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Instituto de estudos libertÁrios entrevista josÉ beserra de araujo


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Junho de 2022

Beserra

1) Quem é José Beserra de Araujo?

Sou atualmente motorista de caminhão aposentado, com 23 anos de profissão, tendo antes trabalhado por 2 anos como motorista de táxi. Isso depois de ter sido metalúrgico por 22 anos. Sou natural de Venturosa, nasci na Fazenda Pau Ferro no sertão de Pernambuco, onde trabalhei até 17 anos como lavrador de terra, uma vez que sou filho de lavrador de terras, trabalhando em terras de outros. Eu, com 17 anos, cheguei ao Rio de aneiro, em 0711/1963. Morei por 8 anos no Jacarezinho e há 49 anos moro em Manguinhos. Hoje como membro e militante do MCP, Movimento de Comunidades Populares, há 32 anos na luta contra os sofrimentos do povo de todos os tipos de opressões e injustiças sociais. Sou um militante em defesa dos direitos de todos os oprimidos. Por um mundo melhor para todos os humanos. Hoje, com 75 anos. Fui casado, separado após 14 anos. Tive 2 filhas: a filha mais nova falecida aos 38 anos e a mais velha, hoje com 47 anos, formada em Administração.

2) Como você iniciou na militância popular?

Eu tenho a história de militância na prática a partir de 1989. Só que antes eu tive uma pré-militância a partir dos meus 13 anos, por volta de 1960, eu sozinho já observava as desigualdades sociais. Uns poucos com tantas terra e tantos gados e muitos sem terras e sem gado. O meu pai era um desses, não tinha nada. Ele trabalhava para um desses fazendeiros, conhecido como Tenorinho e que tinha mais 2 irmãos também fazendeiros, Antonio Tenório e Manoel Tenório. O patrão do meu pai morava na capital, Recife. Meu pai trabalhava de domingo a domingo, tomando conta do gado e tirando leite. O que ganhava não dava para comer.

Como eu era um pré-militante? Isso porque não havia outros como eu para pensar juntos e achar respostas para essas desigualdades. Aí, com isso, eu fazia pergunta para mim: como resolver essas desigualdades para se viver melhor? Às vezes, vinham respostas que não eram a solução. Por exemplo, um pobre casar com rico. Não era solução, porque o número de pobres era bem maior. Logo, não era solução. Com isso, nunca parei de pensar qual era a saída. Com 17 anos, em lágrimas, deixei minha terra, tendo como destino o Rio de Janeiro. Parei na Favela do Jacarezinho. Favela nova, menos de 15 anos. Ocupação que começou nos anos 50. Havia muita pobreza. E eu querendo ser militante, morando na casa de um primo. Às noites, paravam amigos dele e falavam de políticas, e eu ligado querendo militar. Havia clima de esperanças com as propostas novas do Presidente joão Goulart. O foco era os trabalhadores. Em 13 de março de 1964, me juntei a uns militantes do Jacarezinho, e que eu nem conhecia bem. Alguns falariam em grupo de 11 e com meu primo Felix, que conhecia melhor essas pessoas e juntos fomos, no dia 13 de março de 1964, assistir ao grande comício da Central do Brasil, na Praça da República, no Rio de Janeiro, calculado em 150 a 200 mil pessoas. E o povo muito empolgado. Ali, o Presidente assumiu o compromisso com as reformas de base. Nada disso se concretizou. 18 dias depois veio o golpe militar, com uma ditadura militar que durou 21 anos, de 1964 a 1985. Durante 21 anos, sem militância. A militância era secreta, ninguém sabia, era medo. Com prisões e tortura que iam até a morte. Eu tinha vontade de militar. Eu conversava com alguns colegas, eles mudavam de assunto ou saíam de perto.

Ainda no governo Figueiredo, o último presidente general da ditadura militar, no começo dos anos 80, a surge a militância sindical no ABC paulista, região da grande São Paulo. E o Lula foi o principal líder sindical da época com muitas greves em São Paulo.

