Março 15, 2021
Do Passa Palavra
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Por Isadora de Andrade Guerreiro

“Olhei para o teto com olhos pesados. Tudo se resumia ferozmente em nunca dar um primeiro grito — um primeiro grito desencadeia todos os outros, o primeiro grito ao nascer desencadeia uma vida, se eu gritasse acordaria milhares de seres gritantes que iniciariam pelos telhados um coro de gritos e horror. Se eu gritasse desencadearia a existência — a existência de quê? a existência do mundo. Com reverência eu temia a existência do mundo para mim. — É que, mão que me sustenta, é que eu, numa experiência que não quero nunca mais, numa experiência pela qual peço perdão a mim mesma, eu estava saindo do meu mundo e entrando no mundo. É que eu não estava mais me vendo, estava era vendo” (Clarice Lispector, A paixão segundo G.H.).

A polêmica sobre o dispositivo de lockdown ganhou centralidade nesses primeiros meses de 2021, junto com a escalada da pandemia no Brasil. A medida parece ser a arma mais efetiva e rápida disponível para as gestões urbanas municipais contra o colapso de seus sistemas de saúde. Fechar as cidades, interrompendo o modo de vida urbano, sempre foi dispositivo de gestão de saúde pública fundamental em pandemias. Nesta, porém, adquire significado mais contundente, na medida em que o modo de vida urbano se tornou predominante no mundo desde 2007, coincidentemente ou não, junto com a onda crescente da crise hipotecária mundial que explodiria no ano seguinte. É sintomático, de qualquer maneira, que tal crise do sistema capitalista — cujas consequências ainda vivemos — tenha lastro urbano, diferentemente da crise de 1929. Pensando nesta conjuntura, a crise sanitária teria também lastro urbano?

A distribuição espacial da pandemia de COVID-19 no mundo [1] não nega esta hipótese: ela guarda importantes semelhanças com a distribuição geográfica dos países com maior porcentagem de população urbana mundialmente. As exceções teriam que ser analisadas caso a caso, porém, grosso modo, parece que nas relações intracontinentais a hipótese tem alguma relevância [2]. Partindo destas evidências, a “solução lockdown” parece ter fundamento: se o problema é urbano, o bloqueio das cidades tem eficácia — no Brasil, o caso de Araraquara demonstra isso, bem como em Portugal. A questão é que isso é apenas parte da verdade. E quando apenas parte da verdade é tomada como um todo, já sabemos o que isso significa: contradições e conflitos são apagados em nome da ideia dominante. E sua dominação diz muito sobre a sociedade que vivemos e que a pandemia está desenvolvendo.

Pois evidentemente a correlação simples urbanização-disseminação não explica tudo, sendo apenas um dos fatores a serem levados em consideração. Muitos outros fatores têm interferência nessa análise. Mesmo as cidades e suas relações regionais não são iguais em todo o mundo. Suas gestões e populações, menos ainda. No entanto, além dos dados de urbanização mostrarem importantes relações com a disseminação da pandemia, a “solução lockdown” aparece como se tivesse o mesmo significado em todas as cidades do mundo. Defensores pró ou contra a medida costumam fazer comparações de sua eficácia dando exemplos de cidades do mundo que não têm nada a ver entre si. Justamente, como as cidades são diferentes, os resultados dos lockdowns também o são — servindo, portanto, para ambas as defesas. Fechar Araraquara não é a mesma coisa que fechar São Paulo. Fechar cidades na Europa não é a mesma coisa que fechar no Brasil. Não apenas nos resultados, mas na forma mesma dos lockdowns acontecerem, que é bastante diversa.

Para dar apenas um exemplo: o setor de educação, dependendo da cidade, entra ou não nas medidas mais restritivas de fechamento urbano. Neste sentido, cansa um pouco quando a discussão sobre fechamento das escolas no Brasil entra na questão “mas na França eles não fecharam desse jeito”. Bom, na França as escolas são integradas ao tecido urbano de tal forma que grande parte dos alunos e profissionais deste setor se deslocam a pé ou facilmente de bicicleta. Muito diferente do Brasil, onde a escola pode, por exemplo, estar a 30 Km de distância da moradia dos alunos — que dependem de um precário, caro e lotado transporte público.

A “solução lockdown”, portanto, precisa ser desenhada e implantada de acordo com as condições urbanas e sociais de cada cidade. Antes que me acusem de outra coisa, vou repetir: ela precisa ser implantada — porém como instrumento técnico, que precisa ser pensado e executado de acordo com as condicionantes locais e junto da (não contra a) população, pois não é cor da tinta que dá mais ou menos viabilidade real para a canetada. Implantar junto da população significa entender as dinâmicas locais e dar suporte a elas, bem como também seria uma forma da própria população se fortalecer e criar um caminho autônomo de organização para além da pandemia. Uma forma da própria população querer e implantar suas defesas. Mas isso não é sequer cogitado quando a pauta é lockdown. O tensionamento político no mundo em torno da medida tem evidentemente outra origem: ela é ideológica e não guarda total relação com a concretude das necessidades das populações em relação à pandemia. Os termos políticos levantados são a defesa da liberdade individual versus interferência estatal.

