Setembro 12, 2021
Do Passa Palavra
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Por Wildcat

Este artigo foi publicado originalmente na revista Alemã Wildcat e traduzida para o inglês no blog Chuang. A tradução em português é de Marco Túlio. Leia também a primeira, a segunda, a terceira, a quarta e a quinta parte

Xinjiang

Enquanto isso, há cada vez mais relatos, fontes e documentos internos vazados sobre os campos de detenção de uigures em Xinjiang, onde se estima que um milhão de pessoas estão detidas. A repressão engloba a substituição da língua uigur pelo chinês mandarim, o impedimento de visitas a mesquitas, vigilância generalizada, prisão, trabalho forçado, redução do número de nascimento de uigures e tortura.

Há dez milhões de uigures vivendo na China, o que equivale a apenas cerca de 0,7% da população total. Em Xinjiang, eles representam 45% da população. Muitos foram para o leste da China como trabalhadores migrantes. Não são apenas trabalhadores da construção, mas desempenham um papel importante nos serviços de fornecimento de alimentos em todas as cidades chinesas. Os trabalhadores migrantes que gostariam de regressar a Xinjiang pensam agora duas vezes porque têm poucas chances de conseguirem sair de lá. Os chineses da etnia Han, que o governo deliberadamente estabeleceu em Xinjiang durante décadas, também estão deixando a província.

Os quadros do PCC em Xinjiang costumavam ser uigures. Como parte da política de industrialização na década de 1980, eles foram substituídos por chineses da etnia Han. Ações terroristas ocorreram contra o assentamento de chineses da etnia Han em Xinjiang. Isto alarmou o governo chinês, que sempre reprimiu qualquer aspiração separatista. Depois do 11 de setembro, havia o medo de que acontecesse em Xinjiang uma segunda Chechénia. Nos últimos quatro anos, o governo tem reforçado a repressão na região. Uma das razões é que a Rota da Seda passa por lá. Mas certamente não é coincidência que isso esteja acontecendo simultaneamente com o desenvolvimento político interno levado a cabo por Xi Jinping. Xinjiang é uma espécie de modelo e de laboratório; os campos não são apenas para os uigures. (Aliás, chineses da etnia Han também são detidos neles). Na propaganda estatal, os campos de trabalho são mostrados como esquemas de treinamento, reeducação, luta contra o terrorismo ou, no estilo do colonialismo, como a iluminação de povos não civilizados.

Involução: Wildcat sobre a China em 2020 (VI)

A China é o maior produtor mundial de tomates; provenientes principalmente de Xinjiang, muitas vezes na forma de pasta de tomate. Da mesma forma, 80% do algodão da China é cultivado na região. Mas, embora algumas empresas agrícolas certamente sejam beneficiadas, o sistema de campos não pode ser explicado pela racionalidade econômica. Os seus custos com segurança são enormes.

A Volkswagen é a única fabricante estrangeira de automóveis a ter uma fábrica em Xinjiang. Provavelmente não é um investimento produtivo, mas um gesto de boa vontade da empresa em relação ao PCC. A fábrica foi projetada para produzir 50.000 carros por ano, mas nunca produziu nem a metade disso (em comparação, a fábrica da VW em Foshan, no sul da China, tem uma capacidade de 300.000 carros por ano por linha de montagem). Quando perguntado, Diess, o chefe da empresa, afirmou que nunca tinha ouvido falar de violações dos direitos humanos em Xinjiang e que não podia dizer nada sobre o assunto.

Por muito tempo, os países da OTAN e a Rússia deram liberdade à China em relação a Xinjiang – afinal, a “luta contra o terror islâmico” é uma preocupação comum (com muitas nuances, obviamente, veja a Síria!). Ao mesmo tempo, porém, os campos estão sendo utilizados por outros países no confronto com a China; em meados de janeiro de 2021, os EUA impuseram uma proibição de importação de algodão e tomate provenientes de Xinjiang. Devemos criticar a acusação propagandística de “genocídio”; de acordo com as evidências, o que está acontecendo é opressão, não extermínio, e chineses da etnia Han também estão entre as vítimas. Mas desvelar as políticas ocidentais como propaganda não significa negar a existência dos campos!

