en / fr / es / pt / de / it / ca / el

As notícias de 80 coletivos anarquistas são postados automaticamente aqui
Feed de notícias atualizado a cada 5 minutos

Instituto de Estudos Libertários entrevista Hamilton Theodoro


254 visualizações


Dezembro de 2020

Conduzida por Alexandre Samis

  1. Quem é Hamilton Theodoro?

Nasci no Rio de Janeiro, no ano de 1976. Sou filho de mãe alagoana e pai mineiro. Meus pais se conheceram na Universidade do Estado da Guanabara (UEG). A UEG se tornou Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) no ano de 1975. Minha mãe estudou pedagogia e meu pai filosofia. Meu pai já era historiador formado pela Universidade Pontifica Gregoriana do Vaticano. Nasci em plena ditadura militar. O Brasil era governado com mãos de ferro pelo ditador Ernesto Geisel. Na infância estudei nos colégios municipais Bárbara Otoni e Benedito Otoni, localizados na Rua Senador Furtado, na Praça da Bandeira. Ambos ainda existem. Cursei História na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNI-RIO). Desde 2006, trabalho como professor de História na rede estadual do Rio de Janeiro (SEEDUC-RJ). Fiz pós-graduação em Ciências da Religião, em 2008. Me formei no mestrado em História em 2014. Em 2018 publiquei o livro Anarquismo e a formação do Partido Comunista do Brasil (P.C.B.). Atualmente estou cursando doutorado no Programa de Pós-Graduação em História Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGHC-UFRJ).

  • Como e quando se deu o seu contato com o anarquismo?

Na infância, ouvia falar vagamente em anarquismo. Conhecia uma ideia de anarquismo superficial, herdeira do senso comum de tradição platônica. Naquele período, as escolas não ministravam aulas ou estudos sobre o anarquismo, no máximo uma referência tímida no canto de uma página de livro didático de História.  Inicialmente li O que é o anarquismo?, da Coleção Primeiros Passos, editada pela Editora Brasiliense. O autor é Caio Túlio Costa. Não esclareceu muita coisa. Na faculdade li, por conta própria, os dois famosos volumes do livro História das ideias e movimentos anarquistas, de George Woodcock. Pouco tempo depois adquiri Um cadáver ao sol, de Iza Salles.

Conheci o anarquismo na prática do trabalho docente, em escolas públicas na cidade de Angra dos Reis. Nosso cotidiano de trabalho me levou a participar do núcleo do Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação em Angra dos Reis (SEPE-ANGRA). O núcleo era muito atuante na cidade e em Parati. Formado, em sua maioria, por professores anarquistas, apartidários e simpatizantes. Ficou conhecido como um núcleo anarquista, fato incomum do SEPE-RJ naquela época. Participava das atividades sindicais do núcleo. Essa participação contribuiu para minha formação política. Outro fator foi a pesquisa sobre o anarquismo no mestrado. Ao ingressá-lo, apresentei um incipiente projeto de dissertação sobre o anarquismo no Brasil. Minha orientadora Marly Vianna me ajudou a desenvolvê-lo e, sob sua orientação, passei a realizar uma pesquisa abordando a trajetória de militantes libertários no Brasil durante a Primeira República (1889-1930). Para realizar a dissertação, pesquisei jornais anarquistas da época. Comecei a comparar o conteúdo desses periódicos com o que vivenciávamos no SEPE-RJ. Tive acesso a uma bibliografia mais consistente sobre anarquismo, para produzir a pesquisa de mestrado. Os livros A conquista do pão de Piotr Kropotkin, Escritos revolucionários e Entre camponeses de Errico Malatesta contribuíram para desenvolver minha formação política. Outros importantes livros que potencializaram minha formação foram A doutrina anarquista ao alcance de todos de José Oiticica, A Insurreição anarquista no Rio de Janeiro de Carlos Augusto Addor, Clevelândia e Minha pátria é o mundo inteiro de Alexandre Samis, Deus e o estado de Bakunin etc. Tentei comparar essas leituras com experiências práticas no SEPE-ANGRA e outras experiências históricas concretas.

  • Que aspectos da sua militância você julga que merecem destaque?

Acredito que minha militância não mereça destaque. Ela é muito parecida com a das demais pessoas que participam de um núcleo ou regional do sindicato (SEPE-RJ). A experiência adquirida na luta sindical é coletiva e não individual ou baseada no mérito do militante.

