Março 4, 2022
Do Colectivo Libertario Evora
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A invasão russa da Ucrânia apanhou grande parte do mundo de surpresa. É um ataque não provocado e injustificado que ficará na história como um dos maiores crimes de guerra do século 21, argumenta Noam Chomsky nesta entrevista exclusiva para a revista Truthout. Motivações políticas, como as referidas pelo presidente russo Vladimir Putin, não podem ser usadas como argumento para justificar o inicio de uma invasão contra uma nação soberana. No entanto, diante dessa horrível invasão, “os Estados Unidos devem optar urgentemente pela diplomacia” em vez da escalada militar, já que esta poderia constituir uma “sentença de morte para a espécie humana, sem vencedores”, diz Chomsky.

CJ Polychroniou: Noam, a invasão russa da Ucrânia apanhou a maioria das pessoas de surpresa e causou grande agitação em todo o mundo, embora muitos elementos indicassem que Putin estava bastante preocupado com a expansão da OTAN para o leste e a determinação de Washington de não levar a sério as suas exigências sua segurança de não se ultrapassar a  “linha vermelha” em relação à Ucrânia. Por que é que acha que ele decidiu começar uma invasão neste momento?

Noam Chomsky: Antes de responder à pergunta, devemos referir alguns fatos que são incontestáveis. O mais crucial é que a invasão russa da Ucrânia é um grave crime de guerra comparável à invasão norte-americana do Iraque e à invasão de Hitler-Stalin da Polónia. em setembro de 1939, para citar apenas dois exemplos relevantes. É razoável procurar explicações, mas não há justificação ou atenuante.

Voltando à questão, há uma profusão de opiniões convincentes sobre a mente de Putin. O relato mais comum é que ele está tomado por fantasias paranóicas, agindo sozinho, cercado por  humildes cortesãos como os que encontramos aqui no que resta do Partido Republicano que viaja para Mar-a-Lago (1) à procura da aprovação do Líder.

A avalanche de hipóteses pode estar correta, mas talvez devam ser consideradas outras possibilidades. Talvez Putin tenha querido dizer o que ele e seus aliados vêm a dizer alto e bom som há anos. Pode ser, por exemplo, que “dado que a principal exigência de Putin é a garantia de que a NATO não aceitará mais membros, e em particular a Ucrânia ou a Geórgia, obviamente não haveria nenhuma motivação para a crise atual se não tivesse havido uma expansão da aliança atlântica após o fim da Guerra Fria ou se a expansão tivesse acontecido de acordo com a construção de uma estrutura de segurança na Europa que incluísse a Rússia”. O autor dessas palavras é Jack Matlock, ex-embaixador dos EUA na Rússia, um dos poucos especialistas em Rússia existentes no corpo diplomático dos EUA; ele escreveu estas palavras pouco antes da invasão.Ele continua e conclui que a crise “pode ser facilmente resolvida aplicando o bom senso… De qualquer ponto de vista, o senso comum sugere que os Estados Unidos estão interessados ​​em promover a paz, não o conflito. Tentar livrar a Ucrânia da influência russa – o objetivo declarado daqueles que provocaram as “revoluções coloridas” – era uma missão absurda e perigosa. Esquecemos tão cedo a lição da crise dos mísseis cubanos?”

Mattlock não está sozinho. Nas memórias do chefe da CIA William Burns, outro dos poucos verdadeiros especialistas na Rússia, chega-se às mesmas conclusões sobre as questões de fundo. A posição ainda mais firme do [diplomata] George Kennan recebeu ampla cobertura mais tarde, sendo também apoiada pelo ex-secretário de Defesa William Perry e, fora das fileiras diplomáticas, pelo notável académico de relações internacionais John Mearsheimer e inúmeras figuras que dificilmente poderiam ser mais convencionais .

Nada disto é novo. Documentos internos dos EUA divulgados pelo WikiLeaks revelam que a oferta imprudente de Bush II à Ucrânia para se juntar à NATO provocou duras advertências da Rússia de que a expansão da ameaça militar era intolerável. É compreensível.