Internamente, os campos representam um conflito que o governo não pode vencer – a menos que continue a repressão pelos próximos 50 anos até que quase nenhum uigur continue vivo. Se o confinamento e a vigilância terminassem amanhã, as mentiras do PCC ficariam óbvias para todos, e certamente muita gente se vingaria do aparelho de segurança. Na sociedade chinesa, não há discussão pública sobre isso e nenhuma oposição. Um taxista que esteve em Xinjiang nos contou das barreiras policias de lá como se estivesse falando das suas férias. Ele não ficou horrorizado com o fato de que os uigures não são autorizados a sair na rua em grupos de três pessoas: eles têm que ser tratados assim porque estão sempre se encontrando e passando todo o tempo com os amigos.

Involução: Wildcat sobre a China em 2020 (VI)

Com Xi no poder, uma mudança fundamental das políticas em relação a Xinjiang é quase impossível. Até lá, porém, o despotismo autoritário não será posto em causa e a segurança jurídica também não será possível no resto do país; seria demasiado fácil usar esta situação em pedidos de indenização por confinamento e tortura. As medidas draconianas aplicadas em Hong Kong e especialmente em Xinjiang prendem o PCC numa via de sentido único rumo ao autoritarismo. E, como vimos acima, sem reforçar a segurança jurídica, também não será possível um aumento efetivo do consumo ou da taxa de natalidade. O despotismo dos campos, a pobreza, os baixos salários e a crise demográfica estão interligados e são mutuamente interdependentes.[1]

A China está presa na armadilha da renda média?

Antes da crise global, os países do BRIC (Brasil-Rússia-Índia-China; mais tarde também África do Sul: BRICS) foram apresentados como os grandes vencedores da globalização. Depois da crise, a perspectiva se inverteu. O que foi previamente propagado como um “desenvolvimento automático” foi problematizado. Em 2008, Gill e Kharas cunharam o termo Armadilha da Renda Média. Em 2008, apenas 14 dos 101 países definidos como de “renda média” em 1960 conseguiram tornar-se de “renda alta” (incluindo a Irlanda, os países do sul da Europa, bem como a Coreia do Sul, Taiwan e Singapura). A teoria da Armadilha da Renda Média explica isso dizendo que a industrialização nas economias emergentes entra numa fase em que certas indústrias se deslocam para outros lugares, devido ao aumento dos salários (na China, por exemplo, a indústria têxtil está fazendo isso), mas esses países (ainda) não conseguiram atrair outras indústrias e competir com os países desenvolvidos mais industrializados. Este processo não pode ser entendido apenas como “desenvolvimento tecnológico”. A teoria econômica o descreve como uma transição do desenvolvimento “quantitativo” para o “qualitativo”, e os marxistas o entenderiam como uma transição da produção da mais-valia absoluta para a relativa. “Fatores externos” também desempenham um papel importante: na década de 1930 foi a luta de classes; durante a “Guerra Fria” muitos Estados da linha da frente foram fortemente apoiados pela OTAN… e desde o choque produzido por Volcker em 1979, apenas a Coreia do Sul (um antigo Estado da linha da frente) conseguiu se tornar um país de “renda alta”. Só em 1987, houve mais de 3000 greves que poderiam alcançar aumentos salariais de 25% a 30%. Mais importante, essas lutas derrubaram a disciplina militar de trabalho dentro das fábricas! No período que se seguiu, a gigantesca China se tornou um “fator externo”, utilizando o dumping nos preços das mercadorias para negar aos países menores a oportunidade de desenvolvimento. Logo após a crise global de 2008/9, surgiu uma discussão se a própria China está presa nessa armadilha. [2]

Foi muito fácil para os empresários na China durante os anos com crescimento de dois dígitos: eles poderiam inundar os mercados globais com produtos baratos, para os quais a queda dos salários nos países industrializados criava a demanda. E a combinação de trabalhadores vindos do meio rural, a utilização de máquinas e o prolongamento do tempo de trabalho garantia lucros suficientes.

Involução: Wildcat sobre a China em 2020 (VI)

Com Hu Jintao, certamente houveram esforços para aumentar os salários e o consumo. Falou-se da introdução de sindicatos industriais como aqueles da Alemanha. Grandes programas de investimento estatal foram implementados para amortecer os efeitos da crise global de 2008 em diante, e mesmo após a greve na Honda em 2010 houve breves experiências com sindicatos de empresas em Guangdong.

