Dezembro 15, 2020
Do Passa Palavra
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Por João Bernardo

John le Carré foi o mais lúcido e o mais consistente dos discípulos de George Orwell. Tal como ele, considerou que a democracia capitalista da esfera americana era preferível ao capitalismo de Estado soviético e, sem nunca fazer a apologia do mundo ocidental, mostrou a grisaille do mundo de Leste, a falta de horizonte, os discursos vazios, a penúria material.

A crítica da democracia consistiu, para John le Carré, na análise do funcionamento dos mecanismos burocráticos. Nos romances de John le Carré há ruas, sobretudo à noite, ruas sombrias, portais, esquinas em que uns se encobrem e outros se escondem, mas este é o cenário. Onde o drama verdadeiramente ocorre é no interior de gabinetes ou de casas alugadas sob nomes falsos, em reuniões. O suspense resulta das discussões entre altos funcionários, não de tiros nem de armas especiais, mas de golpes e contragolpes entre secretários e directores-gerais. São os thrillers da burocracia.

E, como sempre sucede na estética, o principal conteúdo não é a história, mas a linguagem com que a história é narrada. Não conheço as traduções dos romances de John le Carré, mas uma coisa eu sei antecipadamente, é que, para romances e poemas, traduzir é uma actividade impossível. Não se pode traduzir, é necessário recriar, inventar de novo, para outra língua, os termos e as sonoridades com que Le Carré exprimiu a desolação no capitalismo de Estado soviético e o desencanto no capitalismo democrático ocidental. Antes de consciencializarmos o sentido das frases, já nos apercebemos dele pelas palavras escolhidas e pelo modo como nos soam. É por isso que John le Carré se conta entre os grandes criadores, artistas da prosa.

Não existem heróis nos seus romances, embora existam muitos homens e mulheres corajosos. Com medo, mas corajosos. Heróis não, porque deles não emana nenhuma aura. Cumprem a missão que têm, e antecipadamente sabem que, mesmo resultando, resultará noutra coisa, em algo desvirtuado por ministros e secretários, ou abafado por directores-gerais. A burocracia é um pântano, arredonda arestas que antes eram aguçadas, atenua cores que eram vivas, abafa os sons. E a desolação que os espiões de Le Carré encontram a Leste é o correspondente do desencanto com que, regressados ao Ocidente, terminam a sua missão.

Depois, quando Caiu o Muro — o que é uma expressão perversa, porque ele não caiu, mas foi cortado aos pedaços e vendido, cimento e graffiti, aos coleccionadores dessas coisas — quando a esfera soviética se desagregou e se converteu no que é hoje, John le Carré, o último dos orwellianos, deu a sua missão por cumprida. Já não havia que escolher entre um mundo e o outro, havia uma realidade única. E então os personagens de Le Carré começaram uma luta diferente, contra as multinacionais em África ou contra os empresários dos paraísos fiscais ou contra os magos dos fundos financeiros. Orwelliano ainda, no seu ataque aos mecanismos económicos do capitalismo e aos seus efeitos sociais. E os personagens não mudaram, porque a desolação era a mesma.

Chegamos assim ao que é primordial num bom romancista. Não se trata de inventar histórias, mas de criar personagens e deixá-los agir. São eles quem vai tecendo a história, que o escritor se limita a seguir e registar. Balzac entendeu esta missão e explicou-a. Depois dele, todos os grandes romancistas fizeram o mesmo, criaram personagens, observaram-nos e entregaram-nos a nós, leitores, para que os observemos também e lhes penetremos as mentes e partilhemos os seus anseios e, definitivamente, as suas desilusões. Um amigo perguntou-me qual o livro de John le Carré que eu preferia, e respondi que entre muitos muito bons há um que releio com mais frequência, The Night Manager, precisamente pela densidade dos personagens, o director do hotel e a équestrienne sobretudo, que me perduram vivos na memória, não como os personagens trágicos do teatro grego, mas como figuras de outro teatro, num palco de desalento e solidão.

Numa prateleira toda ela ocupada pelos romances de John le Carré, o último data de 2017, A Legacy of Spies, em que um velho personagem de outros livros, entretanto aposentado, retirado da actividade, escondido e tentando sobreviver às memórias desiludidas, é novamente convocado pela burocracia, que dele quer o quê? Desalentá-lo de novo. Da sua vida de espião, ele aprendeu, no entanto, a principal das artes secretas, a arte de fugir. Consegue fugir à burocracia, mas não foge ao desânimo nem à memória sem ilusões.

Foi este o epitáfio que John le Carré deixou para ele mesmo, e para aqueles de nós que o saibam ler.

A fotografia de destaque é de Rob Heron e a outra é de Johannes Roth.




Fonte: Passapalavra.info