Novembro 24, 2020
Do Jornal O Companheiro
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Em 1936 a revista anarco-feminista “Mujeres Libres” foi criada na Espanha, sendo uma revista produzida por mulheres e para as mulheres trabalhadoras. Sendo o canal decomunicação e porta-voz da ‘Federação das Mujeres Libres’ tinha como objetivo proporcionar a sua libertação e emancipação. Com o nascimento da revista e a divulgação de seus artigos, foram organizados grupos para a discussão do papel da mulher na sociedade espanhola, bem como cursos de capacitação e estudo para
mulheres.

É importante ressaltar que juntamente com a revista, a organização ‘Mujeres Libres’, a Federação Anarquista Ibérica (FAI), a Federação Ibérica de Juventude Libertária e a Confederação Nacional do Trabalho (CNT), foram as principais organizações do movimento anarquista e anarcossindicalista espanhol daquele período.

O objetivo principal da criação da ‘Mujeres Libres’, foi discutir a questão feminina durante a Revolução Social que estava em curso na Espanha, onde foi reconhecida por elas que a situação das mulheres permaneciam em igualdade com homens somente em teoria, pois na prática ainda se observava as desigualdades entre homens e mulheres.

Elas questionavam e evidenciavam que a luta contra o Estado e o capitalismo não pode se desvincular da luta contra o patriarcado, que a questão feminina não se separa da perspectiva social e que da mesma forma que a emancipação dos trabalhadores acontecerá pelos próprios trabalhadores por meio de uma luta classes, a emancipação das mulheres também ocorrerá pelas próprias mulheres a partir do mesmo processo.

Assim, Amparo Poch y Gastón, Mercedes Comaposada e Lucia Sanchéz Saornil, organizaram a revista “Mujeres Livres”, intencionalmente com esse nome, para organização das mulheres concomitantemente com a Revolução Social.

Queremos realizar uma breve caracterização da vida dessas mulheres que foram importantes nomes para a luta contra a ascensão do fascismo naquele período, bem como retomar a sua contribuição e disseminação do pensamento anarquista.

Amparo Poch y Gascón
(1902-1968)

Amparo nasceu em Zaragoza, foi escritora e médica. Em 1917, quando demonstra o desejo em estudar medicina, não tem a permissão de seu pai, pois segundo o mesmo, não era profissão adequada a uma mulher, se matriculando então na ‘Escuela Normal de Maetros de Zaragoza’. Após o término dos estudos em Magistério no ano de 1922, ingressa na ‘Facultad de Medicina de Zaragoza’.

Durante esse período, Amparo já denunciava em seus artigos as situações de machismo envolvidas em sua vida acadêmica, apresentando a zombaria, falta de respeito e desprezo por parte dos homens e também a indiferença de seus professores diante dessas situações.

Em 1929, foi a segunda mulher a se graduar em Medicina. Naquela faculdade, numa turma de 97 homens. Houve a tentativa de se apagar seu histórico acadêmico pelo seu próprio pai, entretanto, essa tentativa não foi suficiente para apagar o início de sua história.

Durante o início de sua atuação profissional recebeu diversos prêmios por suas contribuições e avanços. Teve como foco de sua atuação profissional o atendimento a população pobre, principalmente de mulheres trabalhadoras e crianças.

Especializou -se em ‘Educação em Saúde e Prevenção de Doenças’, criando diretrizes e recomendações durante a gravidez e a amamentação para a redução da mortalidade infantil. Tendo em vista que até 1931, as mulheres trabalhadoras só possuiam seis semanas de repouso pós-parto e sem remuneração, muitas dessas, retornavam as suas jornadas de trabalho poucos dias após o parto, ocasionado diversas complicações de saúde posteriores.

Assim, envolvendo a saúde da mulher, Amparo escreve sobre Métodos Contraceptivos e defendeu a Questão do Aborto, evidenciando o caráter de classe envolvido nessa questão, sendo que se tratando de aborto, uma mulher trabalhadora recorre a métodos domésticos e precários, enquanto uma mulher burguesa, possui profissionais a sua disposição para atendê-la.

Uma das principais discussões de Amparo é a respeito da Sexualidade, principalmente referente ao padrão sexual, apoiado no casamento e na prostituição, legitimados pela Monogamia Feminina imposta pela sociedade, que está intrinsecamente ligadas ao Capitalismo e a Propriedade Privada.

Foi uma defensora do Amor Livre e Revolucionário, da separação e do divórcio. Produziu diversos ensaios, textos sobre as idéias anarquistas e a emancipação da mulher.

Participou da Sociedade Médica Mútua da CNT e trabalhou de 1936 a 1937 como diretora de Assistência Social no Ministério da Saúde.

