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NEM TUDO QUE RELUZ É OURO, por Inaê Diana Ashokasundari Shravya


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“Nada no homem – nem mesmo seu corpo – é bastante fixo para compreender outros homens e se reconhecer neles”

Foucault, Nietzsche, a genealogia e a história.

“Eu determino que termine aqui e agora;

 Eu determino que termine em mim, mas não acabe comigo;

Determino que termine em nós e desate

E que amanhã, que amanhã possa ser diferente pra elas

Que tenham outros problemas e encontrem novas soluções

E que eu possa viver nelas, através delas e em suas memórias”

Linn da Quebrada, Oração.

“não apenas não existe um grupo natural chamado mulher (nós lésbicas somos a prova disso), mas, como individuas, também questionamos “mulher” que, para nós—como para Simone de Beauvoir— é apenas um mito”

Monique Wittig, Não se nasce mulher.

Em 1620 foi publicado um panfleto intitulado Haec-Vir em resposta a um outro panfleto intitulado Hic Mulier, também de 1620. O título em latim (“hic mulier”) é um trocadilho, onde “hic” é a forma masculina do pronome aplicada jocosamente ao substantivo feminino “mulier”, podendo ser traduzido como “a mulher-homem”.  Neste, há a condenação da travestilidade, – não confundir com o que diz respeito à travesti no contexto brasileiro – isto é, de qualquer manifestação de alteração do que diz respeito ao gênero designado a alguém no nascimento, bem como dos direitos das mulheres. O panfleto em questão diz respeito a “mulheres” que se vestiam como “homens”, algo que era bem comum na época, mas que para o autor, consistia numa afronta à natureza, a Deus, à scala naturae (“escala da natureza”/ cadeia dos seres) e à sociedade. Nessa época, o uso de vestimentas consideradas masculinas por “mulheres” era comum, o que provocava uma preocupação tanto ao autor do panfleto, quanto aos demais advogadores do conservadorismo social.

Já o panfleto Haec-Vir, cujo título pode ser traduzido como “o homem afeminado”, também consiste num trocadilho, onde o pronome demonstrativo “haec” é aplicado jocosamente ao substantivo “vir” (homem. Daí vem a palavra “viril”, ou seja, que diz respeito ao homem). Neste panfleto, há uma diálogo entre Hic Mulier e Haec-Vir, onde o dândi Haec-Vir confunde Hic Mulier com um cavaleiro. A confusão é desfeita com Haec-Vir acusando Hic Mulier de abjeta, artificial, vergonhosa e estúpida, ao que Hic Mulier responde, primeiramente, com um argumento em prol de sua própria liberdade enquanto ser humano, seguido do relativismo necessário no julgamento de costumes mutáveis. Haec-Vir usa uma condenação à travestilidade expressa no deuteronômio, ao que Hic Mulier responde que, se é assim, também é condenado o próprio Haec-Vir, devido ao seu comportamento afeminado. O panfleto termina com ambos entrando em acordo e voltando aos respectivos papéis de gênero que lhe foram designados pela sociedade patriarcal.

Apesar da resolução ser uma bosta, ambos panfletos demonstram que já havia em 1620 uma discussão em torno dos papéis de gênero e do que se pode compreender como transgeneridade, se por esta categoria compreendemos a superação do binarismo sexual imposto pelo sistema patriarcal. Para o autor de Hic Mulier, as “mulheres” só estavam agindo desta forma, isto é, “agindo como homens”, porque os “homens” não estavam agindo como “homens de verdade”. Contudo, não há nenhuma base biológica para o tal “homem de verdade”, tampouco para uma suposta ‘mulher de verdade”. Tanto “homem” quanto ‘mulher” são categorias sociais, e enquanto tais, possuem historicidade. Dizer, por exemplo, que haviam “homens” e ‘mulheres” no continente africano ou no continente que veio a ser designado “latino-americano” antes da colonização europeia é anacronismo, ou melhor, universalização e naturalização de categorias europeias, categorias que são provinciais, e portanto, dizem respeito tão somente a um determinado local da Europa, não restante do mundo, esse delírio metafísico. Esses povos possuíam outras categorias para se referenciarem socialmente. Algumas autoras africanas, como as nigerianas Bibi Babare-Yusuf e Ifi Amadiume, se propõem a discutir tais categorias, ainda que com certas limitações, como é esperado de qualquer ser humano.

