Agosto 15, 2021
Do Passa Palavra
157 visualizações


Por Wildcat

Este artigo foi publicado originalmente na revista Alemã Wildcat e traduzida para o inglês no blog Chuang. A tradução em português é de Marco Túlio. A parte I pode ser lida Aqui

O racismo na vida quotidiana

Perdi a conta dos meus próprios encontros com o racismo. Várias vezes, como estrangeiro, o acesso a bairros e meios de transporte me foi negado, me disseram que os estrangeiros não podiam lidar com a pandemia de forma responsável, que eram irracionais e que não usavam máscaras. Reservas de hotel foram canceladas de última hora, gritaram comigo e me ameaçaram, disseram sem rodeios que eram os estrangeiros que entravam no país quem transportavam o vírus, ao invés dos chineses que regressavam, etc. A atenção especial que me foi dada enquanto europeu branco pode transformar-se em rejeição e discriminação a qualquer momento. A mesma pessoa que acabou de elogiar o meu chinês pode – por exemplo, porque ele tem “autoridade e responsabilidade” como porteiro – aplicar perfis raciais e afastar “o estrangeiro” usando desculpas obscuras. O perfil racial discriminatório é aceito pela grande maioria e é incorporado aos softwares de reconhecimento facial pela Alibaba, por exemplo. Situações racistas na televisão são praticamente a norma.

Alguns amigos publicaram online um pequeno relatório que eu fiz em chinês sobre discriminação racista, que recebeu atenção e aprovação em meu círculo próximo de conhecidos. Fora deste pequeno círculo, eu encontro negação (eu estou apenas entendendo algo errado), uma atitude de “e daí?” (em outros países também há racismo), ou me dizem que os chineses são ainda piores uns com os outros do que com os estrangeiros. Na verdade, a discriminação contra chineses com pele ligeiramente mais escura ou de partes mais pobres do país é generalizada. Os trabalhadores da construção civil, por exemplo, podem ser vistos de longe pela sua estatura atarracada e corpos queimados pelo sol, visto que trabalham com construção e provêm de partes pobres e desnutridas do país. Eles erguem torres residenciais e de escritórios que valem muitos milhões de dólares e não ganham muito mais do que um salário mínimo. As suas equipes de trabalho estão alojadas em containers e não têm nenhum contato com a sociedade urbana. Eles têm dias longos de trabalho e quase nenhum dia de folga, lavam suas roupas à mão em cubas em frente ao containers onde moram, e eu nunca vi ninguém nas obras usando sapatos de segurança ou um soldador usando óculos de solda. Mesmo durante a pandemia, quando a maioria dos hotéis estava vazio, não pagaram para eles nem mesmo os quartos de hotel mais baratos.

Involução: Wildcat sobre a China em 2020 (II)

Comparado com a estigmatização e exclusão dos trabalhadores da construção, os meus próprios encontros com a xenofobia são quase ninharias.

Todas estas três defesas típicas que as pessoas costumam usar para relativizar o problema mostram uma falta de confronto com o racismo e uma ausência de valores universalistas. Nos EUA e em outros lugares, as pessoas vão às ruas contra o racismo. Na China, estudantes “de esquerda” fizeram um documentário em abril de 2020 sobre a expulsão de africanos em Guangzhou por proprietários de terra e autoridades que terminava insinuando que os não-chineses deveriam entender melhor a cultura e a língua chinesa! [1]

Três observações cotidianas

  • Em 2017, as sessões informais de cinema e as discussões nos cafés contavam com moderadores, mas essas pessoas eram bastante abertas e relaxadas e não pareciam se sentir como se estivessem em uma missão. Hoje em dia, os moderadores agem como os professores autoritários das aldeias e “explicam” um filme sobre o qual não conhecem mais do que qualquer outro presente. Eles dão palestras moralizantes e não permitem nenhuma discussão livre, e fazem comentários em resposta a cada intervenção. O autoritarismo crescente não se detém sequer em círculos pequenos, quase privados e “de esquerda”.
  • Em dezembro, agentes uniformizados sistematicamente forçavam os passageiros na estação de trem principal e no metrô a instalar um aplicativo “contra fraudes online” nos seus celulares sem dar nenhuma explicação. Um aplicativo espião no celular pode obter informações sobre a vida do usuário que são comparáveis a um interrogatório policial de dez horas. Não observamos nenhum protesto ou indignação.
  • Uma conhecida com diploma universitário, que havia trabalhado por algum tempo em uma ONG de proteção ambiental, ficou grávida sem querer e decidiu ter o filho e se casar. Desde então, ela vive com seus sogros em uma cidade de cerca de um milhão de pessoas e já tem outro filho. O marido trabalha a cerca de uma hora de carro e só a visita a cada uma ou duas semanas. Ela não pode morar com o marido porque ele tem uma irmã de oito anos, e ela é em grande parte a responsável por cuidar dela. Quando ela cozinha, a criança de oito anos liga para a mãe que saiu de casa para resolver alguma coisa para que ela dê instruções minuciosas para sua nora de como se deve cozinhar

