Setembro 19, 2021
Do Passa Palavra
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Por Wildcat

Esta é a parte final do artigo que foi publicado originalmente na revista Alemã Wildcat e traduzida para o inglês no blog Chuang. A tradução em português é de Marco Túlio. Leia também a primeira, a segunda, a terceira,quarta, a quinta e a sexta parte

Buracos na Rota da Seda

Assim como o plano Made in China 2025, A Rota da Seda foi uma tentativa de escapar da armadilha da renda média, mas também está definhando… muitos países africanos suspenderam pagamentos para a China ou estão buscando renegociar a dívida. Desde 2016, os empréstimos em torno do projeto gigantesco têm diminuído constantemente, de cerca de 75 bilhões de dólares para menos de 4 bilhões em 2020. As razões são a falta de viabilidade econômica, as restrições às viagens devido ao coronavírus e as tensões políticas. Em muitos lugares, investimentos chineses em larga escala foram prometidos, mas não estão tendo nenhum progresso. Os relatórios sobre as condições de trabalho nas fábricas chinesas na Sérvia e noutros locais prejudicaram ainda mais a reputação do projeto chinês. Muitos projetos da Rota da Seda vão continuar, mas não irão satisfazer as elevadas expectativas que foram criadas ao seu redor. A Rota da Seda não é uma vitória para todas as partes envolvidas, como vaticina a delirante Fundação Rosa Luxemburgo [Rosa-Luxemburg-Stiftung]. Também não é uma estratégia diabólica da China para atrair deliberadamente países para uma armadilha de dívidas. Pettis vê os problemas de dívida em muitos projetos como o tipo de erros banais de iniciante que acometem os poderes aspirantes.[1]

Involução: Wildcat sobre a China em 2020 (VII)

Gestos de guerra

Até alguns anos atrás, a imagem dos EUA na China era predominantemente positiva, apesar do antiamericanismo. Em termos de prosperidade individual, consumo, segurança jurídica e igualdade de gênero, os países industrializados ocidentais representavam um objetivo a ser alcançado. Isso era visto no desejo generalizado de estudar nos EUA, o entusiasmo por Hollywood e várias marcas estadunidenses, e levou à fuga de cérebros para os EUA. Durante décadas, o Ocidente tentou influenciar o desenvolvimento político interno na China com mercadorias culturais, ONGs, esportes e afins. O PCC, mesmo antes de Xi chegar ao poder, começou a tentar isolar pouco a pouco a sociedade dessas influências. Além da cultura e dos “agentes estrangeiros” (rótulo aplicado a todas as ONGs), os verdadeiros espiões também eram visados. Em 2010, vários casos de espionagem foram descobertos. Publicamente, eles foram apresentados como casos de corrupção para evitar a confissão embaraçosa de que a CIA tinha vários agentes com influência no partido e no exército, e que tinham pago inclusive subornos para alcançarem promoções. O poder cultural e ideológico do partido teria sido severamente corroído (e o Estado, sem dúvida, estaria cheio de espiões) se Xi não tivesse intervindo com uma contínua campanha anticorrupção, a tomada de Hong Kong, o endurecimento da censura e vigilância, as restrições de vistos, controle de ONGs e, de forma geral, a repressão ampliada.

A guerra comercial com Trump só desacelerou a fuga de cérebros de estudantes chineses para os EUA. Foi necessário a pandemia para mudar a situação: cerca de 700.000 chineses retornaram do exterior em 2020. As altas taxas de infecção e morte, especialmente nos EUA, foram uma oportunidade para a propaganda chinesa retratar seu próprio sistema como superior: “O Oriente avança, o Ocidente diminui.” E muitas pessoas acreditaram e disseminaram isso. Mesmo alguns agricultores que me convidaram para jantar em sua aldeia me explicaram, quando depois de perguntarem de onde eu vinha, que a Alemanha é boa (em relação à China), mas os EUA e a Grã-Bretanha, e agora também a França, não o são, e que na China a pandemia foi vencida com sucesso porque a vida tem a maior prioridade. Zhongguo hen niu, a China é ótima, como diz o meu colega de trabalho.

