Julho 25, 2022
Do Passa Palavra
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Por Marcelo Tavares de Santana [1]

Procurei uma imagem térmica via infravermelho que demonstrasse como essa tecnologia pode expor e violar a intimidade de um casal durante o ato sexual mas descobri esse tipo de ilustração num banco de imagens pago. Felizmente, a agência espacial dos Estados Unidos da América nos disponibilizou uma imagem mais bela e que também demonstra a capacidade das tecnologias de captação de luz infravermelha. A Figura 1[2] mostra uma das primeiras fotos do novo telescópio espacial James Webb com uma qualidade jamais vista graças às novas tecnologias de captação de luzes infravermelhas associadas aos algoritmos computacionais de interpretação dessas luzes.

Figura 1: imagem do telescópio espacial James Webb. Créditos: NASA, ESA, CSA e STScI

O importante aqui é perceber que equipamentos de captura de informação não fazem sempre um registro direto da informação, mas utilizam outras medições que serão analisadas e interpretadas por software antes do registro final. É como se utilizássemos uma lente grande angular para tirar uma foto e um algoritmo funcionasse com um filtro para a imagem não ficar muito curvada nas pontas.

Foi refletindo sobre as possibilidades de uso do infravermelho que comecei a pensar em cercamento de privacidade por volta de 2010. Se pessoas dentro de suas casas com privacidade e intimidade protegidas por Lei emitissem luz infravermelha que saísse dos limites físicos de suas propriedades, e essa luz fosse captada num local público como calçadas ou ruas, se algoritmos interpretassem essa luz e reproduzissem a posição e movimentos de seus corpos, essa visualização seria uma violação de privacidade considerado que a informação foi captada numa via pública? Para quem está acostumado em pensar em representações de informação a resposta é simples: se a informação representa pessoas dentro de suas casas protegidas pela Lei num registro não autorizado, viola sim o direito de privacidade. Mas aqueles que costumam pensar em representações de informação não estão na área do Direito, normalmente estão na Filosofia ou na Matemática, tanto que encontrei imagens infravermelhas de ato sexual em sites pagos; pergunto-me se os amantes venderam a imagem ou nem sabiam que suas imagens foram capturadas em infravermelho.

A situação é cada vez mais preocupante quando lemos que recentemente uma estadunidense que trabalhava em home office descobriu que a empresa utiliza a câmera do microcomputador para vigiar sem autorização a funcionária, e com a descoberta a demitiu por ter colocado numa rede social que seu computador foi travado pelo software da empresa dentro de sua própria casa. Ainda é um caso em milhões e temos meios de denunciar publicamente e em massa essas ocorrências tal como foi feito pela estadunidense, mas precisamos cada vez mais melhorar nossas práticas e selecionar melhor os programas que instalamos em nossos equipamentos.

Aproveitando, farei em primeira mão uma conceituação da ideia do título desse artigo. Cercamento de Privacidade é o conjunto de ações que, direta ou indiretamente, capturam informações e registram dados que representam a privacidade ou a intimidade de pessoas, independente de autorização prévia. Quem sabe algum dia esse conceito estará nos meios acadêmicos, se já não está.

No artigo Mapa de Segurança Digital (4)[3] foi abordado como mitigar o uso que as empresas fazem do processamento de nossos equipamentos, que também reduz o compartilhamento de dados entre elas, mas num computador de mesa. Faz alguns meses que tenho usado um esquema no smartphone que considero interessante, mitigando um possível (pra mim factual) cercamento de privacidade do nosso dia a dia nesse tipo de equipamento. Segue o compartilhamento dessa prática.

Será necessário instalar no smartphone somente os navegadores Firefox e Firefox Focus, portanto, desinstalar qualquer outro navegador. O Firefox Focus deverá ser colocado como navegador Web padrão, essa versão é focada privacidade e evita programas rastreadores mas também pode impedir a visualização da informação desejada quando essa é propositalmente vinculada aos rastreadores. Façam a seguinte configuração no Firefox Focus:

  • em Geral, definir como navegador padrão caso não esteja assim;
  • em Privacidade e segurança:
    • façam o bloqueio de todos os tipos de rastreadores em Proteção aprimorada contra rastreamento;
    • em Cookies e dados de sites bloqueiem os cookies entre sites;
    • deixem a Furtividade ativada;
    • em Segurança bloqueiem sites potencialmente perigosos e usem somente o modo HTTPS;
  • em Pesquisa deixem o DuckDuckGo como mecanismo de pesquisa.

Não recomendei o bloqueio de fontes e código Javascript porque o Firefox Focus por padrão apaga todo conteúdo armazenado em cache assim que fecha o aplicativo; e também porque não precisamos fazer um uso paranoico do smartphone. No Firefox tradicional deixe ativado Limpar dados de navegação ao sair e faça suas configurações de privacidade. Particularmente, deixei as configurações menos restritivas e deixo o Google como mecanismo de busca apesar de ser importante “desgooglenizar” a vida, desse modo uso o buscador quando quero, não quando a empresa quer, pois o navegador padrão será o Firefox Focus.

Com essas configurações todo site é aberto no Firefox Focus e se a informação que desejamos acessar não aparecer, provavelmente por depender de algum rastreador, deveremos tomar uma decisão: se abolimos o conteúdo de nossas vidas e vamos fazer outras coisas; se vamos abrir no Firefox tradicional no smartphone; ou se vamos deixar para abrir num computador usando um contêiner no Firefox para Desktop? Normalmente, vou na primeira opção. Se optar pela segunda, vá no menu de pontinho do Firefox Focus e escolha a opção Abrir no… e depois o Firefox tradicional.

O esquema apresentado vai manter o smartphone sem dados ou cookies que podem ser usamos na análise que fazem de nosso comportamento, assim como também vai evitar uso desses dados num eventual furto. Sugiro que usem essa prática pelo menos um mês, apesar de considerar de fácil adaptação; e fechem os navegadores com frequência no smartphone, faço praticamente a cada uso. Eventualmente, teremos outros artigos que podem nos ajudar a ter mais consciência do que fazem com informações de nossas vidas e como mitigar esses usos, assim como espero que esse os tenha ajudado.

Notas

[1] Professor do Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo.

[2] Fonte: https://www.nasa.gov/webbfirstimages

[3] https://passapalavra.info/2021/11/140924/




Fonte: Passapalavra.info