Involução: Wildcat sobre a China em 2020 (II)

O casamento ainda serve para se apropriar do trabalho feminino. Através do casamento, a mulher torna-se parte da família do homem e está sujeita ao comando da sogra. A hierarquia social nas relações de negócios, administração e parentesco ainda se baseia fortemente no princípio da senioridade, embelezado como meritocracia, monopólio do conhecimento e todo o tipo de honras. Os anciãos medem o seu poder e posição pela quantidade de pessoas a quem podem dar ordens. Em que condições é que os jovens altamente qualificados decidem ir contra a hierarquia? E quando eles obedecem?

Como a propaganda funciona

Para além da cultura empresarial, a propaganda estatal também produz seus efeitos. O PCC basicamente propaga a excepcionalidade chinesa: o socialismo de estilo chinês, a cultura chinesa, a medicina, a história, a comida chinesa, o Estado de Direito chinês, etc. Tudo se reduz à fórmula de que a China é especial. Portanto, os não-chineses não podem julgar a China e os valores não-chineses não podem ser aplicados à China (mas outros países devem “aprender com a China”!). O imperialismo, que todos os maoístas e nacionalistas de esquerda e de direita rejeitam, é definido como o imperialismo dos brancos; não importa como a China age na Ásia Central, na África ou em qualquer outro lugar, ela não pode ser imperialista por si mesma.

A acusação de dois pesos e duas medidas contra o Ocidente é correta; mas se torna absurda quando a vemos no contexto da rejeição do PCC aos valores universalistas enquanto “Ocidentais”. Pois, de acordo com o PCC, não pode existir uma moralidade uniforme [2]. Os doze valores centrais do socialismo chinês da Era Xi incluem a democracia, a liberdade e o Estado de Direito (Estado de Direito, mas sem separação de poderes, logo um governo que faz as próprias leis). Muitos acreditam que a China é democrática. Isto pode ser útil quando se tenta desarmar a propaganda democrática vinda do exterior, mas também é facilmente atacado: na minha aula de chinês, há quatro anos, todos riram quando o professor afirmou que a China era democrática.

O maior sucesso da propaganda do PCC não é o “apagamento” dos acontecimentos históricos da memória coletiva, por exemplo, a Revolução Cultural e o Massacre de Tiananmen, mas sim que a maioria dos jovens perdeu a curiosidade. Mesmo aqueles com acesso a VPNs (redes privadas virtuais) sentem pouca curiosidade para descobrir do que estão sendo realmente privados. Um estudo recente na revista Political Behaviour explica muito bem o mecanismo social por trás desse efeito: as pessoas sabem que tudo é censurado e alinhado de acordo com a oficial e não acreditam nas coisas estúpidas, mas pensam que os outros acreditam nisso. A propaganda funciona então porque o indivíduo mantém a boca fechada para não entrar na linha de fogo – o que, por sua vez, sugere aos outros que ele acredita na propaganda.[3]

Involução: Wildcat sobre a China em 2020 (II)

Notas

[1] Africans in Guangzhou: misunderstanding, discrimination, and communication. Publicado no Youtube em 8/18/2020: https://www.youtube.com/watch?v=NZ8pcs9yFbg

[2] Ver “Document No. 9” na Wikipedia.

[3] Haifeng Huang e Nicholas Cruz: Propaganda, Presumed Influence, and Collective Protest. ”…Nós testamos este mecanismo indireto de propaganda usando uma experiência de pesquisa com usuários de internet chineses… eles acreditam que a propaganda reduz a vontade de protestas em outros cidadãos, o que, por sua vez, reduz a sua própria vontade de protestar… “ Ver Political Behaviour, Jan. 8, 2021.

As artes que ilustram o texto são da autoria de Wang Guangyi (1957 -)




Fonte: Passapalavra.info