Junho 19, 2022
Do Jornal Mapa
263 visualizações

Numa semana em que foi noticiada a discriminação no acesso a medicina em faculdades portuguesas entre estudantes ucranianos e alunos de outras nacionalidades fugidos da guerra, eis uma conversa com estudantes marroquinas da universidade de kharkiv que se refugiaram na Alemanha.

As três refugiadas marroquinas que conhecemos em Berlim atravessaram toda a Ucrânia e a Eslováquia para se refugiarem na Alemanha. Fugiram de Kharkiv quando a cidade já estava há quatro dias sob bombardeamento do Exército russo. Quando pensavam que tinham deixado para trás o inferno da guerra e da discriminação, começou a travessia na burocracia alemã… Ao longo da entrevista, elas não falam apenas a partir do lugar do seu estatuto de estrangeiras ou da sua condição de mulher, nem apenas a partir da circunstância da sua origem cultural árabe ou da opção de vida de pertencerem à comunidade LGTB. Falam a partir de um idioma tão próprio e honesto que ultrapassa não só os estereótipos hegemónicos, mas também aqueles que não raras vezes permeiam de contradições o discurso ideológico que atravessa a autorepresentação desses universos invisibilizados. Nadas e criadas em Marrocos, Amy (28 anos), Eazy (24) e Smile (22), nomes fictícios, estavam há três anos a estudar na área de medicina da Universidade de Kharkiv, a escassos 45 km da Rússia, quando a guerra estalou… Depois de um desgastante percurso de evasão pela fronteira da Eslováquia e de esbarrarem na burocracia germânica – será um must? –, estão provisoriamente em Berlim. À última hora, Smile acabou por não participar da entrevista por ter arranjado trabalho no própria dia em que a conversa decorreu, mas esteve omnipresente no desfiar do novelo das colegas. Não percamos o fio à meada da história. A fala a Amy e a Eazy.

Que memória guardam dos primeiros dias do estalar da guerra em Kharkiv?

Amy: Acordei de madrugada com barulho mas imaginando que não era nada de mais. Adormeci até que alguém bateu à porta do meu quarto e quando abri, e espreitei o corredor do dormitório [da universidade], todas as portas estavam abertas, todos estavam assustados ou a chorar, e o que eu vi foi o medo estampado no rosto, sem saber o que se passava. Eram 5:00 ou 5:30 da manhã. Alguém perguntou: “Tu já foste à janela? Já viste o que está a acontecer?”. Quando fui à janela vi que todas as pessoas estavam a deixar a cidade, filas intermináveis de carros, o tráfico era absurdo… Bem, esta foi a primeira impressão, bem no começo… passado um pouco, ainda antes de começarmos a ouvir os obuses, a zeladora do dormitório veio avisar-nos para irmos para o abrigo… bem, forçando toda a gente a sair…

Quantos dias ficaram no bunker?

Eazy: Hum… quatro dias…

Amy: …mas logo no primeiro dia percebemos que tínhamos de sair quando vimos que não tínhamos água suficiente. Nós tínhamos comida, mas faltava água… e isso tornou-se um drama… já estávamos em recolher obrigatório e tivemos de esperar até poder sair… e nas ruas era o caos, pessoas em escaramuças, outras desesperadas por não conseguirem retirar o seu dinheiro dos ATM’S, as filas à porta do super-mercado eram intermináveis…

Eazy: E depois de chegarmos com água ao bunker do dormitório, um par de horas depois disseram-nos que tínhamos de ir para o abrigo nos subterrâneos do metro…

Amy: E fomos, claro. Terrível. Os mísseis explodiam e mesmo dentro do metro caía pó por todo o lado. Ainda bem que tínhamos máscaras [risos] por causa da pandemia.

Conseguem descrever o dia-a-dia no abrigo?