O que hoje se chama de ‘’ideologia de gênero”, delírio da direita, é uma manifestação de conservadorismo social, duma tentativa de manter “os gêneros nos seus devidos lugares”. Isso não passa de delírio metafísico. Não existe gênero no chamado “mundo natural”, bem como não existem ‘macho” ou “fêmea”. Os animais não-humanos, os ecossistemas, são indiferentes às nossas categorizações. Categorizações estas que fazem parte do processo de hominização do ser humano. O gênero é um artifício que criamos para viver em sociedade, para estabelecermos relações entre nós. É a designação de gênero que condiciona a maneira como lidaremos com os nossos corpos, e não os nossos corpos que dirão a que gênero pertencemos. Não há simplicidade nisso. Lembremos de Xica Manicongo, negra escravizada africana trazida do Congo, que no século XVI, aqui, neste território que hoje é chamado de Brasil, foi denunciada à inquisição por se recusar a utilizar roupas “masculinas” e atender pelo nome pelo qual os cristãos lhe batizaram: Francisco Manicongo. Lembremos que entre os Kadewéu, conhecidos por seu ethos belicoso e também por terem sido os primeiros índios a reagir contra a dominação europeia em 1661, atacando a província de Itatim e a missão de Santa Maria de Fé, havia as Kudinas, que possuíam características consideradas femininas, bem como também participavam efetivamente das tarefas atribuídas no contexto da comunidade Kadewéu às mulheres. Além de não sofrerem hostilidade, eram também considerados indivíduos virtuosos e extraordinários dentro de suas comunidades. Já Francisco Rodrigues do Prado, explanando sua percepção de mundo europeísta, relata o seguinte no seu “índios cavalleiros ou da nação Guaycurú”:

“Entre os Guaycurú há homens que aflectam todos os modos das mulheres; vestem se como ellas, ocupam-se em fiar, tecer, fazer panellas &c. A estes chamam cudinas nome que dão a todo animal castrado; e verdadeiramente eles são as meretrizes desta nação, que faz uso do pecado […] “(p.32)

Um outro relato, de João Ignácio da Silva, datado de 1872, diz o seguinte em “Continuação do parecer sobre os índios Uaicuru’s, Guana’s, etc.”:

“Tudo quanto o espirito da luxuria suggeriude libidinoso e depravado a malícia dos homens praticam estes índios, e por cume do excesso, basta dizer que entre Uiracuru’s e Xamicocos ha, ainda que poucos, a que estimam e são estimados a que chamam de Cudinhos, os quaes lhe servem como mulheres, principalmente nas suas longas digressões . Estes Cudinhos ou nefando demonios, vestem-se e se enfeitam como mulheres, fallam como ellas fazem só mesmos trabalhos que ellas fazem, trazem jalatas, ourinam agaxados, tem maridoque zelam muito,e tem constantemente nos braços, prezam muito que os homens os namorem e uma vez cada mez affectam o ridículo fingimento de se supporem menstruação, não comendo como as mulheres n’aquella crise, nem peixe nem carne, mas sim algum fructo e palmito; indo todos os dias como ellas praticam ao rio com uma cuya para lavarem, ao suposto tanque da sua jalata.” (p.358)

Historiadores e antropólogos, ao relatarem a existência das Kudinas, a correlacionaram à homossexualidade – como foi o caso de Darcy Ribeiro , o que, por sua vez, apagava as características próprias de Kudinas. A correlação entre Kudinas e homossexuais é decorrente uma percepção de mundo europeísta que concebe a heterossexualidade como o normal. Compreender a categoria Kudinas dentro da percepção de mundo Kadewéu exige um desmantelamento da suposta universalidade das categorias europeias. Daí, quando passamos a compreender as problemáticasenvolvendo a aplicação dessas categorias sociais, pertencentes a uma determinada realidade duma determinada sociedade a outras, quando passamos a atribuir historicidade a estas categorias, começamos a compreender que as coisas não são tão evidentes como imaginávamos. Dito de outra forma, teorias, conceitos e concepções são construções sociais. Há por trás delas o cunho ideológico que lhes dão suporte. Como nos diz Foucault, “pensamos em todo caso que o corpo tem apenas as leis de sua fisiologia, e que ele escapa à história. Novo erro; ele é formado por uma série de regimes que o constroem; ele é destroçado por ritmos de trabalho, repouso e festa; ele é intoxicado por venenos – alimentos ou valores, hábitos alimentares e leis morais simultaneamente; ele cria resistências”. O corpo, sua realidade, não é um dado bruto, imutável, sua suposta evidência é uma ficção. Segundo Tânia Navarro Swain, no seu artigo “Por um saber libertário para além das evidências”, “os discursos sobre a diferença sexual e a natureza binária do humano não passam de discursos políticos que asseguram assujeitamentos lá onde poderia haver liberdade de ser, que asseguram a norma e seu estilete de punição, lá onde poderia haver o prazer da descoberta”. Se as Kudinas viviam como “mulheres” – e a própria categoria “mulher” é insuficiente para descrever a condição das “mulheres” Kadewéu, pois implica um certo conjunto de atributos que talvez para o povo Kadewéu fosse irrelevante , é porque elas eram consideradas “mulheres”. Contudo, como a nossa percepção de mundo patriarcal toma como referência os órgãos genitais, se torna “impossível” conceber as Kudinas como “mulheres”, o que nos leva a considerá-las como “homossexuais”, quando o que importava era exatamente a posição social ocupada. Seria necessário compreender como se dá o tornar-se um corpo feminino entre o povo Kadewéu, em vez de nos pautarmos numa suposta evidência dos corpos, aplicando uma forma de classificação que diz respeito a uma realidade social duma determinada sociedade a outra. A aquisição duma linguagem implica a aquisição de uma forma de perceber o mundo. Nossa linguagem é binária e, por conta disso, a nossa forma de perceber o mundo é binária e pautada na sexualidade. O determinismo biológico não passa de um delírio metafísico, utilizado na maioria das vezes para justificar racismo e sexismo.

