Março 22, 2022
Do Passa Palavra
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Por Assembly

Marco Túlio traduziu para o Passa Palavra a seguinte entrevista de 28 de fevereiro do coletivo de mídia Assembly [Assembleia], de Kharkiv, a partir da sua publicação em inglês pelo LIBCOM. Para apoio financeiro, por favor, clique aqui.

Escrevemos sobre conflitos sociais em Kharkiv, problemas urbanos e ambientais, esforços auto-organizados para superá-los a partir de baixo, história anarquista local. O objetivo é influenciar a opinião pública promovendo pautas com o espírito do anarquismo revolucionário.

Sobre a segunda questão [o que os anarquistas ucranianos estão fazendo agora], vamos começar por nós mesmos. Estamos todos em Kha, com exceção de um membro que tem um filho pequeno e partiu em segurança para a Polônia com seus parentes. Agora estamos esclarecendo a situação para jornalistas e ativistas estrangeiros, que nos bombardeiam desde as primeiras horas da guerra com diferentes questões e, às vezes, apenas com cartas de solidariedade. Em segundo lugar, participamos da distribuição de itens essenciais aos vizinhos mais necessitados. E um dos nossos também coordena a ajuda mútua na solução de vários problemas através de grupos locais no Telegram.

Temos algumas armas de caça e cortantes, o material para molotovs também não está fora do alcance, mas, em geral, mesmo a canhonada não é exatamente audível de nossas casas. Em comparação com a outra metade da cidade, temos bastante sorte. Nos distritos norte e leste de Kha, realmente há bombardeios em áreas residenciais — somente hoje, 28 de fevereiro, pelo menos 11 civis foram mortos e 37 ficaram feridos, incluindo uma família de dois adultos e três crianças queimados vivos dentro de um carro…

Não vemos sentido em cobrir a situação militar. Todos os meios de comunicação de massa e páginas públicas escrevem as mesmas coisas, e não queremos tentar aumentar nossas visualizações espalhando rumores infundados. Nossos materiais lidam com questões sociais e humanitárias que são normalmente cobertas por outros jornalistas como se fossem sobras.

O que pensamos sobre tudo isso? Algumas palavras sobre a declaração pública de nossos camaradas da seção regional russa da Associação Internacional dos Trabalhadores [International Workers Association]. Em geral, embora compartilhemos a condenação de ambos os grupos dominantes, ainda devemos apontar que os camaradas não entenderam totalmente as causas globais desse inferno. Se a guerra é causada pela concorrência pelos mercados de gás, por que o Ocidente ainda não impôs um embargo ao fornecimento de hidrocarbonetos russos? E quem desviaria a atenção da“ ditadura sanitária” com medidas que são 100 vezes menos populares entre a população e atrapalham os lucros 100 vezes mais do que quaisquer restrições relacionadas à covid? Bem, ok, agora não é a hora de cavar tão fundo… Segundo seu representante, eles agora estão “lutando com força e vigor contra os bastardos patrióticos loucos”, mas a declaração não contém recomendações específicas, exceto os apelos mais abstratos para qualquer momento — e aqui seguimos para o próximo ponto. Uma posição bastante controversa foi assumida por nossos outros aliados próximos do grupo Black Flag [Bandeira Negra], que estão principalmente em Lviv e Kiev. Claro, se em Obolon, um distrito de Kiev, até mesmo rifles Kalash foram entregues a praticamente todo mundo para defesa territorial, sem pelo menos pedir algum documento, é um pecado não aproveitar a situação (em Kharkiv isso só é possível com documentos e experiência relevante). A questão é: é possível conduzir agitação anarquista nas unidades armadas neste momento, ou eles serão apenas bucha de canhão lá? No entanto, o principal é que a declaração política dos caras, como um todo, também coloca a responsabilidade por esse massacre em ambos os lados da burguesia, e isso certamente aquece nossos corações.

Seja como for, a linha internacionalista geral agora é vista da seguinte forma: deixem os bandidos da Guarda Branca de Putler [Putin + Hitler] sufocarem em seu sangue aqui, mas não devemos ajudar “nosso” Estado a sair desse moedor de carne mais forte. O que fazer especificamente — deixe cada camarada agir segundo as circunstâncias locais. Fazemos o melhor que podemos e queremos falar apenas pelo nosso grupo. Nosso apelo aos camaradas russos e bielorrussos foi publicado aqui.

E sem analogias históricas. O Black Flag, no final de sua declaração, apela para a experiência de Makhno, que lutou tanto contra as tropas imperiais de Denikin quanto contra os nacionalistas ucranianos, mas a realidade objetiva é que as nossas forças não são comparáveis nem mesmo com o movimento anarquista no Império russo durante a mais dura reação após a derrota da revolução de 1905-1907. Com base na influência e nos recursos que temos, o mais relevante agora parece ser seguir o exemplo de Tchernichevski e seus apoiadores, que antes de tudo se alegraram com o fracasso épico do gendarme coroado Nicolau I na Guerra da Crimeia, sem apoiar os impérios britânico, francês e otomano, mesmo como um “mal menor”.

Uma pequena nota sobre crowdfunding. A campanha mencionada para doar para o Assembly foi iniciada há várias semanas, antes da guerra. Claro, agora não podemos trabalhar neste projeto, mas após o fim das hostilidades ele será demandado muitas vezes mais do que antes. Por outro lado, temos alguns suprimentos humanitários próprios e não planejamos comprar nada para esse fim agora.

Você também é bem-vindo para ver o nosso maior e mais brilhante relatório de hoje. Você ficará interessado mesmo sem tradução!

Vida longa à Anarquia! Paz nos casebres! Guerra aos palácios!

Ilustram o texto duas obras (a primeira, um detalhe) da pintora ucraniana Polina Kuznetsova.




Fonte: Passapalavra.info