de uma sociedade que se perpetua na ganância, na busca do poder e da dominação. A literatura já me acena com essa realidade, mas só pude realmente discerni-la a partir do anarquismo. Mais ou menos assim: a literatura me levou ao anarquismo; o anarquismo me fez ver a literatura como instrumento de revolta e me inseriu na história daquela gente fictícia como seres criados em uma sociedade que existiu e existe mesmo. Onde antes era apenas arte, agora é política, história, economia, religião (como estudo e desmascaramento dela e de sua utilização para controle pelo poder) é mais um estudo de toda a sociedade através da literatura pela linha temporal dos séculos e dos estilos literários.

      Em livros como os de Machado de Assis, por exemplo, podemos ver o comportamento libidinoso e monetário da sociedade carioca incipientemente burguesa, sustentada no tripé igreja, família e bens, que destacava o homem como um indivíduo útil e elogiável pelo alto poder. Quanto ao libidinoso que aparentemente citei sem conexão, é a permissão dada, como licenciosidades, a esses “cidadãos” bem-sucedidos para desfrutar de exploração e de imposição e até de favores sexuais, sem que isso lhes manchasse a honra que lhes foi concedida indelével pelo estado. Vemos isso nitidamente nas personagens machadianas, Machado nos desnudava a sociedade com a qual ele mesmo convivia muito bem, mas isso não invalida o seu realismo. E onde isso mudou? Não mudou. Vejamos o caso recente, do julgamento de estupro onde uma vítima foi linchada moralmente em pleno tribunal, o culpado já havia alcançado esse “status quo” burguês e a denúncia não o alcançava. Há muitas personagens na literatura assim, como o Brás Cubas, por exemplo. Já em Lima Barreto, a visão era mais do homem suburbano à margem da elite endinheirada e dos salões carioca, mas com o pensamento pequeno-burguês.  Ali também se estabelecia a mesma diretriz: o sonho de crescer na vida e de mostrar para os vizinhos que alcançara o ideal de poder, agora poderia desprezá-los e/ou subjugá-los.  

     É interessante que vejamos a sociedade pelos olhos da literatura. É como uma máquina do tempo, que nos permite vivenciar situações que só o homem da época viveria. E para isso temos de estar preparados não apenas com os olhos do leitor entretido e divertido, mas também com o pensamento indo lá e voltando aos nossos dias. Todos os sentidos, a emoção pessoal e a reflexão crítica e questionadora devem atuar na apreciação artística. A obra de arte é refeita naquilo que somos e nos refaz naquilo que aprendemos dela e que levamos ao cotidiano.

     A arte é a forma mais eficaz de resistência e revolução.

5)   É possível ser anarquista em sala de aula?

Em uma sala de aula, ou em qualquer lugar. Ou se é anarquista, ainda que de uma forma intuitiva, ou não se sobrevive sem se render à lógica do capital, que é negociar notas e valores com os alunos.

     Em sala de aula, há antes que se desfazer da prática insensata e corrosiva de hierarquia em favorecimento de uma prática de cooperação recíproca. Deve haver até mesmo uma espécie de cumplicidade onde se aprende e onde se ensina. E nisso não se pode distinguir quem é professor e quem é aluno. Talvez o conceito de aprender ensinando, sorrindo e convivendo seja a base de toda pedagogia sensata, mas ele naufraga no mar de imposições que  faz de ambos, alunos e professores, presos ao fingimento e às notas. E por que isso ocorre? Muita complexidade parece haver por trás disso, mas é simples, perdemo-nos todos na repetição em sala de aula das perversidades vivenciadas na prática social. Queremos nos impor, com o argumento de que sabemos o que é melhor para os alunos. E isso o que é? É a repetição da prática patriarcal do senhor impositivo e sabedor que é o regente desde o papai e a mamãe, passando pela religião e reflete na continuação de uma sociedade injusta, machista, racista e tudo mais que vemos e sentimos na pele.

     O professor não é o senhor da classe. Assim morre qualquer pedagogia que se diga ao menos progressista.

