Fevereiro 24, 2022
Do Jornal Mapa
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A redução das viagens aéreas desde o início da pandemia de Covid-19 travou temporariamente a vontade da multinacional Vinci e do governo português de procederem com o projeto faraónico da expansão do aeroporto de Lisboa.

Se as elites políticas e económicas anseiam regressar ao crescimento do tráfego aéreo, do turismo e da destruição ecológica, multiplicam-se os apelos e os espaços por uma mudança radical e fascinante na forma como nos deslocamos pelo planeta.

“Viajar com os pés na Terra está a tornar-se uma obrigação moral para aqueles que estão conscientes do que está a acontecer com o clima, ecologia, cultura, tecido social, economia, política”. Com a sua partilha na sessão “Mobilidade justa – Viajar com os Pés na Terra” organizada pela campanha ATERRA no Umundu Lx 2021 – Festival coletivo para a transformação sustentável, o académico e ativista mexicano Miguel Valencia propõe-nos refletir sobre como chegámos até aqui – e repensar o lugar que o transporte motorizado, e o avião em particular, ocupam no mundo.

Durante centenas de milhares de anos, os seres humanos têm viajado com os pés na Terra. Na Idade da Pedra, os caçadores-coletores nómadas viajavam pelo mundo com os pés na Terra até há cerca de 5 mil anos, quando alguns grupos de seres humanos começaram a usar o cavalo, e aparece a figura do guerreiro. Com o uso do cavalo, grupos crescentes de seres humanos alcançaram uma maior velocidade na sua mobilidade e nas suas viagens. A velocidade do cavalo provou ser de grande utilidade na guerra.

O cavalo facilitou conquistas, a criação de estados e impérios e levou ao aparecimento de reis e sacerdotes que começaram a criar castas e hierarquias e a viajar sem os pés na Terra. Desde então, a velocidade tornou-se a face oculta do poder e da riqueza. Os poderosos do mundo começam a viajar mais rápido do que os outros. Até às guerras napoleónicas, a maior velocidade que uma pessoa podia alcançar era a de um cavalo a galope 1.

Praticamente toda a população humana tem viajado com os pés na Terra, a uma velocidade de 3 km/h, até a algumas décadas atrás, como nómadas ou migrantes em direção a outros lugares e continentes, ou em peregrinações para visitar santuários, ou para fazer comércio nas terras distantes da Rota da Seda. Nas Américas, os impérios Inca e Asteca conseguiram, sem cavalos, estabelecer o sistema de correio mais rápido do mundo antes da ferrovia, à velocidade prodigiosa de 100 km por dia, por meio de estafetas 2.

Há mais de 200 anos coincidiram na Inglaterra as circunstâncias necessárias para o nascimento da revolução industrial e, simultaneamente, a revolução dos transportes que desde então iniciaram o seu reinado. Por volta de 1840, os primeiros comboios em França mal conseguiram igualar os três dias de viagem de que necessitavam as diligências entre Paris e Lyon, mas apenas 20 anos mais tarde, em 1860, Napoleão III pôde gabar-se de ter atingido a velocidade de 100 km/h na rota Paris-Marselha 3.

Com o nascimento da indústria e dos transportes, surgem na Europa Ocidental a ideia moderna de economia e a preocupação da maioria dos seus habitantes de encontrar em qualquer negócio ou atividade o método absolutamente mais eficiente para os realizar. A tecnologia começa a criar as próteses que servem para aumentar a velocidade, dar poder e dinheiro a quem as pode pagar, e desta forma fazer crescer a indústria e os mercados.

A velocidade torna-se central nos países colonialistas, à custa da desnaturalização do tempo e dos territórios daqueles que sofrem com ela. Os lugares tornam-se abstratos, tornam-se espaços, e as viagens tornam-se deslocamentos sem ver a paisagem. Os fluxos de pessoas são vistos como se fossem líquidos: começa o Mundo Líquido de que fala Bauman.

