Fevereiro 26, 2022
Do Colectivo Libertario Evora
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Carlos Taibo

Divulguei ontem, e divulgaram um punhado de páginas amigas, um artigo em que denunciava o silêncio dos nossos media perante a política que as potências ocidentais puseram em prática nas três últimas décadas em relação à Rússia. Nesse texto sublinhava que Putin não é mais do que uma consequência da agressividade dessas potências, não sem sublinhar, isso sim, que por detrás o que havia era um confronto entre impérios que transformava os povos em meros peões dos estrategas (http://www.carlostaibo.com/articulos/texto/?id=702). A maior parte dos nossos todólogos continua a agarrar-se à ideia de que o mundo ocidental tem sido absolutamente condescendente com Putin. Profundamente morais como somos, nunca erramos…

Hoje é a minha vez de assinalar o que parece óbvio: a intervenção militar russa na Ucrânia é, por um lado, uma loucura e, por outro, uma loucura desprezível. Confessarei que não fui capaz de prever que algo assim pudesse acontecer. Quando, há um mês, me lancei na tarefa de atualizar, com urgência, o livro – “Rússia vs Ucrânia” – que tinha entregue à tipografia em 2014, a minha percepção do que a Rússia se preparava para fazer era a que existia entre os analistas: medir forças para lembrar à NATO que existe e, talvez, e talvez mover as suas peças no leste da Ucrânia com base nos modelos uitlizados da Ossétia do Sul ou da Crimeia.

Existem duas razões que explicam a minha incapacidade de ir mais longe. A primeira é o facto de, na história recente da Europa Central e Oriental, não haver antecedentes do que, para já, parece ser a invasão de um país com 600.000 km2 e quase 50 milhões de habitantes. Perante o que está a acontecer agora – e não excluo certamente surpresas –, o que aconteceu no passado no Transdiestr, na Abcásia, na Ossétia do Sul, no Nagorni-Karabakh ou na própria Chechénia, parecem ser pequenas escaramuças.

A segunda explicação do meu crasso erro de previsão, tem no entanto, uma maior dimensão: embora Putin seja, por muitos ângulos, um personagem lamentável – como são, sem exceções, os nossos governantes -, nunca acreditei que ele fosse estúpido e se deixe levar por impulsos descontrolados. Contudo, a operação militar das últimas horas é protagonizada por um país, a Rússia, que, com uma economia em mau estado e um cenário social calamitoso, se prepara para sofrer sanções duríssimas. Essas sanções podem provocar um genuíno terramoto interno que se pode virar contra Putin e o seu aparelho de poder, com consequências insuspeitadas. Sobre isso, nas últimas horas veio-me à cabeça o que aconteceu com a ditadura militar argentina após a aventura das Malvinas. E penso que tem um peso menor um facto aliás inegável: se dermos como certo que a Rússia continuará a exportar, apesar de tudo, as suas matérias-primas energéticas, e que beneficiará de preços talvez exorbitantes, não parece que isso – e ai está a experiência do que aconteceu desde 2014 – vá permitir que as contas fiquem certas. Por meio, enfim, e aguardemos notícias, será preciso explicar como se controla um país muito grande com uma população maioritária e logicamente hostil.

Não sei se o que acabo de referir será motivo suficiente – duvido – para que Moscovo recue ou que, pelo menos, modere os seus impulsos. Aliás, também não sei qual é o mecanismo de tomada de decisões na Rússia. A maioria dos especialistas assume que tudo é decidido por Putin e por um pequeno grupo de assessores. Por certo que os factos são, no entanto, mais complexos. Imagino, em particular, que muitos dos oligarcas que dirigem o país – é verdade que, em alguns casos, próximos do presidente – estão em alvoroço: sos eus negócios estão visivelmente em perigo. Resta saber como farão eles valer os seus interesses. Gostaria de poder referir também – mal posso fazê-lo – o ascendente, na Rússia e na Ucrânia, de uma resistência popular forte face os jogos de oligarcas, alianças militares e impérios.

Com as coisas assim neste pé, o lema “Não à guerra” contesta com veemência a intervenção militar russa e faz o mesmo com a prepotência e a agressividade dessa organização filantrópica que é a NATO. E reivindica estar do lado daqueles que sofreram no Donbass os bombardeamentos indiscriminados do exército ucraniano, daqueles que sofrem agora a força bruta dos tanques russos e daqueles que, uns poucos, em Moscovo e outras grandes cidades, saíram para as ruas com coragem para deixar claro que os povos têm outra maneira de se relacionarem. Uma maneira que não passa pela guerra.

https://www.carlostaibo.com/articulos/texto/?id=703




Fonte: Colectivolibertarioevora.wordpress.com