     O aluno, por sua vez, busca uma negociação desesperada com o senhor professor usando daquilo que é sua única prerrogativa mais imediata de defesa: ou “pega leve” ou “zoneamos” toda essa “porra”. Por que agem assim? Parece óbvio que assim o fazem para demonstrar que também possuem poder e o usarão se não forem agradados.  

     Ambos, alunos e professores, querem impor-se. Pronto, assim estaremos presos para sempre num círculo vicioso.

     Isso é que ocorre inevitavelmente nas salas de aulas baseadas, ainda que inconscientemente, no modelo hierárquico que repete o estado e seu poder.

     O anarquismo com a autogestão, a redescoberta do ser humano e a cooperação para o desenvolvimento recíproco é a única tábua de sobrevivência aos náufragos que somos do sistema. Aí voltamos ao que eu disse lá início. Temos de tentar nos entender como necessitados, e com essa consciência buscarmos transformações. Não é fácil, mas é menos dramático do que se supõe.

     Certa vez um colega de trabalho se zangou quando me disse que não havia “finesse” nem reconhecimento dos alunos ao que tentávamos fazer por eles. Naturalmente que eu procurei ser educado, mas lhe respondi que a fineza não tinha calos nas mãos e muito menos vivia amontoada em cubículos e ameaçada continuamente pelo estado e também por isso viviam a nos agredir, porque nos viam como o poder do estado que os massacrava e pedia deles mansidão, ainda que assim o fizessem intuitivamente.

     Se não vivenciarmos a realidade social, econômica, cultural e política deles e não buscarmos perspectivas de melhorias através do humor, da alegria e até de certo prazer por conviver com os nossos cidadãos de sala de aula, não serão discursos acadêmicos e citações longínquas que nos livrarão de sofrer e de provocar mais sofrimentos do que eles já possuem. Não se conscientizarão de que somos iguais diante das injustiças sociais se agirmos como autoridades. Como disse, não é fácil, mas pode ser prazeroso ao invés de dramático, ainda que venhamos a brigar e até sofrer por isso.

     Na sala de aula, primeiro me vejo ali com eles, como eles. Depois, tento mostrar algo que vivencio e que tem muito a ver com que eles dizem e vivem. Aí entra a literatura, as histórias que narro ou conto, o teatro que fazemos com ironia social até a gramática para alcançarmos voz entre aqueles que nos depreciam e nos desprezam. É claro que entro em confronto com a equipe diretiva que representa o estado. Mas até nisso busco risos, gracejos e chegamos a um propósito, se não estamos inseridos nas mesmas pretensões libertárias, ao menos convivemos driblando a vigilância do poder instituído e evitamos frituras um dos outros. Assim arrumamos colegas, amigos e inimigos, mas é assim que se vive.

6) O que o anarquismo tem a dizer à política partidária?

 O que diz a todos. Não se pode combater o sistema explorador, sendo parte dele. Qualquer política partidária visa a repetir o preceito do poder, que é a hierarquia do mais forte, supostamente justificada pela legalidade. Basta olhar que a organização partidária, sendo de esquerda ou de direita, tem sempre uma liderança e as chamadas bases, que se cegam no sectarismo e na obediência ao “grande irmão”. Não há muita diferença entre os sonhos de seguidores partidários, principalmente da esquerda, e a religiosidade messiânica impulsionada pelo sentimento de culpa. O método de impingir culpa e vender o perdão é também usado pelos partidos que se dizem redentores.

     O anarquismo quebra os padrões e pressupõe a não submissão em prol de um legalismo covarde, que perpetua injustiças e que só existe para o benefício dos mesmos senhores.

     Não passa culpa de alienação ou de desinteresse pelo engajamento, não taxa de ignorante aquele que tem pouca ou nenhuma leitura, mas busca a libertá-lo justamente dessas amarras, deixando o indivíduo liberto do paradigma do controle superior, sem ser usado ou dominado por nenhum sistema ou líder.