Inicialmente trabalhei um ano de contrato temporário na SEEDUC-RJ, em 2006. Não tinha estabilidade e poderia ser dispensado a qualquer momento no meio do ano letivo. Passei no primeiro concurso na rede estadual de educação do Rio de Janeiro, em 2007. Ao entrar na sala de aula de uma escola estadual, percebi quer o ensino público estava totalmente sucateado, com profissionais da educação explorados, extenuados, empobrecidos, sem perspectivas e adoentados. Não existe nenhum estímulo para estudarem, desenvolverem seus conhecimentos e ferramentas pedagógicas. Os planos de carreira dos professores estaduais estão congelados, pois os governos não os cumprem. Se o professor quiser estudar, precisa conciliar suas cansativas jornadas de trabalho com estudos. A grande maioria não consegue.

A política estadual de ensino da rede estadual do Rio de Janeiro produz uma ausência de perspectivas também nos estudantes. Eles não têm estímulos para estudar, as salas de aula estão superlotadas com professores desanimados. Não existe esperança de acesso a universidades, pois a escola pública não os prepara para tal e as vagas são muito disputadas.

Os professores não são referências para os estudantes. As direções das unidades escolares estão apenas preocupadas com o cumprimento das metas pedagógicas impostas pela SEEDUC-RJ. Para maquiar essa política estadual educacional, a SEEDUC-RJ utiliza avaliações externas, contratadas a empresas privadas, ignorando o desenvolvimento pedagógico das turmas e o trabalho dos professores com os conteúdos programáticos ministrados. No entanto, os estudantes resistiram contra a obrigatoriedade dessas provas, de diferentes maneiras e em todas as escolas da rede.

Os prédios das escolas estaduais não recebem manutenção, as estruturas físicas estão destruídas, muitas vezes sem água, sem limpeza. Muitas das unidades escolares estão abandonadas sem inspetores escolares. Os profissionais de educação da cozinha e da limpeza são contratados por empresas terceirizadas que visam somente ao lucro e, para alcançar esse objetivo, são pagos salários baixíssimos. Essas empresas terceirizadas alternam vários meses sem pagar os salários desses profissionais da educação.

Claro que, dentro desse nefasto contexto, percebi que outros professores percebiam a mesma coisa, tinham as mesmas experiências. Não eram todos, mas muitos entendiam que o sindicato era um importante meio de materializar formas de resistência contra essa política educacional alienadora. Na prática, percebemos que esse era o meio de lutar por uma educação pública de qualidade, conquistar direitos, descongelar nosso plano de carreira e melhorar nossos baixos salários. A primeira greve de que participei foi a de 2009. Na greve de 2011, foi realizado o acampamento em frente à Rua da Ajuda, no Centro, onde ficava o prédio da SEEDUC-RJ. Em um dos colégios onde trabalhava em Angra dos Reis, a greve ganhou 100% de adesão. Ficou totalmente paralisado em todos os turnos e em todos os dias da semana. A greve conquistou melhorias salariais para os profissionais da educação. Nessa greve me aproximei do Núcleo Angra dos Reis do Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação do Rio de Janeiro (SEPE-RJ). Um núcleo libertário dentro do sindicato.

Em 2013 e 2014, as forças anarquistas e apartidárias do SEPE-RJ mobilizaram e organizaram fortes greves. No entanto, cabe ressaltar que um sindicato não é uma organização homogênea. A greve de 2013 foi a maior e mais forte de que eu participei. Foram greves unificadas com a rede municipal do Rio de Janeiro. A greve de 2013 aconteceu após as Jornadas de Junho no mesmo ano. Nessas duas greves, o governo estadual escolheu professores militantes para acusá-los de abandono de emprego enquanto estavam exercendo o direito constitucional de fazer greve. As greves ganharam apoio popular e se tornaram grandes. Em 2013, o governo precisou utilizar, além desses subterfúgios, violenta repressão e até mesmo o Supremo Tribunal Federal para acabar com a greve. Essas greves também conquistaram melhorias para os professores. Quando a greve acabou, muitos professores que haviam sidos acusados de abandono de trabalho foram proibidos de dar aulas em suas escolas. Em Angra dos Reis, muitos professores chegaram cedo nas suas escolas, desobedeceram suas direções escolares e deram aulas em suas respectivas turmas.

