Março 18, 2021
Do Reporter Popular
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Em março de 2021 completou-se um ano de pandemia. Um ano em que a vida de todas e todos se transformaram da pior maneira possível. O vírus se aproxima e vizinhos, amigos e parentes morreram, e morrem não só pelo vírus, mas morrem também por negligencia do governo federal de Bolsonaro, com suas políticas negacionistas e genocidas, e por um Ministério da Saúde  vergonhoso e incompetente.

O Brasil é considerado o epicentro da pandemia. Bate terríveis recordes há pelo menos 18 dias seguidos. Chegamos à absurda marca de mais de 280 mil pessoas mortas por Covid, e as mortes aumentando. Por outro lado, a vacina que poderia salvar milhares de vidas, cresce em ritmo lento e com a insegurança se haverá doses suficientes para todas e todos. Pesquisas apontam que para vacinar a população em um ano, o Brasil precisaria estar vacinando 2 milhões de pessoas por dia, porém o número atual está na média de 300 mil pessoas por dia.

A pandemia  afetou a todas e todos, porém, especificamente para as mulheres este momento está sendo ainda mais cruel. Os dados indicam que as mulheres na pandemia são as que  mais são afetadas pela ansiedade e pela depressão. A maioria das mulheres afirmam que sentiram-se sobrecarregadas em seus trabalhos na pandemia, da mesma forma em que a sua dupla jornada aumentou, como aponta a pesquisa “Sem parar: o trabalho e a vida das mulheres na pandemia”.

Mais do que nunca tem se falado sobre as e os profissionais da saúde e sobre como seu trabalho é importante para nossas vidas. A área da saúde é composta majoritariamente por mulheres que, principalmente dentro do Sistema Único de Saúde (SUS), são levadas cada vez mais à linha de frente dessa luta. Elas são fisioterapeutas, médicas, agentes comunitárias de saúde, enfermeiras, técnicas de enfermagem, psicólogas entre outras. A questão aqui é: Quem são esses profissionais? Estamos realmente valorizando e enxergando essas pessoas? Como a pandemia interfere diretamente na vida pessoal dessas pessoas que trabalham exaustivamente para que as pacientes não morram? E, principalmente, quem são essas mulheres no combate do Covid-19?

1 ano de pandemia para as profissionais da saúde.

Nesses tempos pandêmicos, a vida da mulher se tornou uma luta diária, tanto para permanecer em seus empregos, sustentar suas famílias, quanto não morrer dentro de sua própria casa, levando em conta os altos níveis de feminicídio nesse período. Mas e as profissionais da saúde? Será que percebemos a singularidade dessas mulheres? Relatos das trabalhadoras da saúde que aparecem nos jornais e na televisão mostram que o medo é constante, e o sentimento de impotência é inevitável. É como se estivessem “enxugando gelo”.

Entrevistamos duas mulheres profissionais da saúde, de cidades distintas do país, e de aŕeas de atuação diferentes. Magali Casanova Marques é Agente Comunitária de Saúde na Unidade de Saúde do IAPI, zona Norte de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Outra entrevistada é ALQ (que preferiu preservar seu nome) é Técnica de Enfermagem na Maternidade do Hospital Público de Macaé, na Região dos Lagos, Rio de Janeiro. Pedimos para que essas duas trabalhadoras do SUS compartilhassem conosco suas experiências e vivências profissionais, familiares e sentimentais neste pouco mais de um ano de pandemia, pensando principalmente quais são os desafios traçados por serem mulheres, e seus desdobramentos no dia a dia por atuarem na área que mais tem ajudado a população, mas também é a categoria que mais sofre com isso.

Perguntamos para as entrevistadas como está sendo o seu dia a dia na pandemia, sobre seus sentimentos e como isso as afeta diretamente. Magali, no contexto de Porto Alegre, nos conta um pouco sobre:

“Neste momento triste que estamos vivendo me sinto impotente. Não deveríamos chegar neste ponto, a vacinação deveria ter avançado, não ter flexibilizado a circulação, principalmente nas praias”

Pouco depois da pandemia estourar, Magali foi afastada do serviço presencial e começou a trabalhar em casa. Mesmo não estando na linha de frente atendendo diretamente a população, ela diz:

“Ficar em casa durante a pandemia eu me sinto segura e angustiada pelos meus colegas (…) Trabalhar na área da saúde é muito gratificante, mas atualmente meus colegas estão sobrecarregados, os postos de saúde que seriam para prevenção e cuidado continuado, viraram pronto atendimento de Covid”.

Perguntamos sobre quais são os maiores desafios na pandemia para ela:

 “O maior desafio é perceber a negação dos meus vizinhos perante a pandemia e uso correto da máscara”.

