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Os poetas não têm biografia. A sua obra é a sua biografia.

                                                                                           OCTAVIO PAZ    

A poesia é a operação mediante a qual o homem nomeia o mundo e se nomeia a si mesmo.

OCTAVIO PAZ    

                                                                        Tributo, in memoriam, a Mécia de Sena

          Este pequeno volume, Carta ao jovem poeta, de Jorge de Sena (Lisboa, 1919-Santa Bárbara, Califórnia, EUA, 1978), acolhe nas suas páginas uma soma de textos onde a inquiridora e especulativa meditação sobre a própria criação poética e a contingência do lugar pelo poeta ocupado na sociedade (sempre dela «um exilado», no mais lato sentido da palavra) são a sua pedra-de-toque − unívoca, irradiante.

          Sempre, em Jorge de Sena, o acto de criação poética («a par de outras formas de expressão ou criação literária»[1], como a ficção e o teatro) foi indissociável da reflexão sobre o seu processo de escrita, onde «o ensaio é, ou deve ser, antididáctico», de modo a «contribuir discretamente para a confusão dos espíritos.»[2] Mas esse género pessoalíssimo de ensaio, com particular incidência nos «famosos prefácios do autor», torna-se uma verdadeira e inquestionável (auto)biografia intelectual, muito embora nenhum escrito de criação estética, poética e/ou literária, digno desse nome, deixe alguma vez de nele conter uma não raro sub-reptícia autobiografia do seu criador. Nesse sentido, este livro dá-nos um implacável retrato, no domínio concreto da poesia, não só do modo oficinal de como Sena processava o seu génio criador, como também da sua postura ética e de afronta combativa inquebrantável a toda a forma de imbecilidade e mesquinhez humanas de toda a estirpe, credo, aleivosia, «enquanto persistir a pressão social para as pessoas serem inferiores a si mesmas»[3]. E nisso, convenhamos, foi Jorge de Sena um mestre raro.

Carta ao Jovem Poeta − texto que abre e dá título a este livro – é, pela sua clarividência especulativa, limpidez encantatória e sage da linguagem, inteligência sensível e fulgurante (características de toda a obra ensaística de Jorge de Sena), um texto ímpar e uma jóia muito rara no panorama da literatura portuguesa.

          A razão da sua escrita advém do convite endereçado pelo poeta brasileiro Walmir Ayala (1933-1991), através de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), a alguns poetas portugueses, para figurarem numa obra colectiva, de poetas brasileiros e portugueses, cujo epicentro, na esteia de Rainer Maria Rilke (1875-1926) e das suas famosas Cartas a Um Jovem Poeta, é «Uma carta a um jovem poeta», que Cecília Meireles (1901-1964) deixara inédita, e cujo título geral seria Cartas aos jovens poetas brasileiros – obra ainda hoje inédita[4].

          Num daqueles finais de tarde, em que tantas vezes me encontrei com Sophia, no Largo da Graça, em Lisboa, calhou vir à conversa Jorge de Sena. Foi em Dezembro de 1998, em sua casa, na Travessa das Mónicas, numa tarde terrível de vento polar e céu de chumbo quase negro. Sophia falava do seu Amigo Jorge com uma emoção, um carinho e uma admiração extremos. Até que, a palavras tantas, lembro Sophia da Carta ao Jovem Poeta, e pergunto-lhe que carta havia ela escrito, pois dela não tinha notícia. Sophia, tirando os óculos, fixou em mim o olhar claro e luminoso, e respondeu: A Carta do Jorge deixou-me sem mar para escrever fosse o que fosse. Fez uma breve pausa, e acrescentou: Peguei, então, na «Arte Poética III» e enviei-a ao Walmir Ayala, pedindo-lhe desculpa por não ter sido capaz de ter escrito melhor…

          Uma sinceridade cáustica, implacável e visceral – que, só por leviandade, preguiça, comodidade esforçada ou dor-de-corno muito acentuada, se pode atribuir ao ser excessivo que Jorge de Sena também foi −, a par de uma dolorosa amargura e de uma lucidez inquebrantável e não raro visionária, perpassam todos estes escritos como uma flecha cravada naquele «gosto de sempre nos roubar alguma coisa (ou de nos acusar de alguma falta), a que nem os melhores amigos e os mais dedicados admiradores sempre escapam»[5] − dado Jorge de Sena alguma vez ter deixado de ser um «inimigo feroz de todos os aspectos espúrios da sobrevivência» −, em permanente demanda, como muito bem se pode ler no belíssimo e terrível poema «Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya», desse «[…] simples mundo, / onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém / de nada haver que não seja simples e natural.». «Um mundo», enfim,

em que tudo seja permitido,

conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,  

o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.  

[…] ainda quando lutemos, como devemos lutar,

por quanto nos pareça a liberdade e a justiça, 

ou mais que qualquer delas uma fiel 

dedicação à honra de estar vivo. 

[…]

Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém 

vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.

É isto o que mais importa – essa alegria.

Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto

não é senão essa alegria que vem

de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém

está menos vivo ou sofre ou morre

para que um só de vós resista um pouco mais

à morte que é de todos e virá.      

E, não se coibindo de humanamente se desnudar, expondo-se inteiro, frontal e sem contemplações com nada nem ninguém, muito menos consigo mesmo, afirma, num testemunho pungente:

Confesso que

muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos

de opressão e crueldade, hesito por momentos

e uma amargura me submerge inconsolável.