Em 2016, aconteceu outra greve muito forte. Professores aprovaram greve e, em seguida, estudantes de diversas escolas estaduais ocuparam suas unidades escolares em apoio aos profissionais da educação. Centenas de escolas ocupadas foram atacadas com ameaças e violência física contra estudantes ocupantes. Até mesmo os prédios da SEEDUC-RJ e das metropolitanas foram ocupados pelos discentes. Foi uma greve vitoriosa. Foram reconquistadas eleições para diretores das escolas (o governo decidia os diretores), dois tempos de aulas para sociologia e filosofia por semana (antes era apenas um tempo de aula por semana), o fim da avaliação externa conhecida como SAERJ, verbas financeiras para escolas recuperarem suas estruturas deterioradas no decorrer de décadas sem investimentos estatais etc. No fim do ano, me transferi para o Rio de Janeiro.

Em 2018, aconteceram eleições do SEPE-RJ. Surgiram algumas chapas anarquistas. A chapa 68 concorreu para compor direção na Regional 1, na cidade do Rio de Janeiro. Graças aos esforços de muitas pessoas, a chapa foi bem votada e conseguiu indicar um diretor para a Regional 1. Assim como a chapa 68, também concorreu a chapa 23 na Regional 3 e elegeram dois diretores. Teve chapa única no Núcleo Angra dos Reis juntamente com Parati. Outra em Maricá, etc. Essas conquistas foram graças a trabalhos de formiguinhas construídos por muitos militantes. Alguns deles já falecidos. Não posso deixar de registrar aqui o falecimento do professor de biologia Rodrigo Massal, um militante atuante no núcleo do SEPE-ANGRA. A covid-19 ceifou a vida desse valoroso militante, assim como está acontecendo com inúmeros outros profissionais da educação.

  • Como você relacionaria educação e anarquismo?

A educação é uma atividade essencial da vida humana. Nós seres humanos, desde a mais tenra idade, estamos ansiosos por aprender. Essa vontade nem sempre é canalizada pela política governamental de educação. Qualquer ideia de sociedade passa pela educação. As políticas educacionais, principalmente municipais e estaduais, propositalmente formam mão de obra barata, competitiva e consumidora. O objetivo da escola pública no Brasil é esse. A educação pode ser uma eficaz ferramenta de libertação e os anarquistas perceberam isso no século XIX. Na França, surgiu a escola La Ruche. Ferrer Y Guardia criou a Escola Moderna em 1901, na Espanha.  O próprio foi fuzilado pelo governo espanhol, em 1909. Assassinado por acreditar e implementar uma educação libertadora para os padrões do início do século XX. Aqui no Brasil, as escolas de educação anarquista foram financiadas por redes de apoio mútuo, baseadas na prática da autogestão no início do século XX. Ficaram conhecidas como Colmeias por causa da proposta pedagógica de Sebastién Faure. Foram realizadas pela iniciativa e ação direta dos trabalhadores organizados através do anarquismo. No Rio de Janeiro, existiu a Universidade Popular de Ensino Livre organizada pelos libertários em 1904. A educação foi uma atividade estratégica e relevante para os anarquistas e deve continuar a ser nos dias atuais. A sala de aula deve ser um local de ensino de conhecimentos específicos e também de valores e conceitos universais para uma convivência harmônica e justa entre os seres humanos.

  • Sobre sua experiência em 2013, o que tem a dizer?

A meu ver, esse é um fato complexo, relevante e precisa ser debatido. Muitos professores participaram dessas manifestações. As Jornadas de 2013 foram gigantescas mobilizações heterogêneas e populares. O que vimos nas ruas em 2013 foram milhares de pessoas, muitas independentes, grupos políticos heterogêneos, alguns antagônicos, anarquistas, político-partidários de esquerda, nas ruas de muitas cidades do Brasil.

O nosso país estava no final do primeiro governo de Dilma Russeff do Partido dos Trabalhadores. Meios de comunicação noticiavam exaustivamente seguidos casos de corrupção no governo PT. No Brasil, todos os governos sempre participaram de esquemas de corrupção. O PT alcançou a presidência em 2002 prometendo a realização de algumas políticas sociais e, ao mesmo tempo, manter os meios de produção, consequentemente a concentração de renda financeira nas mãos dos grupos dominantes.