     É a única maneira de sermos justos é buscarmos uma sociedade com base na autogestão e na capacidade do indivíduo de transformar a sociedade e produzir criativamente para si mesmo e para coletividade, suprindo-a e recebendo dela o se necessita, sem galgar e sem reconhecer como legítimo o poder ou qualquer um que o represente. E isso nenhuma organização partidária poderia fazer. Não se pode ter poder e representar o povo, isso seria a antítese da ideologia do bem comum, na verdade é um paradoxo.

     Há quem diga que o poder corrompe, mas ele é a própria corrupção. A essência da corrupção está na propriedade privada e se solidifica com qualquer forma de poder que a reconheça, buscará sempre controlar todas as perspectivas sociais que a questionem, para que se restrinjam apenas a algumas concessões. Para isso, surge a esquerda partidária com seu papel fundamental para manutenção dessa sociedade de terror, controlada pelo estado.

     Nenhum partido poderá fazer a Revolução que promete, pois é comprometido com o poder.

     Esse é o recado do anarquismo, não se compactua com nenhuma forma que falsamente represente os menos favorecidos. A sociedade toda está fundamentada sobre o sofrimento humano. Não há saída sem a negação do estado e o enfrentamento cotidiano pela desobediência civil. O teatro político-partidário é uma tragédia onde os oprimidos servem até a morte.

7)  Você já se sentiu atraído por alguma linha do anarquismo em particular?

Nunca pensei muito nisso e quase nada sei sobre estudos ou personagens que versam sobre o tema, mesmo na literatura ficcional, sobre tendências ou linhas anarquistas. Isso até me interessa, mas sei pouco e sou quase ignorante. Lembro-me de duas personagens, uma em “Germinal” de Zola e outra em um conto de Eça de Queiroz, com os quais muito me identifiquei e que seriam por suas atitudes individualistas.

      Ainda que eu acabe sempre numa espécie de visão coletivista, ou “anarcocomunista”, a minha propensão é de fato individualista e a prática a consolida também pacifista, embora eu me quisesse mais “confrontista”.  Isso não me leva a desconsiderar uma atuação mais organizacional ou mesmo sindicalista. Mas atuo, por assim dizer, no plano de indivíduo para indivíduo, buscando conscientizar-me da necessidade de não me satisfazer com resultados e instando os que comigo convivam, ainda que apenas por algum tempo, a uma atitude onde cresçam pelo estudo e pela transformação pessoal, antes de querer derrubar estruturas. Muito nos sentimos às vezes decepcionados, porque ainda não nos revolucionamos nem a nós mesmos e, mantemo-nos aquém do nosso próprio discurso, queremos ensinar sem que vivenciemos sequer o anarquismo nas nossas relações mais íntimas. Não me excluo disso. Daí talvez a linha individualista, ainda busco incessantemente minha própria revolução, em meu ser. Ainda me sinto preso a amarras e continuo meu processo de libertação. Descontraindo um pouco, lembrei-me dos versos finais do “Último Credo”, Augusto dos Anjos:

“Creio, perante a evolução imensa,
Que o homem universal de amanhã vença
O homem particular que eu ontem fui!”

     Sigo assim, e vou vivendo momentos e convivendo com pessoas, que me encontram, que me transformam e que me revelam a mim mesmo, na mesma proporção em que as encontro, que as transformo e que as revelo a si mesmas. A necessidade de ser, antes de fazer. Sinto-me mais à vontade, e menos culpado, se hão houver uma reunião, assembleia, ou outra imposição, para eu faltar.

8) Como você caracterizaria o atual quadro político?    

Não é promissor, menos ainda há esperanças nos ditos três poderes republicanos.

