Maio 14, 2021
Do Passa Palavra
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Por Leo Vinicius

Neste ano de 2021 foi publicada no Brasil uma bem cuidada e bem editada brochura pela Maria Antonia Edições, de título É claro que se pode atirar neles. Trata-se de trechos de uma entrevista de Ulrike Meinhof publicada pela revista alemã Der Spiegel em 15 de junho de 1970.

Meinhof foi uma das figuras mais conhecidas da RAF (Rote Armee Fraktion), ou Fração do Exército Vermelho em português. Mas não se trata, nem na brochura e nem aqui, de falar da história da RAF ou de discutir as relações entre luta de classes, violência, revolução e luta armada na história. Aliás, algo que ainda está para ser bem sistematizado e analisado.

Uma obra com esse título, publicada no Brasil no contexto neofascista e de recuo das lutas sociais, é antes de um livreto político, um teste psicológico… um tipo de teste de Rorschach. Em quem você pensou quando leu o título de um livro de não-ficção chamado “É claro que se pode atirar neles”?

Morte: uma resenha

Pensou no seu chefe? No patrão? No gestor? No X1, no X2, no X3, no X0? No ministro parasita que te chama de parasita? No bilionário que coloca sua rede de comunicação a serviço da política do ministro parasita? As possibilidades de respostas são inúmeras conforme são inúmeras as possibilidade de leitores.

O leitor abre o pequeno livro para descobrir quem Ulrike Meinhof busca racionalizar a morte matada. Também há uma expectativa de que a racionalização seja boa o suficiente para que possamos afrouxar a repressão ao nosso desejo de morte pela figura que aparece no nosso “teste de Roscharch”, ao lermos o título. Em algum momento o leitor saberá quem são essas pessoas que, na visão da autora, obviamente poderiam ser mortas. Mas não darei spoilers. Ao futuro leitor apenas digo que discordo dos argumentos que Meinhof usa na racionalização, embora não discorde da conclusão. Afinal, se pensarmos bem, deverá haver um bom motivo para alguém dizer que é claro que se pode atirar em nós. Aliás, isso foi expresso por um candidato a presidente nas últimas eleições. Nós, “petistas” espalhados por todos os partidos, sem partidos, contra partidos, que votam nulo, em branco, no Ciro, na Marina, no 50 [1], que não votam…

A morte matada hoje é monopólio político da direita (ao menos no Brasil). Ao ponto que esse livreto serve para relembrar que nem sempre foi assim. Mas se a história e a política da RAF se confundiram com a morte, não foi apenas pelos tiros que deram e por alguns corpos que explodiram. Mas também e talvez principalmente pelos tiros, facadas e estrangulamentos que receberam do Estado, matando vários de seus militantes mesmo presos. A escolha de atirar neles, no caso da esquerda, quase sempre foi uma escolha de colocar o pé na própria morte. E o que esse pequeno livro faz refletir no nosso contexto de derrota e recuo, não é sobre a equivocada prática política da RAF, mas sobre a necessidade de colocar a nossa vida, e a nossa morte, em jogo. O puro instinto de conservação só pode gerar a inação de uma política conformista; redundantemente, ele é conservador.

Morte: uma resenha

A obra prima do cinema, Asas do Desejo, de Wim Wenders, nos mostra de forma brilhante como o mundo do desejo é inevitavelmente aquele da dor, do sofrimento, do risco, da incerteza. A monotonia do mundo preto e branco e imortal dos anjos contrasta com a dor, o sangue, o prazer, o êxtase, o caos que dão as cores ao nosso mundo. Há muitas formas de se colocar para morrer empurrado pelo nosso desejo individual e coletivo de revolução, de mudar as coisas. Como a sociedade jamais atinge o zero Kelvin de conformismo, sempre há gente se colocando um pouco para morrer. Arriscando o emprego numa greve, num ato de insubordinação contra o patrão, lutando contra a expulsão das terras do seu povo… arriscando a liberdade ou a vida em vandalismos anticapitalistas como um Banksy…

Falando em intervenções artísticas ou vandalísticas urbanas, pouco lembrada foi a instalação em única exibição realizada pela RAF em 1993. Em vez de tinta, usaram 200 kg de TNT e matemática. Os membros que participaram colocaram um pé na morte para realizá-la, mesmo cumprindo o objetivo de não matar ninguém. Veio abaixo toda a estrutura de um moderno presídio em fase final de construção. A obra de arte custou cerca de 80 milhões de euros dos fundos estatais, em valores atuais. Nenhuma galeria, museu ou colecionador jamais conseguiu se apropriar dela.

Num presídio, dezessete anos antes, Ulrike Meinhof foi morta. Resta a dúvida se de morte matada ou suicidada. É claro que acharam que se poderia matar eles.

Nota do Passa Palavra

[1] O autor refere os políticos Ciro Gomes (PDT), Marina Silva (Rede Sustentabilidade) e o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), cujo número eleitoral, usado nas urnas eletrônicas, é 50.

As imagens que ilustram o texto são da autoria de Edvard Munch (1863-1944)




Fonte: Passapalavra.info