Agosto 8, 2021
Do Passa Palavra
169 visualizações


Por Wildcat

Este artigo foi publicado originalmente na revista Alemã Wildcat e traduzida para o inglês no blog Chuang. Marco Túlio, ao traduzir para o português, decidiu pela manutenção da nota introdutória da versão inglesa. O artigo será publicado no total em 7 partes, uma em cada semana.

Segue abaixo a tradução do artigo “China: Neijuan” publicado na edição 107 (primavera de 2021) da revista alemã Wildcat – o quarto da sua série de artigos sobre tendências e lutas na China desde 2018. O segundo e terceiro capítulos foram publicados como “O Inverno Está Chegando” e “Guerra Comercial ou Redistribuição de Riqueza?“ Esta tradução é repostada diretamente de Wildcat sem qualquer revisão, exceto a alteração do título para a versão em inglês padrão do termo chinês neijuan (内卷), ou seja, “involução”.

Nós repostamos este artigo porque ele contém muitas observações sobre como as coisas têm mudado na China ao longo do último ano, reunindo uma infinidade de dados, cálculos originais, observações em primeira mão e análises de uma ampla gama de tópicos, desde Hong Kong até Xinjiang, passando por África, relações sino-estadunidenses, espionagem, pobreza, gênero e a crise demográfica. Esperamos que isso possa ajudar a combater a recente ascensão, nos círculos de esquerda internacionais, de posições acríticas pró-PCC em tais questões.

Porém, esse artigo difere dos dois artigos anteriores publicados na Wildcat devido à sua atitude mais desanimadora em relação às possibilidades para o surgimento de ligações amplas entre os trabalhadores na China e em outros lugares. Isto reflete a própria experiência frustrada do autor europeu ao tentar iniciar tais ligações ao longo dos anos em que vive no Sul da China. Especificamente, o artigo faz observações sobre o aumento da xenofobia e do nacionalismo entre os diferentes setores da sociedade — uma tendência que só cresceu desde que a pandemia de covid-19 ficou sob controle no país a partir da última primavera — fatos que fizeram qualquer tentativa de organização mais difícil e que colocaram desafios específicos para quem procura cultivar uma verdadeira perspectiva internacionalista. O artigo também descreve um relato da “involução” econômica e social da China consistente com o discurso chinês recentemente popular de neijuan — usado para descrever o sentido generalizado de que nenhuma quantidade de trabalho duro resultará em felicidade ou melhoria significativa de suas condições. (Nosso próximo artigo sobre protestos suicidas irá explorar um sintoma perturbador desta “involução”.)

Involução: Wildcat sobre a China em 2020 (I)

Nós também perdemos por vezes a esperança, e o momento presente parece ser um dos períodos mais desesperadores da história recente, especialmente no que diz respeito à possibilidade de um movimento de massas emergir. A China parece hoje estar em contraste flagrante com as mobilizações dramáticas que iluminaram o mundo ao longo da última década. No entanto, alertamos os leitores para colocar estes sentimentos em uma perspectiva histórica mais ampla. Muitas das grandes insurreições da história, desde a década de 1870 até a década de 1960, passando pela Primavera Árabe e a Revolta de George Floyd, emergiram de condições em que uma expansão econômica estava perdendo velocidade e o descontentamento latente parecia ter sido habilmente canalizado em formas de conservadorismo, nacionalismo ou racismo. Tais explosões muitas vezes descreveram o quão chocados estavam ao verem que as pessoas se transformaram tão radicalmente em tão pouco tempo. Mesmo na própria China, mudanças tão rápidas não são inéditas se expandirmos o nosso horizonte em apenas algumas décadas. Render-se ao cinismo da nossa era é tentador. Mas a esperança esconde-se nas sombras da pior repressão.