          Mas é justamente das vísceras mais fundas e secretas dessa «amargura» que o «submerge inconsolável», que Jorge de Sena se ergue pleno, em puro acto criador − deus e demónio no coração inaugural da linguagem, para esse «destino» a que lhe «soube sempre» a sua Vida. E quando digo Vida, quero significar Poema, criação de mundos, em que o ensaio e a ficção, o teatro e a epistolografia se tornam rios paralelos e confluentes para um pensamento que se exerce na permanente inquietude de uma insaciabilidade absoluta de liberdade e de dignidade humanas em seu mais alto grau.  

          O tom em que Sena aborda a relação entre o «jovem poeta» e «o poeta “velho”» («de um modo geral», de «reputação firmada»); o «conselho, ab initio, que se pode e deve dar a um jovem poeta»; ou ainda, o modo como aborda os poemas desse «poeta inexistente» (a quem lhe pediram que escrevesse), e o «aventar de hipóteses» sobre o género de poesia que eventualmente seja o seu −

como se o amigo tivesse começado por enviar-me poemas seus, solicitando a minha opinião. Pedem-me também que o considere o jovem poeta ideal, aquele que imaginamos o certo para escutar-nos. Pedem-me enfim − embora isso não seja dito − que eu me suponha o Rilke escrevendo a um jovem que não seja o medíocre a quem ele dizia tão belas coisas.

−, é um tom lucidamente irónico, presciente no seu sarcasmo, atemporal no seu saber de vivência feito − aqui servindo de preâmbulo à implacável especulação meditativa com que seguidamente disserta sobre a própria poesia, as contingências e a mais absoluta solidão que ela impõe ao seu criador, porque

A poesia, caríssimo, é a solidão mesma: não a que vivemos, não a que sofremos, não a que possamos imaginar, mas a solidão em si, vivendo-se à sua custa. Já pensou no que isso é? Por ela, o senhor será egoísta, sendo altruísta; será mesquinho, sendo nobre; trairá tudo, para ser fiel a si mesmo. Por ela, o senhor ficará completamente só.

          E essa é a razão por que − e à semelhança de outros textos aqui compulsados −, Sena é contundente no apelo a que o «jovem poeta»

nunca mais escreva versos ou prosa poética, ou lá que é que escreve para se julgar poeta.

             Se for um poeta de verdade, meu caro, o melhor é com efeito não escrevê-los, e deixar de o ser. Porque a única alternativa é pavorosa: ou prostituta, dando à cauda, entre as madamas; ou monstro solitário, rangendo os dentes na treva, ainda quando só tenha visões de anjos tocando flauta, numa apoteose (ou epifania, que é mais elegante, e era o que o Joyce dizia). Guarde os versos, rasgue os versos, esmague os versos, arrase com eles. É isso o que pretende: ranger os dentes, mesmo postiços, pelo resto da vida? Se é, meu caro amigo, então não mande os seus versos a ninguém, não peça opiniões que ninguém pode dar-lhe, não espere conselhos de uma experiência que é pessoal e intransmissível, não solicite uma atenção que não haverá quem lha conceda. A menos que, para fim de festa, pretenda tirar, para seu uso, a contraprova de que a humanidade como humanidade, os povos como povos, as nações como nações, as classes como classes, os grupos como grupos são sempre colecções mais ou menos numerosas de infames bestas. Ou a contraprova de que, individualmente, ninguém vale para além do orgasmo, ou do olhar de simpatia, ou do gesto de ternura. Ainda quando sejam poetas, meu caro, ainda quando o sejam.

Para além do documento humano, dolorosamente testemunhal, que esta Carta ao Jovem Poeta em si encerra, tem ela o dom de se poder ler como obra de ficção (pelo seu poder de evocação, alusão e sugestão), do género conto, no sentido em que o autor o definiu n’«o elucidativo prefácio (1960)» a Andanças do Demónio:

um conto é, ao contrário de uma novela, uma narrativa momentânea, uma suspensão no tempo; e porque um conto é, ao contrário de um romance, menos uma meditação animada sobre a vida, que uma contemplação sonhadora desta.[6]

          E isso lhe dá, indelével, uma mais sólida e prazerosa polifonia irradiante de leitura, facto absolutamente nada despiciendo.      

          Primeiramente publicado em 1954 (contava o autor vinte e cinco anos de idade), e sendo o mais antigo texto em factura neste volume compulsado, «Sobre poesia, alguma da qual portuguesa», permite-nos aferir a constância do pensamento de Jorge de Sena sobre a sua concepção do que poesia seja, exposta sempre com lúcida e desconcertante ironia.

          Ao contrário do que o título, a uma primeira leitura, poderia levar a supor, não trata o autor de aqui propor ou efectivar um balanço − sequer um brevíssimo ou alentado historial − dessa «poesia, alguma da qual portuguesa». Muito pelo contrário. Começando por declarar, com inequívoco e provocatório sarcasmo, que «não sou grande leitor de poesia, naquele sentido em que o são quantos devoram os produtos poéticos, principalmente os das línguas que lhes são acessíveis, até à vigésima categoria dos produtores.», Sena descarta a priori toda a gama de poetastros − e seus tão bonitos versinhos, tão deveras sentidos e sofridos, e tão irrepreensivelmente bem acamados, uns em cima dos outros, na página impressa −, para afirmar que «nenhum poeta, ainda que muito grande, ocupa, nas minhas releituras ou no meu convívio espiritual com a presença dos livros, um lugar equivalente ao que ocupam alguns filósofos, alguns romancistas, alguns ensaístas. E mesmo todos estes são sempre preteridos pela música.», sublinhando e justificando, por isso, que não é, «portanto, e como se queria demonstrar, um grande leitor de poesia.»

