Março 29, 2021
Do Jornal Mapa
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(Neo)fascismos, democracia liberal, e o devir-esperança
(Parte I)*

A arte de fazer uma ruptura com a repetição não nos é ensinada no capitaloceno. É tanta a intimidade com a escuridão à nossa volta que um pouco de luz nos parece fatal. Nós preferimos pisar o risco porque sem ar não há fogo. Isto que aqui se tece é um profundo hausto de ar que é começo e há-de alimentar desenlaces. Antes sonhar que repetir um falso futuro forjado pela mentira da civilização.

Há todos os motivos para ser pessimista, mas é ainda mais necessário abrir os olhos durante a noite, mover-se sem descanso, procurar novamente os pirilampos.
Pasolini

Escrever é uma indagação e um apelo aos aliados. Tocar as palavras como se fossem únicas seria atravessar o texto que nos une com a unidade poética que nos falta. E ficar de respiração suspensa a todo o instante. Recontar as ruínas deste tempo – o cinismo da democracia liberal, o reaparecimento do (neo)fascismo, o colapso do capitaloceno e a agonia do antropoceno… – com ternura, singularidade e reinvenção é uma prática dilacerante. O pleno usufruto desses talentos ajusta-se melhor à reconstrução do mundo. Não sendo estranho, produz-nos ainda assim estranheza que os trabalhos de resgate do amontoado das demolições do capitaloceno exiga mais racionalidade do que afecto. O afecto que subsiste serve para admitir que não nos dá nenhum prazer catar nessa civilização que morreu e ter de traduzi-la em linguagem. A crítica é gémea da náusea e, talvez por isso, temos de cercear o desejo por detrás da língua para continuar esta história. A língua nativa fica para os estilhaços de luz, para os raios de poesia, para a corrente de sentires e entenderes que nos há-de entrelaçar. Antes do esboço dessas visões (Parte III, O Devir-esperança), relâmpagos que escapam ao breu e à própria romantização frouxa e niilista do catastrofismo, escavemos no «tempo» presente para trazer à superfície a arqueologia da sua derrocada, os cacos da sua infâmia, as raízes da sua ignomínia.

Neoliberalismo, totalitarismo das almas

Paradigma da subjectividade pós-moderna, o discurso do liberalismo prometia prosperidade para todos, a paz internacional com o fim da Guerra Fria e a democracia como imagem de marca. Interminável reclame a cores das últimas décadas do século XX, essa «neo-belle époque» enfeitiçou populações em todo o mundo. O liberalismo «É bom é bom é!», diziam os berrantes Chicago Boys com a lição do «avô» Pinochet e dizia o cinzentão «bebé» Cavaco, com a sua peculiar visão do progresso de transformar a elite portuguesa num clube de empreiteiros e de fazer de cada português um trolha…

Sucessivas crises económicas e sociais no início do novo milénio demonstraram que as políticas neoliberais conduziam à degradação das condições de vida, a duros processos de sobrevivência social e a um estado de aceitação da miséria que encaminhava direitos básicos e fundamentais para a coluna do deve e haver de um departamento burocrático, quando não para o caixote do lixo da história. A militarização da nova ordem mundial desde a Guerra do Golfo (1991) e, posteriormente, o advento do neo-imperialismo legitimado através da doutrina de choque no seguimento dos atentados de 11 de Setembro de 2001, converteu em fumo negro as promessas de paz. A paz prometida, grotesca e purulenta, era afinal um «dano colateral», tão pacífica que exigia «ataques preventivos». Quanto à crise dos regimes democráticos, sequestrados pela oligarquia económica e financeira, geraram um forte repúdio das populações em vários cantos do mundo. «Que se vayan todos!», «Não nos representam!», «Somos os 99%!»… lemas que percorriam o planeta de lés a lés com ecos anticapitalistas. Mas o «1%» não se foi, e um imenso mar de impotência alastrou.

O capitalismo é em primeiro lugar uma potência subversiva de extrema eficácia: destroça toda a comunidade de interesses comuns e institui uma separação entre a classe regente (da riqueza) e a classe submetida, responsável por gerar riqueza, fractura que resulta num conflito. Uma ordem económica que ao evoluir do mercantilismo para o colonialismo e o industrialismo destruiu os antigos sistemas de vida e impôs a hegemonia de uma temporalidade absoluta. Essa quebra dos vínculos sociais pelo fetiche da mercadoria e do lucro gera processos de alienação da vida comum, promove uma hierarquização vertical dos poderes, conduz à iniquidade social e a uma hostilidade latente, sempre pronta a estalar em lutas abertas. Como se não bastasse, veio a desembocar no colapso do ecossistema planetário…

Com focos de contestação um pouco por toda a parte, o poder hegemónico da democracia representativa é ciclicamente posto em causa e a extrema-direita procura demagogicamente tirar proveito dessa desconfiança do cidadão comum.

A unificação do planeta sob o prisma distópico das metamorfoses do capitaloceno consagrou a lógica do «capitalismo senil» (Samir Amin) e, sobretudo, expôs os seus resultados: crescente desigualdade social; perda de direitos sociais e laborais, conquistados no passado por processos de luta operária e social; neo-expansionismo à custa das sociedades mais pobres e/ou não-Ocidentais; novos conflitos bélicos, espoletados pela lógica fascizante do império económico-militar; caos ecológico e esgotamento dos recursos naturais; degradação e controlo do imaginário, através do embrutecimento e infantilização da indústria cultural, educativa e mediática; apologia acrítica da tecno-ciência, indispensável quer para o aprofundamento e expansão do capitalismo improdutivo, quer para a eficiência dos dispositivos de controlo dos poderes dominantes.

Ao longo do tempo, a classe regente nunca se desprendeu da sua forma reactiva de controlo – a repressão –, mas foi evoluindo para regimes de subjectivação cada vez mais subtis e multi-diversos para elidir e iludir a conflitualidade socioeconómica. À medida que as promessas materiais da belle-époque do «comunismo do capital» (Virno) foram perdendo o seu encanto no mundo ocidental, o poder dominante foi implementando novas estratégias de sedução no modo de produção, consentâneas com a fase do capitalismo cognitivo. Inspirando-se em Marx, André Gorz previra que a força produtiva deixaria de basear-se exclusivamente na exploração do trabalho físico, mas passaria a preponderar na parte subjetiva e cognitiva do «capital» humano, no chamado trabalho improdutivo, transição que implicaria o «predomínio do indivíduo e da sua administração». Empreendida pela vanguarda empresarial neoliberal, o laboratório dessa «administração» pós-fordista reivindica uma espécie de mindfulness dos desejos e afectos dos assalariados, prática que instiga a processos de rendição destes últimos e à indissociação entre explorado e explorador. A iniciativa capitalista orquestra a seu favor as condições materiais e culturais que o materialismo dialéctico se propunha assegurar: a abolição do escândalo intolerável que é a persistência do trabalho assalariado. Chantagem agora elidida pela auto-exploração, pela superação da alienação através do consentimento integral da subjectivação mindfulness, pela diluição da conflitualidade por um eficaz hiper-aparato de estímulos à participação voluntária e à distração individual, sempre compensados pela farmacologia, e, estado de nirvana do altar flat hierarchies do pós-capitalismo, a valorização de tudo o que torna irrepetível a vida dos indivíduos, êxtase da narcisotopia.