Como consequência do crescimento do transporte motorizado, os tempos tradicionais também se deslocalizaram: não há mais estações, idades, períodos, horários de refeição, horas de dormir, dias de descanso. Vivemos fora do tempo e fora do solo.

Protesto contra o projeto de novo Aeroporto Internacional do México, junto ao lago Texcoco, durante os dias de ação global contra a aviação da rede Stay Grounded, em outubro de 2018.

Antes do final do século XIX, a bicicleta surgiu como um produto maravilhoso do engenho e da mecânica populares, e o carro como produto do progresso técnico da indústria, a fim de dominar a mobilidade no território e, se possível, reduzir ao mínimo outras formas de mobilidade.

O imaginário social dos países europeus e dos Estados Unidos começa a ser colonizado por sonhos ou pesadelos de transportes cada vez mais rápidos e de territórios e ares invadidos por vários tipos de transportes que poderiam dar superioridade militar às potências, ou servir para revolucionar a existência dos seus habitantes através de viagens diárias para lugares distantes, por trabalho ou comércio.

No início do século XX, um sonho antigo (Daedalus e Icarus) começou a tornar-se possível: voar com um certo grau de segurança para lugares além do horizonte, e assim alcançar ainda mais velocidade e viajar mais longe e com mais frequência.

O século XX viu o início do culto à velocidade, que mais tarde se tornou o espetáculo da velocidade. Viu também o paradoxo de que quanto mais viajamos, mais rápido viajamos, mais somos superados pelo sentimento de falta de tempo: somos destruídos pelo tempo. O slogan tempo é dinheiro coloniza as mentes dos habitantes das nações que estão em progresso e a fabricar modernidade.

O transporte motorizado cria uma pirâmide, de acordo com as diferentes velocidades médias que pode oferecer. Pela sua velocidade entre dois pontos em linha recta, o avião colocou-se no topo e tornou-se o emblema das viagens modernas por excelência, enquanto os voos para o espaço não se tornem comerciais.

Devido à acessibilidade que permite a qualquer parte do território, o transporte motorizado cria continuamente fluxos de pessoas e bens para os lugares mais remotos da Terra. Assim, aldeias, bairros, vilas e cidades passam periodicamente por grandes mudanças na sua economia e costumes, que por sua vez provocam grandes migrações, e envolvem-se assim na guerra económica dos ricos contra os pobres.

As migrações de todo o tipo induzidas pelo transporte motorizado, especialmente as viagens aéreas, vão desde a migração diária entre lares e locais de trabalho, um fenómeno conhecido como mobilidade pendular ou pendularidade, que devora até 5 horas por dia aos trabalhadores nos países do Sul global, até à migração em larga escala entre países. Estas migrações em terra são uma consequência do surgimento e crescimento da aviação.

A velocidade transfere privilégios daqueles que trabalham para uma minoria que beneficia do trabalho de outros. Muitos milhões de pessoas em todo o mundo têm de perder mais de mil horas por ano no seu trajeto diário para o trabalho, para que uns poucos possam fazer anualmente até cem voos por ano, ou viajar mais de cem mil quilómetros, ou viajar algumas horas para o espaço.

A urbanização é transformada pelos efeitos diários do transporte motorizado, de modo que o transporte motorizado se torna a principal forma de mobilidade em superfícies públicas, criando muitas dificuldades para caminhar nas ruas da cidade e em áreas rurais. Quanto mais rápido se pode chegar a um lugar, mais longe estão os lugares ou destinos a que se quer ou tem de chegar com frequência. Graças à aviação, as terras virgens do mundo praticamente desapareceram e toda a vida selvagem foi deixada em grande parte desprotegida.

Por outro lado, a aviação significa que os bens podem mover-se mais rapidamente pelo mundo e que a grande maioria da população é cada vez mais forçada a perder diariamente muito tempo para chegar aos seus empregos. A revolução das vedações (que impedia as pessoas de caminhar no campo em linha reta até ao rio ou ao mar), que começou por volta do século XVI, não terminou: o transporte cria novas vedações e obstáculos para chegar ao outro lado da rua, da cidade ou do país.