          O visado, aqui, é o mau – ou, pelo menos, apressado e acrítico – leitor, com seus «desbragamentos, amolecimentos viciosos da «moral poética»», «moral poética» essa que é «a única que verdadeiramente me merece um respeito autêntico, não codificado pela sociedade em que vivo.». E Sena prossegue o seu raciocínio especulativo, zurzindo impiedosamente esse tipo de leitor firmemente ancorado nos «três ou quatro «chavões» da sua predilecção», em quem o «gosto pessoal», a capacidade de discernimento e a coragem para a descoberta e fruição do diferente, que não passe pelo estado de moda vigente, estão em absoluto ausentes.

          Naturalmente que essa leitura acrítica e leviana, não só dos próprios poetas como daqueles que a poesia estudam e/ou criticam (quiçá enfeudados ao tão patriótico amiguismo − e de favores e génios generosamente celebrados, retribuídos e incensados), leva Sena a declarar que «[a] poesia portuguesa é pobre de poetas.», asseverando, sem qualquer pejo, que, em Portugal,  «[h]á, realmente, muitos poemas, muita poesia difusa; mas grandes poetas, não tantos.»

          Contribuindo «discretamente para a confusão dos espíritos.», como à partida se propõe, Sena volta a provocar a inteligência do leitor, dizendo que não sabe «o que seja riqueza poética, nesse sentido de propriedade restrita, concreta, colectável», acrescentando ironicamente que, «para fingir que o sei, não me dou ao conforto de identificar a rara poesia autêntica com aquele vasto panorama de inúmera figuração, mais ou menos ilustre, a qual, bem mais que os cinco ou seis grandes nomes de citação permanente, constitui uma literatura.» E mais adiante, referindo-se a Camões (ao estudo de quem viria a dedicar grande parte da sua vida), sem contudo o nomear, lembra Sena que

O mais nacional deles [poetas] – e em geral o que faz, para muitos dos seus admiradores, o mais lacrimejantemente consolador motivo de admiração – é, muitas vezes, o resultado lamentavelmente provinciano de um conjunto de circunstâncias que os impediram de ser universalmente maiores.

          Assumindo, como «defeitos» seus, «este desencanto, este moralismo poético, esta falta de gosto por fingimentos de vertigem à beira de abismos de papelão linguístico», a eles atribui o facto de não haver sido «talhado» para  leitor assíduo de poesia, com especial referência à poesia dos portugueses, poesia sempre cómoda, palaciana, perfeitamente acessível à placidez de teses universitárias num país em que, tradicionalmente, a Universidade se destina à formação de funcionários públicos, cujas aventuras espirituais, como é lógico e decente, devem confinar-se nos limites de um regulamento disciplinar.

Sena sublinha ainda, que se não propõe como «exemplo para ninguém», sugerindo, em contrapartida, «que os poetas meus compatriotas (dispensados necessariamente os defuntos) se leiam e releiam a si mesmos e uns aos outros até ao enjoo da própria complacência.» e que «cessem de admirar exclusivamente meia dúzia de grandes», não só por não abundarem por esse mundo além, mas porque essa estrita admiração «é desculpa para, em secreta verdade, se admirarem a si próprios», pela simples razão de que «não há poesia que resista, sem ficar vesga e enfeitada, a tão concentrada contemplação.»

          «Acerca de um poeta puro» é um extenso ensaio, escrito e originalmente publicado em 1956, sobre 77 Poemas[7], de Alberto de Lacerda (1928-2007), do qual se cooptaram, para a presente edição, a primeira parte e um fragmento do final, por ser o teor desses excertos uma meditação especulativa sobre um determinado tipo de poesia − a «poesia pura», na qual Jorge de Sena não acredita «senão muito especialmente e com reservas».

          Discorrendo sobre «[o] preconceito de pureza», e tomando como irónico exemplo «o caso de uma certa jovem que, apaixonadamente dedicada à sua directora de estudos, não aceitava, nem com horror, que o pobre ídolo das suas venerações sentisse e executasse necessidades fisiológicas.», Sena concede que a pureza possa existir «como estado inatingível, para o qual devem tender todos os esforços dos que se empenham em que a lucidez e a franqueza sejam primaciais virtudes da vida e da consciência humanas», num «plano de honestidade intelectual e de coragem moral», expurgando assim toda a gama de preconceitos – sejam eles físicos, morais, políticos, sociais ou religiosos −, os quais levam, inevitavelmente, «a toda a casta de tiranias», as quais se opõem «de raiz a qualquer tipo de humanismo».

          E, ao afirmar mais adiante, que «poesia pura pode não ser expressão de um oculto complexo de traição», sublinhando que «todas as complacências literárias ou pseudoliterárias cabem neste conceito», Sena, aflorando as imbecilizantes e castradoras circunstâncias culturais, sociais e políticas que o salazarismo então vigente impunha, aponta ainda como pecha à expressão de uma «poesia pura» em seu mais alto grau de realização poética, «uma lamentável irresponsabilidade perante o que a vida social e os imperativos da dignidade humana exigem acima de tudo: uma consciência sempre vigilante e sempre em acto de consciencializar-se.»

