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Instituto de Estudos Libertários entrevista Rodrigo Nacif


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Novembro de 2020

1) Quem é Rodrigo Nacif?

Sou pai, companheiro e antropólogo na Funai. Sou também um anarquista do século passado adepto da organização por meios não virtuais. Por questões geográficas tive que me acostumar a militar “desorganizado” em movimentos como a economia solidária e a agroecologia. Resolvi entrar depois de muitos anos em um programa de mestrado justamente em geografia, que é fruto de uma cooperação entre a Unesp e a Via Campesina.

2) Quando se deu seu primeiro contato com o anarquismo?

Minha primeira militância foi no Movimento Sem Terra. Eu conhecia alguns anarquistas na cena underground, mas não militavam de fato. Tive contato com anarquistas mais engajados quando entrei na faculdade e também conheci o Libera. Minha aproximação definitiva com o movimento anarquista foi curiosamente motivada pelo zapatismo e aconteceu no II Encontro Americano pela Humanidade e Contra o Neoliberalismo, em Belém. Quando voltei, tive, com mais um amigo, a ideia de começar em Niterói um grupo de estudos que, pouco depois, batizamos de Coletivo de Estudos Anarquistas Domingos Passos. Foi nesse tempo também que conheci o Círculo de Estudos Libertários Ideal Perez – Celip que nos havia inspirado a criar o grupo.

3) Como foram os seus primeiros anos de militância libertária?

Os valores e a ação direta do movimento anarquista rapidamente me conquistaram. Apesar de sermos tão poucos, tinha uma competição de quem era o mais anarquista, o famoso “anarcômetro”, medido periodicamente por grupos secretos que conseguiam se comunicar mediunicamente com Bakunin. Eu procurei me integrar nos trabalhos sociais, com outras pessoas anarquistas ou próximas, em atividades de educação popular. Depois de haver conhecido a Federação Anarquista Gaúcha, com a qual logo me identifiquei, fui conhecer a Federação Anarquista Uruguaia, nossa matriz do anarquismo especifista. Durante alguns meses, percorri os diferentes trabalhos de bairro e essa experiência me ajudou a entender que forma de organização eu queria ajudar a construir no Rio de Janeiro. Certamente não seria nenhum grupo seleto de militantes profissionais ultrarrevolucionários. O anarquismo precisava de uma organização pública, exemplar, voltada para o trabalho cotidiano e de longo prazo e pensada para o trabalhador e a trabalhadora. Tive então a felicidade de fazer parte de todo o processo que levou à fundação da Federação Anarquista do Rio de Janeiro – FARJ.

4) O que você pensa das organizações específicas anarquistas?

Tudo o que o sistema capitalista quer é que a gente não se organize. Faz 16 anos que deixei o Rio, tentei me organizar com outros anarquistas em Brasília e depois na Baixada Santista. Pela minha experiência prática, indivíduos e grupos de afinidade sem unidade estratégica escovam os dentes comendo bolo, não é possível avançar. O sistema logo tritura a maioria no mundo do trabalho ou na falta dele e se sobra meia dúzia com algum projeto social ou perdido em um movimento reformista a gente ainda acredita estar dando a nossa parcela. Se nós já temos uma missão impossível, que é reverter esse retrocesso em que está a sociedade brasileira atual, não querer se organizar é no mínimo insano. Ou será mesmo o anarquismo um para-raios de maluco?

5) Você tem alguma inclinação especial por qualquer das correntes históricas do anarquismo?

Não consigo ver muita contribuição prática da corrente individualista. Movimento anarquista, para mim, é sempre social e dentro disso, no aspecto econômico, o comunismo e o coletivismo têm ambos suas contribuições. Vejo que o importante é o controle social da economia, superar um modelo de economia que subjuga a política. Como corrente político-social eu tenho mais inclinação para o modelo sindicalista revolucionário do que para o anarcossindicalismo. Não vejo que devamos restringir nossas fileiras a somente aqueles que compartilham da nossa ideologia política e, sim, nos organizar a partir de nossas convergências práticas. No que se refere à organização política em si, eu vejo que o plataformismo foi um divisor de águas importante e entender essa corrente é essencial para pensar um processo revolucionário mais avançado.

6) Nos fale da relação entre indigenismo e anarquismo. Ou isso seria um absurdo?

De forma alguma. A relação entre anarquismo e indigenismo é antiga. O anarquista peruano Manuel Gonzáles Prada foi um ferrenho indigenista e influenciou profundamente um dos raros marxistas interessantes, José Carlos Mariátegui. Na Revolução Mexicana, Ricardo Flores Magón foi um expoente de como o indigenismo e o anarquismo dialogam perfeitamente. O indigenismo é toda corrente político-social constituída por indígenas e não-indígenas que defende o direito inerente dos povos originários de reproduzir o seu modo de vida, de ter reconhecido o seu território e sua organização política. As sociedades indígenas são sociedades que se organizam contra a formação de um Estado dentro de sua própria estrutura social. Em lugar da luta de classes, elas estabeleceram uma luta para impedir a conformação de classes. Isso não significa que elas vivam internamente um ideal anarquista, que não haja tentativas de centralizar o poder e nem que externamente elas não oprimam outros povos. São, porém,  exemplos reais de sociedades antiestatais onde o bem-estar geral é algo com o que as pessoas realmente se importam. A intervenção do Estado brasileiro, no entanto, é maior do que em diversos outros segmentos da população, o que mina diariamente as bases dessas mesmas sociedades.

