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Instituto de estudos libertÁrios entrevista gabriel ribeiro


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Junho de 2022

Gabriel Ribeiro

1) Quem é Gabriel Ribeiro?

Sou banhado pelas águas das encruzilhadas da vida – dos encontros com diversos afetos. Sou um paulistano carioca, nasci na capital de São Paulo, fui para o Rio de Janeiro (capital) aos sete meses de idade, entende? Sou um cidadão carioca que preserva o corinthianismo do pai. Sou fotógrafo, macumbeiro e anarquista. Um autodidata desertor de um modo de vida imposto pela classe média. Sou um entusiasta em desobedecer uma ordem autoritária. Sou filho de Xangô (não iniciado) e gosto de beber das fontes ciganas também. Falar da gente é sempre complexo, pois queremos sempre falar do melhor que nós somos. E uma coisa que aprendi com os anarquismos, é reconhecer as próprias contradições – não fugir do “problema”. A minha natureza pode ser tão doce quanto subversiva. Não suporto “dar ordem”. Sou um amante da vida libertária!

2) Quando teve o seu primeiro contato com o anarquismo?

Meu primeiro contato “de fato” com o anarquismo se deu nas “Jornadas de Junho de 2013”, durante os protestos de rua. As táticas do ‘bloco preto’ despertaram muito a minha atenção nessa época, comecei a querer entender e compreender os seus motivos, as suas perspectivas. Eu diria que o meu anarquismo seja “filho” dessas jornadas. Desde então passei a me reconhecer como anarquista, mesmo que pela via empírica. No mesmo período, criei um circuito de estudos e frequências em galerias de arte e centros de cultura, para me dar uma base intelectual e artística para a caminhada na fotografia. Só bem mais tarde, já durante a pandemia, iniciei a responsabilidade e comprometimento no engajamento das pautas anarquistas.

Foto do projeto “Ruínas: fragmentos de uma cidade” – Sesc-Nogueira

3) Nos fale um pouco de sua trajetória antes de chegar ao anarquismo.

Em 2013 eu tinha 28 anos. Venho de uma família de classe média, filho de pai bancário (servidor público, atuou por muito tempo como gerente de banco) e mãe bancária, também, atuando por muito tempo em funções administrativa dentro das agências (uma servidora pública). Entrei para a faculdade de Publicidade de Propaganda em 2005, aos 20 anos de idade. No meio do curso eu tranco por questionar o sistema capitalista por conta dos filósofos que tive acesso no curso. A partir deles, não me lembro como, chego até Karl Marx. Fiquei até os meus 29 anos “batendo cabeça” em empregos nos ambientes corporativos. Com 29 ganho uma máquina fotográfica do meu pai. Em 2012 saio de casa sem dinheiro algum por me sentir humilhado pelo meu pai, desde então, com meus 28 anos, minha relação com a rua ganhou outra dimensão, bem diferente daquela “pequeno-burguesa” de antes. As rodas de rap, as festas de rua, encontro com pixadores, andanças pelas rua do Rio de Janeiro e sobretudo, nas ditas festas “undergrounds” da cena da música eletrônica – seja como amante, seja como fotógrafo. – Quando fui morar na região serrana, a vida me trouxe alguns apontamentos, gerando reflexões e amadurecimento. Por aqui, produzi projetos fotográficos como: “In-Formal” que conta um pouco das histórias de vendedores ambulantes em Itaipava, distrito de Petrópolis-RJ, esse trabalho foi exposto no Centro no Centro Cultural Raul de Leoni; “Corpos Docentes”, no qual busquei valorizar o pensamento crítico de cada professor e professora, a exposição aconteceu na Sala Augusto Ângelo Zanatta, espaço da Prefeitura de Petrópolis; Ruínas: fragmentos de uma cidade – levantei umas questões envolvendo as casas abandonadas, as obras ficaram expostas no Sesc-Nogueira. Antes da pandemia tornar esta tragédia que se tornou, eu estava fotografando os quilombolas do Quilombo Boa Esperança, no município de Areal-RJ, o intuito era mostrar como essa comunidade de organiza e promove seus modos de sociabilidade. Esse projeto se encontra suspenso até eu poder retomar com todo o cuidado necessário. Tive algumas fotografias publicadas em jornais e no Foto em Pauta.

4) Você se identifica com alguma linha histórica do anarquismo?

Eu ainda preciso beber mais das diversas fontes que os anarquismos oferecem. Preciso ser honesto com meu corpo. Respeito muito os compas e as compas que seguem uma linha histórica do anarquismo. Se eu fosse ter que colocar uma referência, me colocaria como um anarcomacumbeiro, vejo a minha ancestralidade muito presente nas culturas da diáspora africana. A somaterapia de Roberto Freire me influencia. Os anarquistas clássicos europeus. Os diversos coletivos aqui do Brasil, sobretudo o Centro de Cultura Social. Onde tiver resistência contra o opressor e o discurso hegemônico, estou dentro. A questão do corpo me interessa bastante.

5) Existe possibilidade de um diálogo entre o anarquismo e a espiritualidade?