Para além desta divergência de tom, existe também uma diferença importante entre a nossa própria análise econômica e o quadro utilizado neste artigo. Este último parece ter sido extraído em grande parte de interpretações da crise através do “balanço patrimonial”, como pode ser encontrado no trabalho de autores como Michael Pettis. Tais interpretações se baseiam nas clássicas teorias do imperialismo hobsonianas, que caracterizariam mais tarde a ênfase “keynesiana” na falta de demanda efetiva como causa da crise, e estendem essa lógica para explicar guerras comerciais, conflitos imperialistas, e mesmo a “estagnação secular” a longo prazo, argumentando que tais fenômenos são causados pela desigualdade interna, e a diminuição da renda dos “consumidores.” A consequência é que um “reequilíbrio” do comércio conduzirá a uma redução da desigualdade, ao aumento do consumo e ao aumento da prosperidade para todos. Esta posição foi criticada em outros lugares, como neste artigo de Aaron Benanav. O desmantelamento dessas posições é importante, porque continua a ser também o quadro ideológico básico utilizado pelo Estado chinês na sua própria política industrial. Durante décadas, o Estado tem apresentando seus próprios objetivos nos mesmos termos, enfatizando a necessidade de cultivar o consumo interno, reduzir a dependência das exportações e dos ativos financeiros dos EUA (ou seja, o “reequilíbrio” do comércio) e canalizar dinheiro para P&D para ajudar a indústria nacional a avançar na “cadeia de valor”. Ao contrário de tais relatos, argumentamos que nenhuma dessas políticas, mesmo se bem-sucedidas, reduziria o conflito, a crise, a desigualdade ou as desigualdades imperialistas da economia global. Na verdade, acreditamos que tais medidas só vão piorar o excesso de capacidade industrial global, intensificar a concorrência, induzir mais expansões imperialistas, e, em última instância, se mostrarem incapazes de realmente diminuir a estagnação e a crescente condição de “excedente” do próprio trabalho na China, simbolizadas pela intensa exploração de trabalhadores de plataformas (levando a várias greves e a resultante repressão ao longo deste último ano, documentado em nossas traduções aqui e aqui), o aumento da informalidade e o discurso sobre neijuan documentado abaixo. Esta situação será melhor detalhada em breve no terceiro capítulo de nossa história econômica.

—Chuang
12 de maio de 2021

China: Neijuan 内卷

A palavra “Neijuan” é composta pelos caracteres para “dentro” e “rolo” ou “rolar” e é intuitivamente entendida como algo no sentido de “virar para dentro.” Pode ser traduzido como “retirada” ou “involução”. Significa estagnação ou impotência devido à perda de atrito, ou um processo que liga seus participantes sem beneficiá-los. Involução também significa o oposto da evolução.

 Involução: Wildcat sobre a China em 2020 (I)

Neijuan está na moda agora, como a cultura Sang alguns anos atrás, ou atualmente (Hunshui)Moyu (“pescar em águas lamacentas”, veja abaixo). Originalmente usado para descrever um processo de auto-limitação em sociedades agrárias que as impediria de progredir, “Neijuan” tornou-se agora o termo que os chineses metropolitanos usam para descrever os males de suas vidas modernas, seu senso de freneticamente remar contra a maré em uma sociedade hiper-competitiva. Intensa competição com poucas chances de sucesso, seja nos exames do ensino médio, no mercado de trabalho (ou de casamento!), ou quando fazem horas-extras como loucos. Todos têm medo de perder o último ônibus – no entanto, sabem que ele já partiu. Johannes Agnoli usou o conceito de involução para descrever a “regressão de Estados democráticos, partidos, e teorias para formas pré – ou anti-democráticas.”

Se você quiser ler mais sobre Neijuan/involução – por favor leia: Wang Qianni, Ge Shifan: “como uma palavra obscura captura a infelicidade urbana da China”, www.sixthtone.com, 4 de novembro de 2020.

Devido ao tamanho do texto, seguimos a péssima tradição anglo-saxônica de colocar um resumo no início:

A onda de greves de 2010 e as lutas contra o fechamento de fábricas aconteceram há muito tempo. Nos últimos anos, o China Labour Bulletin [Boletim do Trabalho na China] registra um declínio acentuado nas lutas dos trabalhadores, atingindo o ponto mais baixo em 2020. Embora tenha havido protestos dos trabalhadores da construção civil, dos trabalhadores da entrega de encomendas e de comida, e ainda de outros trabalhadores contra o fechamento de fábricas, os protestos permaneceram muito modestos em relação à queda acentuada da renda, demissões, salários em atraso, a dureza e irracionalidade dos lockdowns. Politicamente, o PCC foi capaz de usar habilmente o coronavírus, e a crítica massiva ao primeiro lockdown diminuiu desde então. Há um amplo apoio e defesa do governo e das figuras públicas. Mesmo muitos membros da esquerda e “pensadores críticos”, em última instância, assumem que o Estado ou os representantes do Estado realmente agem bem. No entanto, seria completamente errado explicar estruturas autoritárias como resultado de uma “lavagem cerebral” ou de características do leste asiático, como o confucionismo.

