Outubro 10, 2021
Do Jornal Mapa
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O manto da ilusão de estabilidade, paz e progresso, que pontualmente se afirmou na história do século XX europeu, caiu há muito. A sensação que nos percorre não é mais a de nos estar a faltar «algo», mas sim a de nos estar a faltar «tudo». Deixou de haver alguma coisa a perder. Mas essa sensação não é nova. Os deserdados dessa ilusão sempre existiram. Tentou-se escondê-los na cave para não perturbar a fotografia, mas, por vezes, conseguiram sair desse lugar escuro e invadir a festa para a qual não foram convidados. No pós-guerra, alguns dos deserdados mais ruidosos, incómodos e incategorizáveis saíram precisamente dos locais de onde irradiavam as luzes do progresso e da civilização. No final dos anos 60, as ruas de Paris enchiam-se de multidões e de barricadas. O tédio e a letargia que oxigenam o sangue das democracias viam-se abalados por breves momentos e Charles de Gaulle, o presidente francês então em funções, assistia com pavor ao festim de «grupos de revoltados contra a sociedade moderna, contra a sociedade de consumo, contra a sociedade tecnológica, seja ela comunista, a Leste, ou capitalista, a Ocidente – grupos, além do mais, que não sabem o que deviam pôr no lugar dela mas que se comprazem na negação». Aqueles que encontram no próprio acto da destruição «uma volúpia criadora» (Bakunin) e se recusam, por essa razão, a projectar antecipadamente o que erigir no lugar das ruínas, são por excelência os sujeitos que dominam os pesadelos mais aterradores de qualquer forma de autoridade. Aos olhos daquele que governa e que só vê ordem, são selvagens: não se percebe de onde vêm nem se sabe para onde vão.

Não foi preciso muito tempo para que o júbilo da negação voltasse a abalar os bons costumes. No Reino Unido, no final dos anos 70, um bando de insolentes atacava o presente enquanto dizia não haver futuro. Em 1978, com alegre rancor, os Crass gritavam «the Frankenstein monster you created/ Has turned against you now you’re hated» (Reject of Society). Uns anos depois, em 1982, e seguindo o caminho mais metafísico e negro que definiria o Black Metal, os Venom anunciavam, com menos espalhafato que os punks, que «If God won’t have me, then the Devil must» (Raise the Dead). Para além das letras, a estética sonora e visual destes estilos que então se desenhavam revelava um prazer semelhante com a decadência: em gravações absolutamente merdosas misturavam-se instrumentos desafinados, guitarras carregadas de distorção e fuzz, berraria e sujidade. Mais importante, abriam a possibilidade de qualquer zé-ninguém se fechar numa garagem com os amigos e, sem tibiezas, lançar um escarro no mundo de que nunca fizeram parte. A beleza do que exprimiam não vinha da melodia, da harmonia e da mestria técnica, mas sim das cidades a desfazerem-se, do fumo das fábricas e das lixeiras a viciar os céus, do cheiro pútrido dos esgotos a invadir os salões de gala. Punk e Black Metal surgiam como a mesma expressão contraditória de repulsa e paixão por um mundo à beira do abismo.

Algo capaz de chegar a pontos tão extremos não existiu sem incoerências – em alguns casos tão antagónicas que ameaçaram anular toda a força contida nos movimentos imprevisíveis dos dois géneros. Muitos dos deserdados que fizeram a história destes estilos musicais, confundiram o gesto da negação com as suas frustrações pessoais e divergiram do potencial emancipatório da destruição que decidiram abraçar. Em especial no Metal (e muito em particular no Black Metal), mas também no Punk, houve quem julgasse que o racismo, a xenofobia e a homofobia eram formas de fugir do mundo que diziam odiar, quando na verdade só os tornava mais parte desse mundo. Celebrar, hoje, o tumulto que estes estilos causaram implica, por isso, recusar os remédios que alguns dos seus protagonistas nos tentaram impingir e resgatar a denúncia obscena do diagnóstico que ofereceram.

A Amplificasom revela a coragem para separar as águas e tornar inóspito um sítio onde antes se sentiam confortáveis aqueles que nele não têm lugar.

É por não saber distinguir uma coisa e outra que muitos se mostraram ofendidos com o anúncio que a promotora Amplificasom fez no seguimento das eleições presidenciais e da «revelação» de que há 500 mil idiotas no país infectados por uma estirpe muito particular de idiotice. Em comunicado, a promotora do Porto afirmou que «a Amplificasom e o Amplifest são anti-fascistas. Nos nossos eventos NÃO há espaço para fascismo, LGBTfobia, racismo, sexismo ou aporofobia». E, com estrondo, fecharam a porta do festival, deixando de fora os pelintras que sonham fazer um banquete ainda mais exclusivo do que o que já existe mas que ficam muito escandalizados quando são excluídos dos banquetes dos outros. Não negamos que possa haver uma dose de marketing na intenção da promotora. Mas a sua importância deve ser apurada, antes de mais, pelas águas contaminadas em que esta se move. O Amplifest reúne todos os anos bandas de renome mas que, no geral, navegam por algumas das franjas marginais do Metal (e não só). Tal como se disse, o Metal sempre atraiu umas almas perdidas que acharam encontrar ali pasto fértil para o fascismo. Com isso, tentaram sacrificar o espírito de negação – profundamente individualista e anti-totalitário – contido no imaginário de muitos dos estilos que compõem este campo musical; confundiram os despojos do velho mundo de que estes se fizeram com materiais prontos a ser reciclados e usados para erguer fantasias de grandes líderes, sonhos de poder e ódios selectivos. O apocalipse anunciado por muitas destas bandas sempre foi a expressão de um desejo para acabar irremediavelmente com o que existe e existiu – «uma revolta contra o mundo moderno», nas palavras de uma das bandas que integra o cartaz, os Wolves in the Throne Room (WTR). Nunca foi uma fórmula hipócrita para regressar a mundos que desapareceram, nem uma panaceia para recuperar um mundo que definha aceleradamente. Os WTR são, aliás, uma das bandas que mais tem contribuído para destruir os equívocos reaccionários que assolaram o estilo. No universo lírico da banda norte-americana, desenha-se uma ecologia de inclinação anarquista que se eleva contra o antropoceno e resgata-se o espírito niilista para o opor à estupidez misantrópica com que foi deturpado. Com o seu gesto, a Amplificasom revela a mesma coragem para separar as águas e tornar inóspito um sítio onde antes se sentiam confortáveis aqueles que nele não têm lugar.


Ilustração [em destaque] de Ana Farias




Fonte: Jornalmapa.pt