A propósito, também podemos tomar nota daquele estranho conceito de “esquerda” que regularmente sai para vilipendiar “a esquerda” pelo seu insuficiente ceticismo sobre a “linha do Kremlin”…

A verdade é que, para sermos sinceros, não sabemos porque é que a decisão foi tomada, nem mesmo se foi tomada apenas por Putin ou pelo Conselho de Segurança russo no qual ele desempenha o papel principal. Existem, no entanto, algumas coisas que sabemos bastante bem, incluindo documentos analisados ​​com algum detalhe pelas pessoas que acabei de citar, que ocuparam altos cargos no sistema de planeamento. Em suma, a crise vinha fermentando há 25 anos, enquanto os Estados Unidos menosprezavam com desprezo as preocupações de segurança da Rússia, particularmente as suas linhas vermelhas bem definidas: a Geórgia e especialmente a Ucrânia.

Há boas razões para acreditar que esta tragédia poderia ter sido evitada até o último minuto. Já discutimos isso antes, repetidamente. Quanto ao motivo pelo qual Putin iniciou a agressão criminosa neste momento, podemos especular quanto quisermos. Mas o pano de fundo imediato não é claro; evita-se, mas não se discute.

É fácil perceber que aqueles que sofrem as consequências consideram de uma tolerância inaceitável perguntar por que aconteceu e se poderia ter sido evitado. É compreensível, mas é errado. Se quisermos responder à tragédia de uma maneira que ajude as vítimas e evite catástrofes ainda piores, é prudente e necessário aprender tudo o que pudermos sobre o que saiu errado e como poderia ter sido corrigido. Gestos heróicos podem ser recompensadores. Mas não são úteis.

Como tantas outras vezes, lembro-me de uma lição que aprendi há muito tempo. No final da década de 1960, participei num encontro na Europa com alguns representantes da Frente de Libertação Nacional do Vietname do Sul (o ‘Vietcongue’, no jargão americano). Foi durante o breve período de intensa oposição aos terríveis crimes dos EUA na Indochina. Alguns jovens estavam tão furiosos que pensaram que a reação era a única resposta adequada às monstruosidades que aconteciam: partir janelas nas principais avenidas, bombardear uma instalação do Corpo de Treino de Oficiais da Reserva. Fazer qualquer outra coisa equivalia a ser cúmplice de crimes terríveis. Os vietnamitas viam as coisas de forma muito diferente. Eles opuseram-se fortemente a todas estas manifestações. E apresentaram o seu modelo de protesto efetivo: algumas mulheres de pé rezando em silêncio junto dos túmulos de soldados americanos mortos no Vietname . Não lhes interessava o que os americanos que se opunham à guerra faziam para se sentirem justos e respeitáveis. Eles queriam sobreviver.

É uma lição que ouvi muitas vezes, de uma forma ou de outra, das vítimas de sofrimentos horríveis no hemisfério sul, o principal alvo da violência imperial. Uma lição que devemos levar a sério, adaptada às circunstâncias. Hoje, isso significa um esforço para entender porque é que esta tragédia aconteceu e o que poderia ter sido feito para evitá-la, e aplicar essas lições ao que acontecer mais tarde.

A questão é de fundo. Não há tempo para discutir aqui este assunto de vital importância, mas, uma e outra vez, a reação a uma crise real ou imaginária tem sido o puxar a arma em vez do ramo de oliveira. É quase uma atitude instintiva, e as consequências geralmente são terríveis para as vítimas habituais. Vale sempre a pena tentar entender, antecipar um pouco as possíveis consequências da ação ou da inação. São truísmos, é claro, mas vale a pena insistir porque são facilmente esquecidos em momentos de arrebatamento.

Que opções existem?

As opções que existem depois da invasão são assustadoras. O menos mau é o apoio às opções diplomáticas que ainda existem na esperança de alcançar um resultado semelhante ao que era muito provável ter-se podido alcançar há alguns dias: a neutralização da Ucrânia ao estilo austríaco, uma versão do federalismo de Minsk II . É muito mais difícil de conseguir agora. E – necessariamente – com uma via de escape para Putin, ou o resultado será ainda mais terrível para a Ucrânia e para o mundo inteiro, talvez além do inimaginável.

