Maio 17, 2021
Do Reporter Popular
211 visualizações


Carta de apresentação da Teia dos Povos em Luta no Rio Grande do Sul (para ver na fonte, clique aqui)

Ouça o áudio da carta de apresentação da Teia dos Povos em Luta no Rio Grande do Sul


Nós, sementes da terra, saudamos e pedimos licença às nossas ancestrais, guerreiras e guerreiros, guardiãs e guardiões da vida, das sementes, das matas e das águas.

A Teia dos Povos em Luta no Rio Grande do Sul é uma articulação entre os povos do campo, da floresta, das águas e da cidade com o objetivo de traçar caminhos para a emancipação coletiva dos povos originários, quilombolas, periféricos, campesinos, ribeirinhos, sem terra, sem teto e todas e todos aqueles que aspiram romper as correntes que nos oprimem. Também nos somamos à luta das mulheres e demais grupos historicamente invisibilizados que não cabem nas categorias patriarcais de gênero e orientação sexual.

Nos organizamos contra o projeto colonial de dominação e extermínio das populações pobres, pretas e indígenas de todo o mundo. A colonização é um dos pilares de um sistema explorador que até hoje nos oprime. Com ela veio a escravidão, o capitalismo, o individualismo e a dependência. Os que hoje concentram poder são os herdeiros dos que exterminaram e escravizaram nossos e nossas antepassadas.

O latifúndio, o agronegócio, o aumento do custo de vida, da violência, da miséria, os cortes de direitos, o êxodo rural, a superlotação das cidades causam a precarização da vida e do trabalho. Essa é a crise produzida pelos de cima, desafios antigos que se intensificam com a sofisticação de políticas genocidas.

Para se manterem no poder, fazem de tudo para nos dividir. Nos seduzem com o consumo, incentivam a competição entre nós, nos individualizam para nos enfraquecer e querem nos fazer acreditar que precisamos deles. Porém, mesmo com todos os obstáculos, nossos povos desenharam na história luta e resistência.

Diante disso, nasce a Teia dos Povos em Luta no Rio Grande do Sul, para tecermos uma rede de apoio e de fortalecimento entre os de baixo, para articular a luta pela terra e por autonomia, com apoio mútuo e solidariedade entre os povos e grupos oprimidos.

Cultivamos uma relação de respeito com a terra e as águas através da agroecologia, tendo a ancestralidade e a espiritualidade dos povos como um guia da ação social e coletiva. Somos unidos por nossa pluralidade na luta anticapitalista, antirracista, antipatriarcal e internacionalista. De maneira desvinculada da política eleitoral e instituições do Estado, os rumos das ações e estratégias serão decididas pelos povos em luta, retomadas, assentamentos, quilombos, aldeias, ocupações por terra e moradia, e as demais organizações políticas que se territorializam.

Para a construção da Teia dos Povos em Luta no RS, nos inspiramos na caminhada tecida pelas irmãs e irmãos da Teia dos Povos da Bahia. Caminhamos ao lado das companheiras e companheiros das Teias que são construídas no território brasileiro, que lutam pela terra e contra o capital.

Entendemos que o grande responsável pela exploração das florestas, dos seres humanos e dos animais é o capitalismo. Controlado por uma minoria gananciosa e com sede de lucro, carregados de discursos ilusórios de progresso e desenvolvimento, uma de suas faces que vem sendo imposta aos povos do campo e da floresta é o agronegócio. Modelo que invadiu e destruiu os territórios brasileiros e latino-americanos, responsável pela grande concentração de terras nas mãos de poucos que tratam tudo como mera mercadoria descartável, expulsando comunidades inteiras, poluindo as águas, destruindo nossas florestas. Esse é o capitalismo agindo no campo, na floresta, na terra e no território.

Há séculos se conserva o monopólio da terra nas mãos dos poderosos, utilizando o Estado para legitimar e proteger seus interesses, criando formas de barrar qualquer avanço popular na construção de autonomia, não importa quem esteja no poder. Os dominantes nos ensinaram a confundir felicidade com acumulação material e muitas vezes esquecemos que viver bem é recuperar a nossa autonomia, retomar o que nos roubaram e manter acesa a chama da luta e da amizade.

Retomar e permanecer em nossos territórios é garantir a sobrevivência, autonomia e soberania de nossas comunidades. O modo de ser e viver indígena, os conhecimentos, manejos e práticas tradicionais dos povos quilombolas e campesinos têm o poder de curar a nossa mãe terra e alimentar nosso povo. Sendo parte dela, e não seus donos, temos a responsabilidade de cuidá-la, tratá-la com respeito e com carinho e não como uma fonte de lucro. Contra o individualismo provocado pelo colonialismo e capitalismo e contra a dependência na qual nos coloca o Estado, propomos uma Grande Aliança.

A Teia dos Povos em Luta no Rio Grande do Sul enraíza o espírito de luta das nossas guerreiras ancestrais, que vem alimentando por muitas gerações os povos e coletividades que buscam dignidade e autonomia.

Nós, povos das florestas, dos campos, das periferias e as coletividades em rebeldia, somos a força da luta contra a exploração e a dominação. Estamos aqui, fazendo esse chamado a todas e todos, guerreiras e guerreiros, para organizarmos e construirmos, lado a lado, esse mundo de respeito às diferenças em que os muitos mundos que existem possam conviver em harmonia.

Cada cultura, cada povo, cada comunidade é um mundo. Que todos eles, livres de exploração e em solidariedade, possam coexistir em diversidade, e que novos mundos possam surgir a partir dos antigos, como sementes que se desprendem de uma grande árvore na floresta. Cada qual a seu tempo, à sua maneira. Reconhecendo e respeitando os diversos territórios. Tecendo alianças.

O que nos une é maior do que o que nos separa. 

Juntos e juntas somos mais fortes!

Aguyjevete!

Há tá vi!

Txuhap muka mukau

Assinam essa carta:

Terra Indígena Kanhgág ag Goj

Terra Indígena Kandóia

Retomada Konhún mág

Retomada Xokleng Konglui

Retomada Tekoa Ka’aguy Porã

Aldeia Kaingang Vãn Ka

Território Junana

Guandu Grupo Agroecológico do Assentamento C.Marighella

Rancho Sem Nome

Mutirão Grupo de Trabalhadores da Terra

Ocupação Vila Resistência

Ateneu Libertário A Batalha da Várzea

Okupa Humaitá Nova

Circular Alimentos

A Teia dos Povos em Luta no Rio Grande do Sul realizará um encontro de Lançamento no dia 30 de maio de 2021 a partir das 19h no canal do Youtube da Teia dos Povos.

A data foi escolhida em homenagem à liderança Kaingang Augusto Opë da Silva que há 7 anos deixou esse mundo.

O Encontro contará com a participação de Rejane Paféj (Terra Indígena Nonoai), Rai Silva (Vila Resistência), Luís Salvador (Terra Indígena Kanhgág ag Goj), André Benites (Tekoa Ka’aguy Porã), Odirlei Fidelis (Aldeia Kaingang Vãn Ka), Eduardo Guandu (Assentamento Carlos Marighella) e Michele (Território Junana).




Fonte: Reporterpopular.com.br