Desde o banquete de Platão que a alegoria do desejo é a mesa comunitária onde o poder oferece o banquete que iguala as classes. O desejo é ágape. Fenomenologia potente, este «totalitarismo das almas» (Lordon) traz-nos à memória uma lúcida analogia do surrealista Georges Henein quando advertia que «da mesma maneira que os olhos se habituam à obscuridade, o espírito habitua-se à ignorância, a razão habitua-se ao progresso do fetichismo e o homem livre habitua-se às sujeições que os seus amos forjam sob o cómico termo de disciplina consensuada». Ironia da história, a condição de alienação é superada não pela luta de classes mas pela argúcia do capitalismo afectivo que induz o indivíduo a um permanente transe de rendição e de euforia trivial. Uma subjectividade de natureza industrial, robótica, fabricada e modelada, providenciada e consumida. Habitat que fabrica a relação com a produção, com a natureza, com o movimento e o fluxo dos corpos, com a alimentação, a aparência e a saúde dos corpos, com o território e o direito, com o presente e o (não)futuro. Mas faz mais, produz os modos das relações humanas até mesmo nas suas representações inconscientes e ingovernáveis: na singularidade e no modo como educamos, falamos, amamos, desejamos. Uma nova condição de assimilação cultural profetizada há quase um século por Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo, simbolizada na distopia do visionário inglês pela milagrosa pílula «soma». Caso para dizer: «Utentes da soma de todo o mundo, desmamai-vos!»

A arte do controlo da mente tornou-se uma ciência – como Huxley previra – e a parábola do Grande Inquisidor de Dostoiévski cumpriu-se. A sistemática intoxicação do ser humano pela ideologia da «Felicidade» conseguiu tornar «felizes» os indivíduos ao suprimir-lhes a liberdade. Este «totalitarismo das almas», este pós-fascismo da era do «capitalismo senil», não poderia deixar de produzir um retorno às formas explícitas do fascismo. No hiato entre a mobilização hipnótica do mantra do self-made man e o alastrar das manchas de degradação nos «retratos de Dorian Gray», na falha entre as máquinas de distracção permanente e os castelos de areia das egotopias, o insurrecto ideal do liberalismo de fabricar um indivíduo radicalmente separado da comunidade e da natureza conduziria inevitavelmente ao seu contraponto: o regresso à textualidade do fascismo como forma bárbara, clânica e patriarcal de religar o ser humano.

Luis_Pereira

Évora, 2020. Fotografia de Luis Pereira.

Neofascismos, dores da burla liberal

A ascensão da extrema-direita está intimamente ligada a este multifacetado reajuste societal e político fruto da profunda modificação do modelo social na época da globalização do capitalismo financeirizado e da crise dos sistemas políticos da democracia liberal. Não é demais lembrar que «o fascismo não é o oposto da democracia, mas a sua evolução em tempos de crise», como referia Bertolt Brecht. O trabalho foi desvalorizado e precarizado, as desigualdades aumentaram no Ocidente a limites até então desconhecidos, os serviços sociais foram privatizados ou simplesmente abolidos, a vida de sectores cada vez mais amplos da população empobreceu e a classe média juntou-se à classe desapossada passando a viver na incerteza. Pela primeira vez, há uma geração inteira que sabe que (sobre)viverá em piores condições materiais que os seus pais e que cresceu em uma sociedade onde a força hegemónica (no sentido gramsciano) da ideologia neoliberal impôs uma cultura onde as regras do mercado e a competitividade prevalecem e o individualismo triunfa. Para além do colapso social, outro factor estrutural diz respeito à profunda crise da democracia liberal. Com focos de contestação um pouco por toda a parte, o poder hegemónico da democracia representativa é ciclicamente posto em causa e a extrema-direita procura demagogicamente tirar proveito dessa desconfiança do cidadão comum.

Um elemento que também potenciou a clivagem ideológica das sociedades e assanhou as correntes conservadoras e extremistas nos últimos decénios prende-se com a orientação política da esquerda institucional progressista ter passado a privilegiar questões que se definem como culturais: a centralidade de temas como o aborto, os direitos das minorias, a imigração, o casamento homossexual e a igualdade de género, conduziram à polarização social, rompendo com traços culturais tradicionalistas e patriarcais.

Na Europa Central e Oriental, a transição repentina da economia paternal do socialismo autoritário para uma economia de mercado marcada pela falência económica e social do ultraliberalismo constituiu-se no Leste numa causa adicional do sucesso das formações políticas neofascistas, cujo nauseante substrato ideológico combina concepção etnicista da identidade, carácter irredentista, persistência do anti-semitismo e do racismo, e o recurso à violência.

Um outro factor conjuntural menos apontado que franqueou o espaço de intervenção da extrema-direita foi o retrocesso das lutas sociais e do campo contestatário. Entre o altermundismo de Seattle (1999), as caçaroladas e «las tomadas» na Argentina (2001), os motins e protestos na Grécia (2008…), a Primavera Árabe (2010), o Occupy Wall Street e o M-15 (2011), passando pelos vários movimentos anti-austeritários, que despontaram na conjuntura da crise social e financeira de 2008, sem esquecer as poderosas manifestações do Passe Livre no Brasil em 2013, o impasse foi ganhando forma e as praças foram-se esvaziando. As esperanças de uma transformação política mais radical e coerente com as lutas contestatárias de mais de uma década, alimentadas por gerações de indignados de várias latitudes, morreu simbolicamente na praia no Verão de 2015 com a claudicação do Syriza face à real politik. Para acabar de vez com as ilusões anti-sistémicas, o Podemos, representante máximo dessa metafísica da «multitude» com filiação em Hardt e Negri – o movimento-partido –, escolhe a fuga em frente. Em vez do luto e da autocrítica, forma governo com o PSOE para carpir alto e bom som que «Si, si, no podemos…».

Neste contexto histórico, a capacidade de expansão do neofascismo não se explica tanto pelo seu hábil uso da Internet e das redes sociais, mas sobretudo pelo nexo com os efeitos nefastos do capitalismo transnacional e da liberalização financeira, sobre os quais actua com mistificações, propondo falsas soluções e indicando falsos inimigos. Apesar de nuances culturais específicas, autores como Paul Hainsworth e Donatella Della Porta sustentam que a extrema-direita reúne uma série de características elementares que estão presentes no seu nebuloso coquetel político venha de onde vier o seu discurso. E os chavões vociferam ao vento: retórica de repúdio ao multiculturalismo, uma distorção que desvia a crítica à mundialização dos mercados e ao império da mercadoria; ataques políticos e de esferas eclesiásticas na Europa e nos EUA contra o perigo do Islão, variantes de um neo-discurso identitário e etnocêntrico numa espécie de fundamentalismo branco; reafirmação da pureza e da superioridade cultural da civilização ocidental, supostamente cercada pela barbárie da presença islâmica, africana ou asiática, mitificações e retóricas que eliminam a materialidade dos processos históricos de herança imperialista e neo-imperialista do movimento do capital e que condicionaram, quando não obrigaram, «as pessoas e as coisas», pluriculturas e seus estilos de vida, a saírem cada vez mais dos seus lugares como direito de sobrevivência e «direito de fuga» (Sandro Mezzadra), enquanto a nova ordem mundial seguia somando capital e poder.

As narrativas da extrema-direita ideológica são escoradas em teses holísticas e criacionistas, baseadas em mitos de origem e correlativas crenças messiânicas que têm a pretensão de explicar a condição humana, as circunstâncias políticas e sociais e a própria história da humanidade, como um desenvolvimento em direção a uma unidade de destino unívoca e universal: uma história com um sentido e uma direcção prescritas, num tabuleiro sem mobilidade social, em que cada classe tem o seu espaço de actuação predefinido, regido por normativas conservadoras, e onde apenas uma casta de eleitos tem acesso ao xeque-mate do poder e à fórmula mágica da regeneração de um povo.

