Agosto 22, 2021
Do Passa Palavra
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Por Chuang

Este artigo foi publicado originalmente na revista Alemã Wildcat e traduzida para o inglês no blog Chuang. A tradução em português é de Marco Túlio. Leia também a primeira e a segunda parte

O poder do Partido

A República Popular da China tem sido descrita como uma “criptocracia” (um governo oculto, secreto ou invisível) porque aqueles que realmente tomam as decisões permanecem obscuros, assim como seus conflitos internos. Um círculo de famílias oligárquicas extremamente poderosas e ricas, muitas vezes “principezinhos” como Xi Jinping (descendentes da velha guarda), detém as rédeas. Eles baseiam seu poder nos militares (o título mais importante de Xi é presidente da Comissão Militar), nas burocracias partidárias e estatais, no aparato de segurança, nas empresas estatais, na Liga da Juventude Comunista (polo de poder de Hu Jintao), e em centros de poder informais como a gangue de Xangai (polo de poder de Jiang Zemin). Todas as grandes e muitas das médias empresas privadas estão, direta ou indiretamente, ligadas às redes de relações de poder da elite no Partido, no Estado, nos bancos e nas empresas estatais. No início de novembro e no último minuto, o regime interrompeu a oferta pública inicial (IPO) no mercado de ações da Ant Financial, o braço bancário de Alibaba. A Ant cresceu até se tornar o maior banco monetário do mundo através da intermediação de empréstimos ao consumidor sem estar sujeito a regulamentação bancária. Como esses empréstimos online agora são responsáveis por cerca de 20 por cento do PIB, o risco deve ser contido através de regulamentação mais rígida e de uma rédea mais curta para as empresas de tecnologia. À medida que as coisas progrediam, ficou claro que os adversários de Xi Jinping no aparelho de poder também teriam se beneficiado do IPO – a política econômica também continua a servir a luta entre facções, ou vice-versa.

No entanto, o Estado e a administração do Estado não são um bloco monolítico. As autoridades superiores definem a direção, enquanto os escalões mais baixos devem pôr as coisas em prática e dispõem de uma margem de manobra relativamente grande para a tomada de decisões e suas interpretações. São avaliados em função dos indicadores-chave de desempenho (KPI), como o crescimento do PIB. Portanto, os governos locais e provinciais tendem a favorecer a realização a curto prazo de KPIs pré-definidos e a negligenciar desenvolvimentos sustentáveis, mas menos espetaculares.

Involução: Wildcat sobre a China em 2020 (III)

Uma grande parte dos impostos flui para o governo central, e os governos locais têm poucas fontes de receita. Eles privatizam a terra comum e pedem empréstimos ao sistema financeiro informal (shadow banks ou bancos sombra) para bombear dinheiro para a economia local, de modo a cumprir os objetivos estabelecidos. Ao fazê-lo, ignoram frequentemente as normas ambientais impostas pelo governo central. Os salários mínimos, por outro lado, são fixados localmente pelos governos municipais…

Na educação e nas escolas profissionais, a situação é semelhante: o governo central quer elevar o nível educacional dos trabalhadores, mas não fornece aos governos locais recursos suficientes para as escolas profissionais. Os governos locais falsificam os relatórios sobre as escolas, terceirizam para fornecedores privados (o que leva a um péssimo ensino) e contratam estudantes no terceiro ano de treinamento para a Foxconn ou outras empresas!

Em 1 de julho de 2021, o PCC celebra oficialmente o seu centenário. Os seus representantes estão em toda parte, em todos os poros da sociedade. Todas as empresas estatais e todas as grandes e muitas das pequenas empresas privadas – incluindo as estrangeiras – têm comitês ou representantes sindicais do Partido. Todas as universidades e todas as escolas têm comitês, e para cada estudante existe um supervisor político responsável por punir comportamentos inadequados. Todas as ruas e complexos habitacionais são parte de uma grade, e em cada grade há uma pessoa no comando que reporta à burocracia do Partido.

A maioria dos membros comuns provavelmente entra no Partido devido à tradição familiar, por decisões sobre carreira, ou por convites oferecidos aos melhores alunos. Eles tendem a estar entre os melhores, mais patriotas e mais conservadores em seus respectivos ambientes, sem necessariamente serem nacionalistas. Por vários anos, membros do Partido e funcionários do governo e de empresas estatais têm sido forçados a assistir filmes de propaganda e resolver pequenas questões de exame todos os dias através do aplicativo Xue Xi, Qianguo (estude Xi, fortaleça o país). Mais recentemente, estudantes comuns de Enfermagem, por exemplo, também foram obrigados a ouvir os discursos de Xi durante quinze minutos por dia através do mesmo aplicativo.

