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Completam-se 57 anos do golpe militar de 1964, que colocou o país em uma longa noite de 21 anos, com reflexos nefastos em todos os setores da sociedade. Mas a transição democrática negociada e pactuada pelos próprios militares não os tirou da cena política, nem das estruturas do Estado. O reflexo disso fica evidente no governo Bolsonaro, onde as Forças Armadas ganharam grande espaço nos ministérios, com militares da ativa. A maior tragédia aconteceu na Saúde, sob o general Pazuello, que contribuiu para a morte de mais de 310 mil pessoas até aqui, levando em conta apenas os números oficiais, um verdadeiro genocídio de nosso povo.
A Ditadura Militar, apoiada pelo imperialismo e pelos setores mais reacionários das classes dominantes, formou Bolsonaro e os atuais generais que compartilham o governo e seu projeto genocida, que ignora as recomendações sanitárias para lidar com a pandemia, avança com a agenda neoliberal de corte nos serviços públicos e privatizações, e ataca os movimentos populares. O fim da ditadura manteve intocadas as Forças Armadas, o que permitiu que Bolsonaro fosse absolvido de um atentado terrorista, e assim entrasse no parlamento como representante dos militares. O golpismo da caserna contribuiu para o golpe de 2016, permitiu a entrada nos quartéis do então deputado Bolsonaro para fazer campanha, e assim abriu caminho para que ele chegasse à presidência, com sustentação política de seus contemporâneos nas Forças Armadas, que viram nele a oportunidade de terem mais poder, sob a ideia autoproclamada de tutelar os outros poderes. Amplos setores das classes dominantes apoiaram a iniciativa, com a garantia de todos ganharem, enquanto os de baixo são massacrados de diversas formas.
Importante lembrar o espaço dado aos militares pelos governos anteriores da Nova República, principalmente os governos do PT, por exemplo nas missões de “paz” no Haiti e na República Democrática do Congo, que massacraram os povos desses países, e formaram o Exército brasileiro para voltar a oprimir o próprio povo, por meio das operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), além da absurda intervenção militar na segurança do Rio de Janeiro, que não evitou o assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, muito menos chegou aos mandantes do crime. Sem contar o espaço dado aos militares no ciclo dos megaeventos, como Copa do Mundo e Olimpíadas, que incrementou o aparato repressivo e permitiu que generais se esbaldassem na corrupção, com a garantia da impunidade.
A falência da democracia burguesa alçou Bolsonaro e os militares ao poder, e tem resgatado o discurso golpista e um revisionismo sobre a desgraça da Ditadura Militar, que perseguiu, prendeu, torturou e matou, inclusive mulheres grávidas e crianças. Quartéis celebram o Golpe de 64, agora com autorização da Justiça, que em várias decisões reabilita o regime militar, desrespeitando a memória das vítimas, muitas delas mortas nos porões da ditadura.
Diante da conjuntura turbulenta dos últimos dias, segue sendo um erro a análise de um setor da esquerda que divide os militares em uma “ala golpista” e uma “ala legalista”. Não existe general legalista se ele está ocupando espaços de comando civil, ainda mais na ativa. Trata-se de uma disputa de poder para gerir os mecanismos de Estado, e o que foi mostrado até aqui é que os militares seguem entendendo serem responsáveis por tutelar a democracia brasileira, custe o que custar. Se vemos generais no poder resistindo a um maior avanço de Bolsonaro sobre a democracia, trata-se apenas de uma divergência sobre a melhor maneira de seguir oprimindo o nosso povo, e de limitar o ambiente democrático. Não dá para se descartar qualquer aventura, e é preciso estarmos atentos aos movimentos.
Todo esse cenário provocou algumas mudanças nos últimos anos, com parcelas cada vez maiores da população pedindo intervenção militar, o que revelou todos os problemas da transição lenta e gradual da ditadura para a democracia burguesa. O movimento acabou se enfraquecendo a partir da própria ação de grupos organizados de esquerda, que foram às ruas confrontar e acuar a extrema-direita, mostrando a importância da ação direta e a independência de classe para mudar a correlação de forças.
A experiência recente tem mostrado que a força popular das classes oprimidas tem condições de combater o avanço fascista e pode empurrar os militares de volta aos quartéis, de onde nunca deveriam ter saído. Mais do que qualquer poder institucional, é a combatividade do povo em luta, com democracia direta, que poderá mudar essa situação de ameaças às liberdades coletivas e aos ataques a nossos direitos. Desde os movimentos em que estamos inseridos, nós militantes das organizações que compõem a CAB seguimos atuando na construção do Poder Popular, contra o golpismo dos militares, os ataques do Estado e do Capital, e contra todo tipo de opressão!

FORA MILITARES, DA POLÍTICA E DAS RUAS!NÃO ESQUECER, JAMAIS PERDOAR!DITADURA NUNCA MAIS! PELA DEMOCRACIA DIRETA!

Coordenação Anarquista Brasileira | 31 de Março de 2021




Fonte: Cabanarquista.org