O desrespeito pelos direitos humanos é outro ingrediente essencial. Deitando raízes num princípio de desigualdade, dividindo a humanidade entre seres/povos superiores e inferiores consoante factores biológicos e étnicos, atribuem ao ser/povo superior a missão inerente à sua natureza de ditar o destino dos seres/povos inferiores, pelo bem da humanidade e para o bem das vítimas. Supremacia, discriminação e xenofobia são o resultado dessa mistura ideológica encharcada de autofilia e alterfobia. Historicamente, a oposição encarniçada aos fluxos migratórios e à integração multicultural geraram efervescentes ondas de anti-semitismo, aversão aos imigrantes, às minorias culturais e a diferentes grupos religiosos. Se o ódio ganha embalo, deriva na violência sobre o «outro», no etnocídio e no genocídio.

Como se o fundamentalismo, o essencialismo, o darwinismo social e o determinismo histórico não bastassem, esses grupos alimentam a repugnância pela liberdade sexual e promovem uma visão patriarcal em virtude da qual as mulheres têm um ministério determinado em uma ordem social dominada pelos homens.

Como se o fundamentalismo, o essencialismo, o darwinismo social e o determinismo histórico não bastassem, esses grupos alimentam a repugnância pela liberdade sexual e promovem uma visão patriarcal em virtude da qual a mulher ocupa um ministério determinado e encaixado numa ordem social dominada pelos homens. A figura do pater, controlador da sexualidade feminina ao nível das relações de parentesco, transmuda-se simbolicamente na representação social do homem providencial (bom chefe de família), cuja função é impedir a descaracterização e desgoverno do «domus» – a casa dos patrícios e da acumulação material da Roma Antiga –, impedindo a corrupção dos costumes e atendo-se a uma aura de integridade e autoridade.

Trata-se da tematização da corrupção, uma reivindicação por natureza da extrema-direita, facto que tem escapado a todo o espectro da crítica. Além de ser por excelência um tema da direita segregacionista, a reprodução da crítica à corrupção pela esquerda ou pelo pensamento libertário é um logro, pois implicitamente predica a purificação e o advento dos homens-santos. Ratifica o status quo ao exigir a obediência dos políticos à lei, reforçando o sistema legal. Legitima uma classe separada, mesmerizada pelos dispositivos estatais. Mistifica a origem sistémica do autoritarismo inerente à democracia representativa. Passa ao lado da crítica sistémica à macrocefalia do poder. Um conjunto de argumentos que nos levam a questionar: no quadro da ausência da horizontalidade e descentralização dos poderes, há algum político que não seja potencialmente corrupto se a corruptabilidade é a própria usurpação do poder de decisão? A diferença entre um político corrupto e um político incorrupto é que o último nos rouba (o poder de decisão, os recursos e a autonomia) com transparência e o primeiro alivia o reinvestimento da opressão económica ao desviar a sua materialidade. Engolir a corrupção como uma reivindicação emancipatória é um conto de fadas bem contado. Histórias da carochinha com que «o discreto charme da burguesia» faz a esquerda adormecer… Se um dia esta calha de despertar e de (re)descobrir o que é a mais-valia desmaia…

Correlativo ao pater familias, outro ingrediente do legado fascista é o compromisso com aparatos políticos fortemente centralizados, hierarquizados e securitários. Quase todos esses movimentos são essencialmente militaristas, com uma inclinação séria para o chauvinismo, a intransigência e o uso gratuito de violência. O manifesto culto de um líder é outro traço evidente desta subcultura, que se verga à autoridade incontestada de figuras monocromáticas, monolíticas, monossilábicas e, acima de tudo, que monopolizam o seu território político-partidário.

Outro rudimento que se renova com destreza nas hostes do neofascismo é a paranóia. Ávida para mediar os precipícios suicidários contemporâneos, que escondem brutais processos de auto-desilusão societal, a extrema-direita apela à metafísica do medo, injectando ansiedade, carregando nos maniqueísmos, compondo fábulas conspiracionistas, receitas destinadas a explorar as angústias do cidadão comum. Este medo é o terror primitivo aos estados de fragmentação interior, à solidão e ao isolamento social, um monstro que só o liberalismo moderno podia sustentar com a inverificável promessa do indivíduo separado da Natureza e da Sociedade. O fascismo é filho dessa dor e enteado dessa burla do padrasto liberal.

Em suma, o neofascismo do novo milénio é uma resposta patológica ao progressivo deslocamento extra-estatal da soberania, ao desmantelamento do Estado Social (na Europa) e à evidente obsolescência que doravante caracteriza o mundo laboral enquanto aparato estabilizado de integração. Razões que se encontram nos antípodas dos mecanismos de integração social do fascismo histórico. Como sabemos, o fascismo clássico representou uma variante ou articulação do «socialismo do capital»: hiperestatismo, militarização do trabalho que se não distingue da sua exaltação, apoio público à procura efectiva, fordismo político. É que o modelo desenvolvido por Lord Keynes teve uma realização prática não apenas no New Deal rooseveltiano, mas também na política económica do Terceiro Reich…

Plataforma Antifascista Coimbra

Fotografia de Plataforma Antifascista Coimbra.

Chega: o politicamente correcto à procura do seu líder

Este quadro de análise do fascismo contemporâneo pretende ser mais liminar do que linear. Isso não significa que o reaparecimento da extrema-direita seja menos perigoso ou que não haja elementos de continuidade com o passado. No entanto, parece evidente que se trata de um fenómeno diferente e radicalmente novo.

Apesar do aberrante homicídio de Ihor Homenyuk no aeroporto de Lisboa, o fascismo pós-moderno é mais sinuoso do que parece e a dificuldade em analisá-lo começa quando nos limitamos a olhar para as operações da Administração Interna sem olhar para o caleidoscópio em que assentam as formas de vida modelizadas pela cultura neoliberal. Por isso, não obstante a proliferação de medidas legislativas que atentam às liberdades ou a infiltração de sectários do fascismo nas forças institucionais, o dado inquietante procede de onde deveria vir a esperança: em manifestações colectivas que evitam a representação política e se auto-descrevem como um contrapoder. Como propõe Paolo Virno, o neofascismo não exige «uma compreensão feroz do poder constituído, mas sim da eventual configuração popular de um “contra-poder”». Tenebrosos (Ucrânia e Grécia) e imprevisíveis (Itália), sem esquecer as amálgamas (Espanha e EUA) e os populismos nostálgicos (Alemanha), o aparecimento de um neo-fascismo que se configura enquanto poder popular e/ou movimento anti-sistémico causa alarme e estupefação. Não raras vezes, é desarmante.

