Abril 23, 2021
Do Jornal Mapa
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Era um vale imponente. Era um rio ímpar. Eram margens carregadas de história e de muitas estórias. Eram ravinas grandiosas e assustadoras. Era um percurso especial de águas bravas.
Sim, era. Ou eram. Deixaram de ser e, provavelmente, nunca será igual. Tudo em nome do progresso que, na realidade, não chegou. Ou então o progresso é o nome que dão ao uso e abuso de cimento e alcatrão, mesmo que isso aniquile a potencialidade de uma região.

As idas ao Tua (gíria de águas bravas) eram clássicas para a comunidade canoísta. Íamos pelos fabulosos rápidos, um volume de água fora do comum em terras lusas, pela envolvência, pelo convívio com as gentes locais e pelas termas naturais de água quente que tantas noites inesquecíveis nos proporcionaram. A nós e a quem nos visitava. É isso mesmo, o rio Tua era um dos must go and paddle para todos os kayakers estrangeiros que colocavam Portugal no seu cardápio de águas bravas.

Rio Tua

Eram 18 kms de muito divertimento que se traduziam em aproximadamente cinco horas de navegação. A entrada oficial era na Praia Fluvial da Brunheda, muitas vezes substituída pelo lugar de São Lourenço, onde pernoitávamos num misto de acampamento com tendas e falsas autocaravanas – leia-se qualquer viatura com quatro rodas transformada artesanalmente para responder às necessidades do nosso desporto. São Lourenço, para uma geração de canoístas, será sempre sinónimo de termas de água quente de utilização gratuita, nas quais nos deliciávamos noite dentro depois de uma longa jornada no rio Tua. Era um local mágico, um aglomerado de casas numa das encostas da margem esquerda do rio. Acordar, descer até à linha de comboio e contemplar aquela secção engargantada do Tua, com a aldeia do Amieiro em pano de fundo, era um momento marcante para qualquer ser humano que simpatize minimamente com a Natureza.

Dificilmente me irei esquecer das lágrimas de alguém que percebeu que o alcatrão e o cimento não iam trazer o “el-dorado” prometido. O que creio me marcou mais do que aquela grotesca parede de cimento que matou a nossa garganta do Tua.

As correntes do Tua levavam-nos pela sua garganta até as suas águas perderem importância e mudarem de identidade, passando então a pertencer ao grandioso rio Douro. Até atingirmos esse ponto na foz, a sua pendente proporcionava-nos rápidos para todos os gostos, intercalados por pequenas «piscinas» de águas lisas. E grande parte destas passagens mais turbulentas eram caracterizadas por muita massa de água a movimentar-se por entre blocos de granito das mais diversas dimensões e formas. A diversidade dos rápidos era uma das características daquele grande percurso de puro divertimento. Existiam rápidos que exigiam maior atenção devido à perigosidade que ofereciam, outros, mais limpos de obstáculos, criavam grandes ondas estáticas que nos permitiam sessões de surf sem sair do mesmo local, e outros ainda, a grande maioria, desafiavam-nos a navegar bem atentos, de modo a evitar situações desagradáveis.

À medida que nos íamos aproximando da junção dos rios, a intervenção humana brindava-nos com construções indescritíveis. Sim, obviamente, a linha de comboio era o ex-libris deste vale, e essa acompanhava-nos pela descida na íntegra. Mas existiam outras obras, executadas pelas gentes que povoaram este vale, que nos marcaram de tal forma, que ainda hoje são tema de muitas tertúlias.

Rio Tua

Refiro-me, principalmente, às inúmeras varandas de terra, limitadas por pequenos muros de paralelepípedos de granito, que albergavam oliveiras e amendoeiras desde o topo do vale até praticamente à linha de água. Inimaginável, alguém descer aqueles socalcos, colher a azeitona e a amêndoa e subir aquele desnível tão abrupto. Algo que na nossa sociedade actual seria considerado «Obra Sem Interesse Económico». É indiscritível o que sentíamos ao olhar para essas encostas a partir do lugar mais fundo do vale. Grande parte dos nossos compinchas estrangeiros não acreditava no que via e o desejo de adquirir azeite local era imediato.

Ir ao Tua, noventa e nove por cento das vezes, significava despender o fim-de-semana todo para essa missão. Muitas delas iniciavam-se à sexta-feira logo após a saída do trabalho e estendiam-se até ao fim de tarde de domingo. É verdade que remar aquela majestosa garganta era o principal objectivo.

Inimaginável alguém descer aqueles socalcos, colher a azeitona e a amêndoa e subir aquele desnível tão abrupto. Algo que na nossa sociedade actual seria considerado “Obra Sem Interesse Económico”.

