Abril 14, 2021
Do Passa Palavra
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Por Malvina Pretória Samuelson

O coletivo do Passa Palavra, entendendo ser necessário promover um debate o mais amplo e plural possível sobre o restabelecimento dos direitos políticos de Lula e a possibilidade de que volte a disputar a Presidência da República, decidiu pedir a alguns de seus colaboradores frequentes que escrevessem textos sobre o assunto. Esperamos que esses textos e o debate por eles suscitado possam estimular a reflexão em torno dos desafios com que depara a esquerda no momento.

Em 2019 escarrei aqui um texto no qual expus meu repúdio ao obstáculo que era a pauta “Lula Livre” para as lutas naquela altura de primeiro ano do governo Bolsonaro, além de mostrar que muitos desses que agitavam pela liberdade de Lula poderiam estar agindo como — ou sendo mesmo — inimigos internos em um movimento de trabalhadores (na ocasião principalmente da educação) e estudantes que então se esboçava nas ruas. Ora, pensei eu, se estávamos constituindo uma luta social contra Bolsonaro, não seria muito desvio de foco lutar pela liberdade de um gestor movidos pelo ressentimento de ele não ter disputado as eleições em 2018? Esse pessoal estava nas ruas e tentava relacionar qualquer sucesso da luta com a liberdade do líder, misturando às palavras de ordem, e mesmo muitas vezes sobrepondo, o “Lula Livre” onde bem queriam.

A mistura de pautas, além do fato de constatar que muitos gestores e inclusive minha chefe advogava pela liberdade de Lula, me fez pensar que uma coisa é muito bem dissociável da outra, e que para um avanço na luta de trabalhadores seria preciso sacrificarmos um mito e confiarmos na construção da nossa classe, da qual Lula já não faz parte há algumas décadas. Por isso eu só poderia dizer: “o Lula que se foda”. Que se foda, sobretudo, porque não é um trabalhador, porque se aninhou entre os capitalistas e porque nossa luta só poderia caminhar de forma autônoma e independente de gestores como ele. Porém a burocracia sindical estava na rua; a burocracia estudantil também; e a base de trabalhadores da educação, muito nostálgicos dos governos Lula, e muito colaborantes com chefias e reitores, também. Lula ganhou liberdade, Bolsonaro continuou correndo solto, e quem se fodeu mesmo, e mais uma vez, foi a perspectiva de uma luta fundamentada na independência política da classe trabalhadora.

A volta da elegibilidade de Lula em 2021, pela anulação das condenações por Edson Fachin, também é o reavivamento de seu caráter mítico para muitos na esquerda e extrema-esquerda que receberam a notícia com euforia e otimismo. E por quê? Lula reaparece no cenário como supostamente deveria ter aparecido em 2018 — um oponente capaz de derrotar Bolsonaro. Sobretudo após o discurso no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC reforçou-se a ideia de que Lula poderá concorrer em 2022 e que poderá derrotar o bolsonarismo, sendo talvez o único que poderá fazê-lo. Assim, Lula é esperança.

Lula é esperança de quem aceitou a derrota das lutas subterrâneas; Lula é esperança de quem subjuga a autonomia da luta social dos trabalhadores ao cenário eleitoral, ou seja, ao passa-e-repassa da classe dominante pelas regras do capitalismo; Lula é esperança de quem procura sempre a figura de um chefe quando não há confiança em Ciro Gomes ou quando não se vê força e maturidade suficientes em Flávio Dino ou Guilherme Boulos.

A insistente procura por chefes é a cara da nossa derrota, pois é a submissão aos gestores e a aceitação natural da burocratização das lutas; é a descrença na luta dos trabalhadores, é a esperança dos desesperançados. Escolher uma dessas figuras, seja Lula, seja um dos seus substitutos históricos, é subordinar todo um difícil esforço de luta na elevação de elites. E como essas elites poderiam fazer avançar a luta dos trabalhadores se para existirem precisam fazer a tal “colaboração de classes” e que para isso é necessário sempre botar freios nos avanços dos trabalhadores? Direcionar nossos esforços para as eleições é caminharmos sempre para nossa derrota. Lutar contra os gestores bolsonaristas contrapondo com gestores lulistas (ou outros) é perder de vista que a longa luta de emancipação de nossa classe deve se dar contra a globalidade dos capitalistas. O que esperar de quem diz por aí que sente saudades do “ex” senão um esforço pela renovação dos próprios quadros do capitalismo e da manutenção da miséria da classe trabalhadora?

As obras que ilustram este artigo são de George Inness e Pieter Bruegel, o Jovem.




Fonte: Passapalavra.info