Ucrânia, 2014. Os líderes neofascistas pregam ao vento nas assembleias populares da Maidan que a praça era a nova Espártaco, numa referência à célebre revolta de escravos na Roma Antiga. O Svoboda, partido ultra-nacionalista que constituía a organização política mais visível na insurgência Maidan, ocupou literalmente o município de Kiev como quartel de operações. Quando a população cerca a prisão exigindo a libertação da popular líder liberal, Yulia Timochenko, ex-primeira-ministra a cumprir pena por abuso de poder, os neofascistas do Sector de Direita bradam: «Ou saem todos os presos ou não sai ninguém!» Desde 2014 que os grupos de extrema-direita operam com alto grau de impunidade na sociedade ucraniana, permitindo-lhes perseguir e atacar minorias e defensores dos direitos humanos sem repercussões. Durante o conflito de Donbass, formam batalhões privados para-militares e avançam para a frente de guerra para combater rebeldes separatistas pró-russos. Além do Sector de Direita, outros grupos ultra e de militância de rua têm-se constituído, como o C-14 e o recém-criado Corpo Nacional, que reivindicou o ataque à caravana presidencial de Petro Poroshenko há um ano e que se saldou por dezanove polícias hospitalizados. Estes movimentos neofascistas mantêm uma grande infra-estrutura de clubes desportivos e campos de treinamento e fomentam marchas do ódio, como aquela que juntou 15 mil pessoas em Kiev, celebrando a figura de Stepan Bandera, fascista, colaborador nazi e co-responsável pela limpeza étnica contra polacos e judeus no período da II Guerra Mundial. Por mais retórico que o quisermos chamar, o discurso do Sector de Direita, que dispõe de um braço armado e de um movimento jovem, é claramente um desafio à ordem estabelecida: «Não somos democratas. Participamos das eleições apenas porque são um passo para a revolução (…) Queremos mudar todo o sistema.»

No centro de Madrid, o movimento Hogar Social recorre à ocupação de edifícios estatais devolutos para albergar «espanhóis» despejados pela crise social, prestam auxílio alimentar à comunidade (excluindo os estrangeiros..), dispõem de um serviço de apoio legal gratuito, esmeram-se numa estética onde é impossível reconhecer os traços identitários da cultura fascista, e a sua líder considera que a esquerda não compreendeu a luta de classes e cita Gramsci para justificar que são “socialistas e que o fundamental é estar nas ruas”. Nas ruas começou o Aurora Dourada o seu sinuoso percurso no contexto da crise social de 2008, tornando-se em 2015 na terceira força política da democracia grega. No ano passado, o partido de extrema-direita foi declarado organização criminosa pela Justiça, vários dirigentes sentenciados a pesadas penas de prisão e um dos seus membros condenado a prisão perpétua por ter assassinado à facada o rapper e ativista Pavlos Fyssas.

O movimento de extrema-direita (até há pouco tempo apartidário) que mais cresce na Europa, com mais de 20 mil militantes, é a Casa Pound. Um grupo que nasceu em 2003 com a ocupação de um prédio em Roma e que hoje conta com mais de 120 espaços em toda a Itália. Definem-se como «fascistas do terceiro milénio», a academia apelida-os de «fascistas de esquerda» e esta insólita organização de centros-sociais conseguiu ocupar um espaço esquecido pela velha política: as classes populares e marginais. Inspiram-se no poeta Ezra Pound, citam William Butler Yeats, dizem-se inconformistas, defendem posições antiglobalização, criticam o capitalismo internacional, apostam no direito à habitação…

Na Alemanha, o movimento islamofóbico e anti-imigração Pegida, criado em 2014, ponta de lança dos protestos populares contra os refugiados em várias cidades alemãs e que chegou a reunir 25 mil pessoas nas ruas só em Dresden, foi fundamental para a radicalização da AFD e para a hegemonia interna da ala ultradireitista que acabaria por conquistar o aparelho do partido que abalou a Alemanha. Sem a pavorosa adesão popular dos protestos xenófobos em toda a Alemanha, instigados pelos pós-fascistas do Pegida (grupo que entretanto se autodissolveu), não teria sido possível o cavalgar da extrema-direita e o posterior sucesso eleitoral da AFD a partir de 2016.

Nos EUA, mal-grado a permanente incitação ao ódio feita por Trump, o amálgama que se manifestou e/ou invadiu o Capitólio há meses não corresponde à massa uniforme de uma militância organicista que marca lugar por ter por detrás uma máquina partidária ou sindical pró-fascistas, muito menos representa a marca dos tradicionais putsch militares onde a extrema-direita tradicional se acoita.

Por mais diversificado que seja o retrato – meros exemplos e constatações que mereciam uma análise aprofundada noutro local… –, a má notícia é que estes fenómenos do fascismo pós-moderno generalizam-se a várias latitudes: os crimes de ódio e os ataques à integridade física provindos do extremismo de sociais-identitários ou de neoliberais autoritários têm aumentado consideravelmente. Por mais que forcemos comparações, a boa notícia é que o líder do Chega se trata de pouco mais do que um demagogo, aprendiz de feiticeiro de políticos como Durão Barroso e Paulo Portas, Passos Coelho e Sócrates, que fizeram da política «a mais ampla usança da arte do fingimento» (Gracián). Por mais que ficar de braços cruzados não seja opção política, a boa notícia é que o deputado do Chega não representa o neofascismo, muito menos a sua vertente de contra-poder. Pelo contrário, orienta-se estrategicamente com o único fito de se integrar no sistema, repetindo como um papagaio que não haverá governo de direita sem o Chega, revelando que o que importa é a arte de conquistar o terreno político da governação, não o de fazer vingar os seus (gelatinosos) «princípios».

O discurso risível e marialva, grotesco e caricatural, mais fantasista do que messiânico, é menos genuíno que puro tacticismo. Uma prédica vulgar e mal-amanhada que tem indisposto fascistas convictos, feito corar saudosistas da outra senhora e gargalhar o menos arguto dos fanqueiros da Vandoma. No seu tropel comunicativo não se vislumbra nem talento para a paranóia nem propriamente o recurso a fake-news a trouxe-mouxe, antes se divisando o aperfeiçoamento da técnica do modelo televisivo da clubitorreia adaptada à política. A mais pura pseudologia. Ao contrário do poder instalado que crê que o povo não tem direito à verdade política, o líder do Chega está convencido de que o povo tem uma verdade bestial, marialva e pimba, e que ele é o seu mais ilustre porta-voz. O sistema tem o monopólio da verdade – e principalmente a exímia astúcia de formatar a sua absolutização – enquanto o líder do Chega reivindica o direito inalienável à piada foleira e à mentira mais descarada. As fake-news são inverdades temperadas em factos ou acontecimentos reais, o líder do Chega clama pelo direito ao patetismo, sublimado na fantasia da IV República. Onde Barroso, Portas, Sócrates e, nesta arte, também Costa, sabem quando dizer a verdade e quando é mister calá-la ou mascará-la, o líder do Chega não se importa de meter os pés pelas mãos para «ver as fraldas à mulher» e «enfiar a carapuça» à sua clientela. Lembrem-se de que não é com mau gosto que se fazem lorpas. Para enganar de fininho uma nação requer-se o cálculo da tecnocracia e a subtileza da eminência parda. Arte que corresponde a uma sociedade distinta, produto de uma organização racional. Esta dispõe da máquina e do algoritmo, aqueloutro assobia as gordas do Correio da Manhã. É a diferença entre a «verdade» para-totalitária e a peta do troca-tintas.

O líder do Chega trata-se de pouco mais do que um demagogo, aprendiz de feiticeiro de políticos como Durão Barroso e Paulo Portas, Passos Coelho e Sócrates, que fizeram da política «a mais ampla usança da arte do fingimento»

Além das tipologias de balbúrdia, na fundamentação viscosa e inconsistente da sua ideologia não é possível descortinar nenhum criacionismo (in)digno desse nome. Recorre, sim, a uma indulgente valorização da sua crença católica, tão pascácia e alardemente que a célebre «religiosa portuguesa» é bem capaz de lhe arremessar ao toutiço o seu último crochet ao mesmo tempo que se benze… e o vendedor de banha da cobra que se desenmerde com as malhas caídas para tricotar o babygrow da IV República!