Involução: Wildcat sobre a China em 2020 (I)

Por que é que o governo chinês não usou o caos sob Trump para criar alianças e ampliar a sua reputação internacional? Por que razão atingiu o resultado oposto ao anexar Hong Kong, ao expandir os campos de trabalho forçado e de reeducação em Xinjiang, ao impor o fechamento de fronteiras, ao desencadear o nacionalismo e escaramuças fronteiriças com a Índia, ao iniciar uma guerra comercial com a Austrália, para além do sequestro e de outras formas de diplomacia do tipo Rambo? Na Wildcat 104, explicamos que a vontade do Estado ao aumentar o conflito era formar um bloqueio dentro da China, onde a prosperidade crescente e o domínio continuado do PCC não mais ocorriam ao mesmo tempo. As greves da década de 2000 mostraram que o aumento da industrialização também poderia levar ao aumento do poder dos trabalhadores. A fase de desenvolvimento dos países capitalistas industrializados, geralmente chamada de “Fordismo”, conseguiu fazer da luta de classes o motor do desenvolvimento através do crescimento do consumo privado e dos direitos sindicais – até que as lutas dos trabalhadores a partir de 1969 mergulharam a acumulação capitalista em crise. O PCC estudou tanto este contexto como o fim da União Soviética e está determinado a evitar esse destino. É por isso que mudou o sistema para um regime autoritário. Esta mudança aconteceu, como é habitual na China, na forma de luta entre facções quando o “líder supremo” Xi Jinping chegou ao poder. Desde então, a política econômica do Estado tem tentado estimular a economia sem aumentar o rendimento disponível da classe operária. Isso agrava a desigualdade social e fortalece a “Grande Divisão Social”. A China está caindo na “armadilha da renda média” precisamente porque a lutas de classes como uma força transformadora são reprimidas com sucesso. A China não tirará a economia mundial da crise – muito ao contrário.

Atualmente, o PCC parece firmemente no controle, mas o tempo está correndo contra ele. É precisamente por isso que ele está alimentando o nacionalismo e o aventureirismo da política externa. Como é possível, então, a solidariedade internacional? Como ela pode sobreviver à fase atual sem se aliar a um dos principais adversários geopolíticos, e, ao invés disso, manter uma perspectiva classista? Para encontrar respostas, a esquerda internacional deve deixar de olhar para as coisas através de lentes anti-imperialistas e culturalistas e afiar o seu olhar sobre a sociedade de classes chinesa.

A minha própria situação

No Sul da China, onde eu moro, a crise do coronavírus tornou as contradições mais visíveis para mim; levantou questões e provocou a eclosão de conflitos. Desde o lockdown em Wuhan em janeiro de 2020, tive de repensar repetidamente a minha perspectiva política sobre o mundo à minha volta. Isso incluiu muitas emoções que eu agora acho difícil de manter fora de uma observação factual. Portanto, vou começar pelas minhas observações. Não reivindico que tenham validade geral.

Involução: Wildcat sobre a China em 2020 (I)

No início, meus amigos compararam a covid-19 com a epidemia de SARS de 2003, que teve uma taxa de mortalidade de quase dez por cento por caso na China e em Hong Kong. O acobertamento inicial das autoridades, a incerteza geral e a falta de informação fizeram o resto. Como a maioria aqui, eu estava muito assustado e mal ousei sair de casa. Nas primeiras semanas, houve uma série de intensas críticas e dissidências online ao PCC e ao governo. Isto me fez sentir mais otimista quanto ao fato de que as mentiras e as medidas gritantes de lockdown não seriam aceitas sem discordância. Porém, quanto mais a epidemia se tornou uma pandemia global, mais silenciosa e menor se tornaram as críticas. Isso foi baseado não só na censura e no relativo sucesso no controle da doença no país, mas também na disseminação generalizada de ideologias de conspiração, de que tanto o exército dos EUA, Itália, Índia ou carne congelada foram as fontes originais do coronavírus.

Não fui para a China com um emprego lucrativo de expatriado com um generoso subsídio de expatriação, nem como um acadêmico. Eu vim por conta própria, economizei dinheiro para não ter que trabalhar no início e ter tempo para aprender chinês, e queria conhecer a vida, a sociedade e a realidade da classe trabalhadora na China. A ascensão do país para se tornar o chão de fábrica o do mundo representa uma das mudanças mais influentes nas últimas décadas, e eu queria ver isso de perto e fazer contatos.

No início, muito tempo foi gasto não só em aprender caracteres, mas também em reconhecer e descartar preconceitos inconscientes. O meu princípio orientador era que as culturas que diferiam daquela em que eu cresci não surgem de qualquer “alteridade” inerente, mas são uma consequência da distância geográfica e da consequente falta de intercâmbio social.