          Poesia e dignidade humana; poesia como centro irradiante da dignificação do ser humano, jamais lhe impondo um rosto, mas devolvendo-lhe, livre, o mais nobre e humano rosto inaugural perante a Vida e suas múltiplas circunstâncias, nesse «empenho total do ser para a sua revelação», na bela e feliz definição de Eugénio de Andrade − eis o propósito moral, independentemente do altíssimo preço a pagar, que Jorge de Sena a si mesmo se impôs, sem escusa alguma das consequências que sempre soube lhe seriam impostas.

          Rebelando-se «contra as mais diversas formas de «demissão» humana», Jorge de Sena assevera «que poesia pura é a que se empenha, lúcida e francamente, numa aventura espiritual de qualquer tipo», enquanto

que poesia verdadeiramente impura não é a que se compromete directa ou indirectamente com qualquer forma de teologia, mas aquela que, mesmo limitada a um rendilhado de palavras vagas e sentimentos difusos, se demite perante as palavras de ordem, e representa uma conformidade ou um compromisso com a ordem humana que lhe é consentida ou imposta.

E tudo isto, porque «[n]enhum amor autêntico da humanidade ou da transcendência exige submissão passiva, mas adesão activa.», posto em épocas «de ilusório conformismo, de adormentada consciência», muito embora se não sinta ameaçada «a dignidade humana», constituem essa épocas «o único caso em que a evasão é inocente.» − inocência essa absolutamente impossível em qualquer época «de aguda e sempre convocada consciência». 

          E perante esse imperativo de consciência, destituído de abstracções e literaturas, e «fora de qualquer comprometimento religioso ou metafísico», garante Sena (que, ao escrever este texto, não imaginava certamente a premonição que a si mesmo se revelava), «é indispensável o exílio». E justifica: «[t]oda a poesia que se pretenda pura e não comprometida, e que então se não exile, traz em si própria o germe da traição», acrescentando que «[s]ó por erro de convivência literária (senão por apostolado transcendente ou exploração interesseira) poderá manter-se algum convívio com ela».

          Sendo, já então, Alberto de Lacerda um exilado (Sena viria a sê-lo, até à morte, a partir de 1959), o último parágrafo (de que se publica, como já foi referido, a parte exclusivamente consentânea com os propósitos do presente volume) é todo ele dedicado à questão do exílio do poeta – tenebrosa banalidade humana desde a expulsão dos poetas da República por Platão. E a questão do exílio é para Sena «a mais dolorosa perplexidade», inquirindo se «é lícito, no nosso mundo e no nosso tempo, quando todas as consciências são poucas e tão poucas se dispõem a sê-lo, procurar a pureza da poesia, sem ser através de quanto mal transborda em nós e à nossa volta?», reiterando ainda, se «[é] lícito o exílio de um belo espírito que não saiba senão exilar-se?», para, categórico, afirmar que crê «firmemente que o é.», posto ser essa poesia «uma garantia da dignidade humana», já que «a poesia autêntica não necessita de ser encorajada; antes se acrisola numa solidão que de própria natureza bem conhece».

          «Oito poemas para-a-nova-madrugada» − texto que serviu de badanas para a obra homónima do poeta e romancista Mário Dias Ramos (1935), onde não figurava o primeiro parágrafo, de cariz nitidamente programático – aborda questões como a percepção da qualidade estética, os múltiplos processos de criação e a «demasiada» intelectualização da poesia (de que Jorge de Sena, enquanto poeta, era acusado pelos seus levianos críticos e apressados leitores – acusação essa lucidamente contraditada já em 1959 por António Ramos Rosa (1924-2013) no seu «Comentário à margem de Fidelidade»[8], onde afirma que, muito embora «[a] sua sensibilidade extremamente intelectual (esteja) sempre presente nos seus versos», «ao contrário do que muitos supõem, é ela que lhes confere uma originalidade e uma altitude que não encontram paralelo na poesia portuguesa dos últimos anos.», sublinhando que, não obstante ser a poesia de Sena «sempre de um conteúdo intelectual», esse conteúdo é sempre «sensível ou afectivo, extremamente rico e depurado.»).

          Se «[a] poesia é boa ou má, parece-nos boa ou má, antes de mais em função do que julgamos que ela deva ser», isto é, aferida pelo grau de sensibilidade crítica que só a múltipla leitura e a memória vivencial do leitor podem com justeza justa e livre assegurar; isto, por um lado. Por outro, e muito embora a poesia se faça de «poetas sem cabeça» — dando Sena como exemplo António Nobre (1867-1900), cuja «expressão de simplicidade» foi «uma dolorosa rebusca» de reescrita interminável —, e de «poetas com cabeça» — de que dá a exemplo Antero de Quental (1842-1891) e Fernando Pessoa (1888-1935), em quem a escrita é «de um jacto, sem rebusca alguma, sem trabalho maior que o já terrível de um parto doloroso» (sendo este, como mais adiante se verá, o processo criador de Jorge de Sena, que quase nunca emendava ou rasurava as suas criações estéticas) —, tal não obsta a que o autor de Metamorfoses deixe de asseverar que «[n]ão há intelectualismo em poesia». E concretiza: «isso é um mito posto a correr por pessoas que assim disfarçam a superficialidade e o ocasionalismo das suas emoções, e a sua incapacidade, por falta de experiência da vida ou de cultura», factos que «só nos não condicionam na medida em que os conheçamos para dominá-los». É que «[a] expressão poética», quer no sentido da sua materialização criadora quer no sentido da sua fruição estética, «é um domínio, uma disciplina, uma orientação (…) exercidas (…) como uma preparação constante, implacável, humilde e atenta daquele momento em que o poema aparece» − ao seu criador, e ao leitor que nele incorporará, se não for desatento nem preguiçoso, o que ao poema falta, e que é justamente a sua inteligência sensível, a sua mundividência, a sua memória o mais humana e vívida possível.