O Estado do Rio de Janeiro e a prefeitura do RJ eram governados pelo PMDB aliado do PT. O Brasil estava nas vésperas da Copa do Mundo de 2014 e continuava com baixos investimentos estatais em serviços públicos como saúde e educação. Os governos federal, estaduais e municipais praticavam generosos gastos financeiros em obras de modernos estádios de futebol e em adaptações milionárias de cidades brasileiras que sediariam a Copa do Mundo organizada pela FIFA. A máfia dos transportes públicos continuava cada vez mais rica, prestando péssimos serviços para a população carioca. Muitos moradores foram removidos de suas casas por causa dessas obras. Foram instaladas Unidades de Polícia Pacificadora em comunidades carentes, com objetivo de controlá-las durantes esses chamativos eventos internacionais.

Dentro desse contexto, surgiram as primeiras manifestações de descontentamento popular. Somado a esse contexto, aconteceu o assassinato do pedreiro Amarildo, que desapareceu em 14 de julho de 2013, após ser levado pela Polícia Militar do RJ. Esse fato revoltou grande parcela da população. O barril de pólvora precisava apenas de uma fagulha para explodir. Essa fagulha surgiu através de protestos convocados pelo “Movimento Passe Livre” em São Paulo. Esse grupo se apresentou como um movimento horizontal e apartidário. No Rio de Janeiro, as manifestações foram convocadas inicialmente pelo “Fórum de lutas contra o aumento de passagens.” Era formado por militantes independentes, anarquistas, marxistas, membros de partidos políticos de esquerda etc. Em junho, aconteceram as primeiras manifestações e elas foram crescendo.

Aconteceram, gigantescas manifestações populares na maioria das capitais e em cidades do Brasil. Tais manifestações foram violentamente reprimidas pela Polícia Militar. Os empresários que controlam o nosso país exigiram repressão estatal imediata e criminalização dos manifestantes. O Brasil sempre foi o país da coerção, desde 1500. A violenta repressão policial fez surgir no Brasil a tática black block, originária da Alemanha. No entanto, a tática carecia de método e ganhou características próprias no Brasil. Foi facilmente infiltrada por agentes das forças de repressão.

Com o crescimento das manifestações, 23 manifestantes foram criminalizados pela justiça brasileira. Era um claro recado para a população. Precisavam tirar o povo da rua devido à aproximação dos eventos esportivos internacionais. Rafael Braga foi o único encarcerado por tempo indeterminado, devido à cor da sua pele e origem social. Dois manifestantes pobres foram criminalizados pela morte de um cinegrafista de um canal de televisão por causa da explosão acidental de um rojão. Os meios de comunicação propagavam esse acidente exaustivamente para provocar repulsa da população às manifestações.  Mesmo com evidências confusas e imagens estranhas usadas como provas, os dois rapazes foram presos e trancafiados nos porões carcerários de nossa sociedade. Os demais manifestantes do grupo dos 23 presos políticos da Copa não ficaram muito tempo presos, no entanto continuaram a sentir o preso da perseguição política travestida de jurídica. A exceção foi de um estudante de geografia da UERJ que ficou encarcerado por algum tempo.

Considero um erro crasso interpretar as manifestações de verde e amarelo como desdobramento dessas manifestações de 2013 e 2014. Também entendo como um equívoco considerar a eleição do atual presidente como consequência das manifestações de 2013. Elas foram destruídas ao custo de inúmeras infiltrações de militares e policiais entre os atuantes grupos de manifestantes, através de muita violência, mutilações de olhos, braços quebrados, prisões dos 23 presos políticos da Copa. Em nada se parecem com as manifestações de verde e amarelo.

O PT preferiu realizar obras faraônicas, construir elefantes brancos nababescos superfaturados, garantir os lucros astronômicos dos empresários e reprimir muitos manifestantes. Criminalizá-los. Se entendesse o que realmente estava acontecendo nas ruas, garantiria os investimentos financeiros de parte de recursos públicos em políticas sociais como saúde e educação. E as obras da copa e olimpíadas seriam realizadas com recursos financeiros privados dos empresários.

  • Você tem preferência por alguma linha específica do anarquismo?

Não me sinto à vontade para apontar uma linha específica do anarquismo. Não reivindico nenhuma corrente histórica ou atual da ideologia ácrata. O anarquismo é fruto de experiências históricas concretas. Não podemos inverter essa lógica e apontar uma ideia anarquista como o caminho certo para alcançarmos nossos objetivos. Ao defender uma linha do anarquismo, podemos cair no erro de criar uma divisão ou separação da classe social ou movimentos sociais em luta para melhorar suas condições de sobrevivência.