A aviação simboliza o desprezo absoluto de uma pequena minoria da humanidade pelos fundamentos da existência das plantas e animais que tornam possível a existência humana na Terra. É a atividade que permite ao maior número de pessoas levar a cabo a maior devastação climática e ecológica no espaço de poucas horas.

A aviação e outros transportes motorizados levaram ao desenraizamento permanente, à migração ou deslocalização de seres humanos, espécies vegetais e animais, minerais, terras raras e produtos da indústria, incluindo os seus resíduos. Toda a matéria viva e morta na superfície da Terra está sujeita à ameaça de deslocamento ou relocalização iminente causada pelo crescimento da aviação e do transporte motorizado.

Como consequência do crescimento do transporte motorizado, os tempos tradicionais ou vernáculos também se deslocalizaram: não há mais estações, idades, períodos, horários de refeição, horas de dormir, dias de descanso. Vivemos fora do tempo e fora do solo. Trabalhamos e produzimos 24 horas por dia, sete dias por semana. Os “homens de ação”, os ricos e poderosos, a classe média dos países altamente tecnológicos, naturalizam as próteses que são usadas para se mover em alta velocidade, como o carro, o avião e o comboio de alta velocidade. Tempos curtos dominam sobre tempos lentos. A velocidade aniquila a existência humana e os territórios e as atmosferas do mundo.

Em particular, a aviação simboliza o desprezo absoluto de uma pequena minoria da humanidade pelos fundamentos da existência das plantas e animais que tornam possível a existência humana na Terra. A aviação é a atividade que permite ao maior número de pessoas levar a cabo a maior devastação climática e ecológica no espaço de poucas horas.

Alienada pela produção e pelo consumo excessivo, uma boa parte da população humana não vê a possibilidade de “Outro Mundo” muito diferente daquele em que vivemos, com menos aviação, automóveis, autocarros, reboques, turismo, comércio livre, indústria agropecuária, e sem crescimento económico ilimitado.

No entanto, o transporte motorizado, especialmente a aviação, tem enfrentado obstáculos crescentes ao seu crescimento há algumas décadas: aumenta a consciência social do fim da Era do Petróleo Barato ou com a entrada na Era do Petróleo Não Convencional, que implica um petróleo com custos climáticos, ambientais, sociais, económicos e políticos mais elevados na sua extração do que o Petróleo Convencional.

O relatório do Painel 1 do IPCC, publicado em agosto de 2021, confirma que se o consumo de gás, carvão e gasolinas não for reduzido pela metade até 2030, o aumento da temperatura global não será contido a 1,5°C e poderá aumentar mais rapidamente, ameaçando a existência da humanidade neste século.

O transporte motorizado está por detrás do colapso do clima e da ecologia, devido à sua enorme produção de emissões. Aviões, carros e comboios de alta velocidade são grandes inimigos do clima e do meio ambiente. As Nações Unidas decretaram um Alerta Vermelho Global, devido ao colapso do clima.
Os eventos climáticos extraordinários dos últimos anos, como os incêndios florestais nos Estados Unidos, Sibéria e outros países, as inundações na Alemanha, Bélgica, Estados Unidos ou China, o aumento do número de lugares e dias com temperaturas acima de 50°C, combinados com os registos climáticos dos últimos anos, mostram que as mudanças climáticas se estão a acelerar.

Viajar com os pés na Terra está a tornar-se uma obrigação moral para aqueles que estão conscientes do que está a acontecer com o clima, ecologia, cultura, tecido social, economia, política e os axiomas sobre os quais se baseia a sociedade industrial e de crescimento ilimitado.

A causa dos migrantes pertence a todos: é intolerável viajar com os pés na Terra em total desamparo, como acontece nos países do Sul Global e muitas vezes no Norte Global, devido à velocidade dos aviões, comboios rápidos, carros, autocarros e reboques.