          Permito-me lembrar aqui uma conversa com António Alçada Baptista (1927-2008) em torno do papel e da importância cultural da Moraes Editores − de que foi proprietário e entusiasta editor, e que viria a ser, até ao seu encerramento definitivo na década de 1980, a editora da poesia do autor de Metamorfoses. Nessa conversa, Alçada Baptista garantiu-me que a colecção Círculo de Poesia «foi criada justamente para publicar o Jorge de Sena, que, vergonhosamente, não tinha em Portugal quem lhe aceitasse os versos para publicação».

Vem isto a propósito de «Prefácio à primeira edição de Poesia I», texto destinado à reunião dos primeiros quatro livros do autor: Perseguição (1942), Coroa da Terra (1946), Pedra Filosofal (1950), As Evidências (1955), acrescentados do inédito Post-Scriptum.

          Há neste «Prefácio» o culminar dos pressupostos teoréticos e de especulativa investigação e meditação sobre o acto criador em poesia e suas formas e equívocos de fruição leitora e crítica abordados nos textos anteriores, aqui levados a uma potenciação (auto)crítica e a uma contundência mais explícitas e, em certos pontos, ironicamente contraditórios.

          Constatando «uma persistente conquista do melhor respeito alheio» para a sua obra, obtido sobretudo por Fidelidade (o quinto livro de poemas do autor, que, «por várias razões», não é incluído em Poesia I), «respeito alheio» esse, quiçá «inerente a uma experiência poética mais depurada», não encontra Sena substancial diferença entre esta obra e os livros antecedentes, permitindo-se supor que a sua linguagem, «que sempre busquei e espero continuar buscando, acabou por ser aceite, pelos críticos, como um facto consumado e irremovível», levando-os a crer «que sou agora inteligível, quando apenas sou lido com os olhos de uma aceitação a que se resignaram».    

          Retomando a ideia de que «em poesia, ao contrário mais do que com outro tipo de comunicação se passa, nós só entendemos verdadeiramente aquilo que estamos dispostos a entender. E só estamos dispostos a entender o que venha ao encontro dos nossos gostos e tendências do momento», Sena impõe à sua linguagem um tom de ironia mais cáustico, impiedoso para com a crítica vigente e seus oficiantes, que jamais poupou, a ponto de sarcasticamente aventar, não só que os críticos, alguns «cresceram», outros «cultivaram-se», e assim «se tornaram mais inteligentes» perante os seus versos. Isto, por um lado. Por outro, e dado o seu labor ensaístico e crítico, os seus outrora desatentos, indiferentes ou silenciados críticos (na sua esmagadora maioria igualmente poetas ou romancistas aplicados), surgem agora tomando-o como «um valor de troca, uma moeda», porque «há que comprar-me os versos para comprar-me a crítica».

          Prosseguindo em tom mordaz, Sena fala dessa tristeza que nem sequer chega a ser tristeza por estar a falar «exactamente [de] Portugal», e da «humanidade, naquela peculiar subdesenvolvida forma que é uma aberração chamada a intelectualidade portuguesa», caracterizando-a, deliciosamente, como uma «selecta sociedade, sempre acrescentada de novos sábios juvenis», onde, «como alguns outros, fui sempre uma excrescência extravagante e, paradoxalmente, um produto dela». Aliás, «em que outra parte do mundo me teria eu sentido na obrigação de ser inteligente, de ser culto, de ser crítico, senão onde me diziam sempre que, sendo-o, eu não era poeta?». Em qualquer outro canto da Terra poderia «ir produzindo os meus versinhos sem arte. Em Portugal, não.», sendo por isso obrigado a «alçar-me e ser como achavam que eu era, para livremente ir sendo o poeta que não achavam que eu fosse». 

          A propósito dos «versinhos sem arte», Sena discorre sobre a «arte poética» como a «ciência» de «exprimirmo-nos responsavelmente.», contrapondo, numa superior ironia, «a produção artística de versos» (sem arte, naturalmente), não como «uma arte de ser, mas antes do parecer», dados o seu mimetismo, o seu conformismo e adulação inerentes, os quais, não raro, «esconde[m], sob pretensas audácias que apenas são as esperadas, aquele poeta que o autor poderia ter sido». Quanto a si, cujos «complexos de inferioridade, tão numerosos e variados», nunca lhe permitiram esse «caminho fácil» da «arte do parecer», sequer a tentação de «faltar à verdade.», Sena entende a poesia não como uma forma unívoca de «confissão», muito embora ela seja «uma parte do que entra na transfiguração que a actividade poética opera», não obstante a excepcionalidade ou a banalidade do exemplo de vida em causa, advertindo, por outro lado, que «confissão que a poesia não transforme, confissão que a arte aperfeiçoe, é ainda uma forma de parecer», uma «facilidade de interesse» que ilude, em última instância, a busca e a preservação dessa «liberdade livre» de que falava Rimbaud, que tanto manieta e assusta o ser humano confinado às limitações (impostas, ou aceites como fatalidade natural) do seu horizonte cultural, político, económico e social.