Essas linhas do anarquismo, a meu ver, são referências. São importantes, mas não são o fim em si mesmas, apenas o meio. Entendo que o anarquismo é uma ferramenta de enfrentamento do proletariado e de minorias oprimidas, contra a exploração e opressão dos poderosos. É a água que corre e nunca se estanca, pois estamos sempre em luta para melhorar as nossas vidas. No entanto, não reivindicar uma corrente do anarquismo não é sinônimo de rejeitá-las. Acredito que seja importante conhecer, na medida do possível, algumas das correntes históricas do anarquismo, porém elas não podem estar à frente da experiência gerada pela vivência coletiva do dia a dia.

Respondendo à questão, a corrente histórica do anarquismo que eu utilizo como referência é o anarcocomunismo, desenvolvida pelo geógrafo russo Piotr Kropotkin. Essa corrente afirma que os meios de produção, invenções, objetos e ideias difundidas pelas pessoas no decorrer da História não podem ser apropriados por indivíduos. A chamada propriedade privada é inexistente, segundo o anarcocomunismo. Pois é impossível mensurar a contribuição de cada pessoa nos processos históricos de produções e de desenvolvimento humano no decorrer dos séculos. Assim, a propriedade privada dos meios de produção e, consequentemente, a da produção deveriam pertencer a todos. No capitalismo, o Estado é o monopolizador e administrador dos mecanismos de coerção e violência contra as pessoas comuns, com o intuito de manter a propriedade privada dos meios de produção nas mãos de poucos.

Outro ponto importante do anarcocomunismo é a ajuda mútua. O autor russo a enfatizou como o verdadeiro fator da evolução humana. Comprovou tal hipótese com o estudo da História da humanidade e curiosamente também da vida das espécies animais. A segunda parte do referido livro é dedicada a analisar a vida dos homens em sociedades. Kropotkin estudou a organização humana até o século XIX. Considera a ajuda mútua um fator que permite a sobrevivência da nossa espécie.

Já no livro A conquista do pão, o pensador russo defende o bem estar para todos. Afirmou que cada processo produtivo foi construído coletivamente, por inúmeras pessoas com imensuráveis contribuições, através do acúmulo intelectual e material realizado no passado e no presente. Assim é impossível calcular ou definir a contribuição de cada pessoa, inclusive de nossos antepassados, em uma realização específica. Tudo aquilo que é produzido socialmente deve pertencer a todos, já que todos dela participaram na medida de suas forças.

      Assim, é inviável e injusta a apropriação privada de qualquer tipo de produção. A propriedade privada é injustificável. Portanto surge a necessidade de expropriação popular da produção e dos meios de produção. Se faz necessário retirar os meios de produção e, consequentemente, a produção das mãos da iniciativa privada e retorná-los para a coletividade. O progresso deve estar a serviço de todos, pois é gerado pelo trabalho social ao longo da História da humanidade. O primeiro objetivo da revolução social seria a conquista do pão para todos. Assim, torna-se necessário enfatizar novamente que o real objetivo da revolução é o bem-estar de todos.

  • Nos fale um pouco sobre o seu livro, fruto de sua dissertação de mestrado.

Publiquei a primeira edição de Anarquismo e a formação do Partido Comunista do Brasil (PCB) em 2018, pela Rizoma Editorial. Fiquei surpreso com a repercussão positiva do livro. Vendeu 300 cópias e se tornou um dos livros mais vendidos da editora. Atualmente está na 3ª edição. O livro é um estudo histórico sobre o movimento sindical brasileiro na Primeira República (1889-1930). Realizei uma pesquisa baseada em documentos e periódicos produzidos pelos militantes operários do período.

Na pesquisa, constatei que o sindicalismo revolucionário, de inspiração anarquista, estava forte nas duas últimas décadas da Primeira República. A perseguição estatal, as prisões, expulsões do território brasileiro e desaparecimentos de militantes anarquistas comprovam que o sindicalismo revolucionário foi arduamente perseguido pelas autoridades. Analisei a organização do movimento sindical brasileiro e como ele alcançou relevante lastro social entre os trabalhadores brasileiros. As atas dos três congressos operários brasileiros de 1906, 1913 e 1920 comprovam a força e a mobilização do sindicalismo revolucionário entre o proletariado brasileiro.

