Abril 4, 2021
Do Reporter Popular
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Olá, sejam bem vindas e bem vindos à nova coluna literária! Aqui a cada quinze dias será publicada a resenha de um livro. Nada muito complicado, o objetivo são as histórias e as pessoas, contando um pouco da trama e das impressões e emoções que vieram com a leitura. Não sou formado em letras, então não esperem conteúdos avançados! A seguir um texto que introduz a intenção da coluna.

É também importante dizer que todo o conteúdo desse texto e da coluna não refletem necessariamente as posições do Repórter Popular.

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As primeiras palavras escritas da humanidade foram gravadas sobre tábuas de argila na Mesopotâmia, e registravam quantidades de bens, pessoas, tarefas . Os primeiros versos autorais também foram gravados em tábuas de argila naquele mesmo canto do mundo por obra de uma sacerdotisa. Muitas outras línguas antigas também possuem um lugar de relevo na nossa história. Para Colin Renfrew “Essas vozes antigas tem para nós um caráter quase universal em expressar os pensamentos e as aspirações da condição humana. Mas talvez sua “universalidade” seja uma sombra ilusória: a escrita foi para a humanidade a exceção, não a regra.”1

Eu amo livros, são uma parte importante da minha vida assim como de muitas outras pessoas (caso contrário não estaríamos aqui nessa coluna), mas não podemos confundir esse amor com sua forma exterior. O que de fato amamamos são as histórias que os livros contém (e uma bela capatambém rs). Nossa sociedade é uma sociedade da escrita, ter isso em mente como algo construído e não simplesmente adquirido é importante. Nossa idade de 200 mil anos como Homo Sapiens (e 2,5 milhões contando demais espécies do gênero Homo), torna o aparecimento e a influência da escrita profundamente irrisório. Ainda mais aqui no Brasil e na América do Sul, onde escreve-se a apenas 500 anos. Isso porém não quer dizer que antes da escrita não haviam histórias. 

Nesses tempos paleolíticos e neolíticos a principal atividade de subsistência diária, era a coleta de frutas, raízes, folhas, legumes, grãos, moluscos, insetos, aves e pequenos mamíferos. Mas curiosamente a imagem mais popular sobre pessoas da pré-história enraizada em todo o mundo é a dos caçadores de megafauna, especialmente os mamutes localizados apenas em uma pequena e gelada porção do mundo. Uma imagem tão forte que não importa quão vasta possa ser uma aula ou uma sala de museu, os olhos de crianças e adultos se entusiasmam e se concentram sobre a caça aos grandes mamíferos, às lanças, flechas utilizadas e outras técnicas. Instrumentos e animais que são completos desconhecidos a nós. Não deveria nos aproximar muito mais um instrumento usado para martelar, como ainda fazemos em nossas casas modernas, ou o consumo de chicória que continuamos colhendo e consumindo?

Para Ursula K. Le Guin em A Teoria da Bolsa para Ficção, é difícil contar uma história emocionante de como arranquei uma semente de aveia selvagem de sua casca e depois outra, e então outra, e mais outra. Não se compara em como enfiei minha lança no enorme flanco peludo enquanto um companheiro era empalado pela enorme presa de marfim, gritando e jorrando sangue para todos os lados. “Essa história não tem apenas ação, ela tem um herói. Heróis são poderosos. Antes que você perceba, os homens e mulheres no canteiro de aveia selvagem e suas crianças e as habilidades dos artesãos e os pensamentos dos pensadores e as canções dos cantores são todas parte disso, foram prensadas a serviço da história do Herói. Mas não é a história deles, é a história do Herói.”2

A narração central de nossa História tem girado em torno de um tipo bem específico de Herói: o Homem, empenhado no combate decisivo, que com sua força realiza façanhas e guia seu povo. O central da narrativa é o conflito, a trajetória do protagonista rumo ao clímax. O central da política é a disputa, a trajetória do dirigente que guia o povo rumo ao poder. O central do sexo é o masculino, a trajetória de penetração do pênis até a ejaculação. Esse é o tipo de história ao qual estamos acostumados, essa é a história que há muito tem sido contada, mas essa não é a história que nos interessa. 

O primeiro objeto inventado pelo ser humano, considerando as características da vida em constante caminhada e movimento, muito provavelmente foi uma saca, um cesto, uma bolsa, enfim, algum tipo de recipiente. Sem um recipiente, como coletar sementes, frutas, legumes, folhas e raízes? Ou guardar algo belo que se encontrou no caminho? Ou então como carregar os bebês por grandes distâncias sem uma faixa/cesto?

E é essa história que nos interessa, essa história que habita a humanidade desde seus primórdios, sobre as coisas comuns da vida, em mitos, sagas e narrações das mais diversas, passadas de geração em geração. Essa história, que é como uma bolsa, contém pessoas diferentes, plurais, às vezes menores do que sementes de mostarda. Pessoas que às vezes vencem e às vezes perdem, que erram, se confundem, missões que nem sempre são cumpridas. A história sobre catar aveia selvagem não é impossível, por mais que o Herói não caiba muito bem nela. Afinal ele precisa de um pedestal, um palco e holofotes. Na bolsa ele fica parecendo uma batata.

Livros, antes de mais nada são uma bolsa, um recipiente de palavras e pessoas. As histórias que nos emocionam, que nos movem, são aquelas que decidimos guardar conosco, e as carregamos ao longo de toda vida, ao longo dessa longa e difícil caminhada. São as que gostamos de compartilhar, nos inspirando e que acabam por refletir uma parte de nós.

Livros não são a salvação da humanidade, mas ao mesmo tempo há uma grande força que podemos retirar destes recipientes. Precisamos de histórias em que possamos nos imergir, experimentar outras dimensões para além do nosso cotidiano, ver com outros olhos e absorver outras belezas.

Por fim mas não por isso menos importante, é necessário dizer que o Brasil – e a América Latina como um todo – é marcado por um profundo abismo literário, o analfabetismo ainda é real nas periferias urbanas e rurais, e a escrita é sim um instrumento de separação entre classes sociais, ferramenta de dominação e exploração. Um motivo a mais para nos empenharmos humildemente com essa coluna, esperando que possa incentivar a busca pela leitura, enquanto a companheirada está envolvida em ações de alfabetização, acesso à instrução e demais atividades pedagógicas e populares,

Uma das poucas certezas absolutas que a arqueologia pode atestar é que os seres humanos criam a si mesmos. Parte disso é feito com histórias, que nos formam e nos guiam, assim como nossa capacidade de contar aquelas que vivemos. Os fatos se tornam reais, perceptíveis, quando somos capazes de contá-los uma, duas e mais vezes. E isso também vale para a transformação social, o poder popular e a luta por vida digna.

Assim, te convido para sairmos juntos a coletar histórias-sementes, esperando que essa seja uma bela bolsa com vários conteúdos para uma sopa saborosa.

Livio Basevi Rosa

1 Prehistory: the Making of the Human Mind, 2007

2 The Carrier Bag Theory of Fiction. Uma tradução em português está disponível aqui

Imagem: pintura rupestre do sítio arqueológico Xiquexique (RN).




Fonte: Reporterpopular.com.br