Junho 5, 2021
Do El Coyote
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Tava pensando com os meus botões sobre o que escreveria neste mês. Veio o 29 de maio e todas as mobilizações do “Fora Bolsonaro” pelo país e pensei: não vou escrever uma análise sobre as manifestações. Irão pipocar diversas delas e bem qualificadas para pensar esse processo. Ledo engano. Pipocaram artigos analisando o processo, todos eles ignorando a articulação política anterior organizada pela Coalizão Negra por Direitos nos dias 8 e 13 de maio, o 20 de novembro de 2020, a importância das manifestações antirracistas e antifascistas de junho do ano passado.

Antes de tudo, adianto que é necessário manter a unidade construída entre Frente Povo Sem Medo, Frente Brasil Popular, Coalizão Negra por Direitos e outras organizações que não necessariamente compõe essas articulações mais amplas. É a unidade política nas ruas que irá nos fortalecer no duro enfrentamento ao negacionismo do governo Bolsonaro e propiciar sua queda.

Não dá para falar das grandes mobilizações que tomaram o país no último dia 29 de maio sem falar na ação organizada do movimento negro desse país. Qualquer análise que descarte as mobilizações que tomaram o Brasil em 2020 denunciando o aumento das mortes da nossa juventude negra por bala e Covid, como o caso de João Pedro no Rio de Janeiro e tantos outros pelo Brasil. Processo que foi concomitante ao que aconteceu nos EUA com o assassinato de Breonna Taylor e, posteriormente, George Floyd. Foram as primeiras manifestações massivas pontuando o processo de genocídio que vinha sendo tocado pelo governo Bolsonaro. Não, a retomada das ruas não aconteceu em 29 de maio.

Durante todo esse processo da pandemia no Brasil o movimento negro tem sistematicamente denunciado nas redes e nas ruas como a crise sanitária se impõe de forma mais violenta com o sistema racista. A falta de dados sistematizados sobre o impacto da Covid na população negra demonstra o compromisso do governo Bolsonaro e seu apagão de dados em continuar a matar o nosso povo. Foram esses processos que nos fizeram ir para a rua mais uma vez no 20 de novembro, isso e o assassinato brutal de João Alberto Silveira Freitas em um Carrefour em Porto Alegre. Um dos maiores 20 de novembro que tivemos no último período e que enfrentava o negacionismo frente a pandemia e o acirramento de um discurso base do bolsonarista que sempre expôs a nossa vida a violência cotidiana. Não, a retomada das ruas não aconteceu no dia 29 de maio.

Mesmo com a vitória no STF com a ADPF das Favelas do Rio, a polícia continuou a entrar em nossas casas e nos matar durante a pandemia. Não basta nos matar de Covid e fome, precisa da bala. Precisa da chacina como a que aconteceu no Jacarezinho. O genocídio bolsonarista durante a pandemia demonstra qual é seu foco principal. Os não-brancos, negros e indígenas pauperizados por conta da crise generalizada em que nos encontramos no Brasil. 8 e 13 de maio a Coalizão Negra por Direitos ocupou as ruas para gritar contra o governo federal e dizer que é inadmissível sermos mortos pela pandemia, fome ou bala. Denunciamos o genocídio bolsonarista em todo país naqueles dias. Não, a retomada das ruas não aconteceu dia 29 de maio.

29 de maio foi um marco importante. Um marco da soma de outros agentes políticos na retomada das ruas iniciada pelo movimento negro desse país enfrentando o negacionismo e o racismo. É o marco da importante unidade a ser construída para derrotar o projeto político que vem matando a nós populações negras e nossos parentes indígenas no Brasil. Analisar sob esse prisma é fundamental para reconhecermos que o enfrentamento direto ao fascismo e ao bolsonarismo nas ruas foi retomado por diversas organizações do movimento negro cunhando o aprofundamento do genocídio do nosso povo.

A tarefa que está colocada é garantir que essa unidade, sem invisibilização política do processo que nos trouxe a tão importante onda de manifestações políticas do dia 29 de maio que tomou o país. E pontuo esse debate pelo fato de que a invisibilização política significa escolher quais interlocutores e mobilizadores são válidos e quais não são e precisamos superar isso coletivamente. O movimento negro retomou as ruas em 2020 e de lá não saiu até esse momento, apontando a necessidade dessa ocupação para enfrentar a necropolítica que se apoderou do nosso país.

Não, as ruas não foram retomadas do dia 29 de maio. Mas ali se deu marco importante da necessária construção de unidade política entre diversos atores para derrotar e enterrar a política genocida de Bolsonaro. A história e a justiça estão sendo escritas nesse momento em que ocupamos as ruas, escrevemos análises e não podemos cometer os mesmos erros antigos em um momento em limítrofe da luta entre a vida e a morte!

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Fonte: Elcoyote.org