Outro fato interessante no livro é a comprovação de que a Revolução Russa, na verdade, estimulou e potencializou a militância anarquista no Brasil. Operários brasileiros acreditavam que a Revolução Russa seria na verdade anarquista. Abordei a insurreição anarquista de 1918. Também analisei a criação de uma organização anarquista intitulada partido “comunista” do Brasil, em 1919, como um desdobramento da influência da Revolução Russa sobre a militância anarquista no Brasil. A fundação do PCB, em 1922, foi realizada por uma pequena fração de militantes oriundos do anarquismo, que tentaram repetir no Brasil o vitorioso processo revolucionário ocorrido na Rússia, em 1917.

Também dissertei sobre a trajetória do ex-militante anarquista Antonio Bernardo Canellas. Ele resolveu se unir aos fundadores do PCB. Não participou da fundação do partido, pois estava na Europa e, mesmo assim, integrou a liderança do partido e foi escolhido para representá-lo no IV Congresso da Internacional Comunista em Moscou. Seu objetivo era conseguir a aceitação do partido na organização internacional liderada pelos famosos e admirados líderes bolcheviques. Na verdade, foi o primeiro brasileiro a conhecer a União Soviética, em 1922, e o primeiro militante expulso do PCB. Por não conhecer o marxismo e possuir experiência das organizações sindicais anarquistas, não conseguiu se adaptar ao padrão comportamental do referido congresso comunista. Se indignou com as injustiças que testemunhou e tentou se posicionar, gerando confusões, consideradas inaceitáveis, naquele tipo de congresso, Enfim, gostei muito de escrever o livro.

  • O que você teria a dizer sobre a necessidade ou não da formação política para o militante anarquista?

A meu ver, a formação política é fundamental para o militante. No entanto, precisamos debater que formação política é essa, ainda mais em um mundo majoritariamente virtual, nos diais atuais. Acredito que a formação política é alcançada na experiência produzida nas relações sociais. Estas irão culminar no processo de desenvolvimento de consciência de classe social ou de movimento social. Através da consciência de classe, surge a compreensão da necessidade de luta coletiva e organizada, com o intuito de superação dos mecanismos de exploração e opressão. É dessa experiência que a teoria é desenvolvida. Estou falando do cotidiano das lutas sociais que, muitas vezes, é invisível e até mesmo desprezado por alguns militantes. Existe um desprezo pelo trabalho gradativo e invisível. O problema atual é que as redes sociais adestram a pessoa ainda jovem ao culto do ego. Porém, a luta é realizada na realidade material, não na virtualidade das redes sociais. É essa formação política, fruto do cotidiano coletivo que considero necessária.

  • E o anarquismo hoje? Alguma coisa mudou?

Considero a virtualidade da militância nos dias atuais algo preocupante. A tecnologia é uma excelente ferramenta de propagação de ideias, de facilitação de acesso às informações. Ela é controlada por corporações com interesses de nos transformar em banco de dados, com o intuito de nos manipular e ganhar muito dinheiro com nossas informações. Após o advento do desenvolvimento e popularização das redes sociais, por volta de 2011, elas foram usadas por grupos poderosos, que logo perceberam a eficácia das mesmas para conseguir objetivos nefastos, como eleger a extrema-direita em todo mundo, inclusive no Brasil.

Políticos protofascistas estão sendo eleitos através da utilização das redes sociais, com propagação indiscriminada de fake news. É com pesar que percebo parte da militância anarquista dependente da virtualidade para expressar algo. Vejo as pessoas atuando nessas redes com se fossem um meio seguro, se expondo, entregando informações vitais da luta. Até informações pessoais são entregues de bandeja. A prática da realidade material inexiste nas redes sociais e o militante se torna um avatar.