Muito obrigado pela pergunta. Eu creio que existe esta possibilidade. A princípio, por uma questão intuitiva. Com todo respeito, não me preocupo com “bancas” acadêmicas, entretanto, dentro do meu autodidatismo, preservo a responsabilidade de buscar elementos que mostrem o quanto anarquismo e espiritualidade são complementares e não antagônicos. Veja bem, pensar os espaços de terreiros, de Umbanda e Candomblé, pra ficar nos mais conhecidos, são espaços de resistência a uma ordem colonial vigente. Um dos pilares básicos do anarquismo não é o enfrentamento a qualquer autoridade absolutista? Pois bem, não consigo visualizar antagonismo entre essas duas visões de mundo. A noção de Exu por exemplo, pode ser entendida como um saber filosófico, uma noção intrinsicamente subversiva à heteronormatividade. Culturas indígenas lidam com a espiritualidade concebendo esta relação entre a matéria e o espírito-natureza-divino. Os rituais da Umbanda e do Candomblé, por onde passei, visam energizar, potencializar, a vitalidade dos corpos. Contradições nesses espaços de terreiros, existem? Bastante! Nas organizações anarquistas, também. Atualmente busco compreender melhor esse diálogo entre o anarquismo e a espiritualidade, por uma via independente, sobretudo por conta da pandemia (que me afastou dos terreiros) e por um questionamento que faço com relação a estabelecer um comprometimento, uma espécie de regimento, com alguma casa de axé. Lorenzo Kom´boa está “me ajudando” a compreender muitas questões que envolvem os saberes da matriz africana com o pensamento anarquista. Se querermos nos organizar para desmantelar esse sistema capitalista, a luta antirracial é um pilar indispensável para a construção de uma transformação social.

Foto do projeto “Corpos Docentes” – Sala Augusto Ângelo Zanatta, Petrópolis-RJ

6) Nos fale do seu trabalho no canal À Margem.

O canal À Margem nasce por conta de uma busca minha por engajamentos sobre o anarquismo. Quando começou a pandemia, a galera da esquerda aqui de Petrópolis, me chamou para um curso sobre o pensamento marxista. Assistir o curso quase todo mas não tava preenchendo uma constante revolta latente em mim. Foi aí que comecei a ver diversos debates sobre o anarquismo, comprar livros e ver filmes. Como a fotografia estava sem atividade por causa da pandemia, senti que tinha que criar um canal anarquista para não só difundir as minhas percepções anarquistas, como também promover reflexões e debates (com o programa Bate-Papo À Margem). Com isso, o intuito é propor olhares descentralizados, com a noção anarquista, e dando espaço para qualquer narrativa “anti-hegemônica”. Lá no canal já pude conversar com Amir El Hakim, Alexandre Samis, Danilo Heitor, Rose Macfergus, Sergio Ricardo, Geraldine, Red, Luis G, Ramon Ortiz e Charles Almeida, pra ficar só nos anarquistas.

7) Sobre a conjuntura atual, o que você teria a dizer?

Em síntese, a conjuntura atual é mais uma crise que os interesses da grande burguesia está encontrando com o percusso que o capital vem fazendo. Creio que há um elo que vem desde os períodos medievais, feudais, dos impérios, que é o tal do poder, prestígio e força política. Essa espinha dorsal se transformou ditadura da burguesia, criando a sua “democracia”, o Estado, tecnologias políticas, para protegerem as suas expansões mercantis. O mercado financeiro descobriu que pra gerar mais capital, não “necessariamente” precisa da mercadoria, basta especular na bolsa de valores – retirando os diretos trabalhistas, desonerando as folhas de pagamentos e com esse excedente, jogar nas ações do mercado financeiro. E classe média, frustrada por não conseguir se tornar um grande burguês, dono de oligarquias, reproduz o discurso reacionário de uma classe política que existe para atender aos interesses dos magnatas. O mesmo discurso que Mussolini e Hitler faziam. E os dias atuais estão requerendo de nós libertários, em especial, toda a cautela e coragem, para que possamos, também, nos articular com outras correntes antifascistas, comunidades indígenas, do campo, etc. Com a domesticação dos partidos de esquerda, com a biovigilância, só nos resta nos organizarmos e saber as demandas da massa, para que numa grande mobilização social, possamos não só preservar a nossa dignidade mas como criar um novo mundo, sem a tutela do Estado e do grande capital.

8) O projeto anarquista tem viabilidade hoje?

Por mais que o cenário esteja bastante hostil para as chamadas forças anticapitalistas, sobretudo para os mais radicais (no sentido legítimo da palavra), acredito que essas viabilidades, precisam ocorrer a partir dos bairros, das localidades, das comunidades, resgatando ou ressignificando as noções de Comunas, Assembleias, Associações e de Sindicatos, para que dentro dessa linha de organização, o fortalecimento coletivo e social, consiga potencializar as suas demandas sociais. É complexo. O imediatismo é uma armadilha, porém, quem tem fome, moradia precária, repressão constante, tem pressa, sede de transformação. É de baixo para cima que virão as melhores soluções.

9) Suas considerações finais.

Estou muito contente de ter participado dessa entrevista pela via da escrita. Um convite feito pelo Alexandre Samis, por quem tenho profunda admiração e respeito diante da caminhada que vem escrevendo dentro no anarquismo brasileiro.

As coisas estão bastante difíceis para a maioria das pessoas. É poder de compra diminuindo bruscamente, direitos trabalhistas sendo retirados, carga de trabalho aumentada, ascensão de um fascismo do séc. XXI, tudo isso desanima, suga as nossas energias. A revolta é necessária, legítima. Mas companheiros e companheiras, é muito importante que cuide de seus corpos, não deixando o adoecimento tomar conta. Um corpo triste perde a sua potência.

Amor e coragem

Macumba e anarquia!




Fonte: Ielibertarios.wordpress.com
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