          Postos «os versinhos sem arte» no seu devido patamar, decide Jorge de Sena desconsertar certas unanimidades poéticas já então instituídas, e provocar um suculento terramoto, ao afirmar que, para si, «a poesia não é de facto fingimento».

          Perante uma afirmação destas, tão lapidar, o leitor mais avisado e conhecedor da obra do autor de As Evidências não pode não sentir o chão a esboroar-se-lhe debaixo dos pés, súbitos e inexplicáveis estonteamentos, ao lembrar-se ter sido Jorge de Sena um dos primeiros e mais entusiastas estudiosos e divulgadores da obra de Fernando Pessoa, responsável até, pela edição, em 1946, do volume Páginas de Doutrina Estética[9] – obra que constituiu, durante largos anos, a mais alentada e a mais importante recolha sistematizada da prosa ortónima e heterónima do autor de Antinous.

Mas Sena não perde tempo a devolver chão firme e a sossegar o seu fiel e atento leitor:

Se algumas vezes tentei elucidar e defender essa poética que um Pessoa constituiu base do seu ser poético, o fiz sempre contra mim, levado pelo sentimento que nos urge compreender e aceitar como cada qual se propõe, antes de assumirmos o que seja uma outra proposição mais nossa.

Dissertando sobre esse «fingimento», que em Pessoa não é «uma arte de iludir» mas «uma lição e um exemplo, que estão longe de ter sido compreendidos num país em que ser-se poeta é ser-se um profissional do sentimento oportuno», repugnam a Sena todo o artifício transposto para a criação poética «que um tal “fingimento” implica», acusando quanto nesse «fingimento» existe de «orgulho desmedido», em flagrante contraste com o que, em humildade, atenção e disponibilidade é necessário ao poeta para «testemunhar» do mundo, e de si na sua relação com o mundo em que lhe coube viver. Porque «à poesia, melhor que a qualquer outra forma de comunicação, cabe, mais que compreender o mundo, transformá-lo», posto ser a materialização de qualquer poema digno desse nome «uma actividade revolucionária.», criadora e potenciadora de linguagem capaz de afrontar e contrapor toda a banalidade vigente, mental, sentimental e socialmente vividas.

Nesse obsessivo propósito de uma busca constante de dignificação do humano através da criação poética, é «[c]omo um processo testemunhal» que Sena sempre entendeu «a poesia», testemunhando através da poesia

do que, em nós e através de nós, se transforma, e por isso ser capaz de compreender tudo, de reconhecer a função positiva ou negativa (mas função) de tudo, e de sofrer na consciência ou nos afectos tudo, recusando ao mesmo tempo as disciplinas em que outros serão mais eficientes, os convívios em que alguns serão mais pródigos, ou o isolamento de que muitos serão mais ciosos – eis o que foi, e é, para mim, a poesia.  

Posto isto, Sena testemunha da sua oficina poética, do seu modo de criação e de estruturação da obra perante a hipótese de publicação, em que «[o]s poemas surgem, são escritos, guardados na gaveta, e aparece uma oportunidade de publicá-los em volume. É feita então uma selecção e uma arrumação dos escolhidos», numa «intencionalidade de explicitar aspectos dominantes do itinerário espiritual da testemunha que me considero de mim mesmo e do mundo». Porém, assevera o autor de Fidelidade, «[n]ão direi que a poesia é um diário íntimo, ou o registo dos factos significativos de uma autobiografia espiritual». A responsabilidade do poeta na sua criação estética face aos múltiplos desmandos do mundo; a sua percepção dos fenómenos circundantes e a sua independência crítica perante eles, onde o poema, para o ser verdadeiramente, deverá valer e bastar-se por si mesmo, são para Sena, «a única garantia de uma autenticidade», nessa «busca de uma verdade que está para lá da actividade estética, e que a actividade estética não tem por fim achar, mas testemunhar que insatisfeitamente ela é buscada».

Para Sena, há uma nítida distinção entre poesia e arte, a qual explanou ao longo deste texto e dos que o antecedem, sublinhando, no seu caso pessoal, uma «íntima educação que é uma poética pessoalmente adquirida na cultura e na experiência», para referir as escolas literárias (como, por exemplo, o surrealismo) a que nunca pertenceu, e para afirmar, a contrapelo dos pressupostos do surrealismo e da sua «escrita automática», que «nunca soube ou nunca quis corrigir um verso ou reestruturar um poema, após o momentâneo acto de os registar ou de lutar pela chegada deles às palavras ou das palavras a eles». E, com inequívoco gozo acrescenta: «Tão acusado de intelectualismo, tão adversário da “inspiração”, nada escrevi que de uma vez não escrevesse e não considerasse escrito de uma vez para sempre». E prossegue, no mesmo tom de prazer e deleite em desfazer nós estrambóticos no enferrujado arame retorcido das cabeças dos seus detractores, rebatendo todas as acusações de que a sua pessoa e a sua poesia foram acusadas, desde o excesso de cerebralismo e de frieza, ao espiritualismo alheio «aos combates do quotidiano», ou ao poeta «abstruso, hermético e esotérico» que também se viu apodado, com inequívoco esplendor. Ou ainda (e aqui Sena socorre-se de um peculiaríssimo humor, a roçar uma espécie de pecaminosa inocência), quando rebate a acusação de que «escrevia “traduzido”», não obstante «[t]ão amante e estudioso que fui sempre da minha língua portuguesa e dos seus poetas», dirigindo-se, num «dever de lealdade», ao «amigo leitor», para lhe assegurar que tal facto «é aliás uma verdade: sempre busquei «traduzir-me» para português, como a um poeta português convém, em lugar de escrever em francês, em inglês ou espanhol, com palavras portuguesas, os resíduos das minhas adorações estrangeiras, qual acontece a tantos que tão portugueses parecem».

