Novembro 20, 2020
Do Federacao Anarquista Gaucha
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O dia da consciência negra não é uma data aleatória, é um dia que marca o assassinato brutal, sanguinário e covarde cometido pelo Estado brasileiro contra o líder revolucionário Zumbi dos Palmares. Zumbi, cuja a história é marcada por lendas e mitos, foi um herói e uma figura de destaque na construção de uma sociedade libertária, antirracista, anticolonial e fraterna chamada Quilombo dos Palmares, que serviu de refúgio a pretas e pretos que fugiam do horror da escravização.

O assassinato de zumbi, em 1695, é uma memória importante, pois também uma marca que não tem nada de passado e ilustra o jeito como estado capitalista brasileiro lidou e segue lidando com os corpos pretos, marca o processo de violência, perseguição, marginalização, tortura, segregação e genocídio a que são submetidas as populações negras, pobres e periféricas nesse país.

Neste dia da consciência negra que marca um ano em que tantos e tantas brasileiras – e, principalmente, tantos e tantas brasileiras negras – foram assassinadas por uma gestão racista e anti povo da maior crise sanitária da história, é também um dia marcado por mais um “caso isolado” do racismo brasileiro. Mais uma vez, uma empresa multinacional utiliza seus capatazes para perseguição, asfixia, tortura e assassinato de mais um homem negro. 
Não se trata de um caso isolado, de um desvio de caráter e ou de um “excesso”. O caso da vez tem tudo de Brasil: é a terceirização que tenta eximir a empresa de responsabilizações, são as “notas de pesar” cheias de cinismo, as investigações que negam o caráter racista do assassinato, é a corrupção policial à serviço do lucro privado, são as portas fechadas  e as viaturas em frente ao mercado por medo da resposta popular.

Trata-se de uma marca explícita, quase didática, de como operam as estruturas raciais nesse país, o último país do mundo a abolir o regime de escravidão, um país que jamais garantiu o direito de memória e de reparação aos povos escravizados, um país que assassina uma pessoa preta a cada 23 minutos, um país onde o sistema judiciário opera a serviço do capital fazendo uso de seu braço armado para sistematicamente exterminar os corpos e os territórios da juventude periférica.

Esse país não pode, em um dia tão importante para memória da luta do povo preto, produzir outra coisa senão mais do mesmo: um assassinato brutal em uma data simbólica.

Como uma organização política revolucionária que tem por objetivo a destruição do capitalismo e de todos os seus acessórios da dominação do povo, incluindo o sistema racista que consolida o Estado brasileiro, seguiremos na construção de uma indignação rebelde diante de mais esse caso; estendemos o nosso ombro em solidariedade radical não apenas a família de mais um gaúcho morto pela violência, mas também a todos e todas as pessoas negras vítimas do terror racista.

Erguemos nosso punho por Justiça e por reparação, exigimos que as mortes do povo preto não passem batido e não sejam em vão e que as vozes que se rebelam não sejam silenciadas. É com luta popular que se responde a agressão ao povo, é com ação direta radical que se dá resposta a todos os ataques que sofremos.

Hoje, às 18 horas, estaremos na rua de punho erguido, mas também de punho erguido estaremos todos os outros dias, vigilantes e construindo uma rede de indignação que seja capaz de criar a força popular necessária para pôr abaixo o sistema racista e colonial que impera nesse país.

Justiça por Beto

Nenhuma vida preta a menos

Toda a solidariedade ao povo preto 

Federação Anarquista Gaúcha

Porto Alegre, 20 de novembro de 2020




Fonte: Federacaoanarquistagaucha.wordpress.com