Em contraste com a ideia generalizada no Ocidente de que os trabalhadores chineses são passivos e aquiescentes, e que são principalmente vítimas, fui surpreendido com a alta taxa de conflitos e greves selvagens [wildcat strikes], o baixo nível de conformismo e com anarquismo cotidiano em comparação com a Europa. Apesar de no momento eu pensar que a imagem do “iEscravo”[iSlave] na fábrica da Foxconn retratava os trabalhadores muito como vítimas, eu participei de protestos simbólicos em frente a escritórios de corporações internacionais que lucram com a desprezível e perigosa exploração na China. A solidariedade internacional com os trabalhadores chineses e suas lutas me pareceu natural – apesar de nunca ter falado com eles sobre isso. Mesmo naquela época, no início da década de 2010, era quase impossível até mesmo para um estrangeiro fluente no idioma falar com os trabalhadores chineses durante uma greve. Neste meio tempo, a repressão, a epidemia e a xenofobia reduziram ainda mais as minhas oportunidades de contato com os trabalhadores. Um ano ou dois atrás, pude visitar regularmente ONGs de defesa dos direitos trabalhistas, ensinar inglês uma vez por semana em um bairro da classe trabalhadora, e falar muito mais facilmente na rua com motoristas de caminhão ou trabalhadores de armazém.

Involução: Wildcat sobre a China em 2020 (I)

Nessa época, eu me perguntava como seria a solidariedade internacional, mas considerava que era algo certo, importante e desejado. Nos últimos anos, eu percebi que é muito mais difícil – você geralmente encontra as pessoas erradas primeiro; as esperanças e desejos que você projeta para os outros são muitas vezes a entrada para um labirinto. Desde os meus encontros com o nacionalismo, o chauvinismo, a xenofobia e a falta de crítica e resistência, tenho tido dúvidas profundas sobre a possibilidade e utilidade de projetos de solidariedade internacional que não consideram os métodos utilizados e as pessoas com quem trabalham.

O meu local de trabalho: bloqueio coletivo devido à concorrência

Trabalho numa empresa internacional de TI há vários anos. Uma coisa boa sobre o trabalho é que, ao contrário de quase todas as empresas chinesas de TI, raramente há horas extras. Os meus colegas são todos chineses – exceto por um colega francês noutra cidade. Eles pertencem à classe média urbana, mas muitos não tem Hukou local (veja abaixo para mais detalhes!). Não tenho nenhum papel especial como estrangeiro, o meu contrato de trabalho e as minhas responsabilidades são as mesmas que as dos meus colegas chineses. Não há barreira linguística porque basicamente tudo é discutido em chinês, que eu agora falo quase fluentemente.

Os preconceitos racistas e as observações depreciativas sobre os colegas na Índia são comuns entre os líderes de equipe chineses. Para mim, é igualmente desconcertante não encontrar o mínimo movimento de solidariedade entre colegas. Todos dançam segundo o ritmo ditado pelo chefe, ninguém faz críticas ou mesmo rejeições, e não há qualquer tipo de discussão nas reuniões de trabalho. A resistência é expressa silenciosamente na melhor das hipóteses: as pessoas desaceleram quando o chefe não está olhando. Mas estão todos isolados. A maioria não pensaria nem em piscar o olho para seu colega de trabalho em solidariedade. Mesmo em conversas informais, uma atitude crítica é sequer insinuada – pelo menos para mim – e quase nunca recebo uma reação aos meus comentários irônicos.

Involução: Wildcat sobre a China em 2020 (I)

Em contrapartida, vejo regularmente divergências, expressões de opinião e defensivas por parte dos líderes de equipe e dos gestores. Se o chefe vem com programas de modernização, os gerentes mais baixos enrolam, não cooperam, enfraquecem os programas e apresentam sobre porque eles são inadequados. Eles passam a responsabilidade para frente. Estes mecanismos são muito claros. Meu colega francês diz que ele não experimentou um “jardim de infância” assim em nenhum outro país em quinze anos. Com esta (bastante bem sucedida) defesa contra a modernização – mesmo para mudanças que poderiam reduzir o seu próprio stress no trabalho! – os líderes de equipe e os gestores menores defendem os seus privilégios e o seu poder de comando, muitas vezes com uma boa dose de arrogância e voltando-se uns contra os outros. O conhecimento é monopolizado de modo a melhorar a sua própria posição. Tudo isto forma uma parede quase impenetrável para o chefe do Departamento.

Infelizmente, os colegas no nível inferior parecem ter muito pouca confiança e raramente manifestam preocupações ou objeções. Eles são indiferentes às questões da organização do trabalho. Parece um ato de misericórdia cada vez que se recebe uma informação importante, ou mesmo se dois ou três dias de férias são aprovados!