Mesmo que continue a parecer que o objetivo principal era distrair/mobilizar a sua própria população, a China está se armando vigorosamente e, no Congresso do Povo em março, Xi exortou o exército a estar “pronto para a batalha” (o que levou oficiais militares dos EUA a advertirem sobre a possibilidade de um ataque chinês em Taiwan). Com centenas de bases espalhadas pelo mundo, os EUA permanecerão militarmente superiores por muito tempo. Mas a China está ativamente empenhada na corrida armamentista. Em termos de número de navios de guerra e tonelagem bruta, sua marinha é a maior do mundo e está prevista para expandir de 300 para cerca de 425 navios, incluindo 90 submarinos e pelo menos seis porta-aviões em um futuro próximo. Isso desmente a esperança de Arrighi e outros de que é possível inferir da história da China que ela exercerá uma hegemonia pacífica.

Involução: Wildcat sobre a China em 2020 (VII)

Vida longa…?

A rejeição de uma nova guerra fria leva muitos militantes de esquerda e liberais nos países ocidentais a ansiar por boas notícias sobre a China. Algumas pequenas greves são selecionadas para demonstrar o retorno da luta de classes, A promessa propagandística feita por Xi de neutralidade da emissão de carbono é uma fantasia para trazer a salvação do planeta. (A propósito, em um Estado policial e censor, quem poderia verificar se a promessa foi realmente cumprida? A obstrução da investigação da origem do vírus pela OMS não deixa muito espaço para otimismo!) A esquerda no Ocidente deve compreender que grupos organizados, revistas, debates públicos e reuniões só podem existir quando as pessoas têm, pelo menos, alguma liberdade para expressar a sua própria rejeição da ordem pública. Tal esquerda não existe na China. Em vez disso, aqui os jovens insatisfeitos com a sociedade, como uma mulher que decorou um cartaz de Xi com tinta, são enviados a um psiquiatra.[2]

Estas são as razões adicionais pelas quais o chamado “contra uma nova Guerra Fria” feito por alianças antiguerra e nacionalistas chineses nos EUA e em outros países [3] pode soar bem, mas infelizmente é irrealista e ingênuo. Celebridades da propaganda estatal na televisão também a assinaram – mas nenhuma delas jamais criticaria o militarismo e o nacionalismo na China. O site Qiao Collective é outro exemplo de política de duas caras: em inglês eles são contra a guerra, mas na China eles nunca protestariam contra as ameaças do PCC. Eles são abertamente patrióticos, justificando a violência policial em Hong Kong e o massacre da Praça Tiananmen, negando os campos em Xinjiang… por que eles são sequer considerados de esquerda? Muitos nacionalistas chineses usam a retórica de esquerda, internacionalista ou anti-neoliberal, mas promovem o autoritarismo. Eles estão usando a “sinofobia” como um termo politicamente carregado para denunciar qualquer crítica da China como sendo racismo – ao mesmo tempo defendendo um regime que não é baseado em valores universalistas.

Em setembro de 2020, uma revista online maoísta dirigida aos trabalhadores alegou em um artigo sobre as infecções causadas pelo Covid que não havia surtos de Covid nas fábricas da China, mas que havia muitos nos EUA, Alemanha, França, Espanha, Itália, etc. “Os capitalistas só querem saber do lucro, não querem saber da vida dos trabalhadores.” Na verdade, também houveram infecções causadas pelo Covid em fábricas chinesas. O que soa como crítico ao capitalismo facilmente se transforma em propaganda nacionalista. Qualquer pessoa que traduza textos sobre a epidemia na Europa para essas pessoas ou organize protestos de solidariedade no estrangeiro deve levar em conta que vai ser usada pela propaganda nacionalista.

Involução: Wildcat sobre a China em 2020 (VII)

Por outro lado, conheço muitos chineses que não querem fechar-se ao mundo e que, ao contrário, estão lutando contra todos os autoritarismos. Só podemos lutar junto deles se criticarmos o nacionalismo e o autoritarismo e não acreditarmos na (falsa) retórica de esquerda. Quem quiser evitar este erro deve fazer três coisas: 1) Deixar de ver as coisas através de óculos anti-imperialistas, criticar o nacionalismo e a exploração. 2) Parar de focar na classe média. 3) Julgar os fenômenos culturais em seu contexto social.

  • A esquerda que critica o capitalismo fora da China deve finalmente compreender que o PCC não oferece uma alternativa melhor ao capitalismo liberal. Do ponto de vista de um operário assalariado, a China é capitalista faz muito tempo – junto com um elevado grau de repressão e despotismo autoritário!
  • As lutas da classe trabalhadora na Coreia do Sul foram politicamente frustradas pela democratização e pelos sindicatos na década de 1990, mas foram compensatórias “economicamente”. A classe operária na China foi detida pela censura, despotismo e violência; foi marginalizada política e economicamente. Nas condições atuais, será possível lutar e obter melhorias materiais massivas? E isso conduzirá, posteriormente, a algo como a emergência do Estado de Direito? Ou será que o círculo vicioso da censura, da propaganda e do despotismo deve ser quebrado antes que as lutas em comum se tornem possíveis novamente? Aqui na China, ambos os lados (supressão econômica e política) estão fortemente interligados. Aqueles que não entendem isso vão continuar a se envergonhar, como o jornal alemão Konkret celebrando as porradas da polícia de Hong Kong contra a “Pegida da Ásia”.