Na sequência destas afirmações, note-se a contradição de Sena, enquanto leitor de poesia, relativamente a textos anteriores (onde, irónico e provocador desconcertante, afirmava ser pouco leitor de poesia), agora é taxativo na explanação do seu raciocínio, dizendo-se «[t]ão interessado sempre em quanta poesia se escreveu no mundo, e tendo traduzido tanta», ainda que sobre si pendesse a insinuação de «que toda essa poesia eu transferia para mim». E, se tudo isto diz e subscreve a ambas as mãos, de modo algum é para se defender, «ou para acusar, ou pelo gosto desagradável de lembrar águas passadas e sujas»: o respeito que os seus leitores presentes e futuros lhe merecem, essa «lealdade» a que voluntariamente se obriga, é que o movem a «dizer aquilo que eu já desesperara de que a crítica dissesse alguma vez»[10] − crítica e críticos esses zurzidos como só Jorge de Sena sabia como, onde e quanto, porque «alheios, sobretudo alheios, é que versos são».

«Discurso do Prémio Etna-Taormina», pronunciado a 25 de Abril de 1977, em Catânia, na Sicília, aquando da entrega do respectivo prémio, é um texto onde Jorge de Sena não só expõe as vísceras mais secretas da sua oficina poética e das circunstâncias em que a sua obra se veio construindo, como elenca, histórica e literariamente, toda a genealogia das suas múltiplas famílias poéticas, numa presciente lição, sem didactismo absolutamente algum, mas carregada de sageza, e daquela erudição tão limpidamente exposta, apanágio de raros, raríssimos, entre os quais Jorge de Sena se contou sempre.

Não escamoteando a amargura pelo quase nulo reconhecimento no seu país de origem pela sua obra, em mais de quarenta anos de incessante e profícua actividade criadora e quase quarenta anos de publicação, «eu, a quem as honras sempre foram negadas ou roubadas à última hora no meu país de origem aonde isso é costume, e que sempre aliás fui contrário a buscá-las ou aceitá-las», Sena faz questão de sublinhar que, «[p]ela primeira vez na vida, por estranho que pareça, recebo um prémio de poesia». E não esconde o regozijo e a felicidade que lhe provocam a atribuição de tão prestigioso prémio, elencando alguns dos confrades antes de si galardoados: o brasileiro Murilo Mendes (que, com Sena, fora o único poeta de língua portuguesa a receber o prémio), Giuseppe Ungaretti, Anna Akhmatova, Dylan Thomas, Tristan Tzara, Ezensberger – poetas que há muito traduzira já para português[11].

Falando da sua condição de exilado político, que não «regressou [ao país] quando a liberdade voltou, porque não é fácil regressar-se depois de tantos anos, e quando uma pátria que se liberta tem sempre numerosas pessoas à procura de um emprego de que eu não necessito», Sena recorda ainda que «a liberdade que voltou a Portugal é algo pela qual sempre lutei, à qual sacrifiquei muito da minha vida inteira, e a essa luta pertence grande parte da minha poesia». Reivindicando-se «um escritor português», que ali «representa realmente Portugal», não obstante ser «também cidadão brasileiro que me tornei quando vivi e ensinei no Brasil», Jorge de Sena afirma que «sempre contou a Itália entre as suas pátrias do espírito». E, depois de sublinhar que «[h]oje, 25 de Abril, é o aniversário da definitiva queda do Fascismo italiano há décadas, mas é também o aniversário da queda recente do fascismo português», Sena «evoca» o «muitíssimo mais» que o Prémio Etna-Taormina lhe sugere, encetando uma viagem pela História que, de poesia, filosofia e literatura se sustenta, «desde essa Magna Grécia (que muitas vezes foi mais Grécia que a Grécia mesma)», e que é a Sicília de Empédocles, Teócrito, mas também a «terra aonde Platão se aventurou em políticas, e Ésquilo estreou tragédias», e «aonde jaz uma das minhas grandes admirações: o stupor mundi, esse imperador alemão, Frederico II, de Hohenstauffen, cuja corte foi um dos lugares de nascimento das literaturas modernas», até à Sicília reunificada por Garibaldi, de Verga, Pirandello e Tomasi di Lampedusa.