Por outro lado, atualmente existem militantes atuando concretamente nos meios em que estão inseridos e produzindo muita coisa boa. Os trabalhos que acontecem hoje são resultado da atuação de formiguinhas realizada por militantes invisíveis nas décadas anteriores. Em 1990, tivemos a Organização Socialista Libertária. Já nos anos 2000, a Resistência Popular realizou um relevante trabalho de atuação nas favelas. Cabe destacar o grupo Domingo Passos em Niterói. Em 2003, surgiu a Federação Anarquista do Rio de Janeiro. Muitos desses grupos e trabalhos foram se aproximando e proporcionaram uma atuação anarquista na cultura e educação popular. Foram realizados trabalhos na favela da Maré através de pré-vestibular social, na Vila Cruzeiro com movimento cultural de hip-hop etc. Com um gradativo trabalho de base, os anarquistas alcançaram uma reinserção social, perdida desde a década de 1930. Os trabalhos sociais em favelas se aproximaram dos movimentos dos sem-teto através da Federação Anarquista do Rio de Janeiro. Em 2006, ela se aproximou do Movimento dos Sem Terra e passou a investir esforços em trabalhos de base no campo. Atuou através da organização e educação popular em acampamentos e assentamentos dessa organização. Em 1930, os anarquistas haviam perdido o vetor sindical de atuação. Esses trabalhos, nas favelas, em movimentos dos sem-teto e no campo, proporcionaram um novo vetor social para o anarquismo, uma reinserção social que é usufruída atualmente pelos grupos libertários.

Atualmente na várzea de São Paulo, tem um trabalho anarquista muito interessante com futebol popular. As aldeias indígenas também realizam trabalhos de autogestão, horizontalidade, luta pela proteção da natureza. Aldeias indígenas urbanas também desenvolvem trabalhos interessantes. Nos quilombos, estão acontecendo relevantes trabalhos de manutenção da cultura popular, autogestão etc. Anarquistas estão presentes em coletivos feministas com trabalhos sociais e lutas por direitos e desconstrução do patriarcado. Militantes libertários também estão presentes em movimentos negros no Brasil e no mundo. Existem trabalhos realizados por coletivos anarquistas a favor da diversidade sexual e de coletivos libertários LGBTs.

O Morro da Formiga no Rio de Janeiro tem um trabalho social muito legal com jovens em atividades culturais, como Folia de Reis. No Centro de Porto Alegre, tem anarquistas se organizando através de trabalho social com moradia. São dezenas de moradores organizados através de oficinas de costura, padaria, cultivo de hortaliças e artes. Em outros grandes centros urbanos do país também existem trabalhos de ocupações de sem-teto. Os anarquistas atuam nos sindicatos, com seus respectivos grupos e coletivos, entendendo a estrutura burocrática construída através da ideia governamental do sindicalismo corporativista de Getúlio Vargas. Todos esses movimentos sociais são construídos através de experiências comuns em realidades locais.

  1. Suas considerações finais

Agradeço o Instituto Estudos Libertários por essa oportunidade. Gostaria de encerrar enfatizando o dever de luta contra o protofascismo e a extrema direita, que avançam em diferentes partes do mundo. É com tristeza que vivenciamos um governo desses no Brasil, apoiado pela violência estatal, sustentado pelas redes sociais e por bases eleitorais baseadas em manipulações religiosas de parte de igrejas comprometidas com o dinheiro e a corrupção. É um governo que ataca os direitos das pessoas a cada dia. Nosso país está cada vez pior. Custo de vida está cada vez mais alto. Qualquer compra simples no mercado entra na cifra de três dígitos. Pessoas estão perdendo seus direitos conquistados com muitas lutas no decorrer de nossa História. O número de moradores de rua cresceu consideravelmente. Os trabalhadores terão que trabalhar muito mais tempo para se aposentar. Nossas florestas estão em chamas.

O que está ocorrendo no Brasil é mais uma manifestação do que está acontecendo no mundo. Afrobrasileiros, mulheres, LGBTs são assassinados o tempo todo e esses assassinos sabem que não serão punidos. A mensagem do governo alimenta esse tipo de comportamento violento e assassino. Pessoas desses grupos sociais saem de casa e não sabem se retornarão pros seus lares. As forças progressistas precisam encontrar mecanismos de atuação que transcendam as armadilhas das redes sociais. O sistema capitalista está em desenvolvimento, com seus múltiplos e inovadores braços coercitivos. A vida é luta.




Fonte: Ielibertarios.wordpress.com
Discuta Este Artigo No Fórum


SIGA-NOS
NO TWITTER
SIGA-NOS
NO MASTODON
SIGA-NOS
NO TUMBLR




Anarchist news | Noticias anarquistas | Actualité anarchiste | Anarchistische Nachrichten | Notícias Anarquistas | Notizie anarchiche | Notícies anarquistes | Αναρχική Ομοσπονδία

As opiniões são dos colaboradores e não são necessariamente endossadas por Federacaoanarquista.com.br [aviso Legal]