Eazy: No dia 24 e 25 [de Fevereiro], os bombardeamentos tinham interrupções, havia momentos de pausa, uma, duas horas para as pessoas poderem sair dos abrigos, mas a 26, 27 e 28, foi imparável! Tínhamos indicações para não ligar as luzes à noite, para desligar o GPS, não fazer posts no Tiktok ou Instagram… mas toda a gente fazia… Depois, já não bastava a guerra, começam as histórias horríveis… no dia 26 começa a haver escassez de água, a água das torneiras não é própria para beber em Kharkiv, toda a gente tem de ir à rua buscar água à «máquina» [disponíveis na via pública nas ruas e bairros da cidade], e a partir desse dia, soubemos que criminosos começaram a controlar o abastecimento de água, que houve tiroteio, que dispararam contras as pessoas e que algumas morreram… Aliás, bandos de criminosos começaram a ameaçar as pessoas, passaram a entrar na casa das pessoas, «vão para os abrigos que nós tomamos conta da sua casa!»

Como é que viveram a reacção da população local à invasão do Governo russo?

Amy: Foi chocante, absolutamente chocante. Era como se eles estivessem adormecidos… os ucranianos não tinham qualquer ideia de que a guerra ia acontecer. Nós, basicamente, sabíamos dos riscos, ouvíamos as notícias de mais do que uma fonte, nós tentávamos dizer às pessoas há um risco de conflito, por favor, prestem atenção, «Ah, não, a Rússia sempre foi assim! Ah, não, isso é o Ocidente! Ah, não, isso é na vossa mente!…», era como se nada se passasse na mente deles… até que se escutam os obuses, os bombardeamentos, tanques e militares nas ruas… e agora? O chocante era constatar que nem a dúvida parecia existir na cabeça deles…

Eazy: Seria um medo inconsciente? Eles respondiam sempre: «Nada se vai passar, a Ucrânia é um lugar seguro» e seguiam a sua vida normal como se nada fosse… as pessoas da rua, da secretaria da universidade, os nossos professores… até que a guerra estala e de repente vês o medo, toda a gente aterrada, sem saber o que fazer… os rapazes de 15, 16 anos, eles estavam no abrigo cheios de medo… porque sabiam que se saíssem podiam ser obrigados a fazer parte do corpo de voluntários da defesa territorial.

Como foi a interacção com os locais?

Amy: Houve pessoas de prédios à volta que vieram para o nosso bunker e tu estás no meio de bombas a cair, estás num bunker que não é como os que mostram na TV, estás numa situação em que podes morrer, e vês e ouves alguém dizer «este sítio aqui está reservado, é para mim e para o meu amigo», depois de ouvires isso não ficas com muita vontade de te aproximar, para dizer «olha estamos juntos», for God’s sake!

Eazy: Eles não faziam a mínima ideia, nós fomos avisadas do que podia acontecer. Além das notícias, toda a comunidade internacional de estudantes recebeu aviso das suas embaixadas para abandonar a Ucrânia até ao dia 16 de Fevereiro… depois recebemos um segundo aviso… até dia 20 de Fevereiro… e nesse último aviso a embaixada de Marrocos referia que a partir dessa data não se podia responsabilizar pela segurança dos seus cidadãos… a maioria dos estudantes já tinha ido embora… e ainda escutámos um professor: «Ó! Porque vocês têm medo? Vocês vêm de um país árabe não deviam ter medo!».

Por falar em estereótipos, houve relatos de abusos racistas e de discriminação sobre refugiados não brancos que tentavam atravessar a fronteira na Polónia, Roménia, Hungria… Sofreram ou observaram este tipo de discriminação?

Eazy: Desde o primeiro momento da evacuação, na estação de comboios de Kharkiv, o primeiro lugar era para quem tivesse passaporte ucraniano, mulheres e crianças, sobretudo. Fizeram duas ou três filas de espera só para ucranianos poderem entrar nos comboios, e a polícia controlava, apenas deixando embarcar quem fosse ucraniano. E os estudantes internacionais começaram a disputar entre si quem vai entrar e quem não vai nos comboios seguintes, e, em última instância, entram os mais fortes [suspiros].