Desta forma como tem sido posta, se transforma numa falsa questão: morra de doença ou sem recursos, pois há uma falência do mundo urbano, e a pandemia é uma expressão disso, não há mais nada que possa ser feito. A resposta aos movimentos anti-lockdown não pode cair nesta simplificação ideológica, que obscurece os termos reais da questão que, estes sim, poderiam ser incendiários. Uma defesa simplória do lockdown, nesses termos falaciosos, passa a ser uma defesa da gestão da barbárie, uma defesa abstrata e que não se relaciona com as necessidades das classes populares — que, aliás, dentro de seus territórios informais, dá de ombros para a coloração das fases e bandeiras dos planos governamentais. Atitude que se espalha para o mundo formal, quando empresários e prefeitos declaram publicamente que desrespeitarão decretos estaduais.

O que não é dito nessa fórmula abstrata da “solução lockdown” é o problema real: o modo de vida urbano que precisaria ser efetivamente combatido é aquele que subsume a totalidade da vida à reprodução do capital — gerido ou não pelo Estado. O sujeito transformado em força de trabalho que perde o controle (das práticas e dos saberes) sobre sua própria produção não é uma realidade circunscrita à fábrica — física ou temporalmente. O modo de vida urbano também faz parte do processo de assujeitamento no capitalismo, sendo a cidade uma grande conformadora da vida de muitos como forma de rendimento de poucos. Assim, as classes populares são motor de rendimentos diversos não apenas na produção direta de mais-valor, mas também quando precisam morar, quando circulam e quando se divertem. Nas cidades, portanto, é muito mais tênue a separação entre os momentos de trabalho e de tempo livre: são todos momentos de reprodução do capital, mesmo que seja como subjetivação, como subsunção da vida à forma-mercadoria, na medida em que este tempo é regrado, no meio urbano, pelas condicionantes de rentabilidade do espaço. O aluguel, afinal, precisa ser pago — inclusive o da festa e o do transporte. O lockdown do espaço não bloqueia as rendas que advém dele, que se acumulam no tempo. O sujeito que vende sua força de trabalho precisa ser criado pelo capitalismo, precisa virar mercadoria, e o modo de vida urbano é um dos instrumentos para isso.

Viver desta maneira, apenas como elemento de produção de valor, é já estar semimorto: pois é como coisa/objeto que se passa o tempo “vivido” — ou morto-vivo. Não há como fazer lockdown de mortos-vivos: eles atravessam barreiras e não se importam em morrer novamente. A forma como as pessoas que se viram obrigadas a trabalhar presencialmente se expõem ao vírus nos seus tempos “livres”, ou mesmo no trabalho, chega a ser inacreditável, ou mesmo fantástico — no sentido da fantasia, ou do feitiço, que Marx usou para caracterizar o fetiche da mercadoria, o “hieróglifo social”. É como se já se estendessem internamente como objetos, imunes ao vírus. As frases bastante ouvidas “se pode trabalhar, por que não festejar?” ou “se pode ônibus lotado, por que não restaurante?” são como oráculos sociais, momentos de verdade formulados pelos sujeitos-assujeitados que acabam totalizando a vivência social subsumida à forma-mercadoria. Como dizia Marx: “Não sabem, mas o fazem”. Ao invés de contrapor o assujeitamento ao capital que ocorre no processo de trabalho à vida — dando movimento à contradição entre valor de uso e valor, encarando o conflito — o que se faz é o contrário: se conforma a vida ao processo de trabalho. A vida se conforma à morte permanente, à morte cotidiana, ao não-ser. O cenário das pessoas nas ruas e transporte lotados, com máscaras, tem significado estético: a onipresença da morte nas ações cotidianas leva ao paralelo da morte já aceita nas relações de trabalho, que as fazem estar ali, ao mesmo tempo em que as empresas de transporte lucram com sua aglomeração.

É desta forma que me parece que o urbano tem tomado lugar no enfeitiçamento social em curso — sendo o debate sobre o lockdown apenas a ponta do iceberg visível, ainda que, no momento em que estamos, é o mínimo. Mas é o patamar de saída, não de chegada. Uma saída que pode comprometer ou radicalizar insurgências dependendo da forma como é defendida e construída. Respondendo à pergunta inicial: sim, a crise sanitária tem lastro urbano, porém não o mais aparente, que abstrai as cidades no tempo e no espaço como objetos técnicos obedientes às leis. O lastro urbano da crise é o lastro que rentabiliza a totalidade da vida, alienando a população, e isso sim é central no colapso sanitário.