De convicção por excelência apenas divisamos um posicionamento político impregnado da hipocrisia da meritocracia, valor nato do neoliberalismo. Desinspiradas e embebidas na mistificação do self-made indivíduo e do individualismo, destituídas de qualquer espiritualidade e amaldiçoando qualquer projecto de emancipação colectiva, as pessoas cumprem em abandono o programa de predições disponibilizado pelas ridículas liberalidades do parque temático de virtualidades de plástico e digitais, de coisas e matérias que o capitalismo terminal lhes oferece. Em rigor, que a sociedade da transacção, clube que organiza a paixão pela posse, lhes faz crer que conquistaram por pleno direito e mérito. Mortos os deuses e sacristia às moscas, era preciso pôr o pagode a alombar já não em nome do bendito Senhor mas do paraíso terrestre. E que paraíso! Trabalha filhinho, porque não foram duzentos e cinquenta anos a penar em ultra-produção que espatifaram o ecossistema planetário. Vai suando, que não é por causa da meritocracia que a indústria dos anti-depressivos cresce mais do que a soja transgénica. Agora como é que ainda te conseguiram dar a ilusão da tua ascensão social também me escapa! Não há mérito para tanto! À beira da história da humanidade, repleta de sentido trágico ao longo de milénios – cosmogonias, politeísmos, filosofia clássica, comunismo arcaico, cantigas de escárnio e maldizer, ética da revolta… –, que guião deprimente tem esta novela de duzentos anos… Quão deprimente é esta «felicidade» legislada e publicitária… que, mal acabou de atingir o seu auge, não se aguenta ao olhar-se ao espelho do seu próprio abismo. O grito, o susto – onde o fascismo vasculha – há-de ter o nosso afecto e os nossos cuidados. O enaltecimento da meritocracia enquadra-se no focinhar da clivagem interclassista, tributária da falácia do mérito social capitalista, polarização que exige bodes expiatórios. Nada melhor do que chafurdar numa atitude discriminatória contra os ciganos – preconceito que não é do dirigente do Chega, mas transversal à sociedade portuguesa. Mais uma vez, a táctica do Chega subentende o politicamente correcto, não o discurso de contra-poder ou anti-sistémico.

Porém, o argumento mais potente que separa o Chega das correntes anti-sistémicas deve ser encontrado na condução interna do partido. A ninguém escapou a sangria que o líder encetou contra todas as facções e indivíduos conotados com a extrema-direita, saneando as ligações ao movimento Nova Ordem Social, a ex-elementos do PNR, a resíduos neonazis. Que não restem dúvidas: é o sistema que ele quer lamber, não as botas cardadas dos descamisados da rua. Não é a política o que o atrai, mas a governação. Ainda não se afiambrou ao poder e já dá razão à sábia tese de Maquiavel: a única estratégia que lhe serve de norte é a táctica como sobrevivência. O resto é paisagem. Em absoluta coerência com o tacticismo, o cordão sanitário empreendido contra as correntes ideologicamente fascistas foi desencadeado em nome do politicamente correcto. Não foi devido à pressão das forças de esquerda, nem em virtude de denúncias do sistema jurídico, muito menos infelizmente por contestação popular, que o líder purgou o aparelho de alto a baixo. Sentiu-se coagido pela media, máxima fabricadora de consensos institucionais e do purezinho do politicamente correcto.

Na Alemanha e em sentido completamente inverso, é pertinente sublinhar que a AFD se foi radicalizando desde a sua fundação em 2013, quando a sua principal bandeira era a saída da UE e o regresso a uma moeda nacional. Além disso, esse processo de incorporação do extremismo identitário foi o resultado de factores políticos externos, designadamente a franca adesão popular ao movimento islamofóbico, segregacionista e xenófobo Pegida. É no contexto deste movimento de massas, que enche as ruas de várias cidades e lugarejos da Alemanha, que a ala anti-imigração e racial-classista, capitaneada por Petry, força à dissolução da ala «conservadora liberal» da AFD, passando a atrair e englobar facções ultra e neonazis a partir de 2015. Tudo isto a despeito da contestação popular antifascista nas ruas, das críticas de toda a classe política hostil ao discurso de ódio da extrema-direita (inclusive da CDU de Merkel) e da própria desconfiança de parte da media. Mesmo depois de «ultra-institucionalizada», ao entrar de uma assentada com 94 deputados no Bundestag em 2017, tornando-se no maior partido de oposição ao actual governo alemão, a AFD mantém o seu rumo neofascista. Até que em Março de 2020, por ordem do Ministério Público, a facção neonazi conhecida como Der Flügel foi colocada sob vigilância da polícia secreta e o partido inicia finalmente um processo de suposta ostracização dos membros com ligações aos movimentos neonazis. Dado o historial macabro de infiltração de «ex» e actuais neonazis nas forças da ordem, jurídicas e policiais, houve quem não perdesse tempo a insinuar se não teria sido uma mera jogada de bastidores para dar o sinal à AFD para se blindar e, dessa forma, fortalecer a sua muralha política. Trata-se de um exemplo ilustrativo bem diferente da estratégia escolhida pelo Chega, que não só não alicerçou o seu capital político num contra-poder de expressão popular como também se livrou num ápice das vozes ideologicamente (sublinhe-se) provindas da lógica absoluta, antidemocrática e pró-fascista.

Este medo é o terror primitivo aos estados de fragmentação interior, à solidão e ao isolamento social, um monstro que só o liberalismo moderno podia sustentar com a inverificável promessa do indivíduo separado da Natureza e da Sociedade. O fascismo é filho dessa dor e enteado dessa burla do padrasto liberal.

Um trambiqueiro de trusses

Não tendo nada de subversivo mas apenas de caricatural, o deputado do Chega pretende operar o que Daniel Guérin apelidou de «milagre psicológico». O historiador que analisou em La Peste brune (1933) e em Fascisme et grand capital (1936) o fascismo e o nazismo, obras fundamentais para compreender a inextricável relação histórica entre o modelo capitalista e estes dois extremismos políticos, descreve o prodígio desse milagre: «Transmutar em entusiasmo e espírito de sacrifício o descontentamento, a miséria de amplas camadas populares.»

A varinha de condão do dirigente do Chega para «transmudar o descontentamento» é o marquetingue, não a política nem o debate ideológico. A sua visão de campo não alcança a emancipação do meio-campo muito menos a baliza do futuro, antes revira os olhos, lúbrico e nebuloso, sobre o estado terminal e mundano da terra-batida do neoliberalismo. Ora o marketing dejeccionista de um voyeur que joga na lama não se predispõe à análise política, pede antes crónica de costumes. A sua personalidade mediática revela sobretudo o descaramento não a convicção (em valores fascistas). A falta de vergonha na cara assume o seu registo apoteótico quando sucessivamente reitera a graça divina da sua missão. Quando um jornalista procura indagar quando se deu essa revelação sobrenatural, o deputado, terreno, secular, na desportiva, mata no peito e dispara esta pérola: «Foram várias vezes ao longo do tempo.» Este farsante é genuinamente cómico! Lembram-se de Tom Sawyer? Não o pirralho traquinas a correr na orla do Mississipi, mas o jovem adulto que monta o seu negócio permanecendo tão trapaceiro quanto em miúdo? Personificação da livre iniciativa empresarial, cheio de truques e manigâncias, genial às nas relações públicas. Tão trambiqueiro que foi até capaz de trair Huck, o seu mais fiel amigo de infância, esse ilustre nómada, de ética humanista e universal. Huck era tão puro que, ao descobrir a trapaça do seu velho amigo, o pior pensamento que lhe reservou foi imaginá-lo ainda de bermudas por detrás da secretária de trabalho da sua novel agência imobiliária. E é ou não nesses preparos que vimos a descobrir André Ventura? Limitemo-nos a vê-lo como um pobre tratante de trusses e guardemos inteligência e energia para combater o que realmente degrada as sociedades, destrói a vida das pessoas, degenera a cultura livre e plural, delapida o planeta e reprime o devir-esperança.

