Março 23, 2022
Do Passa Palavra
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Por Primo Jonas

De cara ao verão, diversas feministas argentinas realizaram uma campanha pública que se resumia ao slogan “Hermana, soltá la panza”. A campanha foi logo encampada por coletivos, organizações feministas e sociais, personalidades/influencers, e obviamente contou com uma cobertura jornalística nos meios de comunicação progressistas, dos peronistas até os liberais (por exemplo, Página12 e Clarín).

Conversando em um grupo de companheiras, pude constatar que por mais massivo que o slogan seja, e por mais nobre que seja a intenção de promover a aceitação corporal em nossa sociedade, a campanha não é consenso entre as mulheres. Talvez o recorte aqui seja ruim, pois se tratava de um grupo de mulheres críticas, com treino em exercitar o pensamento e a reflexão. Justamente por isso me pareceu de especial importância escutar o que diziam. E não surpreende que o problema de fundo não era o conteúdo correto ou incorreto, a melhor linha feminista, etc., ainda que sobre isso houvesse também o que se falar.

A questão era a forma do mandato. Não se deve confundir com o mandato político, em termos de cargos burocráticos eleitos por um tempo dado ou então uma ordem deliberada em assembleia que será delegada a uma pessoa em particular. Aqui mandato tem o sentido de “mandamento”, “ordem”. “Amiga, solta a barriga”, por mais coloquial que soe, e adocicado pela enunciação de alguém que se coloca imediatamente íntima e familiar (hermana, amiga), estamos no plano do mandamento.

Ninguém duvida das dificuldades em se combater as pressões sociais que ainda hoje se fazem sentir, e o corpo feminino é objeto de constantes intervenções urbanas, desde os outdoors que celebram tamanhos e medidas específicos, até os gritos hostis de desconhecidos motivados por uma axila não depilada, um cabelo curto demais, bigodes muito visíveis, etc. Mas esse tipo de campanha baseado em slogans curtos e imperativos necessariamente nos remete ao clássico “Just do it”, da famosa marca de tênis (e muitas outras coisas mais) Nike.

A forma imperativa parece ser uma marca da comunicação desenvolvida e praticada no ambiente das redes sociais, onde a promoção de pautas políticas compartilha espaço, forma, público e finalmente termina por se confundir com as pautas do marketing em geral. E é no mínimo chamativo que o recurso mais utilizado, e portanto o mais efetivo — em seus termos —, seja a ordem direta feita a esta multidão de indivíduos fragmentados e recebendo esse conteúdo de forma isolada. Podemos também fazer a relação com diversos “manuais” da “militância” progressista, nos quais não se ensina um corpo teórico com o qual trabalhar em diferentes conjunturas. “Faça compostagem”, “Use tal aplicativo”, “Respeita as minas”, “Pense na interseccionalidade”, “Não coma animais”, “Compre comida orgânica”, “Não use esta fantasia”, “Não use esta palavra”, etc.

Mandatos progressistas

As companheiras relatavam a seguinte situação: mas e se eu não quiser mostrar minha barriga (porque não gosto de mostrar meu corpo em geral, porque não gosto da minha barriga, porque não quero me submeter ao julgamento e aos olhares que virão, etc)… então o quê? não sou feminista? Sou insensível à luta das mulheres? O mecanismo de culpa é de fato o mesmo do slogan da Nike. “Simplesmente faça-o”: fazê-lo talvez não mude muito tua vida, mas não fazê-lo te torna um inútil. A replicação deste tipo de slogan tem esse efeito de não permitir uma saída ou uma alternativa, mesmo porque uma composição justamente equilibrada não teria o mesmo impacto: “As mulheres não deveriam se envergonhar de seus corpos, sejam como for”.

É muito intrigante observar como diversas pautas progressistas, muitas das quais abrem margens e caminhos para uma melhor integração e unificação da classe trabalhadora, são veiculadas por meio de formas que lhes transformam o conteúdo. Pensamos que se está falando apenas sobre esta ou aquela minoria, pensamos que se está falando sobre o respeito devido ou a igualdade desejada, quando o que está operando é a introjeção da culpa e uma horrível familiaridade com a emissão de mandatos, a redução da política aos mandatos sociais. Efeito residual de uma infraestrutura comunicacional hierarquizada e empresarial, ou fenômeno a ser combatido em seus próprios termos, por meio da comunicação social crítica?

As fotos que ilustram este artigo são dos fotógrafos Mert Alas e Marcus Piggott.




Fonte: Passapalavra.info