Participou da construção da ‘Casa da Dona Trabajadora’, ministrando diversos cursos com a finalidade de que as mulheres que acessavam a casa pudessem ser alfabetizadas e
aprender algumas profissões.

A Mulher em defesa

Quando ela perdeu sua graciosa exuberância de lírio ereto, a mulher, estritamente monogâmica por imposição, junto com o homem essencialmente poligâmico por natureza e a sinceridade cuidadosamente mantida, percebeu um fato: a propriedade. A Casa se fechava como uma boca ansiosa e havia muito o que fazer. A realidade econômica informava a mulher, completamente ignorante do prazer ingênuo da vida primitiva, de que a casa à excluía de todas as tarefas de produção, de todas as trabalhos públicos que
dão direito à subsistência. Isto vinha a ela por meio do homem a quem prestava seus serviços privados, incluindo os sexuais, e se defendeu em sua nova posição, preocupando-se em fortalecer os laços que a ligavam ao homem.

Este homem é meu e eu sou dele, disse. A propriedade encolheu o nariz pontudo do
agiota, piscou os repugnantes olhos e todos os regimes de opressão aumentaram o
número de suas vítimas.

Foi a venda da Consciência, da Liberdade, da Espontaneidade, para irresponsabilidade e a recusa em produzir.

Revista Mujeres Libres nº3, Madrid, Julho de 1936. p. 13.
Mercedes Comaposada
(1901-1994)

Mercedes nasceu em Barcelona, filha de um sapateiro socialista, desde sua infância esteve mergulhada no ambiente militante.

Iniciou seu trabalho junto a uma editora como produtora cinematográfica e posteriormente integra a CNT.

Mercedes viajava como participante da CNT a procura de organizações de mulheres, que já eram participantes da CNT, da Juventude Libertária e Ateneus, que haviam criado associações culturais de mulheres, buscando anexá-las a federação, pois possuiam objetivos em comum. Assim, Mercedes sugeria que esses grupos se unissem, criando assim a “Federação Nacional das Mujeres Libres”. Dessa organização, já se inicia a produção e posteriormente a publicação da revista.

Foi pedagoga, aprendeu idiomas, digitação e matriculou-se em cursos de Direito e ministrou diversos cursos para mulheres.

Colaborou com diversos textos para a imprensa libertária em ‘Tierra y Liberdad’, ‘Tiempos Nuevos’, ‘Estudios’, ‘Umbral’ e ‘Ruta’.

A Quarta Revolução

A Quarta revolução, nossa revolução, deve integrar os avanços das precedentes. Ela tem
que compor a unidade que supere fluxo humano. Tem que ser o gerador de estímulo de outros sobreviventes. Nossa pretensão de hoje ainda é apenas uma abstração, conceitos que devem ser estruturados de uma maneira humana e realizável. 

Mas, antes de tudo, você tem que cegar o olhar fanático, fechar os olhos em êxtase, arrancá-los, se necessário, para que eles nunca mais se abram novamente, absorvidos na expectativa de episódios de cromo; para não acreditar naquela Mãe-Revolução que nos protege a todos. Não mais aparições místicas; Não mais fantasias de cafeteria. À Revolução frontal e a atitude criativa e não de espera. Nós temos que ir por Ela. Temos que começar descobrindo para poder senti-la, raciocina-la e fazê-la. Há, em suma, que criá-la sem reflexões que limitam e não irradiam nossas próprias necessidades integrais. Sem ilusões que cometam erros, coajam e paralisam. Eliminando as falsas soluções nominais, as "boas formas" ilusórias.

De agora em diante, podemos dispensar algumas como "camaradas", "igualdade" para eliminar os outros como liberdade.

Camaradas, igualdade. Camarada intelectual, camarada manual. Espírito selecionado, cultivado e espírito emputecido. Remuneração tipo x; Remuneração tipo y. 'Camarada?'... não; Eu não quero que você me chame de camarada; Eu prefiro que você me faça camarada, que você me dê o que sua posição, sua capacidade, sua sensibilidade permitiu a você e não a mim. Antes de 'Camarada' eu tenho que ser um Homem e tenho que estar ciente disso. Somente quando você e eu nos parecermos, somente quando nos encontrarmos em uma possibilidade de consciência, somente quando formos camaradas podemos nos chamar de camaradas.

Liberdade. Preconceito burguês, segundo Lênin. O preconceito burguês, com efeito, como conceito teórico quando está implícito na tarefa de uma revolução. Magnífico jogo criador se for apoiado por uma base vital: econômica, sentimental, intelectual ... Se ela nos permitir nos dar sempre como escravos, sempre, a tudo que é melhor em relação a nós mesmos.