O chão e fábrica do mundo é controlada pelos patrões chineses. O principal beneficiado pelos baixos salários e longos dias de trabalho é a classe dominante na China, e a pressão contrária deve vir do povo chinês. Há muitos mal-entendidos em torno disto, por exemplo, na afirmação de que os trabalhadores chineses pagam o preço pela demanda global por máscaras. Seus corpos suados pagam por longos dias de trabalho, ritmo de trabalho acelerado e péssimas condições, mas não pela demanda local ou global! Como trabalhadores assalariados, sofremos por sermos obrigados a trabalhar e devido as nossas condições de trabalho, mas não por nos oferecerem salários pela nossa força de trabalho.[4]

Involução: Wildcat sobre a China em 2020 (VII)

  • Quando os ricos proprietários de casas da classe média protestam contra as reformas do mercado imobiliário, definitivamente não há necessidade de construir solidariedade com eles! Eles podem melhor serem descritos como donos de uma BMW ou Porsche com um senso de classe. A classe média alta na China, que agora tem padrões de vida ocidentais, nem sequer pode ser considerada uma aliada em potencial! (A propósito, a sua própria avaliação é bastante materialista: as democracias ocidentais não lhes trariam quaisquer vantagens.)

Muitos dos “heróis” do movimento também vêm da classe média. O PCC sempre elogiou os “heróis do trabalho” ou “heróis na luta contra a pandemia” e até tem o poder de nomear os “heróis da oposição”. Funciona da seguinte forma: os ativistas influentes das ONG ou de outros círculos sociais críticos são presos para dar um exemplo, servindo de aviso aos outros; os apoiantes (muitas vezes maoístas de esquerda) organizam então uma campanha de solidariedade para os presos e os celebram como se fossem exemplos e heróis. Isto torna invisíveis as contribuições de todos os outros “não-heróis” e reforça as hierarquias. Não precisamos de heróis individuais, mas de solidariedade ampla e igualitária!

  • Quando o povo chinês protesta, os democratas estrangeiros muitas vezes enxergam o início de uma rebelião contra o “regime injusto” enquanto, na verdade, os manifestantes estão realmente lutando pelo reembolso de taxas escolares ou pagamentos de salários. Há uma esperança popular no Ocidente de protestos contra o sistema na China, mas ela é baseada no mal-entendido de que as pessoas que vivem em uma ditadura sofrem permanentemente da ditadura como tal (esse paternalismo “bem-intencionado” é também encontrado por amigos da China continental que – cheios de curiosidade -viajam para Hong Kong ou Taiwan e, em seguida, são tratados como se tivessem sofrido uma lavagem cerebral ou fossem ignorantes). Em primeiro lugar, as pessoas na China, como em todos os outros lugares, sofrem por conta dos baixos salários, aluguéis caros, patrões sacanas, sexismo, etc. Do ponto de vista deles, portanto, a luta é principalmente por salários mais elevados, seguridade social, moradia mais barata, contra patrões despóticos … por problemas concretos e melhorias e não princípios abstratos e liberdades políticas, e, até o momento, também não é pela revolução.

Involução: Wildcat sobre a China em 2020 (VII)

Devido ao desapontamento, nos últimos anos, alguns ocidentais voltaram sua atenção para as subculturas chinesas, muitas vezes ignorando o forte caráter individualista que elas carregam. As pessoas aceitam a ampliação do dia de trabalho e retaliam com a “pesca em águas lamacentas”, (Hunshui) Moyu, enrolar no trabalho.[5]