Eu aqui no Rio de Janeiro, até 1990 fui metalúrgico. Em 87, conheço a militância no Sindicato dos Metalúrgicos, com nova diretoria ativa sindicato dos metalúrgicos com nova de diretoria ativa nas portas de fábricas, passei a participar de todas as assembleias. Aí começo a participar de seminários, quando em um desses seminários em 1988, em Angra dos Reis, conheci o Gelson que também era metalúrgico e militante da C.T.I. – Corrente de Trabalhadores Independente. Aí comecei a saber através do Gelson que esse movimento surgiu no campo. Passei a me interessar mais, pois foi do campo a minha origem. Meu pai era camponês. Agora eu era militante metalúrgico da C.T.I. E a C.T.I., que era do campo, numa decisão nacional foi definido de migrar para a cidades, pois é nas cidades que estão os operários. O Gelson foi para Belo Horizonte, firmando o movimento lá em BH. Chega ao Rio de Janeiro. Aí o movimento passou a atuar em 10 estados. Com isso, a prioridade sempre foi a base. Hoje estou com 33 anos como militante. Nesse período houve evolução estratégica de nomes: em 1992, passou de C.T.I. para M.C.I., Movimento das Comissões de Lutas; em 2011, de M.C.I. para M.C.P., Movimento das Comunidades Populares.

Hoje sou militante não só do MCP, mas de qualquer causa por justiça social das causas humanas.

3) Sobre as organizações partidárias, o que você teria a dizer?

O Brasil tem hoje com 33 partidos legalizados no TRE. Isso mantém uma boa forma do povo acreditar numa falsa democracia que só serve para manter o poder econômico dos capitalistas. Com a verba partidária, os partidos usam o povo nas eleições como gado e, com isso, o capital fala mais alto, esmagando a democracia que nunca será os interesses do povo. Assim, o partido serve aos interesses e à manutenção do estado capitalista, e nunca aos interesses do povo. Em vez do estado servir ao povo, o povo é que serve ao estado organizado pelos partidos que administram os estados. Com isso, o povo fica sem saber o que é democracia. Os partidos não estão com o povo. Os partidos usam o povo dizendo que é democracia, quando, na realidade, o povo não manda nada, e quem manda é o poder econômico. E o povo não sabe, e os partidos não falam isso ao povo. Só a palavra partido significa parte do povo e serve para dividir o povo. Logo povo dividido é povo controlado.

Se são 33 partidos, cada um tem um projeto para o povo. Só que o povo não precisa de 33 projetos, o povo precisa apenas de um projeto com seus direitos e com justiça social. Com essa falsa democracia, o povo produz todas as riquezas e não fica com nada, os capitalistas levam tudo, e para o povo nada muda.

Nós dos movimentos sociais não queremos dividir o povo queremos todo povo junto com direito á riqueza que o povo produz. E nada para os capitalistas parasitas do povo. Chega de mentiras para controlar o povo!

4) Na sua opinião, qual é a importância da autonomia para os movimentos populares?

É de suma importância autonomia para os Movimentos Populares. Se o Movimento Popular perder sua autonomia, por certo, mais cedo ou tarde, acaba perdendo seus objetivos. Não manter autonomia e uma janela aberta para manipulação com outros objetivos, e não os de origem. Isso não é difícil de entender. Basta ver as ONGs, Organizações Não-Governamentais, todas criadas com um objetivo. Sem autonomia, começa a haver a manipulação de interesses individuais, ou de uma pessoa ou de grupos. Isso continua existindo com outros objetivos. Com a autonomia, os interesses são coletivos. E sendo coletivos, dificilmente perderão seus objetivos e sua autonomia.

5) Como se deu seu encontro com o Movimento das Comunidade Populares?

Em 1988, eu estava bem participativo no Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro. E nas atividades do sindicato, encontrei o Gelson, em 89, que era metalúrgico também e fundador da J.A.C,, Juventude Agrária Católica. Isso já há uns 10 anos no interior da Paraíba. no nordeste.

No sindicato com nova diretoria e muitas expectativas de melhorar alguma coisa na vida da gente. E com a nova diretoria, veio o Seminário de Angra dos Reis, em 2 etapas, em 2 fins de semana alternados. E foi lá que o Gelson estava com como metalúrgico. Não tivemos aí assunto sobre o movimento. Aos poucos, foram surgindo dos assuntos vários. E ao longo, fui aprendendo quais eram as lutas da C.T.I, Corrente de Trabalhadores Independente. E assim fui me interessando e conhecendo os objetivos do movimento. Tudo era partir da base.