É muito injusto. Mas quando é que a justiça prevaleceu nos assuntos internacionais? É necessário rever a história atroz mais uma vez?

Goste-se ou não, as opções agora estão reduzidas a um desenlace  que recompensa, em vez de punir, Putin pelo acto de agressão ou pela forte possibilidade de uma guerra terminal. Pode parecer recompensador encurralar o urso num canto a partir do qual ele possa atacar de forma desesperada. Mas não é sensato.

Entretanto, devíamos fazer todos os possíveis para oferecer um apoio significativo a quem defende de forma corajosa a sua pátria contra uma agressão cruel, a quem escapa dos horrores e aos milhares de russos corajosos que se opõem publicamente ao crime do seu Estado assumindo grande risco pessoal e que é uma lição para todos.

E também devemos tentar encontrar formas de ajudar um tipo mais geral de vítima: todas as espécies que habitam a Terra. Esta catástrofe ocorre num momento em que todas as grandes potências, e de facto todos nós, devemos trabalhar juntos para controlar o grande flagelo da destruição ambiental que já nos está a cobrar um preço desastroso e em breve será muito pior se não forem feitos grandes esforços rapidamente. Para dizer o óbvio, o Grupo Intergovernamental de Peritos sobre Mudanças Climáticas (IPCC) acaba de publicar a mais recente e mais ameaçadora das suas avaliações periódicas sobre como estamos caminhando para a catástrofe.

Enquanto isso, as medidas que devem ser tomadas estão paralisadas, até mesmo regredindo, porque os recursos necessários são destinados à guerra, e o mundo caminha no sentido de aumentar o uso de combustíveis fósseis, incluindo o carvão, que é o mais perigoso, mas também o mais abundante.

Um demónio malévolo dificilmente poderia conceber uma conjuntura mais grotesca. Não se pode ignorar. Cada momento conta.

A invasão russa é uma clara violação do Artigo 2(4) da Carta da ONU, que proíbe a ameaça ou o uso da força contra a integridade territorial de outro Estado. No entanto, durante o seu discurso de 24 de fevereiro, Putin tentou apresentar fundamentos legais para a invasão, e a Rússia cita o Kosovo, o Iraque, a Líbia e a Síria como provas de que os Estados Unidos e seus aliados violam repetidamente a lei internacional. Pode comentar os fundamentos jurídicos apresentados por Putin para a invasão da Ucrânia e a situação do direito internacional na era pós-Guerra Fria?

Não há nada a dizer sobre a tentativa de Putin de procurar uma base legal para a sua agressão. O seu mérito é nulo.

É verdade que os Estados Unidos e os seus aliados violam a lei internacional sem pestanejar, mas isso não oferece nenhuma atenuante para os crimes de Putin. No entanto, o Kosovo, o Iraque e a Líbia tiveram influência direta no conflito na Ucrânia.

A invasão do Iraque foi um exemplo clássico dos crimes pelos quais os nazistas foram enforcados em Nuremberga, uma pura agressão não provocada. E um murro na cara da Rússia.

No caso do Kosovo, a agressão da NATO (isto é, a agressão dos EUA) foi declarada “ilegal, mas justificada” (por exemplo, pela Comissão Internacional do Kosovo presidida por Richard Goldstone) com o fundamento de que o bombardeamento foi realizado para colocar um fim às atrocidades que estavam a acontecer. Essa declaração exigiu a reversão da cronologia. As provas de que a onda de atrocidades foi uma consequência da invasão são esmagadoras: previsível, prevista, antecipada. Além disso, havia opções diplomáticas disponíveis; como sempre, foram ignorados em favor da violência.

Autoridades de alto nível dos EUA confirmam que foi sobretudo o bombardeamento da Sérvia, aliada da Rússia – sem sequer informá-los de antemão – que fez descarrilar os esforços russos de colaborarem de algum modo com os Estados Unidos na construção de uma ordem de segurança europeia, posterior à Guerra Fria, um retrocesso que foi acelerado pela invasão do Iraque e pelo bombardeamento da Líbia depois da Rússia ter concordado em não vetar uma Resolução do Conselho de Segurança da ONU que a NATO violou imediatamente.