As mudanças sociais através das mulheres são mais importantes. Assim como em muitos países, uma revolução silenciosa através da educação ocorreu na China. As mulheres representam a maioria dos graduados nas universidades, mas continuam a estar muito sub-representadas na indústria e na sociedade. Numa escola típica, os professores do sexo masculino têm uma graduação em uma universidade medíocre ou uma universidade sub-medíocre, enquanto as professoras do sexo feminino se graduaram em universidades excelentes e muitas possuem um mestrado! A mesma coisa acontece no meu local de trabalho. Desde a década de 1990, a taxa de participação de mulheres na força de trabalho caiu de 75% para 60%. O mercado de trabalho e o sistema educativo não permitem que as mulheres com filhos combinem trabalho remunerado e cuidados com as crianças; sem falar de uma distribuição igual das tarefas domésticas e de educação infantil entre mulheres e homens! Cada vez mais mulheres jovens preferem permanecer solteiras ou sem casar em vez de desistirem da sua autonomia por um casamento e uma família depressivos (e isto numa situação de grande escassez de mulheres!). Em algum momento, o baluarte patriarcal não será mais capaz de suportar esta mudança. A maioria dos homens hoje já não é capaz de cumprir as exigências tradicionais. A atual violência de gênero crescente contra as mulheres nas famílias, no trabalho e mesmo em círculos de crítica social também pode ser vista como uma reação a esse desenvolvimento.

Conclusão

Na edição 103 da Wildcat, eu ainda presumia que as sociedades ocidentais e a China convergiriam, resultando na privatização da educação, desigualdade crescente, aumento dos preços de moradia e desenvolvimentos semelhantes. Enquanto muitos fenômenos sociais semelhantes, alguns deles novos, vão continuar a aparecer na China e no “Ocidente” eu gostaria de levantar a questão fundamental de se “convergência sistêmica” ou “alinhamento” ainda fornecem uma perspectiva importante sobre a atual evolução da situação social na China quando consideramos a politização da economia, a compartimentalização da sociedade e a supressão das forças sociais igualitárias e universalistas.

Em meados de dezembro, a Conferência Central de Trabalho Econômico adotou “cinco tarefas fundamentais” e decidiu que, para 2021, a segurança seria prioritária em relação ao desenvolvimento – certamente não é um indicador de liberalização. [6] Resta saber se os Jogos Olímpicos de Inverno em Pequim, na primavera de 2022, acontecerão como planejado. Vamos ver então qual será o acesso que a China permitirá para a mídia internacional. O isolamento da sociedade e o chauvinismo, o nacionalismo e o racismo que a acompanham podem inclusive aumentar ainda mais. Talvez novas oportunidades voltem a se abrir à medida que a pandemia diminui, mas, por agora, as coisas continuam difíceis.

Nem uma crise financeira abrupta nem uma crise da ordem política parecem prováveis sob o domínio de Xi. É mais provável que a repressão e a militarização continuem ao preço da estagnação. Xi e o PCC parecem ser avassaladores, espalhando uma sensação de impotência paralisante. Embora as condições políticas pareçam estáveis, a classe trabalhadora mudou significativamente: envelheceu estatisticamente, os jovens evitam as fábricas, são mais móveis geograficamente, não experimentaram os horrores da fome em primeira mão, muitos foram para a escola por muito mais tempo e estão entediados no trabalho. Os trabalhadores de entregas de encomendas e de alimentos, bem como os trabalhadores da construção civil, continuarão a protestar contra os salários não pagos – mesmo que esses conflitos continuem a ser locais. As contradições são tão fortes, as desigualdades tão gritantes e a geração jovem tão pessimista sobre o seu próprio futuro e o seu lugar na sociedade, que me pergunto por quanto tempo poderá a estabilidade política ser mantida pelo excesso de consumo de recursos e pelo adiamento da mudança social.

Involução: Wildcat sobre a China em 2020 (VII)

Notas:

[1] Slave-like conditions in Chinese state-owned enterprise in Serbia. https://www.forumarbeitswelten.de, 28.1.21. Rosa Luxemburg Foundation: The New Silk Road – On a Megaproject that Makes the World, Maldekstra No. 9

[2] Mimi Lau: China’s ‘Ink Girl’ who defaced Xi Jinping poster allowed to contact father after protest. SCMP, 2 de dezembro de 2020

[3] exemplo: nocoldwar.org

[4] China’s workers pay the price for growing global demand for face masks. China Labour Bulletin, 4 De Agosto De 2020. https://clb.org.hk

[5] Há um bom artigo sobre este assunto (em alemão): “Fische anfassen” [Touching Fish], https://www.forumarbeitswelten.de/blog/fische-anfassen/, 6 de janeiro de 2021. Estas são formas de isolamento individual (neijuan!).

[6] Ver: China wants to initiate new growth phase with measures, http://german.china.org.cn, 21 de dezembro, 2020.

As artes que ilustram o texto são de Ai Weiwei (1957 -)




Fonte: Passapalavra.info