E foram em Manguinhos as primeiras reuniões e militância. Isso logo após o encontro com o Gelson e o movimento, tendo o Gelson como a base principal de encontro com movimento.

6) Quais são as maiores dificuldades para mobilizar organizar e trazer o povo para construção das lutas mais urgentes?

São várias dificuldades de mobilizar, organizar e trazer o povo para as lutas mais urgentes. Uma das principais dificuldades é que o sistema capitalista é de sociedade falsa, onde os mais espertos exploram os menos esclarecidos. E as pessoas se costumam a serem exploradas e acham normal. Com isso, não veem as contradições e acostumam, com isso, a achar que é assim mesmo, tem que ter exploradores para dar um empreguinho de matar fome, e pior que isso, é que, se ele tiver uma chance amanhã, ele vai ser patrão e fazer a mesma exploração que faziam com ele, e ele fará a seus colegas sem nenhum constrangimento. Em outros casos, as pessoas acham normais as condições de viver na pobreza. É seu destino. E ainda outras que acreditam nas suas religiões cristãs, que têm que aceitar os sofrimentos por causa do pecado.

Outra dificuldade é o individualismo, e ainda querem o resultado rápido.

Outra dificuldade é que o capitalismo convence as pessoas a só acreditar em alguém de paletó e gravata ou com o diploma de doutor. Aí tem poder de dar a solução. As pessoas não se acham como sujeitos da solução. E como eu sou igual a elas, a coisa não tem solução. Se a gente não tiver o dom da insistência, o trabalho não avança. A persistência de convencimento do militante é fundamental para resultados positivos. Se o militante tiver diploma de doutor, facilita os trabalhos para construção das lutas mais urgentes. E as lutas mais urgentes na favela são: saúde, geração de renda (trabalho), educação de qualidade, saneamento básico, esporte e lazer saudável.

7) Como você observa a questão das relações raciais e a presença do racismo no cotidiano do nosso povo?

Pelo egoísmo e a falta de interesse das lideranças, há um atraso nas relações raciais e, com o poder aquisitivo mais baixo, acentua mais ausência de uma relação racial mais humanitária e normal entre os grupos. A etnia europeia no Brasil é forte até hoje.

A presença do racismo no cotidiano é não só por falta de interesse do estado em melhorar as relações humanas, mas ainda é também o racismo estrutural no qual inclui o próprio negro racista com outro negro. 90% dos que conseguem viver bem economicamente são também racistas ao tratar seus iguais e em desiguais. Nas estruturas, por exemplo, na segurança pública, mais de 50% dos policiais são negros. E ao dar uma geral em um ônibus, um policial preto, ao investigar 2 pessoas sentadas no mesmo banco, um preto e um branco, 90% dos investigados serão os pretos. Parecido como na escravidão: os negros mais obedientes eram os capatazes que acorrentavam outros negros ao tronco.

Acho que precisamos avançar na educação humanitária. Com a educação do nosso grande Mestre Professor Paulo Freire. Aí será possível as pessoas aprenderem as relações humanas e como funciona sociedade.

8) Fale sobre a importância das iniciativas comunitárias e coletivas para que construções relevantes venham a ocorrer nas favelas.

É de suma importância essas iniciativas comunitárias e coletivas para que construções relevantes venham a ocorrer nas favelas.

Esse projeto não é impossível, porém é um grande túnel às escuras a atravessar. Precisamos de muitas e fortes lanternas, com muito gás, a clarear até o fim esse túnel e concretizar a saída desse grande projeto.

Para começar esse projeto, temos que ter militante com os pés no chão. Na favela não tem militante. É raro. Militante de fora não vai para a favela. A alienação e o individualismo são muito grandes. Temos que elaborar um projeto coletivo com os pés no chão. Viver no meio do povo como um peixe na água.