     O legislativo está forçosamente inclinado a endossar políticas que retiram direitos conquistados pela força da organização do trabalhador, seja por movimentos independentes de resistência ou por luta sindical. No Congresso, as lideranças de centro ou de direita dão as cartas. As de direita com tendências extremistas da mais cruel política. As de centro agem fingindo reflexão, mas com os mesmos objetivos. Enquanto no Senado há uma espécie de permanência retrógrada e em quase tudo reflete o Governo e seus interesses. Em ambos, as representações quase coronelistas do mais criminoso agronegócio e da força industrial, defensora da expansão das horas e dias da jornada de trabalho, endossam políticas como a reforma trabalhista e a previdenciária como se fossem questões primordiais para a sobrevivência do país.

      A atitude judiciária é o reflexo disso, perseguindo e criminalizando qualquer político que ouse minimamente aproximar-se da população, ainda que seja por um mero assistencialismo em busca de votos.

     A política econômica chafurda em um absurdo neoliberalismo, que destrói covardemente vidas mundo afora, criando tragédias humanitárias que envergonham a espécie humana e inviabilizam a vida de todos, excetuando-se a dos ricos. Aqui o papel das chamadas grandes mídias é o do “marketing” do sucesso econômico, que virá depois dos sacrifícios necessários, é avassalador. Enfim, nada de novo.

     O poder executivo em muito se parece com o fascismo. O líder espumando impropérios e galgando um controle total da sociedade pelas instituições governamentais. Ressuscitando mesmo a perseguição política e o horror da censura.

     Há ainda uma associação a um nacionalismo ufanista, intolerante a ideias democráticas, xenófobo e raivoso. Atua de forma intimidatória através de séquitos, que em determinados lugares mal se organizam em pequenos grupos, beirando mesmo ao ridículo. Em outros, controlam mecanismos significativos do estado através de uma milícia atuante e assassina, que tem até mesmo parte da Justiça sob controle e avança com garras sobre a população.

 9) Qual seria o papel de um anarquista na atual conjuntura?

É nisso que precisamos atuar, enquanto anarquistas: solidarizando-se com as vítimas sociais, vivenciando seu cotidiano, atuando em cooperativas, organizações, desenvolvendo autogestão de recursos e pontualmente de forma individual aqui e ali… Despertando consciência e conscientizando a si mesmo de que o conhecimento, seja ele acadêmico ou empírico, deve servir como instrumento de justiça social e aproximação do ser humano, pela dignidade, justiça e convivência libertária de amor e de luta, cotidianamente.

     O campo da comunicação é essencial. A articulação anarquista desenvolve-se pela liberdade de expressão e a disponibilização da informação através das mídias livres, usando canais interativos e até redes sociais, criadas pelo poder capitalista para alienação. Nisso podemos atuar até mesmo no Twitter, Facebook, Whatsapp, YouTube, etc.

     Nos impossibilitados de quase tudo, há ainda de se fazer um trabalho meio que assistencialista e até envolver-se individualmente nas dificuldades cotidianas das vítimas do capitalismo, que em sua maioria ignora sua própria condição política, mas nunca corroborando com a ideia fatalista que conduz o oprimido ao sonho opressor (Paulo Freire), mas com a visão revolucionária que se firma em cada traço ou célula anarquista atuante: mutirões, festas culturais, espaços de leitura, entretenimento, conversas, discussões, filmes, contação de histórias… Assim seja no meio urbano ou rural.

   É preciso libertar-se da ignorância cega pela sobrevivência para então difundir a libertação, atuando, revolucionando e divertindo no mesmo plano.

10)  Suas considerações finais.  

Agradeço a todas as pessoas que comigo convivem nessa Utopia: Aninha, Daniel, meu filho amigo e companheiro, aos alunos que tratam comigo cotidianamente e aos amigos, mesmo que tenham visões diferentes, mas com civilidade e humanidade suficientes para não aceitar esta injusta estrutura social, na qual todos estamos inseridos.

             Deixo um afetuoso e efusivo abraço ao amigo de anos, Alexandre Samis, com quem sempre aprendo.

              Na esperança dos versos de Drummond, fico aqui:

“Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.”

(“A Rosa do povo”, 1945. Trecho do poema “A flor e a náusea”)




Fonte: Ielibertarios.wordpress.com
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