Abril 15, 2021
Do A Companha
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No documentário “Shoshana Zuboff on surveillance capitalism” (com legendas em português), a professora dá uma excelente aula sobre a fase atual do capitalismo. Usando uma linguagem simples, ela explica como as megateqs extraem enorme valor da experiência corriqueira das pessoas através da venda de modelos preditivos de comportamento.

Segue abaixo um trecho, extraído da legenda, contando a história do Pokémon Go e como ele funcionava por trás dos panos. Algumas partes da fala foram alteradas para melhorar a fluidez da leitura. Falas de outras partes do documentário foram inseridas entre parênteses para complementar a argumentação.

Numa próxima postagem, publicaremos outra parte, que conta os planos das gigantes não-teqs para também conseguir ganhar essa mais-valia da vigilância inventada pela Google.


É importante compreender que o Pokémon GO é um jogo de realidade aumentada que foi desenvolvido pela Google durante muitos anos, pela pioneira do capitalismo de vigilância.

O Pokémon GO foi desenvolvido num programa liderado por um homem chamado John Hanke. Antes, ele havia criado um software chamado Keyhole, que recebeu investimento da CIA e foi mais tarde adquirido pela Google, mudando o nome para Google Earth.

É importante compreender que o Pokémon GO não é um joguinho que foi lançado para o mundo por uma empresa de brinquedos. Quando decidiram lançar o Pokémon GO, não quiseram fazê-lo como um jogo da Google. Lançaram-no como Niantic Labs, uma empresa que ninguém tinha ouvido falar. Era uma start-up massa com um jogo massa.

Então, vejamos: temos um jogo de realidade aumentada da Google e acontece que o grande jogo, que se sobrepõe ao joguinho que as crianças jogam, é um jogo que imita precisamente a lógica do capitalismo de vigilância.

No capitalismo de vigilância, na sua versão original, online, prevemos a taxa de visitas e vendemos isso ao anunciante, que paga para ter visitas no seu site. Esperava-se que visitas se tornem compras. Agora, no mundo real, clientes empresariais pagaram à Niantic Labs, a empresa do Pokémon GO… Pagaram à Niantic Labs não pelas visitas, mas pelo equivalente no mundo real das visitas, que se chama “passada”. Trata-se de colocar seres humanos, com os seus pés, em negócios reais, para que os seus pés passem por determinada loja, restaurante ou bar, para que comprem algo.

Todos estes negócios compram aquilo a que se chama “módulos de atração”. Módulos que atraem pessoas. Não para que as pessoas sejam felizes, mas para que gastem dinheiro na sua loja ou restaurante. A Starbucks, o McDonald’s, toda a gente estava fazendo dinheiro ali. Obviamente, a Niantic Labs também.

E as pessoas que jogavam o jogo não faziam ideia.

As empresas usaram as recompensas e punições do jogo para “empurrar o rebanho” de pessoas pela cidade, até os locais que pagavam pela sua presença. É isto o Pokémon GO. É este o jogo de verdade, que acontece na sombra. “Empurrar” a pessoa para um lugar onde previmos que ela estará. Para que as nossas previsões valham mais. Se o módulo garantir a presença de pessoas, a minha previsão vale muito mais. É pela economia de ação que eu garanto isso.

E a quem são vendidas essas previsões? A nós, não. Nós não somos os clientes. Elas são vendidas a clientes empresariais (, agências do governo, terceirizadas do ramo da vigilância.)

E o Pokémon GO foi uma experiência em escala global de economia de ação. Usou meios de controle remoto para criar comportamentos de forma a atingir os fins comerciais de outras empresas enquanto as pessoas se divertem. Espera-se que você tenha a impressão de estar sendo servida. Espera-se que você seja saturada com conveniência para que não repare e para que não se queixe.

E toda esta operação nas sombras continuará escondida. (Não é por sermos estúpidos que não vemos isso acontecendo. É porque estes procedimentos têm sido mascarados. Operam escondidos. Foram concebidos para serem indecifráveis, indetectáveis, para criar ignorância num vasto grupo de pessoas a que eles chamam “utilizadores”.)

Então, já não é apenas uma questão do que está a fazer online, na Internet, enviando mensagens, e-mails. Nós queremos saber sobre o seu passeio no parque, queremos saber o que faz no carro. Queremos saber o que faz em casa.




Fonte: Mariscotron.libertar.org