É urgente limitar severamente o uso desses transportes para mitigar o sofrimento e a desgraça que produzem e abrir a possibilidade de criar Um Outro Mundo, respeitoso da dignidade humana, do clima e da diversidade biológica e cultural.

O regresso à viagem com os pés na Terra é uma das formas que mais pode contribuir para a criação de comunidades ecológicas, conviviais, autónomas, menos dependentes dos mercados globais e das decisões centralizadas de grupos políticos e económicos muito poderosos; para a mitigação do colapso ecológico e para a criação de Um Outro Mundo, o mundo pós-desenvolvimento, pós-industrial, pós-petróleo.

Pode também começar a tornar-se o sonho, a esperança de setores sociais como os povos indígenas, camponeses, artesãos, desempregados, defensores da natureza e os amantes da cultura e das culturas, que podem ver nesta grave limitação do transporte motorizado o caminho para sobreviver com dignidade.

Esperamos que os crescentes esforços das organizações sociais para aumentar a consciência climática e ecológica, juntamente com as catástrofes que se podem prever nos próximos anos, nos ajudem a tornar em breve as viagens com os pés na Terra uma realidade jurídica universal. Muitas mobilizações sociais são necessárias para mudar o sistema económico e político global.

O possível regresso à viagem com os pés na Terra pode ser visto já como uma boa notícia: é uma das formas que mais pode contribuir para a criação de alimentos, ambientes e estilos de vida saudáveis, de comunidades ecológicas, conviviais, autónomas, menos dependentes dos mercados globais e das decisões centralizadas de grupos políticos e económicos muito poderosos. É uma das actividades que mais pode contribuir para a mitigação do colapso ecológico e para a criação de Um Outro Mundo, o mundo pós-desenvolvimento, pós-industrial, pós-petróleo.

A viagem com os pés na Terra facilita-nos uma boa relação com o solo, a água e o ar do deserto, a floresta, a selva, a savana, a costa, as montanhas, as nascentes, as plantas, os animais e outros seres humanos.

A viagem com os pés na Terra dá sentido à existência humana, permite-nos apreciar o nascer do sol, o pôr do sol, a Primavera, o Verão, o Outono e o Inverno, os vales, os picos, os abismos, as outras formas de cultivar, comer, dançar, viver e celebrar, de outros povos.

Mas a viagem ao mundo das viagens com os pés na Terra não será fácil: teremos de descolonizar o imaginário social das imagens e conceitos económicos, economistas e economicistas que nos impõe o consumo de produtos e serviços industriais desde a infância, a escola, os meios de comunicação, a publicidade, a Internet e a urbanização.

Teremos de relocalizar a produção e o consumo, cultivando os nossos próprios alimentos e, sobretudo, sair da religião económica e do culto da ciência e da tecnologia. Teremos que desconstruir a ideia de velocidade; teremos que fazer uma nova política da velocidade e do transporte motorizado.

A aviação deve ser combatida em todas as frentes possíveis: pelo que ela destrói na atmosfera, território, culturas, comunidades, famílias, economias, leis, instituições, histórias, geografias, certezas, epistemologias, filosofias, esperanças e limites que o ser humano deve ter.

É indispensável recuperar a lentidão em todos os aspectos da vida. Dar prioridade aos tempos lentos sobre os tempos curtos, aos tempos naturais sobre os tempos mecanizados. Comer em horários fixos, eliminar ao máximo o trabalho noturno. Habitar o tempo e pensar ao ritmo dos nossos passos, por meio da Vida Lenta.


Texto de  Miguel Valencia Mulkay – Engenheiro químico, académico e ativista, participa ativamente em encontros e fóruns sociais ou populares. Coordenador da ECOMUNIDADES, Red Ecologista Autónoma de la Cuenca de México  e autor do blogue Descrecimiento México.

Fotos de rede Stay Grounded





Fonte: Jornalmapa.pt