Os acontecimentos têm consequências; contudo, os fatos podem estar ocultos dentro do sistema dogmático.

O estatuto do direito internacional não mudou no período posterior à Guerra Fria, nem sequer nas palavras, muito menos nos actos. O presidente Clinton deixou claro que os Estados Unidos não tinham intenção de respeitá-lo. A Doutrina Clinton afirmava que os Estados Unidos se reservavam o direito de agir “unilateralmente quando necessário”, incluindo o “uso unilateral do poder militar” para defender interesses vitais como “garantir acesso livre a mercados-chave, fornecimento de energia e recursos estratégicos”. O mesmo fizeram os seus sucessores, e qualquer um que possa infringir a lei impunemente.

Isso não quer dizer que o direito internacional não tenha valor. Tem uma gama de possibilidade de ser aplicado e é um padrão útil em alguns aspectos.

O objetivo da invasão russa parece ser derrubar o governo Zelensky e instalar um governo pró-russo no seu lugar. No entanto, aconteça o que acontecer, a Ucrânia enfrenta um futuro sombrio por causa da sua decisão de se tornar um peão nos jogos geoestratégicos de Washington. Nesse contexto, até que ponto as sanções econômicas podem levar a Rússia a mudar a sua posição sobre a Ucrânia? Ou as sanções econômicas visam algo mais vasto, como minar o controle de Putin na Rússia e os laços com países como Cuba, Venezuela e possivelmente até a própria China?

A Ucrânia pode não ter tomado as melhores decisões, mas não tinha nada parecido com as opções que tinham os estados imperiais. Suspeito que as sanções tornarão a Rússia ainda mais dependente da China. A menos que mude seriamente de rumo, a Rússia é um estado petrolífero cleptocrata dependente de um recurso que deve ser drasticamente reduzido ou estaremos todos acabados. Não está claro se o seu sistema financeiro consegue resistir a um forte ataque, por meio de sanções ou outros meios. Mais uma razão para lhe oferecer uma porta de saída, ainda que com um esgar.

Os governos ocidentais, os principais partidos da oposição, incluindo o Partido Trabalhista no Reino Unido, e os media corporativos embarcaram numa campanha chauvinista anti-russa. Os alvos incluem não apenas oligarcas russos, mas também músicos, maestros e cantores, e até donos de equipas de futebol como Roman Abramovich, do Chelsea. Após a invasão, a Rússia chegou a ser proibida de participar na Eurovisão em 2022. É a mesma reação que os media e a comunidade internacional em geral demonstraram em relação aos Estados Unidos após a sua invasão e posterior destruição do Iraque ou não?

A sua pergunta irónica é muito apropriada. E podemos continuar por caminhos já muito conhecidos.

Acha que a invasão dará início a uma nova era de confronto contínuo entre a Rússia (e possivelmente em aliança com a China) e o Ocidente?

É difícil dizer onde vão cair as cinzas, e isto pode não ser uma metáfora. Até agora, a China está agindo com cautela, e é provável que tente realizar o seu vasto programa de integração económica de grande parte do mundo no seio de seu sistema global em expansão – no qual, há algumas semanas, incorporou a Argentina à iniciativa Belt and Route –, enquanto observa como os rivais se destroem entre eles.

Como mencionámos anteriormente, o confronto é uma sentença de morte para a espécie, sem vencedores. Estamos num momento crucial da história da humanidade. Não se pode negar. Não se pode ignorar.

C.J. Polychroniou 1/03/2022

(1) Resort de luxo na Flórida, propriedade de Donald Trump que o usou como escritório não oficial quando ocupou a presidência dos Estados Unidos

Esta entrevista foi conduzida por CJ Polychroniou ( cientista político/economista político, escritor e jornalista) foi originalmente publicada em Truthout.org.




Fonte: Colectivolibertarioevora.wordpress.com