Uma parábola literária pode ser eloquente, mas aprendemos com a vida que a realidade supera sempre a literatura. Na era da colonização mediática e da instantaneotopia, como se não bastasse a imprevisibilidade da viducha, a hiper-realidade fabricada pelos media distorce radicalmente o real. Tom Sawyer não tinha mais que um bando de gaiatos para exibir as suas tropelias e as luzes da ribalta da sua aldeia extinguiam-se sempre ao lusco-fusco nas margens do Grande Rio. A aldeia global já não é o que era. Dá-lo como morto, ao artista do Chega, pode ser desmentido pelos holofotes televisivos. Embora em contra-senso aos factos, não descuremos também a hipótese de o autêntico Dr. Jekyll do fascismo ideológico voltar a sair do armário num desmentido ao Mr. Hide. Neste tipo de areias movediças, todos os «estranhos casos» são poucos… No tabuleiro do poder, também já houve um desmentido, com o PSD a formar governo nos Açores com um acordo de legislatura com o Chega. Na campanha para as eleições Presidenciais de 2021, assistimos a uma catadupa de desmentidos. Quando os candidatos respondiam a um insulto do deputado do Chega ou pretendiam defender uma ideia através de uma objecção à conduta pessoal deste, no fundo, significava que já tinham sido levados pelo feitiço do flautista de Hamelin. Tal como o príncipe de Aventuras de João sem medo, os príncipes e princesas despediram-se do candidato do Chega com umas orelhas de burro mais vistosas e impopulares.

Quanto à resposta eleitoral nas Presidenciais, terá sido o arrebitar cabelo de uma porção da população que cultiva não o fascismo mas o penduricalho da meritocracia? Ou, ainda mais provocador, terá sido o escárnio que o pouco mérito do sistema instiga mais do que convicção no ódio? Em bom rigor, estas interrogações valem o que valem. As eleições são um ritual de legitimação da separação de poderes entre dominadores e dominados. O que não é nada pouco… De um lado, o jogo viciado e sádico de quem vende promessas a torto e a direito; do outro, as apostas viciantes e masoquistas de quem se reserva ao papel de cronometrar o tempo de duração dessas promessas… Se uma boa fracção de eleitores sabe que as promessas políticas caem sempre em saco roto, qualquer bitaite que se alimente do lado B da mentira das promessas passa a ser uma mentira menos má, quiçá, com sorte, uma mentira relativa, cá entre nós, verdadezecas bem ajambradas com cheirinho a novelty. É que, à sombra de uma Grande Promessa – a democracia (ver Parte II, Crítica da Democracia Liberal) –, quem tem uma mentireca relativa há-de sempre chegar a bobo da corte! De que nos vale denunciar um resultado eleitoral, se são as próprias eleições que são um escândalo? A resposta da população ao fenómeno do Chega não é aferida nas urnas. Nesse capítulo, o único elemento relevante foi a coesa organização das comunidades ciganas em vários pontos do país, manifestando o seu repúdio à sanha racista do candidato do Chega.

Mais hilariante foi a reacção pós-eleitoral! O Livre esfalfa-se nos jornais a escrever a estratégia interna do… PSD! O Bloco, coerente com os seus habituais dotes de sedução, também na imprensa, espeta um beijo rosa pálido no PS para ficar amarradinho ao cordãozinho sanitário do «xoxo»-ialismo. Declaram ambos, por diferentes caminhos e palavras, «que a política não pode ser apenas a arte do possível». (Pasme-se!). E que (alto!), «sabem disso»! Assim como assim, quer-nos fazer crer que a única arte que aqui se dá por constância é a arte de não enxergar as (auto)evidências das suas próprias contradições. «Negacionismos». É que, temos visto, nesse tipo de arte não há impossíveis… Acaso, pergunto eu, realista… – caro leitor, há contradições surreais a que nos temos que sujeitar!: quem acredita na política como arte para lá do possível, aplica-se a reformar os possíveizinhos do vizinho através dos jornais? E que vizinhos! Realisticamente, que espécie de entrismo é esse? É que, cruzes canhoto, bater a essas portas é por excelência a arte da circunstância…

Quando os candidatos respondiam a um insulto do deputado do Chega ou pretendiam defender uma ideia através de uma objecção à conduta pessoal deste, no fundo, significava que já tinham sido levados pelo feitiço do flautista de Hamelin.

Nas redes sociais, um povo «egrégio» descobre da noite para o dia que tem à perna meio milhão de racistas, machistas e fascistas… Ah, «valente Nação»! É a maior vitória da cultura do ódio. É o reverso distorcido do que já era uma distorção. É a reprodução do «ou eu ou tu!». Não há dúvida, o eleitor de esquerda, liberal e antifascista, mordeu o isco. Neste charco, o líder do Chega provou ser tão hábil como Tom Sawyer: faz caldeiradas com pesca à linha! É precisamente essa a intenção demagógica de líderes como o do Chega, com a conivência monetarizada da media e a complacência do centrão político: provocar uma polarização que gera um falso regime de atenção que desvia o olhar, o entendimento e a acção das causas reais da iniquidade do poder, da desigualdade económica, do sentimento de injustiça e de impotência das populações, da dissipação dos recursos energéticos, da crença numa vida materialista e hiperconsumista, enfim, do colapso da civilização liberal do capitaloceno.

Além de comidos de cebolada, essa interpretação linear e simplista parece entender que a sociologia do racismo, do machismo e do microfascismo são como que produtos em série saídos num passe de mágica de uma linha de montagem, expostos e indiferenciados na montra da «loja dos chineses». Meio milhão de bibelôs para fazer tiro ao alvo! Embora a sociologia das massas nos indique que a cultura dominante tem a pretensão de produzir «homens unidimensionais», convém desconstruir a fantasia dessa espécie de redução humana à olaria industrial. No campo de forças sociais, o indivíduo está exposto a processos de condicionamento que buscam normalizar e ajustar as suas concepções e comportamentos, porém resultam estes da articulação social e multiforme com sistemas hierárquicos, sistemas de valores e sistemas de submissão dissimulados e não-visíveis. E estamos no terreno da poderosa máquina de subjectivação capitalista do que deve ser a vida humana e a ecologia social. Em todo o caso, sistemas esses que não são «internalizados» pelos indivíduos como quem enche a sua página de facebook com chouriços e embutidos para todos os sabores – veganíssimos, antifascistíssimos e liberalérrimos –, mas sempre com a marca maniqueísta do salivar pavloviano que projecta fantasmagorias, simplificações, cretinices.