Dissertando sobre a sua poesia, ela «nada tem de patriótica ou de nacionalista»: «[é] uma poesia que sabe de tudo e que se escreveu em toda a parte, desde a épica de Gilgamesh…» E, como que numa súmula do seu próprio labor poético, sublinha Jorge de Sena, que a sua poesia

É também a poesia de um homem que viveu muito, sofreu muito, partilhou a vida pelo mundo adiante, sempre exilado, e sempre presente com uma vontade de ferro. Mas é uma poesia que, sempre que se forma, não sabe nada, porque é precisamente a busca ansiosa e desesperada de um sentido que não há, se não formos nós mesmos a criá-lo e a fazê-lo. Quis sempre que essa poesia fosse o testemunho fiel de mim mesmo neste mundo, e do mundo que me deram para viver. Mas uma testemunha que cria no mundo aquele sentido que eu disse, e, ao mesmo tempo, deseja lembrar aos outros que há uns valores essenciais, muito simples: honra, amor, camaradagem, lealdade, honestidade, sem os quais a vida não é possível, e toda a poesia, por mais sábia que seja, é falsa. Uma testemunha de que, sem justiça e sem liberdade, as sociedades humanas não dão ao homem a dignidade que é a sua, e que ao poeta cumpre afirmar. Não uma testemunha passiva: mas activa. Porque é esse o papel da poesia[:] […] superar todos os limites, ampliando-os em extensão e em profundidade.

O «Discurso da Guarda» − proferido por Jorge de Sena a 10 de Junho de 1977 naquela cidade, aquando das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas – é, inquestionavelmente, a metáfora e o corolário de uma vida de «exilado moral», que sofreu «em si mesmo as angústias e as dúvidas do homem moderno que não obedece a nada nem ninguém senão à sua própria consciência», cuja vastíssima obra jamais deixou de se materializar que não fosse «com os olhos postos na claridade deslumbrante da liberdade e da justiça». E é, também, este texto de rara presciência, «uma alegoria ficcionalmente articulada que pode ser lida na perspectiva de uma espécie de cartografia imaginária do autor»[12], onde Camões, de cuja obra Sena foi um dos mais extraordinários estudiosos, inovador e revolucionário nos seus preceitos, não pode não deixar de ser visto, no seu mais vívido e apaixonado testemunho, como um alter-ego ou uma espécie de heterónimo do próprio Sena – ou sua confirmação plena, se ainda necessário fosse. E essa é a razão da sua inclusão neste volume.

A leitura implacável e contundente que Sena faz de Camões e de Os Lusíadas, das circunstâncias e da matéria-prima de que se elabora a epopeia nacional portuguesa, é aqui uma criação em forma de arte poética esplendorosa, de uma lucidez límpida e justa, de um encantamento apaixonado e apaixonante, como só um grande poeta que é simultaneamente um extraordinário leitor, pode fazer as palavras dizerem de outrem e da sua obra o que elas jamais imaginaram poder vir a nomear e plenamente cantar, celebrar, e, por esse dizer primevo, inaugurar-se o mundo a cada sílaba impressa como «um imperativo imarcescível da dignidade humana».

ZETHO CUNHA GONÇALVES

                                                                                                  Lisboa, 13 de Junho de 2020

Nota do Autor: Este texto serve de prefácio a Carta ao Jovem Poeta, de Jorge de Sena, Edição de Zetho Cunha Gonçalves, Lisboa, Maldoror, 2021.

Notas


[1] Jorge de Sena, «Andanças do Demónio. O elucidativo prefácio (1960)», in As Antigas e Novas Andanças do Demónio, Sintra, Focus, 2003, 4.ª ed., p. 233.

[2] Jorge de Sena, «Nota Introdutória», in Da Poesia Portuguesa, Lisboa, Ática, 1959. Reimpresso em Estudos de Literatura Portuguesa II, organização de Mécia de Sena, Lisboa, Edições 70, p. 13.

[3] Jorge de Sena, «Nota introdutória a uma dupla reedição [1977]», in As Antigas e Novas Andanças do Demónio, op. cit., p. 10.

[4] Ver «Notas bibliográficas», no final do presente volume.

[5] Jorge de Sena, «Nota introdutória a uma dupla reedição [1977]», op. cit., p. 10.

[6] Jorge de Sena, As Antigas e Novas andanças do Demónio, op. cit., p. 234.

[7] Alberto de Lacerda, 77 Poemas, Londres, Edição do Autor, 1955.

[8] António Ramos Rosa, in Cadernos do Meio-dia, n.º 4, Lisboa, 1959. Republicado, acrescentado de «A liberdade inteira e o silêncio inteiro», in «Cultura e Arte», O Comércio do Porto, 13 de Março de 1961, e o título «A poesia de Jorge de Sena ou o combate pela consciência livre», in Poesia, Liberdade Livre, Lisboa, Ulmeiro, 2.ª ed., 1986, p. 91.

[9] Fernando Pessoa, Páginas de Doutrina Estética, organização de Jorge de Sena, Lisboa, Editorial Inquérito, 1946.

[10] Jorge de Sena, As Antigas e Novas Andanças do Demónio, op. cit., p. 10.

[11] Jorge de Sena, Poesia do Século XX: De Thomas Hardy a C.V. Cattaneo. Tradução, prefácio e notas, Porto, Editorial Inova,1978; 2.ª edição, Fora do Texto, Coimbra, 1989.

[12] Herberto Helder, Edoi Lelia Doura: Antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa, Lisboa, Assírio e Alvim, 1985, p. s.n. [171].




Fonte: Aideiablog.wordpress.com