Mas a transição para o “crescimento qualitativo” teria exigido – ou mesmo provocado – mudanças profundas. Os salários teriam de aumentar não só mais rapidamente do que o PIB, mas também mais rapidamente do que os lucros das empresas. Para reduzir a taxa de poupança, a seguridade social e a legislação trabalhistas teriam de ser melhoradas e fiscalizadas (bem como a lei sobre os aluguéis e outras). Tudo isso em uma situação de crise global na qual as altas taxas de crescimento das duas últimas décadas não eram mais possíveis – bem como contra o pano de fundo de lutas de classes ferozes no país…

Quando Xi sucedeu a Hu em 2012, os experimentalistas logo se aposentaram. A parte de salários e de consumo do PIB subiram entre 2010 e a recessão econômica de 2015/6, em parte como resultado do movimento grevista, mas Xi foi capaz de usar a queda econômica para consolidar plenamente seu poder e reforçar a repressão. Desde então, a parte dos salários e do consumo voltou a diminuir.

Em última análise, isso intensificou a constelação que tinha sido a base do milagre econômico chinês: salários crescentes com uma parte salarial em declínio (isto é, a parte dos salários e benefícios em relação ao PIB, que pode ser tomada como uma medida do poder dos trabalhadores). A participação salarial havia diminuído de 51,4% em 1995 para 43,7% em 2008. Nos últimos anos, voltou a cair, atingindo cerca de 40%. E, como mostrado acima, os salários reais das camadas mais baixas da classe operária também estão em declínio. Essa oportunidade foi perdida, e mais autonomia para os sindicatos de empresas ou mesmo sindicatos independentes está fora de cogitação no momento. [3]

Involução: Wildcat sobre a China em 2020 (VI)

De acordo com o Banco Asiático de Desenvolvimento, três coisas são essenciais para escapar da armadilha da renda média: tornar os processos de trabalho mais eficazes, encontrar novos mercados para sustentar o crescimento das exportações e aumentar a demanda interna. No entanto, a recente recuperação da política econômica de uma “economia de dupla circulação” continua a impulsionar a procura interna através de uma mistura perigosa de dívida e bolha imobiliária; muito dinheiro do governo continua a fluir para projetos de infraestrutura cujo benefício é duvidoso. E já discutimos como a política econômica impede o mercado interno de alcançar o crescimento através de aumentos salariais e do consumo em massa.

A maior vantagem competitiva da China na fase de rápido crescimento agora está impedindo o “desenvolvimento qualitativo” exigido por todos os conselheiros econômicos. O sistema Hukou é semelhante ao sistema Bantustan na África do Sul durante o Apartheid: os trabalhadores foram levados para onde eram necessários, enquanto suas famílias e crianças tiveram que ficar em lugares onde os custos de reprodução e de moradia eram baratos. Isto criou e manteve um enorme fosso salarial entre as cidades e as zonas rurais. Com o sistema Hukou, o Estado garantiu força de trabalho barata para as empresas, que poderiam, portanto, poupar em investimentos na melhoria da qualidade dos processos de trabalho. O baixo nível de educação formal dos trabalhadores mais velhos é uma consequência e não uma causa deste desenvolvimento econômico. A África do Sul, a propósito, é um dos exemplos típicos de países presos na armadilha da “renda média”! Aliás, o sistema Hukou foi relaxado recentemente apenas nas cidades menores de 3º e 4º níveis com menos indústrias e empregos; as 22 cidades de primeiro e segundo níveis, por outro lado, tornaram ainda mais difícil obter um Hukou local.

“Quando o reservatório de força de trabalho barata do país for esgotado… outras qualidades serão necessárias. Deste momento em diante, para que seja possível dominar a próxima etapa de desenvolvimento é necessário aplicar métodos de produção mais eficientes, produzir bens de maior qualidade e avançar na pesquisa e desenvolvimento locais”, escreveu Elisabeth Tester, jornalista econômica e antiga correspondente na China, em uma edição especial sobre a Chio país do Schweizer Monat em 2018 (Elisabeth Tester “Middle Income Trap” Outubro de 2018). Mas ela está errada! Se o reservatório de força de trabalho barata já está esgotado – e não se quer trazer milhões de trabalhadores estrangeiros para o país – já é tarde demais!

