Março 30, 2021
Do Passa Palavra
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Por Cristiano Fretta

O coletivo Passa Palavra, entendendo ser necessário promover um debate o mais amplo e plural possível sobre o restabelecimento dos direitos políticos de Lula e a possibilidade de que volte a disputar a Presidência da República, decidiu pedir a alguns de seus colaboradores frequentes que escrevessem textos sobre o assunto. Esperamos que esses textos e o debate por eles suscitado possam estimular a reflexão em torno dos desafios com que depara a esquerda no momento.

O ridículo desfecho do governo Trump representou não só uma simbólica derrota de um tipo de autoritarismo testosterônico e tosco que se apresentou como alternativa global de política de Estado, mas também marcou um ponto de ruptura em que a emergência de líderes progressistas — no sentido mais amplo do termo — pode representar uma superação, mesmo que parcial e ainda incerta, da política do ódio no Ocidente. O ridículo porém grave episódio da invasão do Capitólio já pesa na história da sociedade ocidental como um espetáculo estética e politicamente deplorável, ainda mais por ter ocorrido em uma das democracias em tese mais sólidas do mundo. Mais do que promover mudanças de políticas econômicas e/ou alterar substancialmente a política externa norte-americana, um governo que seja antagônico a Trump pode assim fazê-lo por meio de pautas de costumes baseadas em marcos civilizatórios básicos. Foi neste sentido, por exemplo, que Joe Biden – que está muito longe de ser um político “progressista” — nomeou a transsexual Rachel Levine para o cargo de secretária assistente da saúde e colocou a palavra diversidade no horizonte da política de Estado do novo governo americano. Dessa forma, uma política antitrumpista passa, necessariamente, pelo resgate de marcos civilizatórios básicos — e isso, em tese, não necessita de uma grande mobilização da estrutura da máquina estatal para que aconteça.

Deste lado da América, o Brasil de Jair Bolsonaro se encontra isolado em virtude da inacreditável incompetência e psicopatia de seu líder frente à pior crise sanitária de nossa história. Bolsonaro é hoje um fantasma de qualquer tipo de civilidade, sombra triste na história mundial. O Brasil desenha, todos os dias, páginas disruptivas e projeta para o futuro a certeza de que a “era Covid” será lembrada não só pela carnificina viral, mas também pela explicitação da maldade e da psicopatia do representante máximo de nosso Poder Executivo. Em um futuro breve, teremos que enfrentar a seguinte pergunta: como uma nação se permitiu olhar o semblante do mal todos os dias e ainda assim deixar que a história fosse escrita dessa forma? A incapacidade institucional de se parar Jair Bolsonaro perdurará como um dos mais tristes episódios da história do Brasil. A Covid já tem um lugar de gala ao lado das grandes vergonhas nacionais. Quanto mais Jair Bolsonaro sobe o tom em direção a afirmações explicitamente golpistas, mais se percebe a sua incapacidade de liderar que não seja direcionada à sua turba de lunáticos. O recente episódio da “troca” do ministro da saúde demonstra que o Governo está atolado não só em um mar de maldade, mas também de incompetência. Há um vazio enorme neste país em relação a medidas efetivas de combate ao coronavírus. Ou melhor: há um vazio enorme por uma liderança que seja minimamente empática e humana. Pode-se ponderar, claro, que não há propriamente um vazio, mas sim um projeto genocida em curso. De uma forma ou outra, existe a necessidade de um pacto nacional em torno do bom senso e da saúde.

Lula: um estadista

E é neste contexto que um Lula elegível se projeta. O contexto de ressurgimento de sua figura detentora de direitos políticos legais não poderia ser mais propício. Lula é um estadista nato que traz em si não só o senso de coletividade de que o Brasil precisa neste momento, mas também compreende que sua eleição em 2022 pode ser a cristalização contra os desmandos jurídicos da Lava Jato. Lula é um homem que já viveu várias vidas. De imigrante nordestino a líder sindical. De candidato derrotado a presidente eleito. De esperança da esquerda mundial a protagonista de alianças duvidosas. Dono de uma retórica poderosíssima, sabe como ninguém projetar por meio das palavras os anseios dos mais diversos setores da sociedade brasileira. O ex-presidente é um conciliador. Lula passou meses preso, e isso pareceu ser o fim de sua carreira política e até mesmo pessoal. Em 2018 talvez nem mesmo o mais empedernido dos otimistas ousasse dizer que ele poderia voltar ao jogo eleitoral na próxima eleição. É preciso ressaltar que a Vaza Jato [*] cumpriu papel fundamental no reestabelecimento da verdade e demonstrou, na prática, em uma argumentação que muitas vezes se deu a conta-gotas de cada pequena verdade vazada, que Sérgio Moro e sua turma agiram como uma máquina persecutória que tinha como grande objetivo tirar Lula do cenário eleitoral de 2018. Em suma: a Lava Jato agiu como uma polícia política. Lula levou nos ombros a farsa legal dos processos, dos conluios entre juízes e procuradores, e agora ostenta forte e revigorado uma enorme emergência por justiça jurídica. Além disso, a ascensão de Lula não vem sozinha: está aliada por oposição ao fracasso de Sérgio Moro, que foi em alguns anos de herói nacional a ex-juiz e a ex-ministro julgado por parcialidade pelo STF. Sua carreira está arruinada.

