Fevereiro 14, 2022
Do A Inimiga Da Rainha
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Desde que foi estudado pelo sociólogo Max Weber, o protestantismo ganhou várias formas, muitas vertentes, tantas que eu não seria capaz de nomear todas que existem somente no Brasil. Os efeitos na cultura que a ética protestante teve no ocidente, principalmente no mundo anglo-saxão, parece não ter chegado no Brasil, ou, ao menos, não chegou aquilo que foi sua principal marca: a racionalização da vida, mesmo porque até o fim do século passado sua presença era inexpressiva no Brasil.

Contudo, o Brasil do século XXI não pode ser pensado sem a presença massiva das igrejas evangélicas, como é genericamente conhecida. É pouco provável que sua rua ou bairro não tenha pelo menos uma. Aliás, encontramos registro dessa presença desde a década de 90 do século passado, no álbum Sobrevivendo no Inferno (aliás, se você nunca ouviu, provavelmente você não conhece o Brasil), do grupo de rap Racionais MC’s. Esse álbum marca o começo da evangelização da população periférica e negra.

Desde então as igrejas evangélicas (e não o pobre evangélico, é importante diferenciar) vêm ganhando forças e hegemonia religiosa, cultural e ideológica e na última década, tornando-se umas das principais forças políticas com inúmeros representantes na administração pública – haja vista o “terrivelmente evangélico”, André Mendonça no STF – e, principalmente, nas câmaras municipais, assembleias legislativas, câmara dos deputados e no senado, enfim, em todo poder político institucional. Para não deixar dúvidas das intenções políticas, um dos maiores representantes das igrejas evangélicas, Edir Macedo, tratou de expressar seus planos e estratégias políticas no livro Plano de Poder.

Dessa vez, a mais recente investida por parte do setor Evangélico é a Proposta de Lei do vereador evangélico Isnard Araújo que visa mudar o nome de uma das dunas da Lagoa do Abaeté para Monte Santo Deus Proverá. A Lagoa do Abaeté, bem como as dunas, estão historicamente ligadas ao povo e à cultura africana, logo o ato simbólico de mudança de nome dessa região visa o apagamento da presença da cultura negra, um ato de racismo e intolerância religiosa. Como era de se esperar dos políticos profissionais, o projeto foi assinado no dia 10 de fevereiro pelo prefeito Bruno Reis, com isso ele reafirma seu compromisso com os pastores evangélicos e garante a ampliação de seu capital político com os votos que ganhará da comunidade evangélica.

Por outro lado, a comunidade e entidades candomblecistas resistem e protestam contra este ato de violência que se soma a tantos outros sofridos historicamente. Não é apenas uma Duna, o que está em jogo é a história de um bairro e, sobretudo, de um povo, que tem sua memória viva presente na natureza, parte indissociável de sua existência.

Texto: Rafael Almeida
Fotografia: @abaeteviva




Fonte: Ainimiga.noblogs.org