Involução: Wildcat sobre a China em 2020 (III)

O governo central muitas vezes controla a sociedade com campanhas como durante o comando de Mao (“Que 100 Flores Desabrochem,” “O Grande Salto Adiante”, etc.). No início da pandemia, todo o país e todas as aldeias foram chamados a implementar um lockdown. Tais campanhas são eficazes (as metas são cumpridas), mas muito ineficientes (grande desperdício de recursos). A propósito, mas não surpreendentemente, nunca houve uma campanha nacional para aumentar os salários, reduzir o tempo de trabalho ou melhorar as condições de trabalho.

Será que a China está, mais uma vez, tirando a economia global da crise?

Com um crescimento de mais de dois por cento, a China é a única grande economia que não encolheu em 2020. No entanto, os números relativos ao crescimento econômico foram ajustados para se tornarem melhores do que realmente são; eles ocultam dívidas e projetos improdutivos de grande escala. A situação relativa à pandemia do coronavírus também não é tão clara como foi oficialmente afirmado. Novas infecções são geralmente combatidas com testes em massa e lockdowns locais, que podem incluir um toque de recolher obrigatório para 22 milhões de pessoas em Hebei no início de janeiro de 2021, como em Wuhan no ano passado. E as atuais proibições de entrada para a maioria dos estrangeiros – e muitos chineses também! – mostram que tudo está longe de voltar ao normal. O fato de a OMS não ter pressa quando se trata da investigação da causa epidemiológica também sugere que ainda há muito a se fazer.

De acordo com um estudo publicado no BMJ em 24 de fevereiro de 2021, o excesso de mortalidade em Wuhan entre o final de janeiro e 12 de fevereiro foi de cerca de 5000 mortes. Isso sugere que o surto de infecção em Wuhan começou muito mais cedo e foi muito mais massivo do que foi oficialmente declarado. Deduzindo a partir do excesso de mortalidade, há cerca de 100-250 mil infecções que devem ter ocorrido antes do lockdown oficial em 23 de janeiro. Assim, a situação nos hospitais locais já era dramática provavelmente no início/meados de janeiro. E, apesar do relativo sucesso das medidas que começaram depois, em retrospectiva, não se deve esquecer a dureza e a arbitrariedade dos lockdowns [1].

Involução: Wildcat sobre a China em 2020 (III)

O programa de estímulo da China durante a crise do coronavírus foi pequeno em comparação com o de outros países desenvolvidos e comparado com o da crise de 2008/2009. O crescimento ocorreu especialmente na indústria da construção e nas exportações. Os exportadores estrangeiros de minério de ferro estão se beneficiando do boom da construção, e os “fabricantes de automóveis de luxo” alemães estão desfrutando do fato de que a estimava para o consumo de luxo aumentou quase 50% ano a ano. A China é agora o lar de mais bilionários em dólares estadunidenses do que os EUA e a Índia juntos. Mas o consumo privado caiu cerca de 5%. A queda do poder de compra privado e, em particular, o aumento do excedente do comércio externo sugerem que, desta vez, a China não está mais emergindo como o motor da demanda global, mas, pelo contrário, está tendo a sua própria recuperação financiada a partir do estrangeiro. Esta recuperação foi comprada com endividamento: a dívida total aumentou rapidamente cerca de 25% do PIB e agora está em 279% ou 335% do PIB, dependendo do cálculo. O endividamento privado cresceu de 55% para 62% do PIB em 2020, ou para 150% do rendimento disponível total anual. E a recuperação econômica exacerbou as enormes desigualdades sociais e econômicas. A maioria dos trabalhadores migrantes, bem como muitos trabalhadores urbanos, perderam um ou mais meses de renda devido aos lockdowns, horas extras perdidas e cancelamento de subsídios.

Dúvidas sobre o crescimento real

De acordo com as previsões oficiais, o PIB per capita na China atingirá US $13.000,00 em cerca de três anos; e o PIB deverá ser nominalmente maior do que o dos Estados Unidos daqui a oito a dez anos.