Gestão como em uma sala de aula

Nos últimos dois meses, duas mortes relacionadas com excesso de trabalho e horas extras no varejista online Pindoudou reavivaram o debate sobre o sistema 996 (trabalhar das 9h às 21h, 6 dias por semana) e as horas extras (não pagas). Quando perguntei por que havia tão pouca resistência coletiva se todos estavam reclamando sobre a pressão para fazer horas extras, uma amiga respondeu que era devido à falta de confiança. Ela própria trabalhou como designer gráfica em cinco empresas diferentes ao longo dos últimos anos e nunca ficou mais de um ano em nenhum lugar. Em todos os lugares, ela me disse, os chefes ficavam preocupados para fazer com que os funcionários desconfiassem uns dos outros. Assim que ela ficava amiga de um colega de trabalho e era capaz de trabalhar bem em conjunto, os chefes ficavam desconfiados e colocavam-na o mais longe possível. “Igual na escola!” Para o chefe, o controle é mais importante do que a produtividade. Porque se ele perde o controle, sua autoridade sofre; por outro lado, baixa produtividade por parte dos trabalhadores leva a horas extras e baixos salários para eles, não para o chefe.

Outro conhecido, cujo amigo tinha trabalhado na Pindoudou, explicou que a vontade de trabalhar 300 ou mais horas por mês é devido aos altos salários iniciais nessa empresa. Jovens recém-graduados tentam fazer horas extras como loucos por alguns anos com a esperança de economizar e comprar uma casa. A maioria vai embora após um, dois ou três anos. Há muita desconfiança entre os colegas, ele disse, e todos temem ser denunciados imediatamente se sugerirem recusar-se a fazer horas extras. A minha pergunta foi recebida com compreensão pelos outros – e, ao mesmo tempo, foi vista como uma indicação de que eu sou um estranho, porque na labuta diária aparentemente ninguém sequer pensa em recusar horas extras como uma equipe.

Involução: Wildcat sobre a China em 2020 (I)

Contra formas individuais de trabalho mais lento ou outro comportamento indesejado, escolas, assim como fábricas e escritórios, usam agora todos os tipos de tecnologia de monitoramento, tais como reconhecimento facial, almofadas com sensores, e similares, para automaticamente detectar (e punir) qualquer “mau comportamento”, como não focar no trabalho, descansar sobre a mesa, ou gastar alguns segundos a mais para ir ao banheiro. [1] Isto justifica descontos nos salários e treina comportamentos voltados para evitar erros, críticas e, especialmente, punição. Todos ficam calados e ninguém traz novas ideias e soluções. Apontar lacunas no conhecimento e pequenos erros dos outros está associado aqui com superioridade e autoridade em um grau que eu não estava acostumado antes – e infelizmente é extremamente comum entre homens.

Enquanto os patrões insistirem na exploração da mais-valia absoluta, isto é, em dias longos de trabalho, os colegas continuarão a enrolar e a travar a modernização. Se os chefes individualmente pararem de insistir em longos dias de trabalho e prazos apertados, então todos vão se sentir encorajados a desacelerar ainda mais. Sob estas condições, é tão difícil imaginar os chefes empurrando aumentos significativos da produtividade como é difícil para meus colegas forçar coletivamente o encurtamento dos longos dias de trabalho. Como poderia a equipe coletivamente tomar consciência do fato de que o chefe depende de nós e que nós já temos basicamente todo o conhecimento para implementar o trabalho e, portanto, podemos influenciar a organização do trabalho e a determinação dos prazos?

Todos estes exemplos dizem respeito a funcionários de escritório com alto nível de educação formal. Há dois anos, eu ainda tinha esperança de que as reclamações contra o sistema 996 contribuíssem para repensar a cultura do trabalho aqui, porque os trabalhadores de TI têm uma certa vantagem que poderia ser usada. Mas a sua vantagem não é a sua formação técnica ou o seu lugar na cadeia de produção, a vantagem se dá ao ser solidário fazendo as coisas em conjunto; como indivíduos eles são tão intercambiáveis como um trabalhador em uma linha de montagem. Porém, enquanto os últimos conseguiram fazer uma série de greves, os primeiros não conseguem fazer nada!

Involução: Wildcat sobre a China em 2020 (I)

Nota:

[1] Tiffany May, Amy Chang Chien: Slouch or Slack Off, This ‘Smart’ Office Chair Cushion Will Record It. New York Times, 12/1/21.

As artes que ilustram o texto são da autoria de Chu Teh-Chun (1920-2014)




Fonte: Passapalavra.info