A China tem seguido os conselhos sobre como evitar a armadilha de renda média (educação, pesquisa, infraestrutura…). Mas a educação formal, por si só, não é suficiente para criar empregos adequados. A pesquisa de ponta e os foguetes para Marte não tornam a produção industrial em massa mais eficaz. Avanços (catch-up) tecnológicos nos setores de telecomunicação, automóveis elétricos, trens de alta velocidade, chips de computador, aeroespacial, computadores quânticos, etc. funciona bem como substituição de importações, mas não é suficiente para abrir novos mercados. A China também não pode desejar que o resto do mundo seja capaz e esteja disposto a absorver uma parte crescente das exportações sem nenhum crescimento das importações. A robotização também está se revelando mais difícil do que o previsto no plano industrial Made in China 2025 . De acordo com o Banco Mundial, a produtividade total dos fatores, medida usada pelos economistas para determinar o “progresso técnico” ou o crescimento da produtividade, cresceu 4% ao ano antes de 2010, depois cerca de 2%, e mais recentemente apenas 0,7%.

Alguns dos setores em crescimento são a tecnologia de controle e os serviços de segurança, que não produzem nenhum benefício social. A China não está “tornando os processos de trabalho mais eficazes”, como dizem os economistas. A produtividade da classe operária industrial está ficando para trás. As centenas de milhares de jovens trabalhadoras que, de forma muito lucrativa, preencheram uma lacuna tecnológica na Foxconn e em outras empresas, arruinaram seus olhos no processo, mas não adquiriram as habilidades necessárias para “dominar a próxima etapa de desenvolvimento”. As fábricas da China estão presas no Fordismo autoritário “pré-sindicatos” (Gambino) – e, portanto, também são evitadas pelos jovens proletários.

A China está presa na armadilha da “renda média”. Em contraste com a Coreia do Sul, as estruturas dominantes até agora têm sido capazes de derrotar politicamente as lutas dos trabalhadores sem ter que se transformarem. As autoridades não foram removidas, as condições de trabalho não foram melhoradas – é por isso que a produtividade está estagnada! Os mecanismos de manutenção do poder bloqueiam as contradições internas ao preço da estagnação. A professora de economia Eva Paus chamou a situação dos países presos na armadilha da renda média de “efeito Rainha Vermelha”: tal como a Rainha Vermelha em Alice Através do Espelho, essas sociedades devem correr cada vez mais rápido – apenas para ficar no mesmo lugar e não escorregar. A palavra de ordem “Neijuan” capta assim a situação de forma bastante adequada! [4]

Notas

[1] sobre as lutas dos trabalhadores que sofrem de pneumoconiose, veja Wildcat 103: 6 milhões de trabalhadores que sofrem de pneumoconiose vivem em média com apenas 51 euros por mês. Fonte : Sidney Leng: China’s 6 million ‘black lung’ workers living on just US$61 a month, with most struggling to survive. www.scmp.com, 3.5.21. sobre o excesso de universitários, ver Vivian Wang: China’s College Graduates Can’t Find Jobs. A Solução: Pós-Graduação. NYT, 18/01/2021.

[2] Ver o documentário de 2019 ” China’s Unstoppable Rise: the World of Xi Jinping“

[3] David Bandurski: Propaganda Soars Into Orbit. 29 de janeiro, 2021. https://chinamediaproject.org; Nicholas Eberstadt: China’s Demographic Prospects to 2040: Opportunities, Constraints, Potential Policy Responses. www.hoover.org, 29 de outubro, 2018; Beijing claims victory in poverty fight, SCMP 18 de novembro, 2000.

[4] Rémi Castets: Bleierne Zeit in Xinjiang [Tempos de Chumbo em Xinjiang]. Le monde diplomatique, 7 de Março de 2019. Entrevista com Darren Byler: “Standing with the Oppressed”. Sobre o colonialismo e o capitalismo de terror em Xinjiang. Exklusive Einblicke: Wie China die Uiguren bekämpft [Exclusivos: Como a China combate os uigures], documentário alemão da WDR TV, no youtube. Sobre a VW: Does VW profit from Uighur forced labor in Xinjiang? DW News, 12 de novembro de 2020. VW boss ‘not aware’ of China’s detention camps, bbc.com, 16 April 2019. Darren Byler: ‘Only when you, your children, and your grandchildren become Chinese’: Life after Xinjiang Detainment, https://supchina.com, 6 de janeiro, 2021

As artes que ilustram o texto são da autoria de Zeng Fanzhi (1964 -)




Fonte: Passapalavra.info