Porém, na maior parte das deslocações, o programa não fazia sentido se não envolvesse o contacto com as populações locais. A dada altura, com alguns amigos de convívios esporádicos. Éramos bem recebidos por grande parte das gentes que habitavam nas terras em redor do Tua. Tenho a certeza que ainda o seremos, e para sempre. Em Pombal, na Primavera, as noites já eram quentes e de minis na mão trocávamos vivências com os populares. Em Carlão, o azeite caseiro, o pão local, o queijo arranjado à última da hora, os velhos copos com tinto, combinavam com as longas conversas que acabávamos sempre por ter com o casal dono da «tasca» mais simples que me ocupa a memória.

Confesso que tenho saudades deles e curiosidade em saber se continuam a soprar as suas inúmeras velas juntos. Há que voltar, mesmo sem caiaque. Podia fazê-lo nas águas lisas criadas pela barragem? Não. Seria trair o longo vale submerso e os momentos que ele nos proporcionou. Do Pinhal Norte, mais propriamente do Café Pôr-do-Sol, ficam os memoráveis pequenos-almoços com as suas tostas deliciosas, servidas com bastante simpatia pela família proprietária do pequeno negócio. E das noites bem passadas a contarmos as nossas aventuras em troca das deles. Nas noites de mau tempo, muitas foram as vezes que o convite para pernoitar na sala de snooker foi negado, em prol dos banhos quentes das Termas de São Lourenço.

Rio Tua

Memórias felizes, muito felizes e deveras marcantes. Memórias infelizes? Sim, algumas. Infelizmente, as finais. Dificilmente me irei esquecer das lágrimas de alguém que percebeu que o alcatrão e o cimento não iam trazer o eldorado prometido. O que, creio, me marcou mais do que aquela grotesca parede de cimento que matou a nossa garganta do Tua.

A Barragem do Tua foi a morte de um rio. Inundados 420 hectares de um vale imemorável. Milhares de árvores abatidas, a qualidade da água comprometida, solos agrícolas, habitats raros de vida animal e humana extintos.

A destruição de um território de gentes e gerações moldadas nos íngremes socalcos do rio Tua. Desde a junção dos rios Tuela e Rabaçal, a montante de Mirandela, o Tua sulcava as montanhas ao longo de 40 kms até ao Douro, correndo ao lado da inesquecível e centenária linha do Tua, via férrea amputada em 1992 por Cavaco Silva, e encerrada em 2008, com o objetivo do Aproveitamento Hidroelétrico de Foz Tua. Apesar de vivamente contestado, o crime foi consumado. Um crime de estado, pelo qual o Estado português sentenciou a morte de um rio.

A Barragem do Tua fora concessionada à EDP, no âmbito do Programa Nacional de Barragens lançado em 2007, pelo governo de José Sócrates, e do qual veio a resultar o caso EDP. Neste são arguidos desde 2017 – o ano em que a barragem foi inaugurada – António Mexia, presidente da EDP, e João Manso Neto, presidente da EDP Renováveis, por suspeitas de corrupção ativa e participação económica em negócio. Nesse mesmo processo foram suspensos da administração da EDP em julho passado, já depois de, em finais de 2019, terem anunciado a venda do Tua e de outras cinco barragens ao consórcio francês por 2,21 mil milhões de euros. Só neste pacote, o plano nacional de barragens implicara um investimento conjunto de 1,4 mil milhões de euros.

Esta é uma das faces do «progresso» prometido pela Barragem do Tua. Mas a verdadeira face do crime desapareceu sob a acalmia das águas do prometido progresso. Restam as memórias de um rio, aqui partilhadas no Jornal MAPA por Ricardo Inverno, que em caiaque desceu vezes sem conta as tumultuosas águas selvagens do rio.

Em julho, a Rede Douro Vivo, com ambientalistas e investigadores de várias universidades, concluía, de acordo com o jornal Público, uma mensagem válida para barragens de outros rios: «custos severos naquilo que é a função de um rio» e «um impacto grave na biodiversidade», pelo qual «as actividades económicas de populações locais ficam também em risco». Só no Douro existem 57 grandes barragens e um total de 1200 barreiras que fragmentam o rio, das quais 25% estão abandonadas ou obsoletas.

Em maio de 2021, apaixonados por rios, ativistas, ONG’s e especialistas juntar-se-ão na European Rivers Summit (ERS), em Lisboa, com vista a prosseguir a sua luta pelos Rios Livres. Como refere o projeto “Rios Livres” do GEOTA – Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente, há uma urgência na preservação dos rios selvagens em Portugal e no mundo e em alertar para a importância social, ambiental e económica dos ecossistemas ribeirinhos.

F.N.


Texto e fotografias de Ricardo Inverno


Artigo publicado no JornalMapa, edição #28, Agosto|Outubro 2020.

 




Fonte: Jornalmapa.pt