Finalmente, há uma ironia sublime que parece ter escapado a toda a gente. Não conhecemos nós de algum lado estes eleitores, que se apressam a cair na esparrela da bipolarização do ódio, chamando de racistas, machistas e fascistas a meio milhão de votantes? Não são eles os mesmos eleitores que se atiçam contra qualquer posição crítica ao sistema parlamentar e eleitoral? Não são eles os mesmos que desprezam os abstencionistas e arrenegam os que questionam a democracia liberal? São ou não são os mesmos? É que sem repararem na bi-polaridade da sua reacção, revelam afinal todo o desdém que têm e toda a descrença que sentem por um sistema político que reduz o ser humano ao estado de impotência, à condição de insoberanidade, à estética reaccionária e, pelo andar da carruagem, ao carácter de imbecilidade…

Twitter André Ventura

Fotografia retirada do Twitter de André Ventura.

A esperança é a última a morrer?

Pedro Levi Bismark, num excelente artigo («A lógica política do capital»), já tinha traçado a nova geometria descritiva da cultura política neoliberal em Portugal: «Onde está um Mayan haverá sempre um Ventura.» Falta complementar a bissectriz com a volumetria da realpolitik. Onde está o coveiro do Chega a saltitar nos torrões do cemitério liberal, regateando o preço de cada campa com os estropiados, oculta-se o sinistro sorriso de Barroso, essa figura que carregou a gadanha transnacional da guerra e que em offshore abriu a vala comum para que milhares de cadáveres sucumbissem à mentira do lucro e da democracia…

Haverá melhor prova de cinismo e de formatação da era neoliberal? Chamar de fascista a um fedelho que nos arranca gargalhadas – e que merece o escárnio daquele esqueleto teatral em Beja (e não era um esqueleto, era um esqueleto a rir!) –, deixa-nos o quê para chamar aos ex-governantes Durão Barroso e Paulo Portas, que num dado momento das suas vidas disseram sim à mais letal empresa de morte, ódio e sofrimento do novo milénio? No mais distinto clássico literário da contra-cultura portuguesa, Alberto Pimenta havia traçado ao detalhe as diferenças entre o «Grande e o Pequeno Filho-da-Puta». Em ruído de fundo escutamos: vão os filhos do neoliberalismo precisar do fascismo explícito (ou do eco-fascismo), num momento histórico em que já se não distinguem um do outro? De acordo com os argumentos que expusemos, não temos a certeza se se trata de uma questão ou se estamos perante uma verdade de La Palice

Além das referidas conclusões de Daniel Guérin, também Theodor Adorno nos adverte a não perder o foco. Em Estudos sobre a personalidade autoritária (1950) conclui que de modo recorrente se relativiza a responsabilidade histórica da classe política dominante ao mesmo tempo que tendemos a ver apenas os partidos de extrema-direita (e seus eleitores) como abertamente perigosos: fascistas, sexistas, xenófobos. Adorno sustenta que esta distorção é alimentada pelos chamados partidos democráticos para desviar a atenção das ameaças que eles próprios representam à liberdade e à possibilidade de a vida humana ser digna desse nome.

A propósito deste aspecto da subjectivização da democracia liberal, tem-se por pertinente recordar que não é por acaso que a indústria da publicidade (à qual devemos acrescentar a do entretenimento e da media) representa a segunda maior despesa em investimento do mundo de hoje, atrás apenas da indústria do armamento. O controlo diário que essa indústria invasiva exerce sobre a imaginação dos indivíduos contemporâneos é obviamente muito mais poderoso do que o das religiões antigas ou da velha propaganda totalitária. O leitor poderá articular em que se distinguem essas indústrias e que propósitos as devem unir para que ambas compitam ombro a ombro no pódio do investimento do capital…

No caixão da pele de Estrabão, a sociedade estrebucha que há um deputado fascista. Cai o Carmo e a Trindade! Será? Mas, por acaso, foram deputados e deputadas rotulados de fascistas que, ao longo das últimas décadas, têm prejudicado a população? Que aprovaram leis economicamente iníquas e socialmente injustas? Que tomaram decisões que ferem a dignidade humana? Afinal, quem aprovou as alterações às leis laborais, aprovadas no período de assistência financeira a Portugal entre 2011/2014? Mais descarado, afinal que Governo e que deputados mantêm até hoje intactas essas leis, aprovadas no período da troika pelo governo PSD/PP? Terão sido políticos com discurso fascizante a congelar pensões, incluindo beneficiários de pensões mínimas, a aumentar exponencialmente o IVA sobre o gás e a electricidade, ou a promover o sucessivo aumento excepcional dos Transportes Públicos? Também não consta que a sucessiva privatização do Serviço Nacional de Saúde tenha sido levada a cabo por deputados fascistas. Foi a liberalização da lei do arrendamento aprovada pelo PSD/CDS no governo anterior – a chamada Lei Cristas -, incentivo à especulação imobiliária e à turistificação das grandes cidades, resultado de um lobby ultra? E a surreal extorsão de riqueza pública, por todos gerada, que serviu para pagar os prejuízos causados pela oligarquia financeira e especuladora, nos casos diversificados do BPN, Banif, Novo Banco e BES? As políticas e decisões que protegeram os altos interesses financeiros e prejudicaram o cidadão comum foram por acaso deliberadas pelo Chega? Foi ou não Cavaco Silva com o apoio do PS que fez a revisão constitucional para introduzir a palavra “tendencialmente” quando se falava em gratuitidade do Sistema Nacional de Saúde? E em que se distingue Cavaco Silva do presidente da Polónia, ao ter vetado a adopção por casais homossexuais e as alterações à lei da Interrupção Voluntária da Gravidez enquanto Presidente da República? Em «Chora que logo bebes», o olhar «português suave» consegue sempre o prodígio de pôr a classe dominante a salvo no Rossio e de espetar com o Chega na rua da Betesga!

Na mesma linha de raciocínio, passando a fronteira, a lei de imigração e a «lei da mordaça» em Espanha, que já pôs atrás das grades por delito de opinião 128 pessoas, foram aprovadas por Franco? Desde Novembro de 2015 até aos dias de hoje, a França esteve submetida ao estado de sítio e supressão dos direitos fundamentais mais tempo do que em toda a sua história moderna em período de paz. Sem descurar a gravidade dos atentados terroristas (ou da recente sindemia), terá sido a Frente Nacional a instaurar semelhante atentado à democracia para daí obter intoleráveis dividendos políticos? Foi com Le Pen ou sob o comando de Macron, que mais de duas mil pessoas (números do Ministério do Interior) foram gravemente feridas por exercerem o direito a manifestar-se? Foi ou não com o ex-líbris político do pós-neo-liberalismo europeu, que mais de noventa ficaram irreversivelmente incapacitadas, vinte e duas perderam o olho e duas faleceram em resultado da repressão policial do governo de Macron aos Gillets Jaunes?