A centralidade política do processo eleitoral e institucional para a esquerda está obscurecendo o fato de que a extrema-direita não tem enorme apego aos processos democráticos: ela está fazendo trabalho de base, formação ideológica para sustentar outro regime de poder, que não depende do voto. Está formando um exército de zumbis para a guerra — que são sempre os melhores soldados, pois não tem nada a perder. Pois, para a extrema-direita, não se trata de “acostumar-se com a morte”, mas de torná-la a própria forma de “viver” — ou de passar pela vida como guerra, trabalhando no compasso da morte, pois a correlação feita pelos protestos anti-lockdown é exatamente essa: a vida é trabalho, que é liberdade. Inclusive a referência à insígnia nazista “arbech macht frei”, ou “o trabalho liberta”, escrito nas portas de campos de concentração, foi dita recentemente nestes protestos não como ameaça aos inimigos, mas como reivindicação para si mesmo: “não foi isso que a gente aprendeu? O trabalho nos faz ser livres! Pois aqui nós estamos reivindicando o trabalho”.

A defesa da institucionalidade por décadas deixou suas marcas na classe trabalhadora. Pois se deixou de lutar pela casa, pelo transporte ou pela festa necessários, mas pela casa-mercadoria do programa público-privado, pela cota do transporte público planejado como transporte de carga, pela festa de rua patrocinada. Ou seja, para a esquerda que se burocratizou, também é o trabalho produtivo, que produz mercadorias, o meio para se “viver dignamente”. Não seria a hora de, no mínimo, taticamente, questionar a remuneração das empresas de transporte por passageiro e não por viagem? Várias ocupações de terra e imóveis vazios estão acontecendo com a fuga do aluguel, porém em sua maioria sem organização prévia de movimentos de moradia — ou seja, não são ocupações que acontecem como mobilização política. Por que, afinal, não há uma grande mobilização popular pelo Auxílio Emergencial? Por uma Greve Geral? Simplesmente porque parece não haver mais base social para isso. Talvez as lideranças estejam começando a olhar para baixo e ver que seus pés afundam, sem resposta às tentativas de se mover.

Nestes termos a discussão sobre o lockdown parece mais um dos atos do enfeitiçamento, como uma falsa questão: vamos mesmo entrar na questão das “liberdades individuais” ou do Estado salvador? Quando vamos começar a discutir a vida como a negação do trabalho produtivo, quando o lockdown real — e efetivo — será simplesmente a negativa de continuar trabalhando, reproduzindo capital (na fábrica, no transporte, na moradia, na festa)? É esse enfeitiçamento social que faz com que seja a extrema-direita a defender os trabalhadores “que precisam trabalhar” enquanto a defesa simplória do lockdown tenha ares abstratos e impopulares — pois afinal não é realizada dentro de um movimento efetivo de defesa da vida, o que significaria adentrar no mundo da produção do urbano tal qual ele é. É esse enfeitiçamento que torna a sociedade preparada para naturalizar o fascismo cotidiano e um futuro-próximo de regime de governo autoritário. Um enfeitiçamento construído nas ruas, nas casas, nas festas, quando elas são extensão do trabalho.

Quebrar o feitiço é das coisas mais difíceis, não apenas pelo ato em si, mas pelas suas consequências, que também podem ser devastadoras no curto prazo se não se apoiarem em redes de solidariedade e organização que ofereçam alternativas ao mundo do trabalho e à cidade rentável. Resta saber quantas mortes ainda vamos aguentar para a balança começar a pesar.

“Eu fizera o ato proibido de tocar no que é imundo. (…) Comer a matéria viva me expulsaria de um paraíso de adornos, e me levaria para sempre a andar com um cajado pelo deserto. (…) Para construir uma alma possível — uma alma cuja cabeça não devore a própria cauda — a lei manda que só se fique com o que é disfarçadamente vivo. E a lei manda que, quem comer do imundo, que o coma sem saber. Pois quem comer do imundo sabendo que é imundo — também saberá que o imundo não é imundo. É isso?

(…) O que temia eu? ficar imunda de quê? Ficar imunda de alegria.

(…) No meu mudo pedido de socorro, eu estava lutando era contra uma vaga primeira alegria que eu não queria perceber em mim porque, mesmo vaga, já era horrível: era uma alegria sem redenção, não sei te explicar, mas era uma alegria sem a esperança. (…) Pois a atualidade não tem esperança, e a atualidade não tem futuro: o futuro será exatamente de novo uma atualidade. Eu estava tão assustada que ainda mais quieta ficara dentro de mim. Pois parecia-me que finalmente eu ia ter que sentir” (Clarice Lispector, A paixão segundo G.H.).

[1] No link, alterar o mapa para “Total per 100.000 population”, no menu à esquerda.

[2] A dinâmica europeia, que aparentemente foge desses parâmetros, parece ser uma exceção que confirma a regra: embora existam diferenças na porcentagem de população urbana entre os países, o território europeu é caracterizado por extensa rede de pequenas e médias cidades relativamente próximas se comparado com o resto do mundo — e sua taxa de contaminação pela COVID-19 é, comparativamente, bastante alta. Já a Austrália mostra o oposto: embora com alta porcentagem de população urbana, é um país com poucas cidades, bastante afastadas, fator que pode dizer algo sobre a baixa incidência da pandemia por lá. Assim, embora a Austrália tenha grandes e populosas cidades, não tem um território extensamente urbanizado como o europeu.




Fonte: Passapalavra.info