Diferentemente do que alegou um certo “marxista autogestionário”, cuja escrita não passa dum punhado de quinquilharias abarrotadas em verborragia pedante e reacionária – e como bem diz Lima Barreto: “o doutor burro é mais pedante que o doutor inteligente e lustrado”-, a “ideologia de gênero” não foi criada pela filosofa Judith Butler, tampouco por ativistas transgênero. Ela é uma reação do conservadorismo social face às novas expressões de gênero. O gênero é mais fluido do que parece. Não existe um determinismo biológico que diz sobre nós mais do que o sistema social no qual nos encontramos inseridas e inseridos. É preciso escapar às análises fáceis, experimentarmos o desconforto da reflexão honesta, ensaiarmos uma mudança, inclusive na forma como narramos nossas opressões, como as analisamos e as explanamos, pois, se não nos atentarmos  à forma como as narramos, podemos naturalizá-las. Ou como nos diz Bibi Bakare-Yusuf em seu Beyond determinism: the phenomenology of African female existence, “se assumirmos que as mulheres são automaticamente vítimas e os homens vitimizadores, caímos na armadilha de confirmar os próprios sistemas aos quais propusemos criticar. Falhamos em reconhecer como agentes sociais podem desafiar de maneiras complexas as suas posições e identidades atribuídas e, indiretamente, ajudamos a reificar ou totalizar instituições e relações opressivas. Ao invés de ver o patriarcado como um sistema fixo e monolítico, seria mais útil mostrar como o patriarcado é constantemente contestado e reconstituído”. Essa mesma compreensão deve ser aplicada ao capitalismo, entendendo como se dão as novas formas de trabalho, bem como estas se relacionam com gênero e raça. “O que importa precisamente”, nos diz Proudhon, “sobretudo ao historiador-filósofo, é observar como o povo se prende a certas ideias, mais que a outras, generaliza-as, desenvolve-as à sua maneira, faz delas instituições e costumes que segue tradicionalmente até que elas caiam em mãos de legisladores e justiceiros, que lhe fazem, por sua vez, artigos de lei e regras para os tribunais”. É preciso entender “como”, não o metafísico “porque”. Afinal de contas, como bem pontua Luce Fabbri no texto “De ontem para hoje”: “a vida desliza por entre as malhas das construções teóricas, escapa às classificações e nega a cada passo as generalizações e as sínteses. Sentir cada multiplicidade significa sentir o valor que para a vida tem a liberdade, que torna possível a variedade infinita”. 

É preciso descolonizarmos a nossa própria linguagem, repensar criticamente cada aspecto do nosso cotidiano, compreender como nos tornamos o que somos. Sobre a descolonização, Ramnath, em seu Decolonizing anarchism, nos diz que “nenhuma cultura é tão homogênea ou estática como as tradições inventadas do nacionalismo. A realidade pré-colonial era dinâmica, multifacetada, e também horrível para algumas pessoas. A descolonização da cultura não deveria significar um rebobinamento a uma condição original “pura” mas, em vez disso, uma restauração da capacidade artificialmente atrofiada de crescer e evoluir livremente sem interferência externa forçada para restringir o espaço de potencial”. Mas a tarefa da descolonização – me apropriando duma fala pertinente do Foucault – “não é mudar a ‘consciência’ das pessoas, ou o que elas têm na cabeça, mas o regime político, econômico, institucional de produção da verdade. Não se trata de libertar a verdade de todo sistema de poder – o que seria quimérico na medida em que a própria verdade é poder -, mas de desvincular o poder de verdade das formas de hegemonia (sociais, econômicas, culturais), no interior das quais ela funciona no momento”.

E se quiséssemos alargar mais a discussão, poderíamos lançar um questionamento para refletirmos sobre: a custo de quê nos definimos como “homens” e “mulheres”?




Fonte: Ielibertarios.wordpress.com
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