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Nem norte, nem meso, nem sulamericanos…. corpos livres! por Inaê Diana Ashokasundari Shravya


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Não faz sentido -ou melhor, faz, se considerarmos o racismo que constitui a nossa sociedade -, no contexto brasileiro, uma pessoa que se propõe – ou ao menos diz se propor – a realizar a tarefa da descolonização, afirmar uma tal identidade “latino-americana”.

Vejamos: o primeiro termo, o que lhe confere um grau de importância, do nome composto é “latino”. Bom, a maioria da população do Brasil é descendente de nativos que viviam aqui antes da invasão portuguesa e africanos trazidos à força de suas terras para serem escravizados. O que confere ao “latino” tal importância, a ponto de ser mencionado à frente, senão a própria colonialidade, esta sim realizada por latinos, no caso, ibéricos? Já o segundo termo advém duma homenagem feita ao colonizador italiano Américo Vespúcio (1454 -1512). É daí que vem o nome América, e, consequentemente, “americano/a”. A identidade “latino-americana” simplesmente apaga a participação de africanas/os e nativa/os na constituição e edificação deste território. Contudo, até mesmo sobre as identidades “negro” e “índio”, bem como a identidade “branco” é preciso uma reflexão mais apurada. Como pontua Quijano, em seu “Colonialidade do poder, Eurocentrismo e América Latina”,

“Como no caso das relações entre capital e pré-capital, uma linha similar de idéias foi elaborada acerca das relações entre Europa e não-Europa. Como já foi apontado, o mito fundacional da versão eurocêntrica da modernidade é a idéia do estado de natureza como ponto de partida do curso civilizatório cuja culminação é a civilização européia ou ocidental. Desse mito se origina a especificamente eurocêntrica perspectiva evolucionista, de movimento e de mudança unilinear e unidirecional da história humana. Tal mito foi associado com a classificação racial da população do mundo. Essa associação produziu uma visão na qual se amalgamam, paradoxalmente, evolucionismo e dualismo. Essa visão só adquire sentido como expressão do exacerbado etnocentrismo da recém constituída Europa, por seu lugar central e dominante no capitalismo mundial colonial/moderno, da vigência nova das idéias mitificadas de humanidade e de progresso, inseparáveis produtos da Ilustração, e da vigência da idéia de raça como critério básico de classificação social universal da população do mundo.

A história é, contudo, muito distinta. Por um lado, no momento em que os ibéricos conquistaram, nomearam e colonizaram a América (cuja região norte ou América do Norte, colonizarão os britânicos um século mais tarde), encontraram um grande número de diferentes povos, cada um com sua própria história, linguagem, descobrimentos e produtos culturais, memória e identidade. São conhecidos os nomes dos mais desenvolvidos e sofisticados deles: astecas, maias, chimus, aimarás, incas, chibchas, etc. Trezentos anos mais tarde todos eles reduziam-se a uma única identidade: índios. Esta nova identidade era racial, colonial e negativa. Assim também sucedeu com os povos trazidos forçadamente da futura África como escravos: achantes, iorubás, zulus, congos, bacongos, etc. No lapso de trezentos anos, todos eles não eram outra coisa além de negros.

Esse resultado da história do poder colonial teve duas implicações decisivas. A primeira é óbvia: todos aqueles povos foram despojados de suas próprias e singulares identidades históricas. A segunda é, talvez, menos óbvia, mas não é menos decisiva: sua nova identidade racial, colonial e negativa, implicava o despojo de seu lugar na história da produção cultural da humanidade. Daí em diante não seriam nada mais que raças inferiores, capazes somente de produzir culturas inferiores. Implicava também sua relocalização no novo tempo histórico constituído com a América primeiro e com a Europa depois: desse momento em diante passaram a ser o passado. Em outras palavras, o padrão de poder baseado na colonialidade implicava também um padrão cognitivo, uma nova perspectiva de conhecimento dentro da qual o não-europeu era o passado e desse modo inferior, sempre primitivo