ALQ, neste mesmo sentido responde:

“No início da pandemia, meu maior desafio foi conviver com minha família com receio de contaminá-los.  Fiquei por muitos meses sem ter contato com meu filho casado e sua esposa, e obviamente o medo de eu mesma contrair o vírus e falecer ou alguém da minha família, (filhos). Posteriormente o medo era além desses, era perder algum colega, pois a contaminação chegou entre nós, e ficava apreensiva.  Perdi uma colega de trabalho para o Covid, foi muito triste, e até hoje sentimos muita falta dela.  Além disso, tenho que ficar durante todo o plantão solicitando que pacientes e acompanhantes fiquem de máscara”.

Todos nós neste momento estamos com nosso psicológico abalado, a saúde mental é pouca e as tarefas do cotidiano são muitas. A vida não para, o governo não ajuda, é nós por nós, sempre. ALQ afirma que:

“No início da pandemia eu ficava dentro do meu quarto, trancada, com medo de contaminar alguém, também não abraçava e nem beijava meus familiares, mas aos poucos fui superando esse medo. […]

No meu local de trabalho não houve esse acolhimento […]. Inclusive, no início, suspenderam nossas férias e tínhamos que trabalhar suprindo a falta de colegas que foram afastadas […] A UFF (Universidade Federal Fluminense) fez um trabalho maravilhoso e que me auxiliou muito e fez toda a diferença em meio a esta pandemia.  Disponibilizou um atendimento psicológico, on-line, para profissionais da área da saúde, com custo zero. Através desse atendimento, conheci a minha atual psicóloga, e mantenho esse atendimento até hoje.

Para mim tem sido muito difícil presenciar o avanço da pandemia, a lentidão da vacinação, e as pessoas simplesmente não se cuidarem.  Poucas são as que usam máscaras, a maioria aglomera, os óbitos aumentando.  O negacionismo das pessoas, questionando a eficácia das vacinas […] Também me dói quando algum colega da área opta por não vacinar… Isso aconteceu, eu vi, e não entendo. […] Ainda temos um longo caminho a ser percorrido, com muitas incertezas, medos e perdas pela frente”.

Mulheres e trabalhadoras da Saúde. 

A pandemia nos mostrou o quanto, principalmente mulheres, são as trabalhadoras que contribuem na luta contra o Covid-19 mesmo que em setores diferentes, elas fazem toda a diferença para que o SUS funcione com qualidade. Magali, enquanto Agente Comunitária de Saúde diz:

“Ser mulher diante dessa crise sanitária é um desafio diário, como ACS (Agente Comunitária de Saúde) nosso trabalho sempre foi o cadastramento no território, visitas de acompanhamento, de mulheres, crianças, idosos e pessoas com comorbidades, dar assistência e facilitar o acesso dos mais vulneráveis, trabalhando a equidade. Com a pandemia nosso trabalho na rua foi cancelado e deixamos de acompanhar nossas famílias de referência. […]

Minha jornada é de 8 horas e sempre almocei em casa por ser perto, e tinha que ter todos os cuidados para entrar em casa por ter minha mãe com 81 anos e uma filha. Na unidade de saúde a maioria são mulheres, médicas, enfermeiras, técnicas de enfermagem, dentistas, auxiliares e técnicas de saúde bucal. Mulheres trabalhadoras da saúde”.

Mesmo que as profissionais da saúde sejam de cidades diferentes, percebemos o mesmo sentimento. Perguntamos a ALQ o que significa, para ela, ser mulher trabalhadora do SUS,  ela responde que:

“As mulheres são afetadas com as demissões, com a violência doméstica, com a fome dos filhos, com a própria Covid mesmo, sem vaga nos hospitais,  UTI’s, etc.

Somos a maioria nos hospitais, muitas são as únicas provedoras, especialmente neste momento de pandemia. […] A enfermagem presta assistência ao paciente full time. Quem vai estar vacinando nas UBS’s (Unidade Básica de Saúde)?  A equipe de Enfermagem é na sua grande maioria mulheres.  Sem a enfermagem não há PNI (Plano Nacional de Imunização)!  Então, a participação das mulheres nesse momento é maciça, é majoritária, é o tempo todo. Estamos lá cuidando, sendo psicólogas, ouvindo e vacinando.”