Como viveram essa circunstância…

Eazy: Bom, nós sofremos, sim. No primeiro ano em Kharkiv, a minha irmã, só por usar o lenço, foi agredida por um homem na rua, a caminho da universidade, que lhe deu uma cotovelada e, como ela não caiu, voltou a agredi-la para ela cair no chão. E ninguém fez nada, nem um polícia que ali estava… e ainda riram… e na estação de comboios… sim, eu senti…

Amy: Como não sentir? Nós somos todos humanos, estamos todos a fugir da guerra, abram os comboios para todos ou então não abram para ninguém! Como não fazer isso?

Eazy: No compartimento onde fomos, estava um marroquino e ele disse-nos que entrou porque estava com a namorada ucraniana de origem russa…

Amy: E havia ainda a babushka [avó] ucraniana… ela tentava ser um bocado má connosco, mas coitada, só teve tempo de trazer os documentos e os medicamentos… e ficou dependente de nós para poder comer…

Eazy: Sim, realmente, a comida resolve tudo… no bunker do dormitório, foi a mesma coisa… Depois de lhes oferecermos comida, passavam a tratar-nos bem…

Amy: Os locais não estavam preparados, nós tínhamos reservas de comida por precaução… e claro, quisemos ajudar, havia crianças, trouxemos comida… e bom, aí já passas a existir…

Eazy: Mas atenção, também testemunhámos episódios de solidariedade… lembras-te daquele estudante também marroquino que estava desesperado, a chorar, sozinho, nas escadas da biblioteca? E uma ucraniana foi ter com ele, perguntar-lhe se precisava de ajuda, o que podia fazer por ele… Há de tudo, como em todo o lado. Quando decidimos ir embora, ligámos para a central de táxis e para números privados, pediam 500€ para nos levarem à estação central… Uma viagem que antes custava 60 hryvnia [cerca de 2€]…! E assim foi, tivemos de pagar 450€ para nos levarem do dormitório à estação de Kharkiv. Também nos fizeram a proposta: 5 mil dólares e vamos levá-las à fronteira. E depois na fronteira, outra vez a mesma história: passam primeiro as ucranianas e nós tivemos de esperar horas e horas…

Amy: Podia ter sido pior… soube que dois colegas meus africanos que morreram de hipotermia na fronteira polaca, três dias e três noites na rua… aos cidadãos ucranianos ninguém os deixava na rua a dormir…

Políticos e media «mainstream» descreveram a Ucrânia como uma sociedade «civilizada». Esta significação não está a querer dizer-nos que os ucranianos, ao contrário dos sírios, dos afegãos, dos iraquianos, dos palestinianos…. são mais merecedores da nossa simpatia do que as pessoas que vêm de países não europeus fugindo à guerra?

Amy: Claro que sim… mas não sei como expressar em palavras a minha opinião… bem, primeiro que tudo, isto são os media, é um discurso dos media e não das sociedades… mas na minha opinião, não se trata de uma questão entre brancos e negros, mas há a questão religiosa, há o preconceito contra o Islão e há neste caso esta identificação religiosa, «ah, é um país cristão, vamos ajudar, vamos ser solidários com os nossos irmãos…». Eu gostava que as pessoas entendessem que somos todos humanos, nada mais nem nada menos, tu não escolhes onde nasces, criamos categorias e padrões culturais que nos afastam… mas, ao mesmo tempo, eu estou feliz de ver tanta solidariedade na Europa…

Eazy: Na verdade, apesar dos episódios discriminatórios, nós estamos aqui e muita gente nos está a ajudar, é maravilhoso!

Amy: É verdade! E podemos ver o outro lado da questão, entre sociedades árabes, Eazy, se tu quisesses acolher um refugiado sírio em tua casa…

Eazy: Ah não, o meu pai ia dizer, tu és louca? Ia matar-me a mim antes de o matar a ele [risos].

Amy: É toda uma outra história…

Entrevista realizada por Júlio do Carmo Gomes
VADIO.ENVIADEVIR@GMAIL.COM




Fonte: Jornalmapa.pt