Por outro lado, a primeira identidade geocultural moderna e mundial foi a América. A Europa foi a segunda e foi constituída como consequência da América, não o inverso. A constituição da Europa como nova entidade/identidade histórica fez-se possível, em primeiro lugar, com o trabalho gratuito dos índios, negros e mestiços da América, com sua avançada tecnologia na mineração e na agricultura, e com seus respectivos produtos, o ouro, a prata, a batata, o tomate, o tabaco, etc., etc. (Viola e Margolis, 1991). Porque foi sobre essa base que se configurou uma região como sede do controle das rotas atlânticas, por sua vez convertidas, precisamente sobre essa mesma base, nas rotas decisivas do mercado mundial. Essa região não tardou em emergir como Europa. América e Europa produziram-se historicamente, assim, mutuamente, como as duas primeiras novas identidades geoculturais do mundo moderno.

Contudo, os europeus persuadiram-se a si mesmos, desde meados do século XVII, mas sobretudo durante o século XVIII, não só de que de algum modo se tinham autoproduzido a si mesmos como civilização, à margem da história iniciada com a América, culminando uma linha independente que começava com a Grécia como única fonte original. Também concluíram que eram naturalmente (isto é, racialmente) superiores a todos os demais, já que tinham conquistado a todos e lhes tinham imposto seu domínio”.

Não é suficiente derrubar estátuas de colonizadores se mantemos sua homenagem e, não obstante, a reivindicamos como se dissesse respeito a nós. Se ela diz respeito, é no que tange a colonialidade. Sau reivindicação é uma maneira de nos persuadirmos de sua importância, quando ela é efeito da colonização. A questão que deve ser levantada é: como nos tornamos “latino-americanas”? A resposta, ao menos uma delas, se encontra na genealogia de nossas identidades, que vão desde o colonialismo à colonialidade. Achamos que falamos português, mas o que falamos passa longe do português, com leves esbarrões, muitos deles garantidos pela gramática normativa, por instituições sociais. Que língua falamos? Quais línguas não falamos? A aquisição duma linguagem corresponde a uma aquisição de cosmopercepção. Noções como o dualismo natureza-cultura, ativo-passivo, masculino-feminino, homem-mulher, heterossexual-homossexual, encontram embasamento numa determinada cosmopercepção, além de justificar injustiças sociais e opressões.

Pensar – e o pensar é uma prática, não mera contemplação – a descolonização deveria nos possibilitar imaginar outros mundos: Améfrica Ladina com o seu pretuguês, Abya Yala e Pindorama com suas centenas de línguas. Esses mundos já existem, na realidade, embora com muita dificuldade, pois suas existências confrontam direta e indiretamente a colonialidade manifesta na identidade latino-americana. Podemos inventar novos mundos também. A paixão em destruir o mundo exploratório e opressivo é também uma paixão em construir, criar, inventar um novo mundo igualitário, em termos de possibilidades.

Compreender que os nossos corpos, nossas identidades, são construções sociais nos possibilita também compreender que, se são construções, podem ser desfeitas, embora não com uma facilidade, pois até mesmo a seleção de quais elementos descontruiremos passa pela percepção de mundo – e consequentemente, percepção de nós mesmos, enquanto indivíduos e no mundo – que adquirimos ao longo de nossas ações. Daí a importância de nos atentarmos sobre como conduzimos a descolonização, pois a conciliação – como ocorre com a reivindicação da identidade “latino-americana” – é um gesto fácil demais, o que é mais evidente e mais propício de ser aceito.

Enquanto anarquistas, o que nos interessa é ir para além das evidências, dos gestos fáceis, não ceder a qualquer conciliação que nos seja apresentada, mesmo as que tenham uma fachada supostamente revolucionária (como o tal “nacionalismo revolucionário”). E é por este motivo que levantamos os seguintes questionamentos: como nos tornamos “latino-americanas/os”? Como nos tornamos “brasileiras/os”? Como nos parecem verdadeiras e legítimas essas identidades? De que maneira fomos persuadidas a abraçar a nossa colonialidade?




Fonte: Ielibertarios.wordpress.com
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