Mercedes Comaposada
Revista Mujeres Libres, nº2 Madrid. p.5
Lucía Sanchéz Saornil
(1895 – 1970)

Nasceu em Madrid numa família pobre e muito jovem perdeu a mãe e o irmão. Assim, assumiu os cuidados da irmã mais nova e da casa, enquanto seu pai trabalhava na central telefônica do duque de Alba.

Mesmo sendo de uma família pobre, seu pai herda de uma tia, uma biblioteca com muitos livros, pergaminhos e folhetos, sendo essa a primeira fonte de curiosidade de Lucía nos estudos literários, levando-a a terminar os estudos iniciais em 1913.

Em 1914, inicia os estudos na ‘Academia de Belas Artes de San Francisco em Madrid’, ano em que também publica seu primeiro poema ‘Nieve‘, no Semanário ‘Avante‘. Com o passar dos anos pública em ‘Los Quijotes’ e ‘Cádiz-San Fernando‘, revistas próximas ao modernismo. Aproxima-se do movimento estético de vanguarda “ultraísmo”, que tinha enquanto proposta a regeneração e renovação da arte nas primeiras décadas do século XX.

Utilizava como pseudônimo “Luciano de San Saor”, dirigindo seus escritos a um interlocutor feminino, quebrando com o ideal feminino de objetificação e veneração. Lucia desestruturou o papel passivo incumbido às mulheres pelos próprios militantes anarquistas, quebrando estereótipos de gênero e trazendo a discussão lésbica, em um momento de criminalização, punição e censura.

Inicia seu trabalho como telefonista em 1916, onde tem os primeiros contatos com o anarquismo, bem como com a CNT e FAI, tornando-se uma das maiores impulsionadoras do movimento grevista na ‘Companhia Telefônica de Madrid’.

Participou ativamente da Luta Antifascista, organizando as coletividades operárias, camponesas e também como cronista de guerra, atuando no assalto ao “Cuartel de la Montaña”, na busca de armas.

Foi secretária de imprensa e propaganda da SIA – Solidariedad Internacional Antifascista, sendo uma organização de ajuda às vítimas do fascismo, especialmente idosos, combatentes feridos e crianças; posteriormente ocupou o cargo de secretária geral do Comitê Internacional.

A discussão do Feminismo Revolucionário, pautada por Lucía em ‘Mujeres Libres’, a respeito do papel da mulher durante o processo revolucionário, antecipou discussões que foram pautas do feminismo dos anos 1960 como a Libertação Sexual e o Amor Livre, bem como colocou em prática novas relações de Apoio Mútuo na Luta de Classes. Sua luta foi contrária ao feminismo burguês reformista propondo um anarco-feminismo, pautado no feminismo de classe, que lutava pela Revolução Social.

Se fundem as resistências

O barômetro da resistência psíquica marcou sua tensão máxima. De repente, um novo teste de
aptidão foi anunciado. O questionário era mais amplo que as outras vezes - gramática, geografia, digitação, mecanografia e outras ninharias que não deviam ser usadas - . Aquelas que não obtivessem o certificado de aptidão iriam para uma escola especial por seis meses, ao passo que seriam examinadas novamente. E não diziam o que deveriam fazer se ainda assim não recebessem o famoso certificado.

Quase simultaneamente, um acordo do Comitê Paritário foi publicado permitindo a Companhia a reduzir o número de funcionárias devido às necessidades de serviço. O relacionamento estava claro.

Naquela noite, antes do revezamento, e na frente do quadro de avisos, as garotas conversavam
fervorasamente. Pensei num momento naquelas infelizes que tinham mais de cinquenta anos e que tinham pouco mais que a educação primária, difícil de expandir em todas as escolas especiais do mundo.

- Devemos nos opor a este exame - eu disse em voz alta - Houve silêncio, algumas olharam para mim com horror - elas ainda eram as filhas do comandante aposentado -. Outras me olhavam com simpatia e determinação.

- Que devemos fazer? - disse uma voz juvenil.

Falei sem cansar da relação que o anúncio poderia ter com os acordos do 'Comitê Paritário'. Quando a campainha tocou nos chamando para nos aliviar, concordamos sobre o que deveria ser feito.
Exista uma antiga "Associação Mutualista" de telefonistas interurbanas, que em vão pretendiam à Companhia absorver ou proteger e, diante dos acontecimentos, tornou-se uma "Sociedade de Resistência"; três dias depois, mais de cem meninas foram associadas.

O anúncio do exame foi removido do quadro; mas alguns dias depois, algumas senhoras
foram realocados em outras posições, das quais tivemos que assinar um recibo.

A mim me mandaram a uma deliciosa Capital em Levante.

Lucía Sanchez Saornil
Revista Mujeres Libres, nº3, Madrid, Julho de 1936, p. 10.

Companheira D. – 18 – 03 – 2019




Fonte: Jornalocompanheiro.blackblogs.org