ALQ foi uma das profissionais que tomou as duas doses da tão esperada vacina. Para ela, pessoalmente, isso foi uma grande conquista e alívio. Mas é inevitável que o medo ainda esteja presente, afinal, queremos que todos sejam vacinados, sem exceção. Ela nos conta:

“Estamos cansados e queremos ver todos vacinados logo. principalmente agora com a nova cepa, bem mais letal e contaminando pessoas mais novas, tá cada vez mais difícil de não se sentir assim. […]

Ter sido vacinada foi um grande alívio, mas é uma felicidade parcial, pois minha família não foi, meus amigos não foram, a maioria da população não foi.  O vírus está aí, sofrendo mutações, contaminando as pessoas, deixando um rastro de morte que só aumenta. Todos foram vacinados no meu local de trabalho, com as 2 doses […] O objetivo do meu trabalho é promover a saúde e a vida através da assistência prestada ao paciente, uma vez que isso não é possível o psicológico fica abalado, sem dúvida.  Por isso, torno a repetir e incentivar a todos os profissionais da área da saúde a terem um acompanhamento psicológico nesse tempo tão difícil que estamos vivendo”.

As profissionais da saúde sempre estiveram aqui. Valorizar seu trabalho é importante, mesmo posteriormente. ALQ diz:

“É o nosso dia a dia, estamos expostos todos os dias em que trabalhamos, sempre estivemos, a esse vírus agora e tantos outros mais, e às bactérias tb.  Mas neste momento em especial as pessoas viram como os profissionais de saúde são importantes, e começaram a nos agradecer, mas sempre estivemos aqui, nos expondo para prestar um serviço de qualidade pra população. Desejo que a população não esqueça nosso trabalho, depois que tudo passar.

Somos a maioria desde o início dessa profissão já que esse padrão é passado de forma natural, por meio de saberes de geração em geração.  A enfermagem ainda é considerada uma profissão feminina e ao meu ver erroneamente, pois a arte de cuidar não está restrita exclusivamente às mulheres”.

Governo Federal. Bolsonaro genocida, omisso, contra o povo e contra as e os trabalhadores.

A revolta de um governo tão omisso está presente na fala dessas mulheres. Por estarem tão perto de toda essa calamidade em que vivemos, seus relatos traduzem a proposta genocida e irresponsável que o governo de Jair Bolsonaro apresenta. Magali, quando questionada sobre o governo federal e estadual, responde:

“Esse governo é uma catástrofe. Ter um ministro da saúde que não é da área da saúde* só pode fazer merda. Temos uma campanha de vacinação que se arrasta…..sem um calendário definido” […] temos um prefeito que pede para tu dar tua vida pela economia…. é insano. Vidas importam!!”.

*A entrevista foi realizada antes da última troca de ministro da saúde.

ALQ, falando sobre sua indignação diz:

“Infelizmente o governo federal tem se mostrado totalmente despreparado para enfrentar uma crise sanitária como essa, deixando a política falar mais alto do que a preservação do povo.  Esse despreparo desvinculou a vacinação em massa com o retorno da estabilidade econômica, uma está ligada a outra.  Não se organizou como deveria e agora estamos vivendo esse pesadelo todo.

O poder público incentivando essas posturas, a sensação que tenho é de estar secando gelo […] O Brasil está longe de imunizar toda a população, estamos caminhando a passos lentos, a luz no fim do túnel está muito, muito long.”

O SUS é nosso! O SUS é universal e é demanda popular! 

Pensando sobre a importância do SUS, ALQ comenta que:

“Apesar de todas as dificuldades que o SUS enfrenta, é ele que está ali para atender a população de forma integral […] A vacinação no Brasil é responsabilidade do SUS, e abrange toda a população brasileira, chegando nos lugares mais remotos e de difícil acesso.  Que Empresa privada faria isso, de graça??  Isso é o SUS! É um privilégio muito grande poder servir a população, principalmente a população mais carente, o SUS é universal, é para todos, sem qualquer tipo de distinção, é gratuito.  Apesar de todas as dificuldades que o SUS enfrenta, é ele que está ali para atender a população de forma integral. O SUS é o maior sistema público do mundo! O SUS afere a qualidade da água, realiza transplantes, fornece medicação, vacina a população, oferece atendimento primário à população. Se o SUS dá certo todos os dias é graças aos profissionais de saúde que dedicam seu tempo pra atender a população.  O SUS é um sistema robusto, que tem suas falhas, mas defender o SUS é dever de todos nós. Defenda o SUS. Viva o SUS. Valorize o SUS”.

A Agente Comunitária Magali Casanova, também em defesa do SUS diz:

“Precisamos defender o SUS, sem ele estaríamos numa situação muito pior. Viva o SUS!”

O momento em que vivemos é calamitoso, mas com força e união popular poderemos passar por isso. Não nos esqueçamos de quem cuida de nós todos os dias. As verdadeiras heroínas dessa batalha tem nome, famílias, e histórias, sejamos solidários. Obrigada a todas as trabalhadoras do Sistema Único de Saúde, mulheres reais, mulheres de luta.

*Reportagem de Nathália Oliveira, mestranda em história pela UFRGS e militante da Resistência Popular Estudantil de Porto Alegre.




Fonte: Reporterpopular.com.br