Também é evidente que o antibolsonarismo tenha como consequência uma queda do antilulismo. É claro que uma eleição que tenha Bolsonaro e Lula como protagonistas será um duelo mais de rejeições do que convicções, mas também é certo que o desgaste de Bolsonaro frente à pandemia hoje beneficia Lula e sua natural capacidade de liderança. Acrescente-se a isso a recente porém já desgastada relação de Bolsonaro com o Centrão. Terá Jair em 2022 apoio deste setor político? A Imprensa e o Mercado, no entanto, não têm escondido sua insatisfação frente a uma possível candidatura do petista. Nada mais óbvio, uma vez que foi esta mesma Imprensa e Mercado que gestaram o impeachment de Dilma Roussef e construíram o lavajatismo como força ideológica. Os conglomerados econômicos e midiáticos ainda não se desgrudaram da atmosfera pós-eleição de 2014 e demonstram que, apesar das crescentes críticas ao governo Bolsonaro, ainda operam uma lógica liberal antipetista.

O argumento de que a Economia não reagiria bem no caso de Lula concorrer em 2022 ainda é frágil e meramente especulativo. Que tipo de certeza e solidez existe hoje no Brasil a ponto de que o petista seja uma ressalva em relação ao crescimento econômico do país? A preocupação com a alta do dólar ou taxas de juros soa como um argumento distante e desconectado da realidade do povo brasileiro, enunciado por um mercado liberal, antipetista e que carrega consigo a responsabilidade pelo impeachment de Dilma Roussef. Mais frágil do que a ponderação econômica é o argumento de que a democracia brasileira poderia entrar em colapso com a candidatura de Lula. Por acaso já não vivemos momentos há muito disruptivos no Brasil? O próprio presidente da república trata de incendiar a certeza da democracia brasileira assim que tem uma oportunidade.

Lula: um estadista

O petista deve enfrentar toda a sorte de desafios caso consiga mais uma vez subir a rampa do Palácio do Planalto. Depois da Lava Jato não há nenhuma garantia de que novas farsas jurídicas não surjam com o objetivo de manipular o cenário eleitoral. Além disso, não podemos esquecer que o próprio Lula foi preso, sua sucessora sofreu impeachment e que o atual presidente sofreu um atentado a faca durante a campanha eleitoral. Sem dúvida os nossos últimos presidentes são ligados, de uma forma ou outra, a eventos disruptivos.

A projeção de Lula no cenário eleitoral brasileiro foi vista por muitos líderes e intelectuais de outros países como um evento de justiça jurídica e como uma possibilidade de reinserção do Brasil no hall de países cujas políticas públicas encontrem como base marcos civilizatórios básicos. Uma possível eleição de Lula não será apenas o triunfo do petista, mas também um golpe certeiro — ainda que não definitivo — no obscurantismo que assola este país. E mais do que isso: a eleição de Lula teria a capacidade quase imediata de recolocar o Brasil em termos de política externa, ajudando a “limpar” nossa imagem frente ao mundo. O ex-metalúrgico é e continuará sendo uma das figuras políticas mais respeitadas no cenário mundial, a despeito de todas as acusações de corrupção que pairam sobre ele. O Brasil merece e precisa de um estadista. E hoje não há ninguém mais qualificado do que Luís Inácio Lula da Silva.

[*] Referência à publicação de mensagens trocadas entre membros da força-tarefa da operação Lava Jato e o ex-juiz Sérgio Moro em 2019, pelo site The Intercept.

As obras que ilustram o artigo são da autoria de Luigi Russolo (1883-1947)




Fonte: Passapalavra.info