À luz disso, a declaração em Maio do primeiro-ministro Li Keqiang de que 600 milhões de chineses vivem com 1000,00 RMB (cerca de €125,00) ou menos por mês foi um tapa na cara. Isto provocou também um debate acalorado entre os meus colegas, com muitos se recusando a acreditar que a China era tão pobre. O jornal Caixin confirmou a declaração de Li com base em pesquisas da Universidade Normal de Pequim e do Departamento Nacional de Estatísticas. De acordo com o relatório, 600 milhões viviam com uma renda mensal disponível de 1090,00 RMB ou menos no final de 2019. De acordo com o Caixin, as famílias mais pobres normalmente vivem em áreas rurais, têm uma média de um filho menor e um membro com mais de 60 anos. A mediana do rendimento disponível per capita é de cerca de 1300,00 RMB (165 euros). A “classe média” da China (definida como renda per capita acima de 2000 RMB = 252 euros), portanto, consiste em 250 milhões de pessoas e não 400 milhões, como oficialmente divulgado.

Com base nesses números, se tentarmos estimar o montante total disponível para consumo privado a cada ano e colocá-lo em relação ao PIB oficial de 2019, obtemos uma parcela do consumo privado 22-28% do PIB. Isso não seria apenas histórico, também provavelmente seria simplesmente impossível (oficialmente é cerca de 38%). Em outras palavras, pode ser estimado a partir da declaração de Li que o PIB real só pode ser cerca de 65-80% do número oficial (RMB 99 trilhões). Uma comparação com os números relativos à renda e à desigualdade de renda levantados por Piketty leva a um resultado semelhante, tendo em conta a elevada taxa de poupança e o pagamento de juros. As dúvidas sobre o nível real do PIB não são novas, e o ajuste dos números por parte dos governos provinciais é bem conhecido. O meu cálculo serve apenas como uma estimativa conservadora, mas se o crescimento dos últimos dez anos tivesse sido produtivo, os rendimentos teriam de ser muito mais elevados do que Li indica. Mas se os seus números estão corretos, o peso da dívida como porcentagem do PIB também é muito mais elevado do que o indicado acima.

Involução: Wildcat sobre a China em 2020 (III)

Michael Pettis aponta que o PIB chinês deve ser entendido como uma medida de input (!) utilizada para determinar a atividade econômica que os governos provinciais devem gerar. O PCC estabelece as metas de crescimento. A maior parte do PIB é canalizada para infraestrutura, propaganda e afins, de acordo com os interesses do Partido. Esta infraestrutura pública foi em grande parte construída para o crescimento do PIB e tem utilidade limitada (pontes vazias, linhas ferroviárias de alta velocidade subutilizadas…). O crescimento é gerado com projetos de prestígio financiados com dívida, que aumentam de fato a riqueza social. Pettis estima o crescimento anual real em cerca de dois a três por cento.

Os números da renda fornecidos por Li significam não só que 600 milhões de chineses vivem com menos de 125 euros por mês, mas também que uma parte considerável do crescimento econômico dos últimos dez anos não ocorreu. O crescimento futuro também será proporcionalmente mais baixo e diminuirá ainda mais devido ao envelhecimento da população, à dívida, etc. A quimera do crescimento rápido não poderia então ser mantida por muito mais tempo, e ultrapassar os EUA só seria possível se a economia dos EUA colapsasse (o que a propaganda chinesa continua a aludir). Em outras palavras, o tempo está contra Pequim [2].

Em relação aos meus próprios cálculos: o relatório indica o número de pessoas para grupos específicos de rendimento, por exemplo, que 202 milhões recebem um rendimento disponível mensal p.p. de RMB 500-800. Eu calculei as médias e somei de forma ponderada para aproximar a soma total de todos os rendimentos disponíveis das famílias. No entanto, essa última não pode ser determinada de forma significativa porque os rendimentos do percentil mais rico não são conhecidos com precisão. Entretanto, para o consumo privado, este percentil não desempenha um papel decisivo; não podem consumir todo o dinheiro, então me limitei a um determinado montante. Eu reduzi no montante total uma taxa de poupança de cerca de 20-35% e o pagamento de juros de cerca de 10-15%, aumentando-o com a nova dívida anual de 9%. Sobre Piketty veja: World Inequality Database, www.wid.world Michael Pettis: What Is GDP in China? 16 jan., 2019 [https://carnegieendowment.org/chinafinancialmarkets/78138]

Involução: Wildcat sobre a China em 2020 (III)

Notas

[1] Excess mortality in Wuhan city and other parts of China during the three months of the covid-19 outbreak: findings from nationwide mortality registries. The BMJ, 11 de fevereiro, 2021. Ver: https://www.bmj.com/

[2] Wan Haiyuan, Meng Fanqiang: China Has 600 Million People With Monthly Income Less Than $141. Isto é Verdade? Caixin, 6.6.2020.

As artes que ilustram o texto são da autoria de Yu Sanyu (1895-1966)




Fonte: Passapalavra.info