7) Sobre a conjuntura brasileira e a relação com os povos originários, o que você teria a dizer?

Não consigo ver um futuro próspero para um país que não honra os seus primeiros habitantes. No meu entendimento o Brasil é um território invadido, e mesmo que essa seja hoje uma situação irreversível, é preciso encarar isso. Nós não temos nenhuma dívida com bancos internacionais, a nossa grande dívida é com os povos originários. Reconhecer os seus direitos territoriais é o mínimo que a sociedade brasileira deve fazer. Talvez o maior inimigo dos povos indígenas seja a ignorância, e no poder executivo a eleição do atual Presidente foi uma verdadeira ode à ignorância. No poder legislativo, as bancadas do boi, da bala e da bíblia defendem posições claramente anti-indígenas. No poder judiciário, o elitismo das velhas oligarquias faz coro distorcendo o texto constitucional, tentando introduzir o elemento da temporalidade da ocupação como critério para o reconhecimento das Terras Indígenas. O texto constitucional foi claro ao estabelecer a tradicionalidade da ocupação como único critério para as demarcações, pois é óbvio que os povos originários não poderiam estar ocupando a mesma terra depois de todas as violências sofridas. Isso também vale para as violências depois de 1988.

8) É possível falar em ecologia sem consultar os povos das florestas?

A gente só pode proteger de fato aquilo que a gente conhece. A perspectiva urbana e burguesa de proteção ambiental é iconicamente representada pelo modelo dos Parques Estaduais de São Paulo que viraram verdadeiros latifúndios verdes com 15% do território do estado, uma grande parte evidentemente sem plano de manejo, sem conselho gestor, sem funcionários suficientes, sem proteção. Até a década de 1960 não existia qualquer instrumento oficial de proteção dessas áreas e, no entanto, elas permaneceram conservadas por anos e protegidas por comunidades indígenas, caiçaras e quilombolas. Entretanto, onde existe mais invasão e degradação o Estado é completamente ausente, enquanto onde estão as comunidades há sempre um maior número de funcionários cujo trabalho principal é repreender as práticas tradicionais essenciais para a sobrevivência dessas pessoas. Falar em ecologia é falar em ecologia social, é preciso entender que a floresta está ali por séculos em convivência com o ser humano que necessita dela para sobreviver e não com o tecnocrata que espera transformar o verde em mercadoria.

9) E o anarquismo hoje? O que você teria a dizer?

O Estado e o Capital são produtos do trabalho social, porém de uma sociedade que abriu mão do seu poder político e se submeteu ao poder econômico. Esta sociedade está cada vez mais atomizada em bolhas sociais, reforçadas pelas redes antissociais. Em meio a essa dissolução, o sentimento de impotência das pessoas em relação a questões de maior importância virou uma frustração suprida pela segurança de pertencer a algum grupo de pessoas que pensam igual e que odeiam as pessoas que pensam diferente. O anarquismo virtual segue a mesma lógica., Hoje parece uma tarefa hercúlea unir lutas que compartilhavam todas dos mesmos espaços há poucas décadas atrás. Os meios virtuais hoje são ferramentas importantes de comunicação e propaganda que a gente nem sonhava ter, mas, como outras revoluções tecnológicas, serviram muito para fortalecer o poder corporativo, tecnologias sobre as quais o indivíduo tem cada vez menos domínio. Nós, anarquistas, precisamos pôr a mão na massa, estar na rua, nos bairros, nas feiras populares, batendo enxada na roça, carregando cimento, ao mesmo tempo em que devemos pensar, nos reunir, estudar, conhecer, cada vez de forma mais coletiva, pois a sociedade se torna cada dia mais complexa. O tempo de ser anarquista apenas dominando os próprios meios de produção ou em pequenos grupos de afinidade já passou, se é que existiu um dia.

10) Suas considerações finais.

Não adianta a gente criticar só o que está lá fora. É importante olhar para si mesmo, aceitar, é claro, o quanto nós somos limitados, mas procurar também ser um exemplo daquilo que a gente acredita, que é uma tarefa das mais difíceis. No trabalho social, a médio e a longo prazo, é isso que conta e não as coisas que você diz. As pessoas vão se aproximar do trabalho e vão se interessar pelo anarquismo à medida em que a gente conquiste o seu respeito e a sua confiança. Se você não conseguiu juntar um grupo de anarquistas para realizar algum trabalho, é não só possível como desejável que a gente trabalhe com outros militantes, e melhor ainda com pessoas não militantes. As pessoas que trabalham contigo vão se aproximar cada vez mais do anarquismo, mas é pelo exemplo, não pelo discurso bonito e ultrarradical.




Fonte: Ielibertarios.wordpress.com
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