Março 8, 2021
Do Ultima Barricada
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Autora: Beatriz Asuar Gallego | 
Publicação original: no Publico de Madrid, 24/12/2017
Tradução: João Black


Em finais da Segunda República, cerca de 21.000 mulheres anarquistas agruparam-se formando o primeiro movimento feminista radical de autêntica base popular em Espanha. Foi um dos grupos precursores de reivindicações pela libertação de género que, tantos anos depois, seguem presentes na atualidade.


Mujeres Libres: as anarquistas que revolucionaram a classe operária

Diz-se da história que é escrita pelos vencedores, mas o que não se diz é que os vencedores são, praticamente na sua totalidade, homens. E tampouco se diz que estes muitas vezes esquecem as mulheres: se dermos uma olhada para trás e pensarmos nos grandes momentos de mudança da humanidade, ou nas grandes revoluções, nenhum ou quase nenhum nome de mulher nos vem à mente.

E a história de Espanha não foi menos dura com as mulheres, enterrando por muitos anos o papel desempenhado por elas durante a época mais revolta do país, a Guerra Civil. Contudo, organizações sociais tentam constantemente abrir espaço na nossa memória coletiva e enfrentar o esquecimento. Por exemplo, CGT e Mujeres Anarquistas com a Agrupación de Mujeres Libres, que neste 2017 faz 80 anos da sua fundação. Uma organização conformada em 1937 como o primeiro movimento feminista radical de autêntica base popular e precursor na luta por reivindicações que, tantos anos depois, seguem presentes na atualidade.

Como nasceram? Em finais da Segunda República, numa dinâmica política e cultural que abria novas possibilidades para a participação das mulheres na luta social. A CNT, Confederación Nacional del Trabajo, era desde 1910 a principal central sindical orientada pelo anarquismo, da qual depois derivou a CGT.* Era um sindicato que contava com uma alta presença de mulheres e que reconhecia os direitos laborais básicos, como a liberdade económica e a igualdade salarial, mas no qual havia poucas iniciativas de lutas específicas.

Perante isto, as mulheres sentiram necessidade de traçar o seu próprio caminho. Em Barcelona, principal bastião do movimento anarquista, foi fundado em 1934 o Grupo Cultural Feminino, pioneiro da articulação de mulheres dentro do sindicato. Mas a eclosão da guerra civil mudou o ritmo das formações, e então avançaram e decidiram criar a sua própria organização. A 2 de maio de 1936 várias mulheres publicaram o primeiro número da revista Mujeres Libres que, como relata Paula Ruíz Roa, responsável do secretariado feminino da CGT, “serviu de base para a constituição do grupo libertário e a organização do seu primeiro – e único – congresso, que puderam realizar em agosto de 1937.” Em pouco tempo, passaram a contar com 147 grupos locais e 21.000 mulheres afiliadas.

O primeiro grupo autónomo de mulheres

mujeres-libresDesde os seus inícios, as Mujeres Libres formaram-se enquanto grupo totalmente autónomo. A maioria das militantes já fazia parte de outras organizações do movimento libertário – CNT, FAI, Juventudes Libertarias –, no entanto o grupo não se subordinou a nenhuma dessas estruturas.

Esta foi uma batalha das anarquistas, pela rejeição que gerou dentro do movimento libertário uma organização só de mulheres: “Foram elas que fizeram ver que era necessário separar as organizações de toda a classe trabalhadora das organizações das mulheres para diferenciar as reivindicações de ambos, porque dentro da luta da classe operária não lhes foi dada a importância que tinham”, explica ao Público o atual secretário da CGT, José Manuel Muñoz Poliz.

A escritora e historiadora americana Martha Ackelsberg ressalta que a maior conquista da organização foi ser “pioneiras das organizações feministas” e “unir a luta contra a exploração capitalista à luta contra a opressão patriarcal”. Assim foi. Mujeres Libres seguia a linha ideológica da CNT, mas desenvolveu o seu próprio objetivo: emancipar a mulher da tripla escravidão: “escravidão de ignorância, escravidão de mulher e escravidão produtora”. Com o início da guerra, outra meta foi estabelecida, “fornecer uma ajuda ordenada e eficiente à defesa da República”.

Reivindicações ainda presentes na atualidade

“O que mais chama a atenção sobre este grupo é como elas colocam a problemática da mulher. Sobretudo naquela época, com temas que vão desde a abolição da prostituição, a educação mista, cantinas e creches populares ou o amor livre. Reivindicações que chegam à maioria da esquerda muito depois, na década de 70”, conta o historiador brasileiro Thiago Lemos Silva, que estuda há mais de dez anos a história deste grupo.

Desde os seus inícios, elas afirmaram a importância da incorporação das mulheres no trabalho assalariado, realizando múltiplos trabalhos, além de atividades de retaguarda: desde a alfabetização à capacitação no trabalho em todos os setores laborais. E para que esta incorporação não fosse um fardo duplo para as mulheres, elas exigiam – como hoje em dia – e criaram refeitórios e creches populares nos locais de trabalho.

Elas romperam com a ideia de que o lar e as relações de casal eram coisa privada: denunciavam com fervor o controlo dentro do próprio casal e desde o próprio estado e a Igreja Católica. Proclamavam o amor livre e denunciavam que o modelo tradicional de família fomenta as desigualdades: por um lado, porque mantém as dependências económicas de que se sustenta o patriarcado; por outro, porque ampara a submissão das mulheres aos homens dentro da família, de modo que lhes faltava o direito de nela se expressarem.

Outro dos temas que mais se destacaram foi a educação infantil. Elas afirmavam que nas escolas se adquiria uma mentalidade enquadrada nos valores burgueses, pelo que era essencial que a educação desse uma volta total, potenciando uma escola para a liberdade. Dentro da educação, ademais, elas reclamavam a necessidade da educação sexual, levantando temas até então tabus, como os métodos contraceptivos ou o aborto.

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A repressão contra as anarquistas

Como com quase todos os grupos revolucionários, a repressão durante a guerra por parte das tropas franquistas foi colossal. E foi mais com grupos de mulheres como este, que representavam um duplo perigo ao lutarem não apenas pela emancipação da classe operária, mas também pela emancipação da mulher.

Parece tarefa impossível documentar o número exato de mulheres que passaram pelo calvário da tortura, dos assassinatos, dos desaparecimentos e da violência sexual. Mas sabemos sim que, como a maioria das milicianas e militantes, as integrantes de Mujeres Libres acabaram na prisão, no exílio ou, no melhor dos casos, submetidas a um silêncio absoluto negando ter participado nesta organização. Nem desde o estrangeiro conseguiram manter estruturas organizadas na clandestinidade, pelo que ao fim de três anos, em 1939, Mujeres Libres acabou por dissolver-se. Mas mantiveram um legado: “criaram um grande desejo nas mulheres de liberdade, em todas nós”, diz Ruíz Roa. E, como aponta Thiago, “é preciso conhecer a história destas mulheres para questionar o machismo”.


*Trata-se de uma cisão ocorrida na CNT a partir de finais dos anos 1970. Dessa cisão resultou a CGT, sendo que continuou e continua a existir uma CNT sob esta mesma sigla [Nota do Tradutor].


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Fonte: Ultimabarricada.wordpress.com