O capitalismo convence, através das mídias e das igrejas, que ser pobre é normal. É um destino por causa do pecado. Porém, o capitalismo oferece brechas para que alguns audaciosos possam vencer na vida. Isso pode ser através de um bom comércio podendo ser um negócio dentro ou fora da favela. Outros conseguem fazer uma faculdade e logo vão embora da favela. Conheço o Educafro há mais de 20 anos encaminhando jovens à universidade, e assim muitos se formaram e foram embora da favela. Nunca vi um militante de movimentos sociais falar que passou pelo Educafro. São todos alienados e o capitalismo agradece.

Nós temos projetos já em andamento em Manguinhos, onde um dos focos é o Conselho Comunitário de Manguinhos, onde atuam com um coletivo de mais ou menos 30 moradores de Manguinhos. Foi através dessa organização que conseguimos, em 2021, a aprovação de um projeto na Câmara de Vereadores de uma verba no valor de 30 milhões destinados à saúde, sendo 10 milhões para Manguinhos, 10 milhões para o Jacarezinho e 10 milhões para a Maré.

Temos outros projetos em andamento em Manguinhos: Rádio do Povo e o jornalzinho O Manguinhos, que é semanal. Já estamos no número 35.

Outro projeto ainda a pôr em prática é Ação Popular em Manguinhos. Nesse, vamos precisar de: professores, psicólogos, médicos, agentes de saúde, advogados e outros voluntários. E vamos avançar. A Base é o Povo.

Isso são iniciativas comunitárias e coletivas para que construções relevantes venham a acontecer nas favelas.

9) Você já atuou em sindicato?

Atuei apenas como operário metalúrgico no final dos anos 80, início dos anos 90. Isso porque, depois da ditadura militar, o sindicato teve uma boa diretoria atuante. Primeiro com o Washington presidente e substituído por Carlos Manoel, e tendi em sua diretoria o muito atuante Ferreirinha. Infelizmente os três já falecidos. O Carlos Manoel chegou a ser Secretário do prefeito Quaquá em Maricá-RJ.

Simplesmente por causa dessa militância, cheguei a perder dois empregos. O primeiro com 14 anos, trabalhando na STIELETRÔNICA S.A., e o segundo com dois anos de serviço na CBV, Companhia Brasileira de Válvula. Essa, a 1ª no mundo a desenvolver tecnologia 100% brasileira de perfuração de petróleo no fundo do mar. Hoje controlada pelos Estados Unidos.

10) Como você vê a relação entre o sindicalismo e os demais movimentos sociais?

Há mais de 20 anos sempre achei ser muito importante a relação entre sindicalismo e os movimentos sociais. E isso é um atraso e que até hoje ainda preciso avançar muito. E a gente não sabe quando isso vai acontecer. Apenas alguns sindicalistas isolados apoiam os movimentos sociais. No geral, os sindicalistas são preguiçosos e não priorizam as bases. Salvo alguns alguns casos isolados. No entanto, continuamos aguardando esse avanço. Não sabemos com clareza quando isso se dará.

11) Quais foram as principais mudanças em favelas, especialmente em Manguinhos ao longo de sua vida?

As mudanças em favelas são um processo lento e, por isso, as pessoas não vêm. Exemplo: em Manguinhos há 25 anos atrás não havia iluminação pública, coleta de lixo e nem a presença da CEDAE, no que diz respeito a esgotos sanitários. O PAC, Programa de Aceleração do Crescimento, no segundo mandato do governo Lula, poderia ter dado melhores resultados para mudança e isso não ocorreu por falta de participação popular dos moradores. Foi uma coisa a imposta de fora para dentro. Por isso, em muitos casos, foram negativos os resultados; por isso, houve várias deficiências, entre elas, a principal foi o aumento dos níveis das enchentes por conta de obras erradas no Rio faria Timbó. Isso causando enormes prejuízos na época das chuvas fortes e com enchentes. Por isso, até hoje, reivindicamos o cumprimento de um processo na justiça pública que obriga o Estado e o Município a providenciarem solução para o caso. E até hoje nem o Estado nem o Município providenciaram soluções.

Essas principais mudanças só virão no dia em que as pessoas se conscientizarem de seus direitos. E isso é um processo lento. E que a gente continua insistindo e apostando no Poder Popular.




Fonte: Ielibertarios.wordpress.com
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