Quem administra o sistema depois da Revolução dos Cravos pode ter interesse em centrar o debate na criação de um cordão sanitário antifascista… Por um lado, está bem de ver, o problema está para lá do que uma drogaria de esquina possa resolver… Por outro, é muito simples, quem fica dentro desse cordão não é a solução mas parte do problema… Finalmente, a expressão causa arrepios. Encerra nela própria uma estética fascista… Enquanto isso, somos relegados à circunstância de meros espectadores. Em Fascisme et grand capital, Guérin já havia desmontado a (outra) distorção do sistema democrático, a ilusão do frentismo antifa: «O antifascismo é ilusório e frágil, sempre que se limita à defensiva e não tem como objetivo derrubar o próprio capitalismo.» Vituperemos a serpente se não queremos ver o ovo renascer…

O antifascismo é ilusório e frágil, sempre que se limita à defensiva e não tem como objetivo derrubar o próprio capitalismo

Morangos silvestres

A longa degenerescência e o brutal afundamento das experiências autoritárias do socialismo de Estado depois da queda do Muro de Berlim (1989), bem como o enfraquecimento das lutas sociais e dos movimentos de emancipação, permitiram que se instalasse uma visão consensual trazida pela lógica da democracia liberal e da sua captura pela oligarquia económica. De acordo com essa visão política e ética da sociedade, que nos inculca um regime cómodo e único de interpretação dos signos da história e que nos domestica a ponto de considerarmos apenas respostas adaptativas que reformem a situação, não nos resta mais do que sancionar o realismo discursivo e político da esquerda à direita. Os realistas não ambicionam mudar a realidade. Querem manejá-la a seu bel-prazer. Ajustá-la às flutuações do sistema. A fantasia dos realistas é o suplício de Tântalo de confundirem acção política com o Diário da República enquanto, com ou sem decreto, o capital soma e segue. E com juros…

Estamos cercados por um dilema que exige que nos situemos perante duas vontades de liquidação da sociedade: a liquidação que atem às exigências da ilimitação capitalista e aquela que se cinge à limitação simbiótica do poder político à democracia liberal parlamentar, em si mesma neutralizada pelo meta-poder da oligarquia económica. Enfim, como nos situamos face a duas visões societais que conduzem a uma «verdade»: governar sem povo. (Parte II, Crítica à Democracia Liberal, próxima edição do Mapa).

Desse dilema maior, advém a expressão popular de um contra-poder como possibilidade. A reacção social de todos os clérigos do poder profissional foca-se a partir daqui a salmodear como «populista» qualquer vontade espontânea de contra-poder popular. Sob esse anátema, o poder pretende agrupar todas as formas de secessão anti-sistémicas contra o poder e o consenso dominante, advenham eles da afirmação de fluxos de potência da democracia (autogoverno) e anti-capitalistas, ou procedam de fanatismos sexistas, étnicos, xenófobos, religiosos ou, em voga, conspiracionistas.

Populismo é o termo cómodo sobre o qual se dissimula a contradição exacerbada entre legitimidade política (popular) e legitimidade do poder enquanto classe separada de profissionais da política. Essa reacção do poder instalado mascara o sonho molhado da oligarquia e de todos os democratas liberais sem excepção: governar sem povo. Se extensas camadas da população já entenderam isso, falta compreender algo mais. É que há outro sonho, esconso e oculto, da tecnocracia governativa: governar sem política. Essa nebulosa tão insondável à compreensão humana e à decisão política soberana como um buraco-negro, materializada em fantasmagorias como Comissão Europeia, NATO, FMI, Banco Mundial, OMC, OIT, OMS, UNICEF… Governar sem povo como estratégia e sem política como táctica é a melhor forma de instaurar uma verdadeira absolutização das formas políticas de organização da vida e do mundo e de instalar a tal falsa polarização: ou nós, soberanos democratas liberais, ou a ditadura… Governar sem povo, governar sem política, destilar medo, vender desesperança, regalar-nos uma imensa solidão.

Voltemos a ver-nos como seres humanos cujos corpos e saberes e paixões se conectam em séries infinitas para viver, cuidar, aprender, amar, construir e transformar.

O nosso bairro, a nossa cidade, o nosso país, é afinal o mundo inteiro. Se ainda fosse preciso entender essa unificação da percepção humana sobre a necessidade de um existir mais justo e mais livre, mais simples e mais belo, mais junto e sentido, mais profundo e harmónico com a natureza, percepção que estala em revolta do Chile a Hong Kong, do Cairo a Paris, um imprevisível (mas não improvável) vírus deu uma real visibilidade da escala do nosso bairro. Sob este tempo que vivemos, sob a civilização que criámos, sabemos agora que todas as ruas são um deserto. A cidade talvez fosse já uma ruína antes, mas agora é uma ruína silenciosa. Saímos à rua e a morte, também ela silenciosa e desgovernada, vem a cavalo, galgando o passeio e tragando a memória dos nossos «morangos silvestres»…

É aqui que a nossa incompreensão tropeça de espanto naquela velha expressão: «a esperança é a última a morrer.» Como assim? Antes demais nós não fomos ao nascer um ser «sem povo», nós não fomos um ser «sem política». Desde a primeira golfada de ar, não éramos um ser independente da Sociedade e da Natureza, porque somos os laços sociais de quem de nós cuida, somos nutridos pela Natureza de acordo com as condições económicas em que estamos inseridos, somos a cultura em que nos transformamos, somos devir e utopia, somos também a nossa ancestralidade, e ainda a teia singular e mística da existência e da coexistência, guardada no desconhecido e no indeterminado. É a partir desta matrix social e cosmológica – e graças a ela – que podemos fazer um percurso de singularização. A esperança não é a última a morrer, é um dom desde o primeiro sopro de vida. Dom esse que tem uma memória histórica que nos fez e ensina, que nos comove e inspira. Que nos ajuda ao querer e à imaginação (Parte III, O Devir-esperança), que antes de mais bloqueia e implode a repetição de procedimentos de dominação que se foram naturalizando no contexto do capitalismo cultural.

La Boétie recorda o quanto o hábito da servidão faz perder de vista a própria condição de servidão. O ser humano não olvida a sua infelicidade nem ignora a sua insatisfação, mas suporta esse infortúnio como um dado adquirido, como destino e fatalidade. Carrega às costas séculos de produção de meta-narrativas que o obrigam a submeter-se a valores inverificáveis e o vergam a tomar como adquirido que nada há a fazer senão naturalizar a divisão entre dominadores e dominados, entre amos e escudeiros. Já não é apenas tornar-se insensível à degradação das relações humanas e perder toda a perspectiva de autonomia pessoal e colectiva, mas a pura rendição da consciência.

Abandonemos a referência desse sujeito independente e místico do liberalismo, cuja única forma de sociabilidade se reduz à mercadoria e seu intercâmbio. Voltemos a ver-nos como seres humanos cujos corpos e saberes e paixões se conectam em séries infinitas para viver, cuidar, aprender, amar, construir e transformar. Este fragmento de estilhaços e luzes tem a pretensão de não ser apenas uma crítica à discursificação da política. É um gesto político que se move sem descanso porque visa buscar aliados. Nós somos pessimistas porque nunca nos faltou a esperança, tão pessimistas que viemos para quebrar o impasse. Lá onde o tempo está suspenso, nós desenlaçamos a acção insondável. Lá onde dissolveram a política, nós buscamos a paixão. Nós abrimos os olhos durante a noite.

Referências bibliográficas:

Deseo (y) libertad, Monserrat Galcerán, Traficantes de Sueños, Madrid, 2009.

Fascisme et grand capital, Daniel Guérin, Libertalia, Montreuil, 2014.

Virtuosismo y revolución, La acción política en la era del desencanto, Paolo Virno, Traficantes de Sueños, Madrid, 2003.

Capitalisme, désir et servitude, Marx et Spinoza, Frédéric Lordon, La Fabrique, Paris, 2010.

Para una consciencia sacrílega, Georges Henein, Etcetera, Barcelona, 1999.

Ilustração [em destaque] de Käthe Kollwitz


Versão completa de um artigo publicado no Jornal MAPA, edição #30, Março | Maio 2021.




Fonte: Jornalmapa.pt