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Medo de quê? por Inaê Diana Ashokasundari Shravya


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Eu tava na minha quando me perguntaram se eu não tava com medo. Medo de quê?, eu perguntei. Medo da violência, medo de ser agredida, de te baterem na rua, de perseguição por ser quem você é, foi a resposta que recebi. Eu pensei um pouco antes de responder. Era notável que essas pessoas não faziam ideia alguma das coisas pelas quais passei e passo cotidianamente. Medo disso que já acontece comigo?, eu perguntei. É, me responderam. Dois olhos, dois ouvidos, um nariz e uma boca me responderam com a ignorância própria de quem não faz ideia do que fala. Eu pensei mais um pouco. Não era possível tamanha ignorância. O grupo do qual eu faço parte, eu respondi, já lidava com isto que pra você é uma novidade. Perseguição? Liquidação física? Doença não atendida? Brutalidade policial? A que exatamente se refere? Pois tudo isso já tava rolando antes de rolar pro seu lado, eu respondi.

Ela, membro da classe média e professora universitária, era incapaz de entender. Pra ela, quando um dos seus era preso, essa prisão se tornava imediatamente política. Assim foi durante a ditadura. Não falo de “um dos seus” num sentido metafísico, mas político. Quando as travestis permaneceram sendo perseguidas após o tal “retorno da democracia”, “os seus” residiam felizes em suas moradias, brindavam a chegava da democracia como brindam na virada do ano. Sua democracia é construída à custa de muitas travestis perseguidas, agredidas, assassinadas, não atendidas. E aí de nós se durante tamanha democracia ousarmos falar da desigualdade! Um absurdo! No país que lidera o ranking de assassinato de travestis e transexuais, do que exatamente terei medo? A morte, ironicamente, é a única certeza que temos.

O ano era 2018. A chuva havia dado uma pausa enquanto voltávamos conversando. Bom, ao menos eu acho que se tratava duma conversa, não duma entrevista do IBGE, que no fim das contas não servirá para outra coisa que aumentar números, modificar percentualmente alguns dados, preencher gráficos. Mas que diferença faz?, pensei comigo, pois essas pessoas entrarão em suas casas e se esquentarão com o prazer do esquecimento. Num país como este, não somos outra coisa que um alvo político. Enquanto alvo político, eu me recuso a dizer que morremos, mesmo quando alcançamos uma idade avançada, isto é, além dos 35 anos, que é a estimativa de vida que temos à disposição no momento. Eu me encontro indisposta. Enquanto alvo político, não sou tonta o suficiente para dizer que morremos. Não. Eu digo é que somos brutalmente assassinadas.

Não deu outra: voltaram pras suas casas e dormiram muito bem. O que eu deveria esperar? Que me perguntassem se eu tô precisando de alguma coisa? Seu tô de fato bem? Mas o que é estar bem pressa gente? Não me importaria se essa gente não ficasse o tempo inteiro falando sobre vidas dignas sem nunca perguntar a mim ou aos meus e minhas o que temos vivido, o que concebemos como uma vida digna. Talvez sejamos pobres coitadas criaturas que devam ser tuteladas por suas almas caridosas e benfazejas. O que seria dessa gente sem a nossa miséria, sem a precariedade de nossas vidas? Nem sei. “Homens e mulheres do pós-guerra”, diz Preciado, “são seres biotecnológicos pertencentes ao regime sexopolítico cujo objetivo é a produção, reprodução e expansão colonial da vida humana heterossexual no planeta.”[1]

Por que é que vocês, cisgêneros e heterossexuais, não assumem seus medos em vez de os atribuírem a nós e, consequentemente, quererem “nos proteger”? Falam dos nossos  “medos” como os governantes falam da segurança pública, do combate ao medo, da proteção ao povo. Por que não falam dos fluxos de poder que os constituem? Por que é necessário que digam que somos nós que estamos com medo? Eu não sei que medo é esse. Agem como o Estado, via protecionismo, via tutela. Para isto é necessário que estejamos fracas, que nossas pernas não tenham firmeza, que nossos braços tremam. Vocês se aproximam de nós como parasitas. São como os filantropos diante da miséria dos países subdesenvolvidos. Quando decidimos agir por nós mesmas, sem sua parasitagem necrófila – adoram compartilhar notícias com os nossos corpos desprovidos de vida -, nos acusam com todos os dedos de “identitaristas”. Pouco me fodo pra isso. Suas palavras como uma chuva de penas de urubu faminto. Eu tô é de saco cheio das suas lamúrias liberais.

Eu volto pra casa acompanhada de olhares os mais variados. Deus está olhando, lembro da minha mãe dizendo quando eu era criança. Ao mesmo tempo uma voz dizia  ao pé do ouvido, irrompendo a cada virada de esquina: a voz do povo é a voz de Deus. Eu constatei no asfalto molhado que Deus e o Estado não são lá muito diferentes. Ambos dependem duma relação rígida, da desgraça, da noção de pecado ou crime. Assim como os colonizadores queriam descobrir se os nativos tinham alma, o psiquiatra e o psicólogo querem saber se eu tenho uma. É no suposto livre-arbítrio que Estado e religião se valem contra mim. Incrível a minha capacidade de enganar os alienados. Mas até que a titularidade de diabólica me cai bem: dissocio ideias, desmantelo o simbólico heterossexista. Enquanto querem saber se eu tenho alma, eu quero é saber se eles possuem terminações nervosas, se a sua pele arrepia ao mais leve toque, se existe prazer no contato com os seus corpos, se seus corpos são realmente educastrados como aparentam ser. Deus curte me mamar antes de me mandar pro inferno.

“É preciso sempre ter cuidado, quando nos engajamos com o empreendimento crítico, para não nos deixarmos enfeitiçar por enquadramentos negativos que nos tornem irremediavelmente pessimistas e impotentes – havendo vida, há disputa”.[2] Chego em casa. Viva. Nenhuma mensagem. Ninguém perguntando seu cheguei bem. Medo de quê?, fui dormir pensando nisso. Até hoje eu realmente não sei.


[1] PRECIADO, PAUL B..Testo junkie: sexo, drogas e biopolítica na era farmacopornográfica. Traduzido por Maria Paula Gurgel Ribeiro. São Paulo: N-1 edições, 2018.

[2] GALDINO, VICTOR. Aquilombamento imaginal/realismo esclarecido. In: Experimentos de filosofia pós-colonial. São Paulo: Editora Politeia, 2020.




Fonte: Ielibertarios.wordpress.com
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